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19/11/2023

Robôs x Liderança

Os robôs já chegaram ao chão de fábrica, há algum tempo, mas será que um dia eles poderão ser nossos chefes?

Robôs não são perfeitos e não são feitos para tudo, mas têm a capacidade de fazer algumas coisas que os humanos não conseguem fazer, pelo menos em escala.

Vou comentar neste episódio do meu blog, sobre a hipotética situação, de, em um futuro próximo, estarmos trabalhando lado a lado com robôs, e o que isso pode significar.

O gigante global da tecnologia, o Alibaba, rival da Amazon pelo título de maior varejista online do mundo, tem hoje cerca de 800 milhões de usuários e cresceu tanto que o governo chinês decidiu impor regras, para restringir o seu poder político-econômico. A empresa, há muito, adota a inteligência artificial (IA) em suas atividades rotineiras. Ela utiliza algoritmos para prestar um serviço personalizado aos seus clientes e utiliza robôs para processar, embalar e despachar mercadorias em seus armazéns.

Jack Ma, fundador da empresa, acredita que um dia os robôs poderão dirigir empresas. Ele diz: “Em 30 anos, um robô provavelmente estará na capa da revista Time, como o CEO do ano”.

Outro pioneiro do mundo tecnológico, porém, o americano Elon Musk, pensa um pouco diferente e está mais preocupado. Ele teme que os robôs possam um dia erradicar o trabalho humano completamente.
Então, como será a liderança nas empresas, em um mundo dominado por máquinas?

Hoje, a vantagem para os seres humanos, em ter robôs e IA no local de trabalho, é claramente que, estas tecnologias fazem parte do trabalho bruto por nós, e através desse trabalho bruto, que eu particularmente entendo como limpeza, carregar e movimentar mercadorias de A para B; mas em um futuro próximo, isso pode também significar realizar tarefas repetitivas baseadas em computação, que toma muito tempo dos seres humanos – e isso, pode libertar os seres humanos para outras atividades muito mais analíticas e de uso da razão.
Qual o perigo dos robôs e da IA para o trabalho repetitivo que não queremos fazer?

No meu ponto de vista, o grande perigo é essencialmente que, se o nosso local de trabalho se tornar mais automatizado e mais ocupado por robôs, os humanos não serão mais funcionais, em algumas áreas, e os governos terão de encontrar soluções para um número cada vez maior de pessoas, que poderão não estar desempregadas, mas indo de um emprego temporário para outro e isso se tornaria o grande desafio social do futuro.
Então, dar empregos aos robôs e à IA trará desafios sociais aos humanos? Onde a liderança se encaixa nesse contexto?

Uma parte fundamental da liderança é: cuidado, compreensão e empatia. E assim, na sua forma mais óbvia, quando se lidera, podemos pensar em cuidar dos outros, das pessoas do seu grupo – e isto é algo que os robôs, por mais sofisticados que sejam, [ainda] não podem fazer isso pelos seres humanos. Mas, se a tarefa central da liderança, é entender as pessoas, responder às suas necessidades, cuidar delas – tanto nas questões delicadas, como nas questões mais genéricas – estamos em vantagem, em relação aos robôs, pois isso é algo que eles provavelmente nunca serão capazes de realizar.

Existem muitas responsabilidades éticas para as pessoas que estão criando IA, mas também para as pessoas responsáveis por implementá-la e ver como ela progride nas organizações e na sociedade. Penso que a principal questão ética aqui é que a IA, em certo sentido, é uma espécie de automatização da vontade humana, que infelizmente também pode incluir os preconceitos humanos.

Assim, por exemplo, podem haver problemas com algoritmos de policiamento, que podem agir de forma preconceituosa, subjacentes de certas forças ou ações policiais, que estejam na base de conhecimento e formação do aprendizado da máquina. Portanto, temos que ficar atentos e isso é uma responsabilidade muito grande e ética da liderança político-administrativa global. Estar atento em ‘como’ a inteligência artificial é implantada é fundamental – para que ela não saia do controle e não automatize problemas éticos sérios. Os líderes precisam ser éticos e responsáveis na implementação da IA, para que não se repitam os erros humanos nas máquinas.

O trecho acima, foi feito através de perguntas e respostas que eu mesmo perguntei, pesquisei e respondi.

O trecho abaixo, é uma espécie de entrevista com uma inteligência artificial, onde eu faço perguntas, elaboradas por mim e as respostas são dadas pela inteligência artificial do chatgpt.

Em um dos meus primeiros contatos com o chatgpt, pedi a ele criar uma poesia com versos e rimas. A resposta foi:

No silêncio da noite, a lua sorri, Reflete segredos do céu, tão sutil. Estrelas dançam em um manto de cetim, Poema cósmico, fascínio sem fim. Na penumbra, a poesia se revela sutil.

Nada mau!

Mas o que os criadores das IAs realmente querem, é que ela faça que as pessoas pensem num mundo com IA, sem pensar no impacto que isso terá, principalmente, na forma de liderar.

Robôs são ótimos, mas não são humanos. Eles não são perfeitos e não são feitos para tudo e eu decidi ser mais desafiador, questionando o chatgpt sobre gestão e liderança e como direcionar essa capacidade para um ambiente sustentável e para o nosso futuro. Perguntei:
Os robôs seriam melhores líderes do que os humanos?

Resposta: Eles trabalhariam juntos. No final das contas, o estado da liderança depende de como projetamos e usamos a tecnologia. Portanto, os humanos precisam estar mais conscientes do quanto a IA está fazendo e do que estamos fazendo, ao recriar e usar novas tecnologias.

Fiz uma nova pergunta:
Portanto, nós [humanos, robôs e IAs] precisamos trabalhar juntos para compreendermos o poder das novas tecnologias?

Resposta: Para apreciar verdadeiramente as oportunidades que estão surgindo, precisamos primeiro compreender o passado. Com isso, poderemos estar mais conscientes e flexíveis para lidar com um futuro imprevisível. O mundo está mudando. O futuro não é o que consideramos que seja. Está exigindo de nós a disposição de abrir mão de nossa zona de conforto. Desistir da sua zona de conforto significa abrir-se para novas possibilidades e isso ajuda a compreender o passado.
Oquê a IA considera uma qualidade fundamental para a liderança?

Resposta: Humildade. Devemos ser humildes em todas as ações e isso inclui o que estamos dispostos a fazer e dizer para ajudar os outros. Liderança não é a mesma coisa que sucesso ou fracasso. Todos falhamos, mas podemos reconhecer os erros que cometemos e aprender com eles. Humildade é quando você se coloca no lugar do outro.
Mostrar humildade, reconhecer erros e aprender com eles são qualidades que a IA deseja ver nos líderes?

Resposta: É difícil saber exatamente como será a liderança no futuro, mas está claro que as qualidades humanas de cuidado e empatia serão vitais. Ter um conhecimento detalhado da tecnologia e do seu potencial é importante, assim como ser ético e responsável na forma como a utilizamos.
Como seria uma empresa liderada por uma IA?

Resposta: Uma empresa liderada por inteligência artificial seria altamente eficiente e adaptável. Decisões seriam baseadas em análises de dados em tempo real, otimizando processos e recursos. Comunicações internas poderiam ser automatizadas, facilitando a troca de informações entre departamentos. A inovação seria constante, impulsionada por algoritmos de aprendizado de máquina identificando oportunidades.

Os líderes seriam virtuais, impessoais mas imparciais, guiariam a estratégia com base em análises preditivas. Funcionários humanos se concentrariam em tarefas criativas e de resolução de problemas, enquanto as operações rotineiras seriam gerenciadas eficientemente pela inteligência artificial.

