A Foreign Affairs publica importantes ideias, análises e debates sobre as questões mais relevantes do mundo moderno. O fato deste artigo aparecer em um veículo de comunicação tão relevante, mostra a importância da globalização no mundo dos negócios - especialmente para questões de políticas públicas, desenvolvimento econômico e relações comerciais.
O argumento principal do artigo é mostrar que a corporação moderna passou por três estágios de evolução, até chegar na forma como se faz negócios pelo mundo hoje.
O primeiro deles, "A corporação internacional", começando por volta de meados do século XIX. Esse tipo de negócio era sediado em um país de origem, e seu funcionamento no exterior consistia principalmente na importação de matérias-primas e na exportação e venda de produtos acabados.
Tempos depois, após a Primeira Guerra Mundial, impulsionada por uma série de fatores, incluindo a depressão econômica e a ascensão do protecionismo, surgiu "A corporação multinacional", expandindo-se para além de seu país de origem, construindo subsidiárias em países pelo mundo. Essas subsidiárias locais tendiam a ter controle sobre vendas, fabricação e outras funções comerciais, enquanto a empresa-mãe continuava a executar tarefas como P&D e gestão de produtos. Este é o modelo que a maioria de nós ainda consegue acompanhar e ver, principalmente em um país como o Brasil, mas este, não é mais o modelo corporativo do futuro.
Nos últimos vinte anos, uma combinação de fatores começou a remodelar as multinacionais em algo novo. A emergente "empresa globalmente conectada" que opera de forma cada vez mais integrada através das fronteiras, localizando suas operações onde fizer mais sentido em termos de talento, recursos e custo.
O que tornou isso possível?
Grandes melhorias nas tecnologias de comunicação e informação, bem como a elevação dos padrões em TI e operações, tornaram muito mais viável o compartilhamento de serviços empresariais, independentemente de onde sejam prestados. Durante esse mesmo período, observamos uma redução significativa nas barreiras ao comércio e aos investimentos entre os países. Diante dessas forças - tecnológicas e econômicas, todas as empresas começaram a repensar suas operações, com processos e práticas diferentes de país para país, com departamentos diferentes executando o mesmo conjunto de tarefas em cada país onde operam.
A tendência para as empresas
Empresas globalmente conectadas e otimizadas ganharam força nos últimos dez anos, especialmente nos últimos cinco. Primeiro, pelo sucesso da internet comercial em meados da década de 1990, que acelerou a capacidade de uma empresa integrar seus processos de negócios, informações e força de trabalho em todo o mundo. Em seguida, assistimos ao aumento de operações terceirizadas, primeiro na manufatura e, mais recentemente, na prestação de serviços, tanto para empresas que podem executar essas operações melhor, devido às suas economias de escala e conhecimento, quanto para países que podem executá-las de forma mais econômica, devido aos seus menores custos de mão de obra. Por fim, o mercado intensamente competitivo em que praticamente todas as empresas operam atualmente, torna obrigatório que uma empresa preste mais atenção nos custos, qualidade e oportunidades de inovação e diferenciação.
Junto com as oportunidades surgem muitos desafios, e no artigo da Foreign Affairs, são identificados quatro principais:
- Talento - ou seja, garantir um fornecimento de habilidades de alto valor;
- Propriedade intelectual - encontrar o equilíbrio certo entre os direitos dos inventores de se beneficiarem de seu trabalho e, ao mesmo tempo, permitir a colaboração entre empresas e seus parceiros, fornecedores e clientes;
- Cultura organizacional - em particular, buscar novas formas de parceria e colaboração entre várias empresas, instituições sociais e comunidades; e
- Confiança - que é muito importante, dados os modelos de negócios cada vez mais distribuídos.
Acho esses quarto desafio intrigantes, em especial, a confiança, pois ela continua surgindo como um dos atributos mais importantes para o sucesso individual, comunitário e empresarial no mundo globalizado, virtualizado e em rede do século XXI.
Por exemplo, no kickoff de vendas da empresa onde trabalho, um dos principais temas debatidos foi a crescente importância da confiança nos relacionamentos comerciais: "A ideia de 'capital de reputação' - um tipo de confiança acumulada, um padrão de responsabilidade que permite que redes diversas, e muitas vezes virtuais, de pessoas, estabeleçam parcerias entre si com confiança. Um exemplo disso são os marketplaces, como o Mercado Livre e seu sistema de classificação administrado pela comunidade."
Da mesma forma, ao decidir se deve trabalhar com uma comunidade de código aberto como as formadas em torno do Linux , Apache e computação em grade, nada é mais importante do que a qualidade da comunidade — não apenas a qualidade da tecnologia que ela produz, mas a marca e a reputação que a comunidade e seus membros e líderes estabelecem por meio de suas ações e comportamentos.
Para que uma empresa tenha sucesso em um mundo globalmente integrado, que lida com diversos tipos de pessoas e governos, confiança e integridade são muito importantes.
"Os padrões de governança, transparência, privacidade, segurança e qualidade de uma empresa precisam ser mantidos mesmo quando seus produtos e operações são gerenciados por uma dúzia de organizações em outros tantos países". Em outras palavras: independentemente de quão distribuídos sejam os processos e operações de uma empresa, ela deve ser responsável por seus produtos, serviços e ações, o que exige maior transparência e vigilância do que no mundo mais verticalmente integrado do passado.
"A dependência de hierarquias contidas em uma função, empresa ou nação deve ser complementada por novas maneiras de estabelecer confiança, baseadas em valores compartilhados que cruzam fronteiras e organizações formais".
Falando em valores compartilhados, "Confiança e responsabilidade em todos os relacionamentos" é um dos valores fundamentais de uma organização. Mas é muito mais fácil falar do que fazer. Uma empresa global e seus líderes enfrentam constantemente a necessidade de decidir entre as prioridades conflitantes de seus diversos stakeholders, como funcionários, clientes, governos, parceiros de negócios, acionistas, universidades e outros. Esses públicos estão agora literalmente espalhados pelo mundo e, frequentemente, vivem sob diferentes condições e sistemas de valores, aos quais é preciso prestar atenção na tomada de decisões.
De fato, uma relação — entre empresas e governo — exigirá pensamento inovador e novos níveis de confiança e responsabilidade. Isso vai além da necessidade de transações comerciais tranquilas no dia a dia. Empresas e governo devem, em conjunto, enfrentar alguns dos problemas mais complexos que todos enfrentamos, desde a saúde e a educação até a segurança das rotas comerciais mundiais e a proteção do meio ambiente, problemas complexos demais para serem resolvidos apenas por empresas ou governos.
No fim das contas, precisamos reconhecer que estamos todos juntos nessa — o que significa que precisamos coevoluir e coinovar. Não apenas as corporações estão mudando e se tornando globalmente conectadas, mas também o governo, os mercados e a cultura. Isso é uma grande esperança para o pensamento progressista e novas soluções. Concordo quando se afirma: "A mudança... para empresas globalmente conectadas oferece uma oportunidade de impulsionar tanto o crescimento empresarial quanto o progresso social."