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25/08/2023

Carteiras digitais interoperáveis e open source

A Linux Foundation (LF) anunciou sua intenção de lançar a Open Wallet Foundation (OWF), — um novo esforço colaborativo para desenvolver um software open source para que qualquer pessoa possa usar para construir carteiras digitais interoperáveis. Depois de trabalhar com diversas empresas, organizações sem fins lucrativos, instituições acadêmicas e entidades governamentais para organizar o esforço, a Linux Foundation Europe anunciou a formação oficial da OWF em fevereiro de 2023.

“A OWF não publicará uma carteira, nem oferecerá credenciais ou criará novos padrões”, afirmou o anúncio. “Em vez disso, seu mecanismo de software open source pretende se tornar o núcleo para que outras organizações e empresas aproveitem o código, para desenvolver suas próprias carteiras digitais. As carteiras oferecerão paridade de recursos com as melhores carteiras disponíveis e interoperabilidade com grandes projetos globais, como a Carteira de Identidade Digital da UE.”

Ao mesmo tempo, a OWF, em parceria com a LF Research, divulgou um novo relatório, “Por que o mundo precisa de uma carteira digital Open Source”.

“À medida que o nosso mundo se torna cada vez mais digitalizado, o mesmo se aplica aos ativos do dia a dia”, disse Daniel Goldscheider, fundador da Open Wallet Foundation, no prefácio do relatório. “De dinheiro a credenciais de identidade, diplomas acadêmicos ou carteira de motorista, e demais informações que usem tokens digitais e que exigem infraestrutura segura e interoperável.”

“As carteiras digitais permearão todos os aspectos da sociedade, no governo e nas empresas”, acrescentou. “Instituições de todos os tipos enfrentarão a necessidade de emitir, proteger, negociar e armazenar ativos digitais, incluindo Moeda Digital do Banco Central (CBDC), títulos, credenciais de saúde e acadêmicas e outros tipos de criptoativos, com o objetivo de criar mercados digitais e instituições cada vez mais confiáveis. A carteira digital pode tornar-se a ferramenta mais importante para afirmar o controle e gerar confiança nas nossas vidas digitais.”

As carteiras digitais aparecem geralmente como um aplicativo em nossos smartphones, onde armazenamos itens digitais, que transportamos nas nossas carteiras físicas. A ideia de uma carteira digital é bem simples: “uma coisa onde colocamos nossas coisas”. Mas embora pareça simples, as carteiras digitais são, na verdade, complexas, pouco compreendidas e levantam uma série de questões importantes: o que é; o que colocamos nela; o que fazemos com ela; e como funciona?

Segundo o relatório, uma carteira digital é um contêiner onde podemos armazenar e acessar diversos tipos de ativos digitais. No mínimo, uma carteira digital deve suportar três tipos principais de funções:Efetuar pagamentos: cartões de débito, crédito e vale-presente; Apple Pay, Google Pay, Alipay; Moedas Digitais do Banco Central; criptomoedas; …
Credenciais de identidade: carteira de motorista, passaporte, certidão de nascimento, crachá de trabalho, cartões de saúde, cartões de fidelidade, …
Acesso a itens importantes: senhas, ingressos, recibos, registros de saúde, chaves, garantias, credenciais acadêmicas, ativos criptográficos, NFTs,…

A carteira deve incluir um conjunto de componentes de software, chamados agentes, para gerir com segurança os seus ativos digitais em nosso nome. Os serviços do agente incluem processar os itens da carteira, colocá-los e retirá-los, trocar mensagens, criptografar/descriptografar informações e fornecer interfaces de fácil uso. “Embora a carteira seja o contêiner, o agente é a que move.”

existem centenas de carteiras digitais. Embora cada uma delas tenha sido pensada para atender às necessidades, elas geralmente sofrem de uma série de problemas.

(1) Problemas de interoperabilidade. Quase todas as carteiras digitais funcionam apenas com uma instituição específica, para um sistema de pagamento, um comércio específico, um banco, uma casa de câmbio ou uma empresa. A falta de padronização torna as informações nelas contidas, como reféns, porque não somos capazes de intercambia-las. “Este é um exemplo clássico de aprisionamento de informações. Quando não podemos mover nossos dados, não podemos escolher entre produtos concorrentes e quando ficamos sem qualquer interoperabilidade, precisamos de uma carteira separada para cada função.”

(2) Segurança questionável. Os hackers usam vários métodos para atacar carteiras digitais. O relatório cita duas estatísticas preocupantes: a fraude no comércio eletrónico, — grande parte dela cometida contra carteiras digitais, — ultrapassou os 40 mil milhões de dólares em 2022 e deverá continuar a aumentar nos próximos anos; e o crime de criptomoeda envolvendo carteiras digitais foi de US$ 14 bilhões em 2021. Os desenvolvedores de carteiras precisam trabalhar muito para ficar à frente dos cibercriminosos.

(3) Modelos de negócios intrusivos. As carteiras coletam dados valiosos sobre o comportamento do consumidor, comprometendo potencialmente a privacidade. Precisamos de garantias de que a carteira digital não está enviando os dados pessoais para uma entidade com a qual não concordamos em partilhá-los. Além disso, as carteiras podem extrair taxas ocultas de transações sem o nosso conhecimento.

(4) Design de caixa preta. “Centenas de carteiras foram codificadas por alguém, em algum lugar, mas não sabemos exatamente quem ou onde; … se você não consegue ver como um produto funciona, você não pode dizer se ele é bom ou se pode confiar nele.”

(5) Capacidades limitadas. E, como quase todas as carteiras desempenham apenas uma função, não podemos fazer muito com a maioria das carteiras digitais. Precisamos de uma carteira para cada um dos nossos pagamentos, para cada uma das nossas credenciais de identidade e para cada um dos nossos itens digitais. E isso significa que temos que aprender a lidar com diversas carteiras diferentes que não se comunicam entre si e possuem interfaces de usuário diferentes.

“As carteiras digitais estão se tornando a interface para toda a nossa vida digital”, observa o relatório. “Mas as carteiras em estágio inicial de hoje são incompatíveis e não padronizadas.” O relatório lembra que isso também aconteceu na época dos navegadores, na fase inicial da Internet, durante a chamada guerra dos navegadores da década de 1990, quando navegadores de diferentes fornecedores eram incompatíveis e não padronizados e ameaçavam quebrar a World Wide Web, que estava em rápido crescimento. A ameaça trouxe todos à mesa de negociações e sob a gestão do World Wide Web Consortium (W3C), todos adotaram um conjunto básico de normas que garantiram a interoperabilidade.

“Ontem, fizemos a escolha certa. Muitas organizações trabalharam juntas para desencadear uma onda de inovação na web. Hoje, devemos fazer isso novamente. Muitas organizações devem trabalhar juntas para desencadear uma nova onda de inovação em carteiras digitais.”

Embora seja muito cedo para definir os componentes específicos que devem fazer parte de uma carteira digital – por exemplo, agentes, plug-ins, módulos funcionais – há um consenso sobre os princípios de design que devem orientar o desenvolvimento de um mecanismo de software OWF, e eles incluem:Portabilidade: “Os usuários podem mover livremente ativos, credenciais, documentos e quaisquer outros dados entre quaisquer carteiras baseadas no mecanismo OWF”;
Segurança: “Ativos, credenciais e todos os outros dados do usuário devem estar protegidos contra malwares e hackers e atualizados rapidamente à medida que os criminosos apresentam novas táticas”;
Privacidade: “As identidades digitais dos usuários deveriam ser divulgadas apenas seletivamente conforme necessário”;
Baseada em padrões: “OWF suporta todos os padrões relevantes para todas as camadas do padrão de carteiras”;
Interoperabilidade: “Qualquer carteira baseada no mecanismo OWF pode trocar dados de forma rápida e segura”; e
Multifuncional: “Os desenvolvedores criam plug-ins e interfaces proprietários no topo do mecanismo OWF.”

“O código aberto – impulsionado pela colaboração entre empresas, organizações sem fins lucrativos e líderes de governos – é um excelente modelo para a infraestrutura que é vital para sociedades digitais e beneficia a todos”, disse o fundador da OWF, Daniel Goldscheider. “Com o código aberto no núcleo das carteiras, assim como no núcleo dos navegadores da web, qualquer pessoa pode construir uma carteira digital que funcione com outras pessoas e dê aos consumidores a liberdade de manter sua identidade e credenciais verificáveis e compartilhar dados relevantes quando, onde, e com quem eles escolherem.”

27/05/2023

Por que o Blockchain não avança como deveria?

“Blockchain, a tecnologia que sustenta o bitcoin e outras criptomoedas, há anos é vista por algumas empresas como uma forma de impulsionar projetos de transformação da indústria, entre eles o rastreamento de ativos por meio de cadeias de suprimentos complexas”, de acordo com o artigo do Wall Street Journal, “Blockchain falha em ganhar tração na empresa”.

“Até agora isso não aconteceu.”

As tecnologias Blockchain surgiram pela primeira vez em 2008 como a arquitetura que sustenta o bitcoin, a criptomoeda mais conhecida, mais valiosa e mais amplamente mantida. Ao longo dos anos, o blockchain evoluiu em duas direções principais:

1) Continua a se concentrar em blockchain como plataforma subjacente para bitcoin, bem como para o grande número de criptomoedas, tokens digitais e outros criptoativos que foram criados desde então.