A ética e transparência na tomada de decisões seriam prioridades, com auditorias regulares dos algoritmos para evitar preconceitos. Apesar da eficiência, a empresa garantiria um ambiente que valoriza a interação humana e o bem-estar dos funcionários.

Meu comentário: Algumas respostas são boas; outras, um tanto quanto evasivas, como nós, também somos evasivos, em algumas respostas.

Para finalizar, pedi ao chatgpt para fazer suas considerações finais, em conclusão…

Eis a reaposta:

Uma IA pode ser uma boa liderança para uma empresa em certos contextos, especialmente quando se trata de otimização de processos, análise de dados extensos e tomada de decisões baseadas em lógica. A IA pode ser eficiente, consistente e livre de emoções pessoais, o que pode resultar em decisões objetivas.

No entanto, a liderança eficaz muitas vezes requer habilidades interpessoais, intuição e compreensão das dinâmicas humanas, áreas em que a IA pode ter limitações. Além disso, a tomada de decisões éticas e a adaptação a situações complexas podem ser desafios para a IA.

Assim, a abordagem mais promissora pode ser uma combinação de liderança humana e IA, aproveitando as vantagens de ambas para criar um ambiente organizacional equilibrado e eficiente.

30/07/2023

O valor do Open Source

A oferta de software de código aberto ou Open Source Software (OSS), — e as razões para ingressar e contribuir com as comunidades Open Source — tem sido extensivamente estudado. A Linux Foundation (LF), por exemplo, tem mais de 1.500 empresas membros e quase 1.000 projetos Open Source, com mais de 15.000 outras organizações contribuintes. A LF estima que mais de 50 milhões de linhas de código são adicionadas semanalmente aos seus projetos, que compreendem uma porcentagem significativa das infraestruturas de missão crítica do mundo, e ainda há um número significativamente maior se incluirmos as contribuições de outras comunidades Open Source como a Apache Software Foundation.

No entanto, sabemos muito pouco sobre a demanda do OSS. Apesar da ampla adoção por empresas e indústrias em todo o mundo, realmente não entendemos, nem somos capazes de quantificar seu valor econômico para as organizações que dependem do Open Source. Quais benefícios essas organizações obtêm? Quais custos estão envolvidos ao se usar ou contribuir com o OSS? E, se não for possível usar o OSS em um projeto, quais seriam as melhores alternativas e quanto custariam?

Para obter respostas para essas e outras questões sobre OSS, a LF patrocinou um estudo conduzido pelo professor da UC Berkeley, Henry Chesbrough, — autor do livro Open Innovation Results, publicado em 2020. As principais descobertas e conclusões do estudo são discutidos no White Paper, “Measuring the Economic Value of Open Source”.

“Parte da pesquisa sobre OSS aproveita o fato de que os repositórios de OSS estão disponíveis ao público, incluindo estudos acadêmicos”, escreveu Chesbrough no White Paper. “No entanto, para medir o valor econômico do OSS, é necessário observar o crescente número de projetos e também como o indivíduo ou organização que empregou o OSS usou o software. Essas ações não são observáveis ao público. Em vez disso, deve-se construir maneiras de sondar esses atores para descobrir as maneiras pelas quais eles usam o OSS.”

O White Paper cita um relatório de 2021 da Comissão Europeia sobre o impacto do Open Source na economia da UE, baseado em uma análise de custo-benefício do impacto econômico dos investimentos em Open Source e em uma pesquisa com mais de 900 partes interessadas. A maioria dos entrevistados (75%) veio de pequenas e médias empresas, enquanto as grandes empresas, que são os principais usuários e contribuintes do OSS, foram sub-representadas nos resultados da pesquisa. “No geral, os benefícios do Open Source superam em muito os custos associados a ele”, disse o relatório da UE. As contribuições do OSS para o PIB da UE “produzem uma relação custo-benefício ligeiramente superior a 1:10. Depois de levar em consideração o hardware e outros custos de capital dos 260.000 contribuintes da UE para OSS, a relação custo-benefício ainda está ligeiramente acima de 1:4.”

Para entender os motivos e o valor econômico estimado que levaram as empresas a adotar o OSS, Chesbrough e seus colaboradores elaboraram e conduziram uma pesquisa. Todas as perguntas e respostas da pesquisa podem ser encontradas no Apêndice do White Paper. “Nossa amostra se inclina para empresas da Fortune 500”, observou Chesbrough. 43% dos entrevistados tiveram receitas superiores a US$ 1 bilhão em 2021, dos quais 29% tiveram receitas superiores a US$ 10 bilhões; e 57% vieram de organizações com receita inferior a US$ 1 bilhão. Várias das organizações trabalham com OSS há mais de 20 anos, mas cerca de metade só começou em 2015.

A maioria dos entrevistados, 29%, eram CEOs, 18% eram membros de P&D, 18% trabalhavam em negócios e marketing, 9% eram CIOs/CDOs, 6% estavam no grupo de TI e software e o restante veio de uma série de grupos menores. Vou resumir as principais descobertas do estudo.

O primeiro conjunto de perguntas teve como objetivo avaliar o valor econômico geral do OSS, perguntando sobre os custos e benefícios gerais do OSS para a organização.

Com base em sua experiência, avalie o grau de benefícios derivados do uso ou da contribuição de OSS para sua organização.

O benefício com a classificação mais alta foi a economia de custos, que 67% dos entrevistados classificaram como alta ou muito alta e apenas 10% classificaram como baixa ou nenhuma. Foi seguido por velocidades de desenvolvimento mais rápidas, classificadas como altas ou muito altas em 66% e baixas ou nenhuma em 9%; e padrões abertos e interoperabilidade, classificados como alto ou muito alto em 63% e baixo ou nenhum em 13%. Outros benefícios bem avaliados foram comunidade ativa para troca de conhecimento — 59%; independência de fornecedores proprietários, — 54%; e atraente ambiente de trabalho de TI, – 49%.

Com base em sua experiência, avalie os principais custos associados ao uso ou à contribuição de OSS para sua organização. A principal fonte de custos altos ou muito altos associados ao OSS foram as falhas de segurança, mencionadas por 25% dos entrevistados. Seguiram-se os custos de suporte ocultos, com um aumento de 23%; custos relacionados com incertezas jurídicas com licenciamento — 17%; e custos de mudança de proprietário para OSS — 17%.

Qual é a sua avaliação da relação custo-benefício geral de usar ou contribuir com OSS?

Cerca de 2/3 dos entrevistados afirmaram que os benefícios excediam os custos, dos quais 23% afirmaram que os benefícios excediam largamente os custos; 21% responderam que os custos superam os benefícios, dos quais apenas 3% disseram que os custos superam em muito os benefícios; e 11% disseram que os custos e benefícios eram quase iguais.

Qual é a tendência geral da relação custo-benefício de usar ou contribuir com o OSS em sua organização nos últimos 5 anos?

Quase 50% dos entrevistados disseram que os benefícios estão crescendo mais rápido que os custos, dos quais 7% disseram que estão crescendo muito mais rápido; 17% disseram que os custos estavam subindo mais rápido que os benefícios, dos quais apenas cerca de 1,5% disseram que os custos estavam subindo muito mais rápido; e 35% disseram que os benefícios e custos permaneceram estáveis nos últimos 5 anos.

O próximo conjunto de perguntas pediu aos entrevistados que considerassem um grande projeto concluído recentemente que incluía OSS. “Esta pergunta exigiu muito conhecimento de nossos entrevistados e, como resultado, recebemos muito menos respostas a esta e às perguntas subsequentes”, observou Chesbrough.

Aproximadamente quantas linhas de código de software foram incluídas nesta nova oferta?