2) Se concentra no blockchain como uma plataforma de dados distribuídos para aplicativos colaborativos envolvendo várias instituições, como cadeias de suprimentos, serviços financeiros e sistemas de saúde.

O Blockchain fez sua primeira aparição nos ciclos de hype do Gartner em 2016. Apesar de estar em um estágio inicial e imaturo, muitos de seus proponentes acreditavam que as plataformas corporativas de blockchain estavam chegando e, portanto, rapidamente atingiram o pico de expectativas. Mas, à medida que a realidade se estabeleceu, as expectativas caíram e, em 2022, as plataformas blockchain atingiram o seu ponto de maior retração.

No mundo das criptos, o bitcoin e a maioria dos outros ativos perderam grande parte de seu valor e várias empresas entraram em colapso, como a FTX e outros vários empreendimentos faliram. we.trade, um financiamento comercial baseado em blockchain, encerrou suas operações em junho depois de ficar sem recursos. Alguns meses depois, a Australian Securities Exchange cancelou seu sistema de compensação baseado em blockchain. E no final de novembro, a TradeLens anunciou que estava descontinuando sua plataforma de comércio global baseada em blockchain. Outros projetos corporativos de blockchain, como o aplicativo de rastreabilidade de alimentos do Walmart, ainda continuam, mas sua aceitação e progresso foram mais lentos do que o previsto.

A IBM e a Maersk lançaram o TradeLens em 2018 junto com outras 94 organizações. Seu objetivo era promover um comércio global mais eficiente e seguro, aproveitando as informações digitais de remessa de contêineres em sua plataforma blockchain compartilhada. A TradeLens foi um dos maiores projetos corporativos de blockchain, cujos parceiros incluíam 15 grandes transportadoras marítimas, 10 bancos multinacionais de financiamento e mais de 270 terminais portuários. De acordo com o comunicado da Maersk, “a plataforma, fundada em uma visão ousada de alcançar a colaboração global, ainda não alcançou a viabilidade necessária para continuar trabalhando e funcionando como um negócio independente”.

Por que o TradeLens e outros projetos corporativos de blockchain falharam, ou estão progredindo mais devagar do que o previsto? O artigo do WSJ cita três possíveis razões: I. a dificuldade de recrutar participantes para colaborar em um objetivo comum; II. o tempo necessário para implantar uma nova tecnologia transformadora complexa; e III. a complexidade intrínseca dos sistemas baseados em blockchain. Deixe-me comentar cada uma dessas possíveis razões.

A dificuldade de recrutar participantes colaboradores

“A TradeLens só poderia funcionar com a colaboração de uma série de empresas e nações – que nunca se encaixaram”, disse o artigo. Isso não é de surpreender. Iniciativas complexas, que requerem a estreita colaboração de várias empresas são bastante difíceis de organizar por vários motivos: as empresas participantes são, muitas vezes concorrentes; há também um conjunto de prioridades, exigências por transparência, pois geralmente não confiam umas nas outras, querem direitos de propriedade e participações na governança, compatíveis com seus investimentos e assim por diante. Vou citar dois exemplos concretos de minhas experiências pessoais nas indústrias de TI e Telecom.

Nas primeiras décadas da indústria de TI, no Brasil, dos anos 90, os fornecedores trouxeram para o mercado seus próprios sistemas de rede proprietários, como o NetWare da Novell e o DECnet da Digital. Isso funcionava muito bem, desde que todas as comunicações estivessem dentro da mesma empresa usando a mesma arquitetura, do mesmo fornecedor. Mas tentar passar por empresas e fornecedores distintos era muito complicado. Imagine que enviar um simples e-mail usando um aplicativo de um fornecedor ‘A’, para alguém em uma instituição diferente usando o aplicativo de um fornecedor ‘B’ era bastante complicado.

A internet mudou tudo isso. Durante as décadas de 1970 e 1980, as comunidades acadêmica e de pesquisa desenvolveram redes abertas e protocolos de e-mail, — TCP/IP, SMTP, POP, IMAP, — que permitiu que as pessoas se comunicassem facilmente com qualquer pessoa em qualquer sistema. Alguns anos depois, os padrões abertos da web – HTML, HTTP, URLs – permitiram que um usuário em um PC conectado à internet, acessasse informações em qualquer servidor web em qualquer lugar do mundo. O crescimento explosivo da internet na década de 1990 finalmente forçou as empresas a abraçar a rede aberta, e-mail e padrões da web, e a participar de organizações como IETF e W3C formadas para supervisionar sua evolução.

Uma história semelhante aconteceu com o UNIX. Na década de 1980, o UNIX tornou-se um sistema operacional popular para estações de trabalho, supercomputadores e vários aplicativos, mas diferentes fornecedores desenvolveram sua própria versão do UNIX – AIX da IBM, Solaris da Sun, HP-UX da HP – que diferiam um pouco, de modo que os usuários não podiam facilmente portar aplicativos em todas essas versões diferentes do UNIX. Vários grupos tentaram e falharam em criar um conjunto padrão de interfaces de programas de aplicativos (APIs) UNIX, principalmente porque os fornecedores não confiavam uns nos outros. Finalmente, o Linux surgiu na década de 1990 como um sistema operacional de código aberto semelhante ao UNIX e foi adotado de todo o coração por centros de pesquisas e comunidades da Internet.

Com o tempo, um número crescente de empresas apoiou o Linux, contribuiu para seu desenvolvimento e fundou o Open Source Development Labs (OSDL) em 2000 para supervisionar seu desenvolvimento, que se tornou a Linux Foundation em 2007. Em 2016, a Linux Foundation lançou o Hyperledger projeto baseado no Hyperledger Fabric, uma infraestrutura de blockchain autorizada de código aberto na qual o aplicativo TradeLens foi desenvolvido. As empresas geralmente não adotam novas tecnologias e aplicativos importantes, nem colaboram em seu desenvolvimento até que essas tecnologias tenham provado seu valor comercial no mercado. Isso ainda não aconteceu com blockchains, principalmente porque as tecnologias ainda são muito novas e imaturas para substituir as soluções existentes boas o suficiente.

O tempo necessário para implantar uma nova tecnologia transformadora complexa

“As tecnologias de uso geral (GPTs) são motores para o crescimento”, escreveram Erik Brynjolfsson, Daniel Rock e Chad Syverson em “The Productivity J-Curve”, um artigo de pesquisa do NBER de 2020. “Essas são as tecnologias que definem seu tempo e podem mudar radicalmente o ambiente econômico.” Mas realizar seu potencial requer investimentos complementares maciços, como redesenho de processos de negócios, co-invenção de novos produtos e modelos de negócios, requalificação da força de trabalho e um repensar fundamental da própria organização. Além disso, quanto mais transformadoras as tecnologias, mais tempo leva para adotá-las amplamente por empresas e setores em toda a economia.

Por exemplo, após a introdução da energia elétrica no início da década de 1880, as empresas levaram 40 anos para descobrir como reestruturar suas fábricas para aproveitar essa nova fonte de energia, com inovações de fabricação como a linha de montagem e desenvolver novos produtos domésticos elétricos como geladeiras, lava-louças e máquinas de lavar roupas. Da mesma forma, os transistores substituíram os tubos de vácuo em rádios, TVs e computadores na década de 1950. Mas levaria mais algumas décadas para a indústria de semicondutores decolar com o desenvolvimento de um grande número de produtos eletrônicos de consumo, incluindo computadores pessoais e smartphones, e computadores muito poderosos que permitiram o desenvolvimento de aplicativos grandes e complexos, como comércio eletrônico, pesquisa e IA. Blockchain é uma tecnologia de propósito geral, capaz de suportar uma ampla variedade de aplicações e provavelmente se tornará um dos próximos passos importante na evolução contínua da internet. Mas, como a internet, o blockchain é uma tecnologia fundamental, cujo impacto transformador total levará tempo. O processo de adoção de tecnologias fundamentais é gradual, incremental e constante, porque elas devem superar muitos tipos diferentes de barreiras — tecnológicas, organizacionais e políticas.

A complexidade intrínseca do blockchain

Blockchains são baseados em décadas de pesquisas em criptografia, dados distribuídos, teoria dos jogos e outras tecnologias avançadas. Mas por mais avançadas que sejam essas tecnologias, a complexidade real no uso corporativo de blockchains não se deve a suas tecnologias. A complexidade está nos aplicativos colaborativos suportados por plataformas blockchain.

Eu penso nos aplicativos blockchain como uma espécie de ERP 2.0. Os sistemas Enterprise Resource Management (ERP) visam melhorar a eficiência de uma organização, compartilhando informações entre seus vários departamentos e processos. As implementações de ERP são geralmente bastante complexas porque afetam muitas das funções da organização. Imagine agora implementar um sistema ERP, não entre departamentos de uma mesma organização, mas em várias organizações diferentes espalhadas pelo mundo — que geralmente não confiam umas nas outras. Na minha opinião, esta é a principal razão para a complexidade intrínseca do blockchain corporativo, — a natureza dos aplicativos, não a tecnologia.

Marco Iansiti e Karim Lakhani explicaram muito bem essa complexidade e a promessa de blockchains em seu artigo de 2017 da Harvard Business Review, “The Truth about Blockchain”:

“Contratos, transações e seus registros estão entre as estruturas definidoras de nossos sistemas econômico, jurídico e político. Eles protegem os ativos e estabelecem limites organizacionais. Estabelecem e verificam identidades e registram eventos. Governam as interações entre nações, organizações, comunidades e indivíduos. Orientam a ação gerencial e social. E, no entanto, essas ferramentas críticas e as burocracias formadas para gerenciá-las não acompanharam a transformação digital da economia. Em um mundo digital, a forma como regulamos e mantemos o controle administrativo precisa mudar.”

“Com o blockchain, podemos imaginar um mundo no qual os contratos são incorporados em código digital e armazenados em bancos de dados transparentes e compartilhados, onde são protegidos contra exclusão, adulteração e revisão. Neste mundo, todo acordo, todo processo, toda tarefa e todo pagamento teria um registro e assinatura digital que poderiam ser identificados, validados, armazenados e compartilhados”.

Essa transformação da economia baseada em blockchain levará tempo. Mas, como aconteceu com outras tecnologias transformadoras, tenho esperança de que progrediremos em uma série de etapas incrementais, incluindo etapas iniciais como TradeLens que não funcionaram muito bem e com as quais podemos aprender.

03/02/2023

Carteiras digitais de código aberto e o futuro da Internet


Em setembro, a Linux Foundation (LF) anunciou sua intenção de formar a Open Wallet Foundation (OWF), no evento Open Source Summit Europe, em Dublin. O OWF quer desenvolver um software de código aberto e utilizar as principais boas práticas, para que qualquer pessoa possa criar carteiras digitais multiplataforma, altamente seguras e que protegem a privacidade das pessoas. Além disso, o OWF defenderá a adoção de carteiras de código aberto que possam ser usadas para oferecer suporte a aplicativos de pagamentos a identidades digitais.




O LF foi fundado em 2000 como o Open Source Development Labs para ajudar a definir os padrões para o sistema operacional Linux e dar suporte ao seu desenvolvimento contínuo e adoção comercial. O projeto cresceu ao longo dos anos e assumiu o nome atual, Linux Foundation, em 2007. Na última década, o LF passou por uma grande expansão além de sua missão Linux original. Agora, ela tem mais de 1.260 empresas membros e oferece suporte a centenas de projetos de código aberto. Alguns dos projetos estão focados em vertentes horizontais de tecnologia – como IA, blockchain, segurança e nuvem – e outros em setores verticais da indústria, como energia, automação, governo e assistência médica.

Deixe-me comentar a importância disso, abordando três questões principais:O que é uma carteira digital?;
O que são identidades digitais?; e
Por que precisamos de carteiras digitais de código aberto?
O que é uma carteira digital?

As carteiras digitais são geralmente definidas como um aplicativo em nossos smartphones, onde armazenamos as versões digitais dos itens que carregamos em nossas carteiras físicas. Isso inclui cartões digitais de crédito e débito e outras informações financeiras que nos permitem fazer pagamentos sem contato com cartões de crédito físicos. Elas também são usadas para armazenar e organizar uma variedade de itens, incluindo cartões de fidelidade, passagens aéreas, reservas de hotel, carteira de motorista, informações sobre vacinas e ingressos para eventos, bem como versões digitais de chaves de carros, casas, locais de trabalho e quartos de hotel.

Os aplicativos de carteira digital são oferecidos por empresas como Apple, Google e Samsung para suas respectivas plataformas, bem como empresas de pagamento como PayPal, Venmo e Zelle. Um mecanismo carteira digital de código aberto, forneceria um código-fonte comum para qualquer pessoa desenvolver carteiras interoperáveis e seguras, bem como as interfaces necessárias para desenvolver uma variedade de aplicativos.

Mas, além de suas aplicações atuais, as carteiras digitais estão sendo cada vez mais usadas para autenticar nossas identidades digitais individuais e outras credenciais pessoais importantes. Como resultado, as carteiras digitais desempenharão um papel crítico ao nos permitir levar nossa identidade digital de um lugar para outro no mundo digital. E, com o tempo, elas suportarão muitos outros dispositivos pessoais que usamos para interagir com o mundo digital, incluindo smartphones, laptops, desktop, tecnologias vestíveis e dispositivos IoT conectados a objetos físicos como nossos carros e casas.
O que são identidades digitais?

A identidade desempenha um papel importante na vida cotidiana. Pense em ir a um escritório, entrar em um avião, fazer login em um site ou fazer uma compra online. A identidade é a chave que determina as transações específicas nas quais podemos participar legalmente, bem como as informações que temos direito de acessar. Mas geralmente não prestamos muita atenção ao gerenciamento de nossas identidades, a menos que algo dê muito errado.

Durante grande parte da história, nossos sistemas de identidade foram baseados em interações face a face e em documentos e processos físicos. Mas a transição para uma economia digital requer sistemas de identidade radicalmente diferentes. Em um mundo cada vez mais governado por transações e dados digitais, nossos métodos para gerenciar segurança e privacidade não funcionaram tão bem. Violações de dados, fraudes e roubo de identidade estão se tornando mais comuns. Além disso, uma parcela significativa da população mundial carece das credenciais necessárias para participar com segurança da economia digital. Nossos métodos para gerenciar identidades digitais estão longe de serem adequados.

Conforme explicado em A Blueprint for Digital Identity, um relatório do Fórum Econômico Mundial, a identidade é uma coleção de informações ou atributos associados a um indivíduo. Esses atributos se enquadram em três categorias principais:Inerentes – atributos intrínsecos a um indivíduo, – por exemplo, idade, altura, data de nascimento, impressões digitais;
Atribuído – atributos associados, mas não intrínsecos ao indivíduo – por exemplo, endereço de e-mail, números de telefone, previdência social, carteira de motorista; e
Acumulados – atributos reunidos ou desenvolvidos ao longo do tempo – por exemplo, histórico de empregos, endereços residenciais, escolas frequentadas.

O Better Identity in America, em seu relatório Better Identity Coalition, observou que “a capacidade de oferecer transações e serviços de alto valor online está sendo testada mais do que nunca, em grande parte devido aos desafios de provar a identidade online. A falta de uma maneira fácil, segura e confiável para que entidades verifiquem online, identidades ou atributos das pessoas com quem estão lidando, cria atrito no comércio, leva ao aumento de fraudes e roubos, degrada a privacidade e dificulta a disponibilidade de muitos serviços.” Esses incidentes aumentaram significativamente, devido à digitalização acelerada das economias e sociedades desde o advento da Covid.
Por que precisamos de carteiras digitais de código aberto?

Não é de surpreender que proteger nossas identidades digitais seja um dos principais objetivos da evolução contínua da Internet na próxima década. Essa evolução é cada vez mais referida como Web3, sendo a Web1 a internet original dos anos 1990 e início dos anos 2000, seguida pela Web2 em meados dos anos 2000, que ao longo dos anos tornou-se altamente centralizada e dominada por um pequeno número de empresas globais.

“No paradigma da Web 2, terceiros como bancos, empresas de mídia social e conglomerados digitais nos fornecem nossas identidades e nos permitem acessar seus serviços”, escrito por Alex Tapscott em seu livro Digital Asset Revolution. A coisa mais comum da Web 2 era entregar nossos dados para esses intermediários (por meio de seus termos de uso e serviços). Concedemos a eles o direito de usar nossos dados para benefício próprio e depois eles prejudicariam nossa privacidade no processo.

Há um consenso geral de que esse é um problema sério para o futuro da Internet. Como resultado, as identidades auto-soberanas surgiram como um dos principais requisitos da Web3. “O logon único anônimo permitirá um nome de usuário e método de autenticação em todos os sites e contas, em vez de logins individuais para cada site”, escreveu Jerry Cuomo da IBM em Think Blockchain. “Este login não exigiria que você abrisse mão do controle de dados pessoais confidenciais.”

Em nosso atual sistema centrado em serviços, a identidade de um indivíduo está fortemente vinculada ao serviço, site ou aplicativo específico que deseja acessar, exigindo, assim, um ID de usuário e senha separados para cada um deles. Mas em um sistema auto soberano, os indivíduos possuem identidades auto soberanas, que eles carregariam em suas carteiras digitais em seus dispositivos. E somente os donos decidem quem tem permissão para ver suas credenciais e quais informações os provedores de serviços têm direito de ver. Isso permite que os indivíduos acessem serviços pela Internet de maneira segura, mantendo o controle sobre as informações associadas à sua identidade.

Como parte do lançamento da Open Wallet Foundation, Daniel Goldscheider realizou uma mesa redonda com representantes de empresas e organizações que já se comprometeram a fazer parte da OWF, como: MasterCard, Visa, Microsoft e Accenture, OpenID Foundation, Trust over IP Foundation, Open Identity Exchange e Ping Identity.

Todos os participantes afirmaram que carteiras digitais open source são necessárias para construir identidades digitais universais, auto soberanas, baseadas em criptografia, e que será complexo mante-las e administra-las; e caberá ao OWF, gerenciar essas complexidades.

Vou concluir com minha visão pessoal sobre o papel das carteiras digitais de código aberto, dizendo que elas provavelmente desempenharão um papel crítico na história da Internet. Lembremos que a internet é uma rede de redes, originalmente composta por diferentes redes, que na década de 1980 concordaram em adotar um conjunto comum de protocolos: o TCP/IP e outros padrões supervisionados pela Internet Engineering Task Force (IETF).