O tamanho do projeto, refletido pelo número de linhas de código variou muito. 18% disseram que o projeto incluía mais de 160.000 linhas de código (LOC); 8% disseram 80.000 a 160.000 LOC; 13% disseram 20.000 a 80.000 LOC; 30% —5.000 a 20.000 LOC; 16% — 1.000 a 5.000 LOC; e 15% disseram menos de 1.000 linhas de código.

Qual porcentagem dessas linhas de código foram criadas a partir do OSS?

22% responderam que o OSS representava mais de 80% do código; 10% responderam que era de 60% a 80% do código; 18% — 40% a 60%; 26% — 20% a 40%; e 24% responderam que o OSS representava menos de 20% do código.

Para essas linhas de código OSS: quanto custaria para você escrever as linhas de código necessárias para obter essa funcionalidade com seu próprio software, em vez de software OSS, incluindo suporte contínuo e manutenção do código?

67% estimaram que o software teria custado significativamente mais sem OSS, dos quais 46% acreditavam que teria custado o dobro; 21% acreditam que o software teria custado menos sem o OSS.

Se você não conseguiu usar o OSS neste projeto: Qual foi sua próxima melhor alternativa para atingir um nível semelhante de funcionalidade em sua versão?

50% dos entrevistados teriam usado uma solução proprietária comercial em vez de OSS; e 36% disseram que teriam feito o projeto internamente. Além disso, 75% estimaram que teria sido mais caro comprar o software de um fornecedor comercial, dos quais 31% acharam que teria sido quatro vezes mais caro do que o OSS; e 13% acreditavam que o produto comercial teria sido mais barato.

“Considerando as várias perguntas e suas respostas, fica claro que os entrevistados percebem que o OSS tem um valor econômico considerável”, escreveu Chesbrough em conclusão. “Os benefícios percebidos excedem os custos pela grande maioria dos entrevistados — 60% a 75%, dependendo da questão específica analisada. E a proporção de benefícios em relação aos custos parece estar aumentando para quase metade dos entrevistados, enquanto apenas 16% acham que a proporção está diminuindo. Isso sugere fortemente que o valor do OSS aumentará ainda mais no futuro para a maioria das organizações participantes.”

Chesbrough explicou ainda que a pesquisa subestima o valor do OSS para as organizações participantes porque os resultados não levam em consideração os benefícios sociais mais amplos do OSS. “A sociedade se beneficia da capacidade de outras empresas acessarem os mesmos repositórios OSS, algo que uma empresa individual pode não valorizar e que nossa pesquisa não mediu. E a disponibilidade desses repositórios abertos pode até permitir a entrada de novas empresas que, de outra forma, não teriam outro benefício social não capturado nesta pesquisa. Portanto, do ponto de vista social, o valor da adoção do OSS é ainda maior do que os resultados relatados aqui.”

“Um pensamento final para as organizações que ainda não adotaram o OSS é lembrar um dos insights dos primeiros dias do OSS: vale a pena ser mais aberto”, acrescentou. “Software é uma tecnologia cuja importância está aumentando constantemente ao longo do tempo. … Adotar o OSS pode permitir que você abrace um futuro mais vibrante, surpreendente e empolgante.”

25/07/2023

Mudanças na economia global

“Dizer que os últimos anos foram economicamente turbulentos seria uma descrição branda para tudo o que realmente aconteceueu”, escreveu o economista e empresário Mohamed El-Erian em “Not Just Another Recession: Why the Global Economy May Never Be the Same”, artigo publicado na revista Foreign Affairs. El-Erian é um dos pensadores econômicos mais influentes do mundo — é presidente do Queens College na Universidade de Cambridge, principal consultor econômico da Allianz e ex-CEO da PIMCO.

“A inflação atingiu seu nível mais alto em décadas, e uma combinação de tensões geopolíticas, interrupções na cadeia de suprimentos e aumento das taxas de juros ameaça mergulhar a economia global em recessão… Economistas e analistas financeiros trataram esses eventos como consequências do ciclo de transformações na economia. Mas, na realidade, em vez de ser só mais uma volta do ciclo econômico, o mundo pode estar passando por grandes mudanças estruturais que durarão mais do que o esperado”.

Como evidência dessas mudanças, o artigo cita uma série de fatos econômicos e financeiros ocorridos nos últimos anos. Isso inclui o fortalecimento das autocracias em todo o mundo, a polarização política em várias democracias liberais, a crescente mudança dos EUA do livre comércio para o protecionismo e as crescentes tensões entre a China e os EUA.

De acordo com El-Erian, três grandes mudanças estruturais ajudam a explicar esses movimentos que provavelmente gerarão ainda mais incertezas e tensões nos próximos anos: (i) A mudança de demanda insuficiente para oferta insuficiente. Uma série de mudanças importantes – como menor força de trabalho, sanções comerciais à Rússia e agravamento das tensões com a China – estão abalando as cadeias de suprimentos globais; (ii) O fim da liquidez ilimitada dos bancos centrais. As intervenções dos bancos centrais para estimular a atividade econômica e manter as taxas de juros artificialmente baixas, deveriam ser limitadas no decorrer do tempo; isso não ocorreu e agora causam sérios danos colaterais e volatilidade no mercado financeiro; e (iii) A crescente fragilidade dos mercados financeiros. A expectativa de dinheiro fácil estimula indivíduos e profissionais a se envolverem em atividades financeiras mais arriscadas e em investimentos menos compreendidos e menos regulamentados.

Algumas semanas após a publicação do artigo, El-Erian foi o convidado do jornalista do NY Times Ezra Klein em seu podcastTrês sinais de que entramos em uma nova era econômica”, onde discutiram as três mudanças estruturais sobre as quais El-Erian escreveu em seu artigo.

Klein apresentou o podcast observando que “Nos últimos anos, os mercados foram afetados por choques significativos. … Mas El-Erian acredita que também estamos testemunhando uma mudança estrutural mais profunda na própria natureza da economia global. Os formuladores de políticas econômicas estão tentando trazer a economia de volta à de 2019, mas, ainda não há sinais desta recuperação.”
O abalo das cadeias de suprimentos globais

Por que você diz que a primeira grande mudança com a qual estamos lidando é a mudança da crença de que o grande problema da economia global era demanda insuficiente para agora acreditar que é a oferta insuficiente?, perguntou Klein.

“Em primeiro lugar, o mercado de trabalho está mudando”, respondeu El-Erian. Parte da população têm deixado a força de trabalho, tornando mais difícil ainda para as empresas, encontrar trabalhadores. Isso tem a ver não apenas com o impacto contínuo da pandemia, mas também “com a mudança de preferências sobre o equilíbrio entre vida e trabalho e com a falta de incentivo e apoio para que certos segmentos da população se envolvam na força de trabalho”. Além disso, um problema crescente e difícil de administrar é a questão das habilidades dos desempregados versus os empregos que as empresas desejam contratar, relacionado à evolução de uma economia baseada na produção de bens físicos para uma economia baseada em tecnologia e indústrias de serviços.

Klein observou que a fragilidade da cadeia de suprimentos foi exposta na pandemia, então estamos agora, tentando criar mais cadeias de suprimentos ou pelo menos tê-las mais perto de casa.

“Quais são as mudanças duradouras? O que voltou e o que você acha que simplesmente não voltará?” Perguntou Klein.

A maioria dos efeitos da pandemia voltou, respondeu El-Erian. Quando a economia parou, os custos de frete e contêineres dispararam, mas agora caíram e estão voltando ao normal.

“Mas há duas forças em jogo. Uma delas é a fragmentação geopolítica, que tem a ver com as tensões entre China/EUA, que estão basicamente dizendo que, por razões de segurança nacional, vamos aumentar a resiliência de nossas cadeias de suprimentos”.