Durante a guerra dos navegadores da década de 1990, diferentes empresas estavam desenvolvendo seus próprios navegadores, cujos recursos incompatíveis ameaçavam o rápido crescimento da World Wide Web, até que todos os desenvolvedores de navegadores concordassem com os padrões estabelecidos pelo World Wide Web Consortium (W3C).

À medida que avançamos em direção à Web3 e à promessa de uma Internet segura e que protege a privacidade, carteiras e credenciais digitais universais se juntarão aos protocolos TCP/IP e a Web para abrir novos marcos importantes na história da Internet.

14/05/2022

A Web3 pode inaugurar um novo sistema econômico?

O Bitcoin surgiu em 2008 com o lançamento do artigo Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System, que explicou como projetar uma criptomoeda descentralizada e um sistema de pagamento digital sem a necessidade de bancos centrais ou intermediários confiáveis. Blockchain, o livro de registro digital para gerenciar e certificar a validade das transações de bitcoin, foi introduzido no mesmo artigo.

Ao longo dos anos, o blockchain transcendeu seus objetivos originais e evoluiu em duas direções principais. Ele continua a se concentrar no blockchain como a plataforma subjacente ao bitcoin, mas também se tornou a plataforma para um grande número de criptomoedas, tokens digitais e outros ativos criptográficos que foram criados desde então. O outro foco do blockchain está relacionado ao uso de sua base de dados distribuída confiável para aplicativos do setor público e privado envolvendo várias instituições, como cadeias de suprimentos, serviços financeiros e saúde. O campo de criptomoedas é baseado em blockchains públicos sem permissão, nos quais qualquer pessoa pode participar e exigir algum tipo de sistema de prova de trabalho ou prova de participação. O campo multi-institucional é baseado principalmente em blockchains privados com permissão, onde a participação é restrita às instituições que fazem transações entre si.

Meus interesses, em particular, estão no uso de blockchains em aplicativos de negócios e do setor público por dois motivos principais:

Primeiro, considero o blockchain como um próximo passo importante na evolução contínua da Internet, ajudando-nos a melhorar a segurança das transações e dados da Internet, desenvolvendo uma camada com os serviços criptografados padrão para comunicação, armazenamento e acesso a dados seguros. E, a longo prazo, as tecnologias blockchain podem melhorar significativamente a eficiência, a resiliência e o gerenciamento de aplicativos globais complexos envolvendo várias instituições.

Mas, embora eu tenha sido um pouco cético em relação às criptos, vários tópicos intrigantes relacionados a esse tema recentemente chamaram minha atenção, incluindo Tokens Não Fungíveis (NFTs), Finanças Descentralizadas (DeFi) e especialmente Web3. Esses vários tópicos foram bem explicados por Kevin Roose no The Latecomer’s Guide to Crypto, um artigo de 20 de março do NY Times.

“Cripto! Durante anos, parecia o tipo de tendência tecnológica fugaz que a maioria das pessoas poderia ignorar, como hoverboards ou Google Glass”, escreveu Roose. “Mas seu poder, tanto econômico quanto cultural, tornou-se grande demais para ser ignorado… Entender as criptomoedas agora – especialmente se você é naturalmente cético – é importante por alguns motivos.” Esses incluem:

A criptomoeda será transformadora. “Apesar de a terem pintado como uma besteira no início, a criptomoeda não é apenas mais um fenômeno estranho da internet. É um movimento tecnológico organizado, armado com ferramentas poderosas e hordas de crentes ricos, cujo objetivo é nada menos que uma revolução econômica e política total.” Sua cultura online faz parte de “um movimento ideológico robusto e bem financiado que tem sérias implicações para nosso futuro político e econômico”.

A Criptografia pode ser destrutiva. Se tivéssemos prestado mais atenção às mídias sociais em seus primeiros anos, poderíamos ter sido capazes de orientá-las em uma direção melhor e possivelmente evitar os problemas sérios que surgiram mais tarde em meados de 2010. “Entender a criptomoeda agora” é a melhor maneira de garantir que ela não se torne uma força destrutiva mais tarde. … Ninguém sabe ainda se a criptomoeda vai ou não ‘funcionar’, no sentido mais amplo.

… Mas há dinheiro e energia reais nisso, e muitos veteranos de tecnologia com quem conversei me disseram que a cena cripto de hoje parece, para eles, como 2010 novamente – com a tecnologia atrapalhando o dinheiro desta vez, em vez da mídia.

Crypto é uma chave geracional. O mundo das criptomoedas inclui diversas comunidades “que lutam umas com as outras constantemente, e muitas têm ideias muito diferentes sobre o que a criptomoeda deveria ser“. … “Se eu estivesse realmente tentando convencê-lo a aprender sobre criptografia, eu diria que pode ser uma espécie de chave-mestra geracional – talvez a maneira mais rápida de refrescar sua consciência cultural e decifrar as crenças e ações dos jovens de hoje , … conhecer alguns conceitos básicos de criptografia pode ajudar alguém perplexo com atitudes emergentes sobre dinheiro e poder a se sentir mais fundamentado.”

O Guia de Roose está organizado em cinco seções, cada uma consistindo em uma série de perguntas e respostas destinadas a explicar um tópico específico de criptografia: O básico, O que são DAOs?, O que são NFTs?, O que é DeFi? e O que é Web3?. Já que estou mais interessado em web3, vou focar nessa seção.

Quantidades significativas de capital, talento e energia estão indo agora para start-ups da web3. “As empresas de capital de risco investiram mais de US$ 27 bilhões em projetos relacionados a criptomoedas somente em 2021 – mais do que nos 10 anos anteriores combinados – e grande parte desse capital foi para projetos da web3. … E a indústria tornou-se um ímã para talentos de tecnologia, com muitos funcionários de grandes empresas de tecnologia deixando empregos confortáveis e estáveis para buscar suas fortunas na web3.”

Uma boa maneira de entender o web3 é compará-lo com web1 e web2. Web1, – a Internet original e a World Wide Web da década de 1990 e início dos anos 2000, – foi focada principalmente na publicação e acesso a informações em páginas da Web usando protocolos abertos como o HTTP. Web2, também conhecido como Web 2.0, surgiu em 2005 como a próxima fase da Internet, dando aos usuários a capacidade de criar e publicar seu próprio conteúdo em sites pessoais, blogs e plataformas de mídia social como Facebook, Twitter e YouTube. Com o tempo, a maior parte dessa atividade foi dominada e monetizada por um pequeno número de empresas superstars globais.

Existem vários estudos, visões e tendências sobre a web3. Alguns críticos veem a web3 como pouco mais do que hype, um esforço de rebranding para eliminar parte da bagagem cultural e política das criptomoedas. “Outros acreditam que é uma visão distópica de uma internet paga para jogar, na qual cada atividade e interação social se torna um instrumento financeiro a ser comprado e vendido.”

Por outro lado, alguns outros argumentam que a web3 substituirá as megaplataformas corporativas de hoje por redes baseadas em blockchain que combinam a infraestrutura aberta da web1 com a participação pública da web2, e que dará início a uma Internet mais aberta, empreendedora e intermediária – em uma economia digital livre. Seus defensores acreditam que a web3 dará aos criadores e usuários uma maneira de monetizar suas atividades e contribuições; que os envolverá na governança e na tomada de decisões das plataformas que apoiam seu trabalho; e que dará aos indivíduos mais privacidade e controle sobre seus dados, sendo menos dependentes de modelos de negócios baseados em publicidade e anúncios direcionados.

“Claro, esta é uma versão altamente idealista da web3, esboçada principalmente por pessoas que têm interesse financeiro em fazer isso acontecer”, disse Roose. “A realidade pode ser muito diferente.”

Um outro artigo muito bom sobre web3 é o Por que é muito cedo para se empolgar com a Web3, de Tim O’Reilly, fundador da O’Reilly Media. “Tem havido muita conversa sobre Web3 ultimamente, e como uma das pessoa que definiu ‘Web 2.0’ 17 anos atrás, muitas vezes me pedem para comentar”, escreveu O’Reilly.

A Internet original visava desenvolver uma rede global de computadores descentralizada “na qual ninguém precisa estar no comando, desde que todos façam o possível para seguir os mesmos protocolos e sejam tolerantes a desvios. Este sistema rapidamente superou todas as redes proprietárias e mudou o mundo. Infelizmente, o tempo provou que os criadores desse sistema eram muito idealistas, deixando de levar em conta os maus atores e, talvez mais importante, não antecipando a enorme centralização de poder que seria possibilitada pelo big data, mesmo em cima de um sistema descentralizado de rede.“

A Web3 agora visa substituir a confiança e as boas intenções por uma rede baseada em blockchain, onde transparência e irrevogabilidade são incorporadas à tecnologia. “Gosto do idealismo da visão da Web3, mas já estivemos lá antes”, disse O’Reilly. “Durante minha carreira, passamos por vários ciclos de descentralização e recentralização. O computador pessoal descentralizou a computação ao fornecer uma arquitetura de PC commodity que qualquer um poderia construir e que ninguém controlava. Mas a Microsoft descobriu como recentralizar a indústria em torno de um sistema operacional proprietário. O software de código aberto, a internet e a World Wide Web quebraram o domínio do software proprietário com software livre e protocolos abertos, mas em poucas décadas, Google, Amazon e outros construíram enormes novos monopólios baseados em big data.”