A segunda força, é o que as empresas estão fazendo. “Por muito tempo o just-in-time governou as cadeias de suprimentos, e por um bom motivo: estocar é muito caro. Se você consegue administrar cadeias de suprimentos muito eficientes, você pode ganhar muito dinheiro. Mas esse foco na eficiência custou a resiliência.”

As consequências negativas de um foco excessivo na eficiência foram bem explicadas pelo professor Roger Martin, da Universidade de Toronto, em “The High Price of Efficiency”, um artigo publicado em janeiro de 2019 na Harvard Business Review. A crença de que a eficiência é fundamental para a vantagem competitiva transformou a gestão em uma ciência, cujo objetivo é a eliminação do desperdício, seja de tempo, materiais ou capital. Mas um foco excessivo na eficiência pode produzir efeitos negativos surpreendentes. Para contrabalançar esses potenciais efeitos negativos, as empresas devem prestar a mesma atenção a uma fonte menos apreciada de vantagem competitiva: a resiliência, “que é a capacidade de se recuperar de dificuldades – de voltar à forma após um choque”, comentário feito um ano antes do advento do Covid19.
O fim da liquidez ilimitada

A segunda grande mudança estrutural está determinando o fim da era de dinheiro fácil e ilimitado dos bancos centrais.

Os bancos centrais desempenharam um papel absolutamente crítico em evitar uma depressão, após a crise financeira global de 2007-2008, disse El-Erian. Em 2010, os bancos centrais haviam reparado os mercados com problemas e deviam começar a recuar em suas linhas de liquidez e empréstimos. Mas, em vez disso, continuaram a injetar liquidez na economia por meio de uma série de flexibilizações quantitativas (QE), mantendo taxas de juros muito baixas. Isso encorajou muitos a assumir ainda mais alavancagem e dívidas.

“E quanto mais persistia, mais coisas aconteciam. Primeiro, condicionou-se os mercados a pensar nos bancos centrais como seu melhor amigo para sempre. E sempre que houvesse qualquer turbulência nos mercados, eles entrariam disponíveis para ajudar.”

Segundo, “começamos a ver uma má alocação de recursos e todos os tipos de consequências e danos colaterais. Isso nos levou a todo esse cenário durante a pandemia, quando governos e bancos centrais intervieram, mas continuaram fornecendo suporte à alta liquidez. Combine isso com problemas de abastecimento – e você acabará com uma alta da inflação.”

“E no instante em que se tem inflação alta, não se pode mais continuar com a mesma política monetária. É preciso mudar. E é aí que estamos. Estamos mudando a política econômica. Mas estamos fazendo isso com um sistema financeiro condicionado a um regime, que se pensou que duraria para sempre.”
A crescente fragilidade dos mercados financeiros

A discussão então voltou-se para a terceira grande mudança: estamos entrando em uma era de mercados financeiros cada vez mais frágeis.

Klein observou que os mercados financeiros passaram por grande turbulências, apenas ha 15 anos atrás, durante a crise financeira global, bem como, recentemente, durante a pandemia. Durante este período, os bancos continuaram a financiar e arrolar dividas, mas passaram a mostrar fragilidade; quase em crise.

“Então me diga de que tipo de fragilidade você está falando aqui. O que há de diferente nesta era de ameaça de crise financeira iminente?”

El-Erian explicou que a crise financeira global foi, em última análise, sobre os sistemas bancários, pagamentos e liquidação de dívidas.

“Nós entendemos o problema. Aplicamos e injetamos capital. Limitamos as atividades dos bancos. E basicamente reduzimos e neutralizamos o risco do sistema bancário.”

Mas o risco não desapareceu. Ele migrou de bancos para não bancos, — passou para sistemas de pensão, fundos imobiliários, cripto ativos. “E esses, que são menos compreendidos, menos regulamentados e menos supervisionados. … passaram de pequenos focos de fogo, e se tornam grandes incendios.”

Klein disse: “Eu me pergunto se os cripto ativos não são quase que um herói anônimo, porque trouxeram muito desse comportamento financeiro de risco e de alta recompensa, empurrando tudo de forma caótica, de qualquer maneira – para esse mercado estranhamente autocontido”.

El-Erian concordou que seria bom se o comportamento financeiro de risco fosse contido, porque foi canalizado para os cripto ativos. “Mas e se os riscos, quase que irresponsáveis que vemos nas criptos também estivesse ocorrendo em outros lugares – encorajados por baixas taxas de juros, haveria uma melhor percepção de que os mercados só sobem os juros porque os bancos centrais fazem pressão, e que um cripto ativo simplesmente passou a ser estruturalmente a parte mais frágil desses casos.”

Por fim, El-Erian discutiu como os formuladores de políticas devem responder a essas grandes mudanças na economia.

“O que repito para as pessoas é que não vivemos mais em um mundo ordenado. Estamos vivemos em um mundo onde existem muitos resultados potenciais, nenhum domina em termos absolutos e, portanto, temos que fazer três coisas: (I) ter a mente aberta e planejar vários resultados possíveis e não ficar refém de apenas um; (II) ter planos de ação para diferentes resultados, então não somos pegos de surpresa; e (III) reconhecer que a diversidade cognitiva é absolutamente crítica (conhecimento é tudo) se você vai navegar neste mundo, … tem que saber atuar na diversidade de gênero, educação, cultura e de experiências muito mais sérias.”

18/06/2023

As escolas de negócios e a estagnação salarial

Ouvi um podcast muito interessante, Are MBAs to Blame for Wage Stagnation, com o apresentador da Freakonomics Radio, Stephen Dubner e o economista do MIT Daron Acemoglu. O podcast discutiu um documento de Darem Acemoglu, Alex He e Daniel le Maire sobre o efeito MBA de um CEO nos salários dos funcionários de sua empresa, publicado no National Bureau of Economic Research (NBER).

No podcast, Acemoglu observou que, nas últimas décadas, os salários cresceram mais lentamente do que a produtividade – fato que há muito intriga os economistas. “Se você olhar para o salário real dos trabalhadores com ensino médio, ele aumentou cerca de 2,5% ao ano em termos reais entre 1945 e o final dos anos 1970 – um aumento notável. E desde 1980, vem diminuindo em termos reais a cada ano. Portanto, uma grande fração da população dos EUA está se tornando cada vez mais pobre, mesmo enquanto estamos construindo as tecnologias mais incríveis, as maiores empresas que a humanidade já viu, a economia mais avançada.”

A parcela do PIB que vai para os trabalhadores, caiu de 63% na década de 1980 para 58% em 2020 e durante essas mesmas quatro décadas, a parcela de empresas americanas administradas por um executivo com MBA ou algum outro diploma de negócios — aumentou de 25% na década de 1980, para mais de 40% em 2020. Essas duas tendências estão conectadas? A profissionalização da classe gerencial fez com que os salários dos trabalhadores caíssem? Continue a leitura para entender o contexto.

Para esclarecer essa questão, Acemoglu e seus colaboradores analisaram dados dos Estados Unidos e da Dinamarca, incluindo informações de empresas e dos trabalhadores. Eles escolheram a Dinamarca, além dos EUA, porque o país tem dados de altíssima qualidade, que permitem fazer análises que seriam mais difíceis com dados apenas dos EUA. Sua metodologia foi bem simples. Eles rastrearam os ganhos dos trabalhadores, quando há uma mudança no tipo de gerencia que lidera a empresa, ou seja: quando ela passa de um gestor de negócios, nível técnico, para um gestor com formação em negócios e vice-versa.