“Os desenvolvedores de Blockchain acreditam que desta vez encontraram uma resposta estrutural para a recentralização, mas tendo a duvidar disso. Uma pergunta interessante a ser feita é qual pode ser o próximo locus para centralização e controle. A rápida consolidação da mineração de bitcoin em um pequeno número de mãos por meio de menores custos de energia para computação indica um tipo de recentralização. Haverá outros.”

“Para que a Web3 se torne um sistema financeiro de propósito geral, ou um sistema geral de confiança descentralizada, ela precisa desenvolver interfaces robustas com o mundo real, seus sistemas jurídicos e a economia operacional”, acrescenta O’Reilly. “O dinheiro fácil a ser ganho especulando em ativos de criptomoedas parece ter distraído desenvolvedores e investidores do trabalho árduo de construir serviços úteis do mundo real.”

Concluindo, se “a Web3 anuncia o nascimento de um novo sistema econômico, vamos torná-lo um que aumente a verdadeira riqueza – não apenas a riqueza de papel para aqueles que tiveram a sorte de entrar cedo, mas bens e serviços que realmente mudam a vida e tornam a vida melhor para todos.”

07/04/2022

A ascensão e queda das Nações

O seminário The End of Nation-States, do executivo de tecnologia e consultor Tomás Pueyo, – parte de uma série de seminários do Stanford Digital Economy Lab, me permitiu refletir sobre as constantes e dinâmicas mudanças que o mundo atravessa, bem como, entender um pouco mais, que em tudo há um porque.

Em maio de 2021, Pueyo lançou o Unchartered Territories, uma newsletter que ele descreve como tendo como objetivo de explorar os territórios inexplorados de um mundo em rápida mudança “para saber como podemos nos preparar para elas”.

Seu seminário discutiu o papel das tecnologias da informação na ascensão das Nações ao longo da história e como as tecnologias da informação provavelmente levarão ao fim das Nações nas próximas décadas. Os principais argumentos de Pueyo, em sua palestra e em dois boletins foram:

Como as Nações ascenderam

No artigo Internet and Blockchain Will Kill Nation-States, publicado em agosto de 2021, Pueyo explicou como a imprensa levou ao surgimento das Nações no século XVI.

O sistema feudal foi a estrutura básica da sociedade entre os séculos IX e XV na Europa medieval. O feudalismo baseava-se na relação entre uma aristocracia fundiária, formada por reis, duques, condes, e vassalos. O poder, no sistema feudal, era hiperlocal e amplamente distribuído entre diferentes proprietários de terras. A comunicação era difícil em diferentes localidades, uma vez que cada um deles geralmente falava diferentes dialetos ou línguas completamente diferentes.

A Igreja Católica era a maior potência da Europa medieval. A raiz de seu poder era a hierarquia bem organizada da Igreja, com seus padres, bispos, arcebispos, cardeais e o papa, todos os quais eram capazes de se comunicar uns com os outros muito melhor do que todos os outros – aristocratas e vassalos.

“O clero conhecia, entre outras coisas, o vernáculo local (Língua falada de um país ou de uma região); o latim e sabiam ler. Como os plebeus não falavam o latim, eles não podiam ler a Bíblia, então o clero tornou-se guardião do relacionamento com Deus e detinham o acesso exclusivo a livros e manuscritos. E ao promover as confissões, eles se fortaleciam cada vez mais, pois tinham acesso aos segredos de todos. O clero ainda se correspondia em escala continental (européia). Com isso, eles sabiam o que estava acontecendo em qualquer lugar e podiam se ajudar de uma forma que ninguém mais podia. Eles tinham o monopólio da maioria das informações e estavam conectados como uma vasta rede (pan-europeia).”

“Ao longo dos séculos, dezenas de movimentos protestaram contra a Igreja. Todas as vezes, a Igreja Católica os reprimiu e os esmagou sistematicamente. O resultado era sempre o mesmo: os hereges e seus escritos eram queimados e a Igreja permanecia no poder.“

Depois veio a prensa tipográfica. Inventado por Johannes Gutenberg por volta de 1440. Essas impressoras já produziam mais de 20 milhões de volumes em toda a Europa Ocidental no início de 1500 e cresceram pelo menos dez vezes ao longo do século XVI.

A imprensa (que, podemos dizer, proporcionou uma disseminação em massa de informações) possibilitou a Reforma Protestante ao minar o poder central da Igreja: o seu monopólio da informação. Em 1517, Martinho Lutero escreveu as Noventa e cinco Teses, que desafiavam o que ele via como abusos da autoridade papal e do clero católico, especialmente sua prática generalizada de venda de indulgências.

As Teses foram traduzidas para o alemão e outras línguas e, graças à imprensa, foram amplamente distribuídas por toda a Europa. Alguns anos depois, a Bíblia também foi traduzida para o alemão e outras línguas, e também amplamente impressa e distribuída por toda a Europa.

“Tudo isso fez com que a Igreja perdesse o controle do poder e surgissem fontes alternativas de poder”, escreveu Pueyo. “O principal deles foram as Nações, cujo surgimento também foi causado pela imprensa. Os livros eram publicados nas cidades que tinham mais escritores e mais leitores, porque era onde se conseguia mais livros e onde era mais fácil vendê-los.”

“Antes, as pessoas eram hiperlocais com seus vernáculos; agora as pessoas trocavam ideias principalmente com aqueles que compartilhavam sua língua regional. Isso criou uma identidade comum: mesma linguagem, mesmas ideias, mais contato, mesmo sentimento de fraternidade. Isso acabou resultando em um aumento do sentimento nacionalista: as pessoas queriam ser governadas como uma unidade, um sentimento, com aqueles que sentiam que eram semelhantes a elas. Este foi um dos principais impulsionadores das Nações.”

O fim das Nações

Dependendo de como se conta, hoje existem mais de 200 Nações no mundo, 193 dos quais são membros das Nações Unidas.

Em setembro de 2021, Pueyo publicou o The End of Nation-States, onde argumentou que as Nações se tornarão cada vez mais inconsequentes nas próximas décadas, prejudicadas por duas poderosas tecnologias da informação: a Internet e o Blockchain.

Em sua fase inicial na década de 1990, vimos a Internet como uma força para o empoderamento individual, transformando muitas de nossas atividades cotidianas, incluindo a maneira como nos relacionamos, trabalhamos, compramos, aprendemos, usamos os bancos, ouvimos música, assistimos a filmes e lidamos com o governo. As pessoas agora podem interagir umas com as outras, acessar informações e fazer transações on-line, ignorando os guardiões tradicionais da informação.

Essas empresas usam a grande quantidade de dados coletados de seus clientes para oferecer produtos e serviços personalizados de acordo com suas preferências individuais. Quanto mais dados uma empresa tiver, mais clientes ela poderá atrair e mais dados ela poderá coletar. Isso cria efeitos de rede e economias de escala, deixando as empresas menores sem acesso a todos esses dados, em grande desvantagem econômica.

“Mas a Internet também tem uma força de centralização”, observou Pueyo. “Muitas campos das indústrias que tinham milhões de empresas em todo o mundo agora concentram essa riqueza e influência em apenas algumas poucas.” A última década viu o surgimento das chamadas empresas superstars.

“À medida que essas empresas crescem, elas começam a tratar as Nações não como mestres, mas como pares. …Como resultado, as empresas minam as Nações de duas maneiras: por um lado, ao disponibilizar informações, elas extraem poder das Nações e das empresas locais, capacitando os indivíduos a se tornarem mais independentes. Mas elas também guardam um pouco desse poder para si mesmas, tornando-se as novas donas do poder.”

A segunda grande força que mina as Nações é o blockchain.

O blockchain surgiu em 2008 como uma arquitetura para sustentar o bitcoin, a moeda digital mais conhecida.

A visão original do blockchain limitava-se a permitir que os usuários de bitcoin realizassem transações diretamente entre si, sem a necessidade de um banco ou agência governamental certificar a validade das transações. Mas, como a Internet, a eletricidade e outras tecnologias transformadoras, o blockchain transcendeu seus objetivos originais. Ao longo dos anos, as blockchains desenvolveram seus próprios seguidores como arquiteturas de banco de dados distribuído com a capacidade de lidar com transações sem a necessidade de qualquer tipo de interação entre empresas e indivíduos, onde nenhuma parte precisa se conhecer ou confiar uma na outra para que as transações sejam concluídas.

O Blockchain tem o potencial de combater a força centralizadora das Nações e grandes empresas globais. Com o tempo, aplicativos baseados em blockchain poderiam ser usados para compartilhar os dados críticos necessários para coordenar as atividades auto-organizadas de um grande número de indivíduos e instituições de maneira segura e descentralizada, como foi o caso dos primeiros objetivos da Internet.

Então, quais são as alternativas as Nações, uma vez que estão fadadas ao fracasso?

As Nações Unidas foram formadas após a Segunda Guerra Mundial para ajudar a manter a paz internacional e as relações amistosas entre as nações. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial também foram criados após a Segunda Guerra Mundial para ajudar os países a garantir a estabilidade financeira e o crescimento econômico. E a Organização Mundial da Saúde foi criada em 1948 para promover a saúde e o bem-estar e coordenar as respostas às emergências de saúde.

O escopo da governança global aumenta proporcionalmente com o tamanho dos problemas a serem resolvidos e as Nações não foram constituidas para a ação global.

“As organizações supranacionais surgem para resolver problemas globais, extraindo a soberania das Nações ao longo do tempo.”

Mudanças climáticas, imigração, pandemias e outros problemas do século 21 só podem ser efetivamente abordados por organizações supranacionais, observa Pueyo.