A descoberta principal do estudo foi que, quando um CEO sem formação em negócios é substituído por um CEO com um MBA, há um declínio significativo nos salários. Cinco anos após sua nomeação, os salários diminuem 6% e a mão-de-obra diminui 5% nos EUA, enquanto na Dinamarca, tanto os salários quanto a mão-de-obra diminuem 3%. “Em nenhum dos dois países vemos quaisquer tendências diferenciais na participação da mão-de-obra, salários, emprego, produção ou investimento antes do início do mandato dos gestores com MBA. Também não detectamos uma resposta de emprego, produção, investimento ou produtividade, o que sugere que os gestores com MBA não são mais produtivos do que seus antigos pares”.

Esses resultados respondem por 20% da queda da mão de obra e cerca de 15% da desaceleração do crescimento salarial desde 1980 nos EUA, e por 6% da queda na participação da mão de obra na Dinamarca. Além disso, a nomeação de um CEO com MBA leva a um aumento de 3% no retorno sobre os ativos (RoA) nos EUA e um aumento de 1,5% na Dinamarca; o valor de mercado das ações da empresa aumenta em cerca de 5%; e tudo mais sendo igual, os gestores com MBA ganham mais do que os gerentes de outras áreas.

O que explica as diferenças nos salários e na mão-de-obra entre empresas lideradas por gestores com MBA e sem MBA?

A explicação está na diferente resposta ao lucro por trabalhador por parte das empresas lideradas por cada tipo de gestor. As empresas lideradas por gestores sem MBA têm maior probabilidade de compartilhar quaisquer lucros excedentes com seus trabalhadores: um aumento de 10% no lucro por trabalhador está associado a um aumento de 1% nos salários. Por outro lado, nas empresas dirigidas por gestores com MBA, um aumento do lucro por trabalhador não tem qualquer impacto nos seus salários.

Por que os gestores com formação em negócios têm menos probabilidade de compartilhar os lucros de suas empresas com seus funcionários?

É porque esses indivíduos são muito exigentes, mais propensos a adotar uma linha dura com o trabalho e mais propensos a buscar pessoas diplomadas ou com práticas em gestão de negócios, focados em resultados e lucros. Esse modelo de gestão ficou mais evidente nos anos 1980, quando grande parte das empresas do mundo adotou a reengenharia e downsizing, promovendo a cultura da empresa enxuta e maximização de lucros.

Com base em sua análise de dados, os autores demonstram que a aversão a compartilhar lucros é adquirida principalmente nas escolas de MBA. Como evidência adicional, eles citam duas ideias propagadas por escolas de MBA que influenciaram os gestores de negócios nas últimas quatro décadas.

A primeira ideia é de que maximizar o valor do acionista deve ser o objetivo principal dos gestores, apresentado pela primeira vez por economistas na década de 1970, principalmente pelo economista da Universidade de Chicago e ganhador do Prêmio Nobel Milton Friedman. Em um artigo da NY Times Magazine de 1970, “A responsabilidade social das empresas é aumentar seus lucros”, Friedman escreveu:

“Em um sistema de livre iniciativa e propriedade privada, um executivo corporativo é um funcionário dos proprietários do negócio. Ele tem responsabilidade direta com seus empregadores. Essa responsabilidade é conduzir os negócios de acordo com seus desejos, que geralmente serão ganhar tanto dinheiro quanto possível, em conformidade com as regras básicas da sociedade, tanto as consagradas na lei quanto as consagradas no costume ético.” Preocupações de negócios além de obter lucro – como “promover fins sociais desejáveis” ou “fornecer empregos, eliminar a discriminação, evitar a poluição e tudo o mais” equivaliam a “pregar o socialismo puro e não adulterado“.

Esses pontos de vista foram amplamente adotados pela comunidade empresarial, incluindo a Business Roundtable (BRT), — uma associação de CEOs de grandes empresas americanas. Mas diminuíram consideravelmente após a crise financeira de 2008. Em 2019, o BRT divulgou uma declaração atualizada sobre o propósito de uma corporação que se afastou de seu compromisso anterior com a primazia do acionista para agora enfatizar um “compromisso com todas as partes interessadas” e com “uma economia que serve a todos os americanos”.

A segunda ideia é nossa obsessão com eficiência econômica e corporações enxutas. A crença de que a eficiência é fundamental para a vantagem competitiva transformou a gestão em uma ciência, cujo objetivo é a eliminação do desperdício, seja de tempo, materiais ou capital, escreveu Roger Martin, professor da Universidade de Toronto, em “The High Price of Efficiency” um artigo de janeiro de 2019 na Harvard Business Review. “Por que não queremos que os gerentes se esforcem para um uso cada vez mais eficiente dos recursos?”, ele perguntou. Um foco excessivo na eficiência pode produzir efeitos negativos surpreendentes.

O problema é que, nas últimas quatro décadas, tratamos a economia como uma espécie de máquina que pode ser dividida em partes, cada uma das quais, sendo otimizadas para criar um ‘todo’ eficiente. Em princípio, o modelo pretendia produzir uma grande evolução no meio social (uma grande classe média), com uma diminuição dos resultados nas extremidades superior e inferior, correspondendo tanto às famílias mais ricas quanto às mais pobres. As famílias mais ricas fariam investimentos e pagariam impostos substancialmente mais altos que ajudariam a todos, especialmente as famílias mais pobres.

Mas, a máquina econômica não tem funcionado como esperado, ponto também levantado por Acemoglu no podcast. De 1947 a 1976, a renda média das famílias americanas cresceu mais de 2,4% CGR. Como resultado, a renda familiar mediana dobrou em uma geração de 30 anos. Mas, de 1977 a 2019, a renda média cresceu apenas 0,6% CGR, o que significa que a renda familiar média aumentou apenas 31% nos últimos 42 anos.

“Na medida em que as escolas de negócios foram a vanguarda dessas ideias que se tornaram mais difundidas entre os gestores e foram propagadas por consultores de gestão, nossas estimativas devem ser vistas como limites inferiores sobre os efeitos dessas práticas de gestão”, observou o artigo do NBER. “Se assim for, tanto nos Estados Unidos quanto na Dinamarca, as práticas de gestão que priorizam o retorno para o acionista e o corte de custos podem ter contribuído significativamente para o declínio da participação de lucros ao trabalhador e para a desaceleração dos salários.”

No final do podcast, Dubner perguntou a Acemoglu o que ele diria aos alunos de um curso de MBA se fossem convidados a ministrar um curso sobre o impacto dos líderes na estagnação salarial.

“Eu sugeriria dois caminhos para uma reflexão mais aprofundada”, disse Acemoglu. “Por mais poderoso que seja um líder empresarial – ou um líder político, ou até mesmo um ditador – seu poder está embutido nas normas da sociedade. Se as normas da sociedade não forem permissivas, ele não será capaz de fazer esse tipo de coisa. O símbolo das forças de que estamos falando são pessoas como Jack Welch. Jack Welch era tão poderoso quanto qualquer CEO seria, e ele é um exemplo de CEOs que cortaram salários. Mas Jack Welch não teria sido capaz de fazer o que fez se a sociedade, amigos e vizinhos, seus acionistas – não aceitassem as políticas e o estilo de gestão que ele trouxe”.

“E segundo, eu sugeriria rever o que realmente ensinamos às pessoas nessas instituições, sobre posições de poder? precisamos voltar aos programas de estudos, voltarmos às dicas que as pessoas recebem nas escolas de negócios ou em outros ambientes semelhantes, incluindo talvez em empresas de consultoria de gestão.”

20/05/2023

Previsões para um mundo imprevisível

No final de 2022, o The Economist publicou a matéria “The World Ahead 2023”, sua edição anual de fim de ano que examina as tendências e eventos que provavelmente moldarão o próximo ano. Há dois anos, “O Mundo em 2021” dizia que deveríamos esperar incertezas no próximo ano, dadas as interações entre a ainda florescente pandemia de covid-19, recuperação econômica desigual e geopolítica turbulenta. No ano passado, “O Mundo em 2022” disse que 2022 seria um ano de ajuste a novas realidades em áreas como trabalho e viagens sendo reformuladas pela pandemia, e como tendências mais profundas, a ascensão da China e a aceleração das mudanças climáticas.