Além disso, as Nações, especialmente aquelas com economias mais desenvolvidas, estão sendo financeiramente pressionados por duas grandes tendências:

1. A queda demográfica – que combina maiores expectativas de vida com menores taxas de natalidade. Na década de 1980, “países desenvolvidos como Japão, China e União Européia tinham mais de cinco trabalhadores para pagar os benefícios da população idosa, como assistência médica e pensões. No Japão, cada aposentado tem hoje, apenas dois trabalhadores para sustentá-lo. A Europa atingirá esse patamar em 10 ou 20 anos. Os EUA virão logo depois.”

2. Competição Internacional por Impostos. As Nações continuarão a competir por receita de impostos corporativos, reduzindo os impostos pagos por empresas globais. Da mesma forma, as Nações reduzirão seus impostos para indivíduos a fim de atrair trabalhadores de outras regiões. Como resultado, as Nações terão dificuldade em aumentar os impostos sobre empresas e indivíduos para pagar os benefícios crescentes do governo.

“Sabemos como isso termina”, escreveu Pueyo em conclusão.

“A única questão que resta é: o que substituirá as Nações?”

02/08/2021

Banco Central & Moedas Digitais

O Bitcoin foi criado em outubro de 2008, com o lançamento do A Peer-to-Peer Electronic Cash System, e deu origem também ao design da arquitetura que introduziu o blockchain. Uma década depois, o The Economist publicou uma avaliação do Bitcoin que concluiu que “o Bitcoin e outras criptomoedas são inúteis”.

“O Bitcoin, a primeira e ainda a mais popular criptomoeda, começou como um projeto tecno-anarquista para criar uma versão online do dinheiro, uma forma de as pessoas fazerem transações sem a possibilidade de interferência de governos ou bancos”, e ainda argumentou:

“Uma década depois, quase não é usado para o fim a que se destina. Os usuários devem lutar com softwares complicados e desistir de todas as proteções do consumidor a que estão acostumados. Poucos o aceitam. A segurança é fraca. Outras criptomoedas são usadas ainda menos.”

Mas, na edição de 8 de maio o The Economist mudou sua avaliação das moedas digitais, quando avaliou as iniciativas do banco central (CBDCs), – ou seja, e-dollars, e-yuans ou e-euros, – que chamou de “As moedas digitais que importam.”

“O Bitcoin deixou de ser uma obsessão anarquistas para se tornar uma classe de ativos de US$ 1 trilhão, que muitos gestores de fundos insistem que vale o investimento, a qualquer carteira equilibrada. …No entanto, como nosso relatório explica, a interrupção menos notada na fronteira entre tecnologia e finanças, pode acabar sendo a mais revolucionária: a criação de moedas digitais governamentais, que normalmente visam permitir que as pessoas depositem fundos diretamente em um banco central, contornando credores convencionais. Esses govcoins são uma nova encarnação do dinheiro. Eles prometem fazer as finanças funcionarem melhor, mas também transferir o poder dos indivíduos para o estado, alterar a geopolítica e mudar a forma como o capital é alocado. Eles devem ser tratados com otimismo e humildade.”

Alguns pontos do relatório:Mais de 50 governos estão explorando moedas digitais. Em outubro de 2020, o Banco Central das Bahamas emitiu o dólar da areia digital, o primeiro CBDC implantado no país. O dólar de areia tem o mesmo valor e proteção ao consumidor que o dólar tradicional das Bahamas, para o qual pode ser convertido instantaneamente. As Bahamas também introduziram o cartão pré-pago, Sand Dollar, em colaboração com a Mastercard, que pode ser usado para pagar mercadorias e serviços em qualquer lugar onde o Mastercard seja aceito.A China tem um grande projeto piloto de e-yuan em andamento. Mais de 500.000 indivíduos receberam 200 yuans (US$ 30) do governo, que podem usar para pagar bens e serviços usando uma carteira digital de e-yuans oferecida por seis bancos comerciais. Legalmente, os e-yuans são tão reais quanto o dinheiro vivo tradicional.Algumas semanas atrás, o US Digital Dollar Project anunciou que lançará pelo menos cinco programas nos próximos 12 meses para explorar os usos e designs de um dólar eletrônico dos EUA.O Banco Central Europeu está trabalhando no conceito de euro digital através da realização de experiências práticas e do envolvimento com as partes interessadas e o público em geral.Em abril, o Banco da Inglaterra anunciou a criação de uma força-tarefa para coordenar a exploração de um potencial CBDC do Reino Unido.O Brasil também já sinaliza que deverá ter moeda digital emitida pelo Banco Central

Por que governos e bancos centrais planejam emitir moedas digitais?

A principal motivação é a promessa de um sistema financeiro mais eficiente. De acordo com The Economist, as despesas operacionais do setor financeiro global chegam a mais de US$ 350 por ano para cada pessoa do planeta. As moedas eletrônicas do governo poderiam fornecer um hub central de pagamento mais barato, que tornaria o financiamento mais acessível, especialmente para 1,7 bilhão de pessoas em todo o mundo que não têm conta bancária. As moedas eletrônicas permitiriam pagamentos diretos a todos os cidadãos que recebem fundos do governo, como previdência social, seguro-desemprego, ajuda financeira para famílias de baixa renda ou alívio econômico durante uma crise como a Covid-19.

Outra motivação importante é “o medo de perder o controle” para bitcoin, ether e outras moedas virtuais, bem como para moedas digitais privadas como Ripple’s XRP ou Facebook’s Diem, anteriormente conhecido como Libra.

“Redes privadas não supervisionadas podem se tornar um Velho Oeste de fraudes e abusos de privacidade. Para usuários comuns, o apelo de um meio de pagamento universal gratuito, seguro, instantâneo e universal é óbvio. … A dura verdade é que as autoridades monetárias há muito se sentem desconfortáveis com as fraquezas dos bancos. Isso inclui a parcela de pessoas sem banco, mesmo nos países ricos, os altos custos dos métodos de pagamento e o custo excessivo das transações internacionais (que correm as remessas para os países mais pobres). O apelo de um sistema mais barato e contínuo acelerou projetos de pagamento mais rápidos em todo o mundo.”

O surgimento de CBDCs poderia ameaçar o sistema bancário tradicional?

Os bancos privados fornecem serviços financeiros a indivíduos e empresas através da coleta de depósitos, mantendo na reserva uma fração desses depósitos e emprestando o restante. Na América, cerca de 90% do dinheiro está em depósitos de bancos privados.

“Em outras economias, a participação é maior: 91% na área do euro, 93% no Japão e 97% na Grã-Bretanha.”

A ideia de um banco central fornecer um aplicativo de carteira e dinheiro digital diretamente aos cidadãos é porque ele representa uma força verdadeiramente disruptiva – motivo pelo qual os bancos centrais estão adotando uma abordagem cautelosa. Se os cidadãos puderem converter depósitos bancários em CBDCs com um simples furto, isso pode acabar desintermediando os sistemas bancários, atraindo uma grande parte dos depósitos correntes. Os bancos seriam forçados a encontrar outras fontes de financiamento para seus empréstimos, ou outras instituições teriam que fazer os empréstimos que alimentam a criação de empresas, o mercado imobiliário e o crescimento econômico.

Além disso, em vez de proteger as instituições financeiras sendo o credor de último recurso, as contas do banco central podem na verdade levar a corridas a bancos privados. A confiança no sistema financeiro é sustentada pelas expectativas das pessoas de que sempre podem transferir seus ativos em dinheiro, – a forma mais segura de dinheiro. Em uma crise, muitos podem optar por transferir seu dinheiro para a segurança do dinheiro eletrônico em uma conta no banco central.

Devemos nos preocupar com o potencial uso indevido de CBDCs por um governo para controlar seus cidadãos?

Pense, por exemplo, em multas eletrônicas instantâneas para punir cidadãos por comportamentos reprovados pelo Estado.

“O dinheiro não é rastreável, mas o dinheiro digital deixa um rastro”, observa The Economist. “Dinheiro exclusivamente digital pode ser programado, restringindo seu uso. Isso tem implicações benignas: os beneficios podem ser mais bem direcionado ou os gastos podem ser mais bem controlados e eficazes. Mas também há problemas: o dinheiro digital pode ser programado para impedir que seja usado para pagar abortos ou comprar livros no exterior.”

“No entanto, deve haver maneiras de minimizar cada um desses problemas. A melhor defesa contra a disseminação prejudicial da influência do estado sobre as decisões de empréstimo é manter vivo o atual sistema de reservas fracionárias. Isso pode significar restringir o escopo dos cbdcs e gerenciá-los à distância do banco central – talvez por meio de terceiros. Eles não devem pagar juros e o valor de seus saldos talvez deva ser limitado. Os CBDCs podem empoderar os autoritários, mas em países democráticos geralmente há separação adequada de poderes dentro do governo para impedir isso.”

“Os governos e as empresas financeiras precisam se preparar para uma mudança de longo prazo, na forma como o dinheiro funciona, tão importante quanto o salto para moedas metálicas ou cartões de pagamento”, conclui o The Economist. “Isso significa fortalecer as leis de privacidade, reformar a forma como os bancos centrais são administrados e preparar os bancos de varejo para um papel mais periférico. Moedas digitais estatais são o próximo grande experimento em finanças e prometem ter muito mais consequências do que o humilde caixa eletrônico.”

19/05/2021

A natureza intrigante dos tokens não fungíveis


blockchain surgiu pela primeira vez em 2008 como o livro razão digital para transações bitcoin. A utilidade original do blockchain era limitada a permitir transações bitcoin ponto a ponto, sem a necessidade de um banco ou agência governamental para certificar a validade das transações. Mas, como a Internet, a eletricidade e outras tecnologias transformadoras, o blockchain logo transcendeu seus objetivos originais. Ao longo dos anos, as tecnologias de blockchain evoluíram por duas linhas principais:

1) Foco no blockchain como a plataforma subjacente para bitcoin, bem como em uma ampla variedade de criptoassets, como tokens digitais e criptomoedas.

2) Foco no uso de blockchain no mundo dos negócios, uma espécie de Internet 2.0. O campo da criptomoeda é baseado principalmente em blockchains públicos sem permissão, aos quais qualquer um pode participar e exigir algum tipo de sistema de prova de trabalho ou prova de aposta.

O campo de negócios, – melhor caracterizado pelo Hyperledger, – é baseado em redes de blockchain privadas ou públicas para suportar transações entre instituições que não precisam se conhecer nem confiar umas nas outras.

Sempre trabalhei com Internet e e-business, tenho me concentrado no campo dos negócios de infraestrutura de TI, mas aos poucos venho estudando e aprendendo mais sobre blockchain por dois motivos principais:

1) As tecnologias de blockchain podem nos ajudar a aumentar a segurança das transações e dados da Internet, desenvolvendo uma camada com os serviços padrão necessários e suas implementações de código aberto para comunicação segura, armazenamento e acesso a dados; e

2) As tecnologias de blockchain podem melhorar significativamente a eficiência, resiliência e gerenciamento de cadeias de suprimentos, serviços financeiros e outras aplicações globais complexas envolvendo várias instituições em vários países.

Não dei muita atenção ao bitcoin ou a outros criptoassets, no começo. Fiz alguns pequenos investimentos, a título de curiosidade. Mas recentemente, fiquei bastante intrigado com os tokens infungíveis (Non Fungibles Tokens). Entendo que os NFTs são mais uma evidência de que, assim como a Internet das Coisas (IoT), vivemos cada vez mais em um mundo híbrido físico-digital.

Bitcoin e criptomoedas em geral são fungíveis, ou seja, são todos equivalentes e intercambiáveis entre si. O mesmo ocorre com as moedas fiduciárias, por exemplo, $, £, €, ¥, ₩. Mas, além de commodities como petróleo bruto, soja ou ouro, a maioria dos itens do mundo físico é infungível. Eles não são intercambiáveis porque cada um tem características únicas que os distinguem uns dos outros, por exemplo, um carro, uma casa ou uma pintura.

Os NFTs baseados em blockchain foram desenvolvidos para representar as propriedades de um item digital exclusivo, como uma obra de arte específica ou itens colecionáveis como Cryptokitties.

Para se tornar um NFT, um token criptográfico exclusivo é cunhado ou criado, mapeado para o arquivo digital associado ao NFT e registrado em um blockchain, junto com informações adicionais como propriedade atual, taxas de licenciamento comercial, acordos legais e outros atributos semelhantes a aqueles que geralmente associamos a um ativo físico infungível.

Os NFTs foram criados pela primeira vez em meados da década de 2010, mas recentemente se tornaram bastante proeminentes por causa dos altos preços que alguns NFTs comandaram em leilão. Algumas semanas atrás, por exemplo, o CEO do Twitter Jack Dorsey leiloou por quase US $ 3 milhões um NFT de seu primeiro tweet público, enviado em 21 de março de 2006 e que simplesmente dizia “apenas configurando meu twitter”.

Mas, o que chamou a atenção de todos foi o recente leilão de $ 69,3 milhões no Christies of Everydays: the First 5000 Days, uma obra de arte digital criada por Mike Winkelmann, também conhecido como Beeple, – tornando-se a terceira obra mais cara vendida em leilão por um vivo artista, atrás dos de Jeff Koons e David Hockney. Um mês antes, outra peça de Winkelmann, Crossroad, foi vendida por US $ 6,6 milhões.

Por que alguém pagaria US $ 69,3 milhões para ter um arquivo digital que qualquer pessoa pode ver online? Os NFTs são uma forma de possuir ativos valiosos, como arte digital e itens colecionáveis inéditos, uma farsa ou ambos? Estamos vendo o tipo de preços inflacionados que geralmente acompanham qualquer coisa nova e inovadora, como a mania das tulipas holandesas no século 17 ou a bolha pontocom dos anos 90? Os NFTs sobreviverão ao inevitável estouro de sua bolha?

O artista digital Mike Winkelmann ofereceu respostas a essas perguntas em uma interessante entrevista recente em podcast com a jornalista de tecnologia Kara Swisher. “Muito simplesmente … um token não fungível é apenas, em sua essência, uma prova de propriedade”, disse ele. “É apenas provar que você possui algo, e isso pode ser anexado a qualquer coisa. Ele meio que aponta para um arquivo digital e diz, isto é o que você possui.” Ele explicou que possuir um ativo digital é algo semelhante a possuir uma gravação master. Muitas pessoas podem ter o mp3 e ouvir a gravação. “Todo mundo está ouvindo exatamente a mesma coisa. Mas uma pessoa possui a gravação principal dele. E essa pessoa pode provar, ok, eu o possuo. E se você tem uma cópia do mp3, você não acha que é o proprietário. Você não vai convencer ninguém de que é o proprietário, só porque tem acesso a ele.

Winkelmann acrescentou que, na Internet, exercer a propriedade sobre um ativo digital geralmente implica restringir o acesso atrás de um acesso pago. Mas, com a prova de propriedade baseada em NFT, você tem a opção de compartilhar um ativo que possui com um grande público. Fotos da Mona Lisa, por exemplo, estão amplamente disponíveis online. Se você for ao Louvre, poderá ver a pintura física real, tirar uma foto dela e compartilhá-la na Internet. Mas ninguém pensaria que você é o dono da Mona Lisa, ou que torná-la amplamente disponível por meio de fotos diminuiu seu valor. Na verdade, observa Winkelmann, quanto mais algo é amplamente compartilhado, mais valioso provavelmente se tornará.

Swisher perguntou a Winkelmann se ele estava preocupado que os NFTs acabassem sendo uma espécie de esquema de pirâmide.

Não acho que seja um esquema de pirâmide, porque acho que é apenas uma espécie de compra da propriedade de obras de arte”, respondeu ele. “É tipo, se você acha que a obra de arte vai ser mais valiosa a longo prazo, então, compre. Se você não acha isso, não compre. É isso. É extremamente especulativo. E todo o mercado de NFT é extremamente especulativo agora. Isso é para pessoas que procuram correr alguns riscos, porque muitas dessas coisas irão absolutamente para zero. Se você apenas olhar para a arte historicamente, as coisas de primeira linha vão muito bem com o tempo. Mas a maior parte vai para zero. É assim que é. E acredito que os NFTs não serão diferentes. E eu acredito que isso já está absolutamente em uma bolha.

Algumas semanas após o leilão de Christies de The First 5000 Days, o escritor e colunista do NY Times Kevin Roose decidiu realizar um experimento NFT. Ele escreveu uma coluna sobre NFTs intitulada Buy This Column on the Blockchain!. Ele então transformou seu arquivo digital original da coluna em um NFT e o colocou em leilão para ver o que aconteceria, um processo que ele descreveu na coluna. O produto líquido da venda seria doado ao NY Times Neediest Cases Fund.

Roose explicou que “Como acontece com todas as vendas NFT, você receberá o próprio token – um colecionador digital exclusivo que corresponde a uma imagem desta coluna no formato PNG.” Mas ele acrescentou explicitamente que “Nossos advogados querem que eu observe que o NFT não inclui os direitos autorais do artigo ou quaisquer direitos de reprodução ou distribuição“. Os direitos autorais e outros direitos legais do artigo continuam sendo propriedade do NY Times.

O comprador de um NFT possui apenas o arquivo digital específico para o qual o NFT está mapeado e não tem direitos de copyright ou qualquer outra propriedade intelectual associada ao trabalho representado no arquivo; esses direitos são geralmente detidos pelos criadores da obra ou seus empregadores. Se você comprar uma primeira edição autografada de um livro, por exemplo, você possui apenas aquele exemplar específico do livro, que pode ser valioso se o autor assinar poucas cópias; mas o autor ou editor ainda possui os direitos autorais da obra. Da mesma forma, se você comprar uma litografia numerada, você possui apenas aquela litografia específica, enquanto o artista ou galeria continua a possuir os direitos autorais. Geralmente, os usuários de NFTs presumem que os tribunais reconhecerão a mesma propriedade e direitos legais em ativos digitais que há muito reconheceram em ativos físicos.

A maior vantagem de todas, é claro, é possuir um pedaço da história”, observou Roose. “Este é o primeiro artigo nos quase 170 anos de história do The Times a ser distribuído como um NFT, e se essa tecnologia se provar tão transformadora quanto seus fãs prevêem, possuí-la pode ser equivalente a possuir a primeira transmissão de TV da NBC ou da AOL primeiro endereço de e-mail.” No dia seguinte, Roose escreveu que, após um leilão acalorado que rendeu mais de 30 lances, a coluna foi vendida por US $ 560.000.