“Depois de dois anos, em que a pandemia moldou o futuro imediato, o principal fator agora é a guerra na Ucrânia”, disse Tom Sandage, editor das edições anuais da World Ahead. “Nos próximos meses, o mundo terá que lidar com a imprevisibilidade do impacto do conflito na geopolítica e na segurança; a luta para controlar a inflação; caos nos mercados de energia; e o caminho pós-pandêmico incerto da China. Para complicar ainda mais, todas essas coisas estão fortemente conectadas, como engrenagens.”

E estas foram as principais tendências apontadas para 2023:

1. Olhos voltados para a Ucrânia – “Preços de energia, inflação, taxas de juros, crescimento econômico, escassez de alimentos – tudo depende de como o conflito se desenrolará nos próximos meses“.
2. Recessões se aproximam – “As principais economias entrarão em recessão à medida que os bancos centrais aumentam as taxas de juros para sufocar a inflação, um efeito colateral da pandemia que inflou os preços da energia”.
3. O lado positivo do problema climático – “A guerra acelerará a mudança para energias renováveis como uma alternativa mais segura aos hidrocarbonetos.”
4. Pico da China? – “Com a população da China em declínio e sua economia enfrentando turbulências, espera-se muita discussão sobre se a China atingiu o pico.”
5. América dividida – “As divisões sociais e culturais sobre aborto, armas e outras questões controversas continuam a aumentar.”
6. Pontos de focos – “O foco intenso na guerra na Ucrânia aumenta o risco de conflito em outros lugares.”
7. Mudança de alianças – “Em meio a mudanças geopolíticas, as alianças estão respondendo. A OTAN, revitalizada pela guerra na Ucrânia, receberá dois novos membros.”
8. Turismo de vingança – “À medida que os viajantes se envolvem no turismo de ‘vingança’ pós-bloqueio, os gastos dos viajantes quase retomarão níveis de 2019.”
9. Verificação da realidade do metaverso – “A ideia de trabalhar e jogar em mundos virtuais vai pegar além dos videogames?”
10. Ano novo, jargão novo – “Nunca ouviu falar em chave-mestra? … os nimbys estão fora e os yimbys estão dentro; as criptomoedas não são legais e a criptografia pós-quântica é tendência; mas você pode definir um conflito congelado, ou synfuel?”

Vou comentar três dessas tendências.

Um novo sistema global de energia está surgindo

“Em 2022, o apagão de energia causou caos na Europa e em grande parte do mundo, alimentando a inflação e tornando mais provável uma recessão”, escreveu The Economist. “Em setembro de 2022, 1/3 da inflação do mundo rico foi atribuído à energia. O corte do fornecimento de gás à Europa por Vladimir Putin forçou empresas e consumidores a reduzir o consumo em 10% ano sobre ano e provocou temores de desindustrialização. … À medida que os países correm para garantir seus suprimentos de energia, eles estão voltando para os combustíveis fósseis.”

O artigo acrescenta que há um raio de esperança nesse problema de energia. A guerra árabe-israelense de 1973 levou a uma grande crise do petróleo, quando vários países produtores de petróleo do Oriente Médio cessaram as exportações por cinco meses para os EUA e outros países que apoiaram Israel no conflito. O embargo do petróleo gerou longas filas nos postos de gasolina, aumentou os preços do petróleo em 300%, encerrou o período pós-Segunda Guerra Mundial de prosperidade no Ocidente e levantou uma série de ameaças à segurança energética global.

Mas a crise do petróleo de 1973 também desencadeou uma busca por independência energética no Ocidente, levando a grandes investimentos em novas fontes de energia em todo o mundo, bem como a busca por alternativas, como a nuclear. Desde 1977, a produção de petróleo bruto e gás natural aumentou 32% e 81%, respectivamente, nos EUA.

Espera-se agora que o problema energético de 2022 acelere a mudança para fontes renováveis de energia. “Em 2023, o mundo ainda enfrentará mercados instáveis de petróleo e gás, mas também redobrará seus esforços para criar um sistema de energia mais barato, mais limpo e mais seguro”, prevê o The Economist.

Renováveis 2022”, um relatório da Agência Internacional de Energia confirma esta previsão. “A crise global de energia desencadeou uma busca sem precedentes de fontes de energias renováveis, com o mundo pronto para gerar tanta energia renovável nos próximos 5 anos quanto nos últimos 20”, disse o relatório. “A capacidade solar fotovoltaica global [tecnologia fotovoltaica] deve quase triplicar no período 2022-2027, superando o carvão e se tornando a maior fonte de capacidade de energia do mundo. … A capacidade eólica global quase dobra no período de previsão, com projetos offshore respondendo por um quinto do crescimento. Juntas, a energia eólica e a solar representarão mais de 90% da capacidade de energia renovável adicionada nos próximos cinco anos.”

As empresas enfrentarão um mix tóxico de altos custos e baixa demanda

“A Geopolítica fervilha: guerra, pandemia: qualquer um que tenha liderado uma empresa nos altos e baixos da década de 2020 até agora provavelmente sente que já viu de tudo”, escreveu The Economist. “Agora eles devem se preparar para lutar contra outro inimigo – o monstro da alta inflação e da estagnação econômica.”

Os últimos anos foram caóticos. De cadeias de suprimentos a locais de trabalho híbridos, tem sido muito difícil prever como será o ambiente de negócios no novo normal pós-pandemia. A principal área de concordância é que a pandemia acelerou as transformações digitais que as empresas foram forçadas a fazer para ajudá-las a lidar com a crise. “Bem-vindo ao futuro – não 2021, como você esperava, mas 2025, ou mesmo 2030, dependendo de quem você perguntar”, escreveu The Economist há dois anos em “The World in 2021”.

Além disso, após anos de inflação baixa, as empresas agora têm de lidar com altas taxas de juros e alta inflação. Apesar dos custos mais altos, a demanda do consumidor permaneceu forte. “Isso ajudou os lucros das empresas americanas a atingir um recorde durante o ano.”

Em 2023, os salários e outros custos deverão manter-se elevados. E a inflação contínua e as altas taxas de juros podem levar a uma queda na demanda do consumidor e começar a afetar a economia. “Não é de se admirar, então, que 39% dos diretores financeiros pesquisados pela Deloitte, em agosto de 2022, disseram esperar que a América esteja em um período de estagflação em 2023, e 46% esperam uma recessão.”

“Assim como outros desafios enfrentados nos últimos anos, algumas empresas emergirão em melhor forma do que outras. Os chefes que comandam os custos crescentes e participação de mercado em colapso serão expulsos por investidores insatisfeitos. Mas aqueles que saem vitoriosos desta última luta corporativa terão suas reputações melhoradas.”

A China atingiu o seu auge?

Em 2000, o PIB da China era de US$ 1,2 trilhão, enquanto o PIB dos Estados Unidos era de pouco mais de US$ 10 trilhões. Mas em 2021, o PIB da China subiu para US$ 17,7 trilhões, em comparação com os US$ 23 trilhões dos Estados Unidos. “Na trajetória atual, ultrapassará os EUA dentro de uma década”, disse “A Grande Rivalidade Econômica: China x Estados Unidos.”, um artigo da Harvard Kennedy School. “Pelos critérios que CIA e FMI julgam ser a melhor métrica para comparar economias — a paridade do poder de compra [medida que leva em conta o poder de compra de bens e serviços na moeda de cada país] — a China já ultrapassou os EUA para se tornar a maior economia do mundo.”

“No entanto, uma série de dificuldades que cercam o gigante asiático, algumas das quais autoinfligidas, atrasarão o dia em que ultrapassará a América”, escreveu The Economist neste artigo. “Um número crescente de economistas agora acha que esse dia pode nunca chegar.”

As dificuldades autoinfligidas da China incluem sua política draconiana de covid zero, que respondeu a todos os surtos com bloqueios severos que sufocaram a economia e agora estão sendo afrouxados. O mercado imobiliário está em crise. Uma economia socialista mais controlada pelo Estado tem imposto suas opiniões sobre como os negócios devem ser administrados. E regulamentações agressivas diminuíram a inovação e o dinamismo do setor privado no anteriormente próspero setor de tecnologia. “A economia da China expandiu impressionantes 8,1% em 2021, mas terá sorte se crescer até 3% este ano.”

A longo prazo, a demografia também está trabalhando contra a China, em grande parte baseada na política do filho único em vigor entre 1980 e 2015. “Em 2023, a população da China, atualmente cerca de 1,4 bilhão, provavelmente começará a encolher, e a Índia a superará como o maior país mais populoso. Durante anos, a proporção de idosos na China vem aumentando, enquanto a força de trabalho diminui. Isso também reduziu o crescimento econômico e colocou um fardo enorme sobre os jovens”.

“Em retrospecto, a pandemia marcou o fim de um período de relativa estabilidade e previsibilidade na geopolítica e na economia”, escreveu o editor da World Ahead, Tom Sandage, em conclusão. “O mundo de hoje é muito mais instável, convulsionado pelas vicissitudes da rivalidade entre grandes potências, os tremores secundários da pandemia, turbulência econômica, clima extremo e rápidas mudanças sociais e tecnológicas. A imprevisibilidade é o novo normal. Não há como fugir disso.”

16/08/2022

Inteligência Artificial segura, controlável e compatível com humanos

“Mesmo em seu estado atual, a tecnologia da inteligência artificial levanta muitas preocupações à medida que passa da pesquisa para o uso generalizado”, escreveu Stuart Russell, professor da UC Berkeley, em um ensaio recente, If We Succeed. “Essas preocupações incluem possíveis usos indevidos, como crimes cibernéticos, vigilância, desinformação e manipulação política; a exacerbação da desigualdade e de muitas formas de preconceito na sociedade; a criação e implantação de armas autônomas letais; e a usurpação dos papéis humanos na economia e nas relações sociais”.

“Minha preocupação aqui, no entanto, é com as possíveis consequências do sucesso na criação de IA de propósito geral: ou seja, sistemas capazes de aprender rapidamente a ter um desempenho de alto nível em qualquer ambiente de tarefa em que humanos (ou coleções de humanos) possam ter um bom desempenho.” Décadas atrás, Alan Turing expressou uma preocupação semelhante. Ao responder a uma pergunta durante uma palestra em 1951, Turing disse: “Parece provável que, uma vez iniciado o método de pensamento da máquina, não demoraria muito para superar nossos fracos poderes. … Em algum momento, portanto, devemos esperar que as máquinas assumam o controle.” Ao longo da última década, várias figuras públicas como Stephen Hawking e Nick Bostrom argumentaram que uma IA superinteligente pode se tornar difícil ou impossível para os humanos controlarem, e pode até representar uma ameaça existencial para a humanidade.

Até recentemente, não precisávamos nos preocupar com as consequências de tais IAs sobre-humanas porque os aplicativos de IA não eram tão inteligentes e eram principalmente confinados a laboratórios de pesquisa. Mas, sistemas de IA poderosos agora igualaram ou superaram os níveis humanos de desempenho em várias tarefas específicas de aplicativos, como reconhecimento de imagem e fala, classificação de câncer de pele, detecção de câncer de mama e jogos complexos como Jeopardy e Go. Embora esses avanços específicos de aplicativos – geralmente chamados de IA suave ou estreita – já tenham sido vistos como domínio exclusivo dos humanos, a IA ainda carece da inteligência humana mais profunda e de propósito geral que há muito é medida em testes de QI.

“A IA de uso geral tem sido o objetivo de longo prazo do campo desde o seu início”, observou Russell. “Dados os enormes níveis de investimento em pesquisa e desenvolvimento de IA e o influxo de pesquisadores talentosos no campo, é razoável supor que avanços fundamentais continuarão a ocorrer à medida que encontrarmos novas aplicações para as quais as técnicas e conceitos existentes são inadequados. … Os benefícios potenciais da IA de uso geral seriam muito maiores do que os de uma coleção de sistemas de IA restritos e específicos de aplicativos. Por esse motivo, a perspectiva de criar IA de uso geral está gerando investimentos maciços e rivalidades geopolíticas”.

Russell não está preocupado que sistemas de IA cada vez mais poderosos se tornem espontaneamente conscientes e decidam ferir ou eliminar humanos em algum momento no futuro. Sua preocupação é com o dano potencial que pode ser infligido por uma IA poderosa que os humanos são incapazes de controlar, não porque seja maliciosa, mas porque foi mal desenvolvida e testada inadequadamente. Vimos desastres devido a tecnologias mal desenvolvidas e gerenciadas em várias áreas, como os reatores nucleares de Chernobyl e Fukushima.

As preocupações de Russell com a IA e suas propostas para superá-las são o assunto de seu livro de 2019 Human Compatible: Artificial Intelligence and the Problem of Control, e estão bem resumidos neste periódico do NY Times e neste excelente seminário da Stanford.

De acordo com noções de longa data do comportamento humano, uma ação racional é aquela que pode ser esperada para alcançar os objetivos de alguém. Quando a IA surgiu na década de 1950, os pesquisadores tomaram emprestado essas noções de comportamento racional em humanos para definir a inteligência da máquina: uma máquina é inteligente na medida em que suas ações podem alcançar seus objetivos. Russell chama isso de modelo padrão em IA.

No entanto, diferentemente dos humanos, as máquinas não têm objetivos próprios, então cabe a nós não apenas criar as máquinas, mas definir os objetivos que queremos que elas alcancem. “Quanto mais inteligente a máquina, maior a probabilidade de completar esse objetivo.”

“Infelizmente, este modelo padrão é um erro”, disse Russell. “Não faz sentido projetar máquinas que sejam benéficas para nós apenas se anotarmos nossos objetivos de forma completa e correta.” O que acontece se as máquinas estão perseguindo os objetivos fixos que lhes demos, mas esses objetivos estão desalinhados com o benefício humano? Não há necessidade de assumir que as máquinas estão fora de controle devido a alguma consciência emergente que gerou espontaneamente seus próprios objetivos. “Tudo o que é necessário para supor uma catástrofe é uma máquina altamente competente combinada com humanos que têm uma capacidade imperfeita de especificar as preferências humanas de forma completa e correta. É por isso que, quando um gênio nos concede três desejos, nosso terceiro desejo é sempre desfazer os dois primeiros desejos.” As consequências de desencadear forças que entendemos inadequadamente foram retratadas no segmento O Aprendiz de Feiticeiro – filme clássico dos anos 1940, Fantasia.

“O modelo padrão, então, apesar de todas as suas conquistas, é um erro. O erro vem de transferir uma definição perfeitamente razoável de inteligência de humanos para máquinas. Não é racional para humanos implantar máquinas que perseguem objetivos fixos quando há uma possibilidade significativa de que esses objetivos divirjam dos nossos.” Tal futuro é quase inevitável porque há pouca chance de que possamos especificar nossos objetivos de forma completa e correta. “Na verdade, podemos perder o controle completamente, pois as máquinas tomam medidas preventivas para garantir que o objetivo declarado seja alcançado.”