Mas, e a pergunta que não quer calar: os NFTs são uma farsa, uma bolha que eventualmente estourará ou algo não apenas intrigante, mas consequente? De acordo com Roose, “ao possibilitar que artistas e músicos – e, sim, jornalistas – transformem trabalhos individuais em itens digitais colecionáveis únicos, os NFTs podem corroer o domínio econômico dos intermediários de mídia social e dar mais poder de retorno para as pessoas que estão produzindo coisas criativas e interessantes.”

A proliferação de NFTs provavelmente não será a revolução de mudança mundial que seus proponentes afirmam”, escreveu o repórter do NY Times Shira Ovide em um artigo relacionado.

E provavelmente também não é uma bolha totalmente absurda. Tal como acontece com outras tecnologias emergentes, existe uma boa ideia em algum lugar se desacelerarmos e resistirmos ao hype. … É promissor permitir que os criadores confiem menos nos intermediários, incluindo empresas de mídia social, negociantes de arte e empresas de streaming de música. Algum desse trabalho? Não sei. Fuja correndo de qualquer um que tenha uma resposta definitiva.”

10/02/2021

O verdadeiro negócio do Blockchain


Empresas em setores tão diversos como finanças, esportes, saúde, varejo, petróleo e gás e farmacêutico estão se envolvendo em uma onda de experimentos de blockchain”,

Escreveram os analistas do Gartner David Furlonger e Christophe Uzureau em seu livro The Real Business of Blockchain.

Muitos o veem como a solução para trazer confiança e transparência aos ambientes digitais.

O Blockchain realmente tem capturado a imaginação do mundo dos negócios. De acordo com uma previsão de pesquisa do Gartner, o valor agregado do blockchain deve ultrapassar US $ 3 trilhões em 2030, mais da metade desse valor, já será alcançado em 2025. Mas, em linguagem simples, o que tudo isso significa?

Isso significa que você pode, teoricamente, fazer negócios com um parceiro desconhecido localizado em qualquer lugar do planeta e negociar qualquer ativo em qualquer tamanho de transação e não precisa de um advogado, um banco, uma seguradora ou qualquer outro intermediário, certificando-se de que ambos sigam em frente o que se prometeu fazer”,

escrevem os autores do livro. “Essa solução expande amplamente a gama de ativos que uma empresa pode negociar. O acordo também aumenta muito com quem ou com o que uma empresa pode negociar diretamente, sem a necessidade de terceiros (que ficariam com uma parte do valor).

Blockchain surgiu por volta de 2008 como o livro-razão público e distribuído para a criptomoeda Bitcoin. Ele combinou uma série de tecnologias e métodos existentes em uma arquitetura verdadeiramente inovadora. O livro explica que um blockchain, funcionando de forma correta, inclui cinco elementos principais:

Distribuição. O Blockchain permite que seus participantes fisicamente distribuídos, compartilhem um livro-razão digital, distribuído pela Internet e troquem informações sem precisar de um intermediário confiável. Cada participante mantém uma cópia completa do livro razão, que é atualizada em tempo real à medida que novas transações ocorrem.

Criptografia. O Blockchain criptografa todos os dados armazenados no livro-razão, bem como os dados que fluem pela rede usando tecnologias de chaves públicas e privadas. Os participantes controlam com quem eles compartilham informações para cada transação específica.

Imutabilidade. Uma vez que as informações são criptografadas, com registro de data e hora e adicionadas ao livro razão, não podem ser alteradas, a menos que todos os participantes concordem.

Tokenização. Os blockchains oferecem suporte à troca segura de valor na forma de tokens.

Os tokens podem funcionar como representações digitais de ativos físicos, como um mecanismo de recompensa para incentivar os participantes da rede ou para permitir a criação e troca de novas formas de valor.

Descentralização. Cada participante do blockchain tem uma cópia criptografada idêntica do livro razão.

Um mecanismo de consenso operado por cada nó completo, verifica e aprova as transações. Essa estrutura descentralizada e orientada por consenso, elimina a necessidade de governança por uma autoridade central e atua como uma proteção contra fraudes e transações incorretas.” …

O livro razão em um blockchain é muito diferente de um banco de dados. Um banco de dados é um repositório geral de informações, que pode ser lido, escrito, excluído e alterado conforme apropriado. Este claramente não é o caso com o livro razão de um blockchain. A criptografia é uma opção em bancos de dados, mas absolutamente obrigatória no blockchain. Uma base de dados distribuída é geralmente gerenciada por um administrador central, não por um mecanismo de consenso entre todos os seus participantes, como é o caso do blockchain.

O Blockchain tem o potencial de transformar indústrias e economias, mas ainda está evoluindo, como é o caso de qualquer tecnologia em seus estágios iniciais de maturidade. Ele ainda precisa cruzar o abismo de um mercado dominado por pioneiros para um mercado mais amplo. Atualmente, muitas soluções de blockchain estão nas fases iniciais de desenvolvimento e experimentação e usam alguns dos cinco elementos descritos no livro.

De acordo com nossa pesquisa, a arquitetura de dados tradicional poderia ter se saído tão bem ou melhor que o blockchain em 85 por cento desses projetos.

Há uma grande quantidade de informações contraditórias em torno do blockchain. Em 2016, o blockchain fez sua primeira aparição nos ciclos anuais de campanha publicitária do Gartner. Em 2018, ele já havia ultrapassado o pico da expectativa e estava começando a cair no vale da desilusão. Quase todos concordam que, com o tempo, o blockchain tem o potencial de se tornar uma tecnologia verdadeiramente transformadora. Mas, o hype em torno do blockchain torna difícil definir não apenas seu valor estratégico de longo prazo, mas também o que realmente é e o que não é no presente.

Para explicar melhor seu valor no mundo real, Furlonger e Uzureau criaram o espectro de blockchain do Gartner com base nas experiências de centenas de clientes. O espectro consiste em três fases, que são explicadas em detalhes no livro e ajudam a ilustrar como o blockchain provavelmente evoluirá nos próximos 10-15 anos.

Fase 1: Inspirado no Blockchain. A primeira fase começou por volta de 2012 e foi até o início de 2020. Nesta primeira fase, as empresas estavam entrando na curva de aprendizado explorando a tecnologia por meio de provas de conceito e pilotos. Essas soluções inspiradas em blockchain usam apenas três dos cinco elementos: distribuição, criptografia e imutabilidade. Eles visam a reengenharia de processos manuais existentes e melhorar a eficiência em empresas individuais, indústrias ou ecossistema da cadeia de suprimentos. Alguns incorporam tokens de forma muito limitada. Poucos abraçam a descentralização, o mais difícil dos cinco elementos.

As soluções inspiradas no Blockchain são geralmente centralizadas, com permissão, proprietárias e orientadas para a empresa. O Gartner espera que os principais desafios técnicos necessários para atingir blockchains confiáveis e seguros em escala empresarial serão resolvidos até 2025.

Enquanto isso, o mercado tem centenas de experimentos em andamento, mas poucas implementações completas. Apenas 3% dos 2.871 chief information officer (CIO) entrevistados na pesquisa CIO de 2019 do Gartner disseram ter um blockchain ativo e operacional para seus negócios, e outros 8% dos entrevistados estão em planejamento de curto prazo ou em execução piloto. Poucas ou nenhuma dessas implementações usam todos os cinco elementos do blockchain.”

Fase 2: Blockchain-Completo. Implementadas com todos os cinco elementos, as soluções completas de blockchain oferecem a proposta de valor total do blockchain. Eles incluem tokens operando em um ambiente descentralizado usando contratos inteligentes, o que permite a criação de novos ativos digitais que podem ser negociados de forma autônoma. A descentralização permite o uso de consenso para autenticar usuários, ativos e transações.

Nenhuma empresa ou governo convencional que conheçamos está construindo soluções completas de blockchain ainda. Muitas startups estão fazendo isso, no entanto, e algumas provavelmente ganharão impulso no mercado no início de 2020, com mais escala aparente após 2025. Embora não seja imediata, a proliferação de soluções completas de blockchain empurrará as organizações a explorar novas maneiras de operar em maior grau da descentralização do que agora.

Fase 3: Blockchain aprimorado. Em algum momento depois de 2025, as redes de blockchain começarão a adotar uma série de tecnologias complementares e avançadas, especialmente IA, IoT e soluções de identidade. Os blockchains serão então capazes de lidar com um número muito maior de pequenas transações e microtransações suportadas por contratos inteligentes sem a necessidade de intervenção humana. Esses blockchains ajudarão a criar novos mercados ao expandir os tipos de ativos que podem ser monetizados e trocados como tokens digitais. Além disso, as soluções de identidade descentralizadas permitirão aos participantes de uma rede blockchain aprimorada proteger seus dados pessoais em uma carteira digital e compartilhá-los de acordo com regras pré-estabelecidas.

“À medida que novas formas de valor se tornam online com soluções de blockchain aprimoradas, as empresas também inovam em novos modelos de negócios usando estruturas operacionais descentralizadas. As organizações serão tecnicamente capazes de delegar a tomada de decisões econômicas às “coisas”,

que vão agir de forma autônoma e de acordo com os termos definidos em um contrato inteligente executado no blockchain. Essas coisas aprimoradas poderiam remover humanos da transação e, eventualmente, mover as redes de blockchain em direção a transações completamente autônomas e, em última instância, ao estabelecimento de organizações autônomas descentralizadas.

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