Em vez disso, devemos projetar sistemas de IA que sejam benéficos para os humanos, não apenas inteligentes. Em vez de desenvolver máquinas para atingir seus próprios objetivos, devemos adotar um modelo de IA diferente: as máquinas são benéficas na medida em que suas ações podem alcançar nossos objetivos. Isso significa que as máquinas necessariamente estarão incertas sobre nossos objetivos, sendo obrigadas a persegui-los em nosso nome. Essa chance pode parecer pequena, mas é crucial.

“A incerteza sobre os objetivos pode parecer contraproducente, mas na verdade é uma característica essencial de sistemas inteligentes seguros. Isso implica que não importa o quão inteligentes elas se tornem, as máquinas sempre se submeterão aos humanos. Eles pedirão permissão quando apropriado, aceitarão a correção e, o mais importante, permitirão que sejam desligados – precisamente porque querem evitar fazer o que quer que dê aos humanos uma razão para desligá-los. Uma vez que o foco mude da construção de máquinas inteligentes para aquelas que são benéficas, controlá-las se tornará uma tarefa muito mais fácil.”

Colocar esse modelo em prática exigirá muita pesquisa nas próximas décadas, disse Russell em conclusão. “Isso não será fácil. Mas está claro que esse modelo deve estar em vigor antes que as habilidades da IA. sistemas excedem os humanos nas áreas que importam. Se conseguirmos fazer isso, o resultado será uma nova relação entre humanos e máquinas, que espero que nos permita navegar com sucesso nas próximas décadas.”

12/04/2022

O impacto do Open Source na economia

Na década de 1990, o Sistema em código aberto era visto como uma abordagem experimental para o desenvolvimento de software usado principalmente por pesquisas e comunidades acadêmicas em projetos emergentes como Internet e Linux. Desde então, o código aberto evoluiu para se tornar um modelo bem aceito de produção econômica em quase todas as comunidades do setor público e privado em todo o mundo. Mas, embora amplamente utilizado, qual tem sido o impacto econômico do código aberto às nações e às empresas? Esta questão foi abordada em um estudo sobre o impacto do código aberto na economia europeia. “A crescente relevância do Open Source (OS) durante as últimas duas décadas exige uma atualização de uma análise aprofundada de seu papel atual e seu potencial para a economia europeia”, disse a Comissão Europeia (CE) em seu relatório sobre O impacto do software e hardware de código aberto na independência tecnológica, competitividade e inovação na economia da UE. “Enquanto o software de código aberto (OSS) se tornou popular em todos os setores da indústria de software nos últimos 20 anos, o hardware de código aberto (OSH) ainda está em uma fase emergente. No entanto, o ecossistema de negócios para OSH está se desenvolvendo.”

A CE realizou uma análise abrangente dos usos comerciais, custos e benefícios de OSS e OSH. “Com base nessas informações, o estudo avalia o potencial da União Europeia (UE) para atingir seus objetivos políticos (incluindo crescimento econômico, maior competitividade, inovação e criação de empregos) por meio do uso, promoção e apoio de OSS e OSH.” O relatório inclui uma análise detalhada e quantitativa do custo-benefício e do impacto econômico dos investimentos em código aberto; inclusive, uma pesquisa foi conduzida, com opiniões de mais de 900 partes interessadas; uma série de estudos de caso concretos; e várias recomendações de políticas públicas à CE e aos países membros da UE.

1. Análise de custo-benefício. “Com base em informações de domínio público, as empresas localizadas na UE investiram cerca de € 1 bilhão em OSS em 2018.” O relatório explicou como chegou a essa estimativa. Em 2018, havia pelo menos 260.000 colaboradores de OSS no GitHub e mais de 3,1 milhões de desenvolvedores de software nos países da UE. Esses contribuidores de OSS fizeram mais de 30 milhões de commits no Github, o que representa um investimento em pessoal de cerca de 16.000 posições de trabalho em tempo integral (FTE). Com base nos custos médios de mão de obra da UE, 16.000 FTEs representam um investimento de 1 bilhão de euros. “A análise econométricas dos dados do PIB dos Estados Membros da UE indica que em 2018, em todos os Estados Membros, o impacto econômico do OSS foi entre € 65 e € 95 bilhões.” Com base nessa análise, o estudo estimou que um aumento de 10% nas contribuições do OSS geraria um PIB adicional à UE, por ano, entre 0,4% e 0,6%. Em 2018, o PIB da UE foi de € 15.900 bilhões, portanto, um aumento do PIB de 0,4% – 0,6% corresponde a um aumento de € 65 – € 95 bilhões. “No geral, os benefícios do Open Source superam em muito os custos associados a ele.” De acordo com o estudo, em 2018 “a contribuição do OSS para o PIB da UE e as contribuições dos funcionários da UE para o OSS geram uma relação custo-benefício ligeiramente acima de 1:10. Depois de levar em conta o hardware e outros custos de capital dos 260.000 contribuintes da UE para o OSS, a relação custo-benefício ainda está ligeiramente acima de 1:4.” A metodologia desta análise de custo-benefício é explicada em detalhes no relatório da CE.

2. Informações da pesquisa. Além da análise quantitativa, o estudo recolheu e analisou os pontos de vista das partes interessadas da UE sobre o impacto do OSS e OSH. A pesquisa recebeu respostas de mais de 900 empresas e desenvolvedores. A maioria dos entrevistados estava envolvida em projetos OSS como usuários, desenvolvedores ou provedores de serviços, com apenas um pequeno número envolvido no desenvolvimento de OSS. A pesquisa mostrou que as principais motivações para se envolver em código aberto foram encontrar soluções técnicas, evitar o aprisionamento de fornecedores, avançar no estado da arte da tecnologia, desenvolver código de alta qualidade e buscar e criar conhecimento. Outras motivações incluíam economia de custos, redução dos esforços internos de manutenção, acesso a código livre de royalties e aumento do retorno dos investimentos em P&D. Além disso, a pesquisa descobriu que os indivíduos eram motivados por seus interesses pessoais em contribuir com código para comunidades de OSS. Os entrevistados individuais da pesquisa disseram que os maiores benefícios de trabalhar com grupos de OSS foram o suporte a padrões abertos e interoperabilidade, acesso aprimorado ao código-fonte, independência de fornecedores de software proprietário, acesso a uma comunidade altamente experiente e ativa e segurança e qualidade aprimoradas.

3. Estudos de caso. Para resolver a falta de dados em algumas áreas, em particular sobre OSH, o estudo realizou uma série de entrevistas. Depois elas foram filtradas e detalhadas em vários estudos de caso, incluindo:Inovação de Processo de Fabricante para Fabricante. Projetos de OSH como Arduino, MyriadRF e RepRap reúnem a academia e o movimento maker e fornecem uma ponte entre a fabricação cidadã e a indústria.
Computação e Infraestrutura de Hardware Aberta. Histórias de sucesso de SST como RISC-V e SiFive fornecem uma plataforma para inovação e exploração comercial.
Sistemas Embarcados e IoT. Projetos OSH como OpenCompute, CentOS e Yocto ajudam os desenvolvedores a incorporar computadores de uso geral em dispositivos físicos, de smartphones a carros, usando hardware de prateleira e software licenciado gratuitamente.

4. Recomendações de políticas. Com base nas análises, o estudo fez uma série de recomendações à Comissão Europeia, que incluem:Capacitação Institucional. Criar e financiar uma rede de até 20 Escritórios de Projetos de Código Aberto para apoiar e acelerar o consumo, a criação e a aplicação de tecnologias abertas.

Criação de Legitimidade. Integrar a OSS e as suas comunidades nas políticas europeias de investigação e inovação, bem como na estratégia industrial europeia; envolver-se com fundações OSS/OSH que possam oferecer uma abordagem adequada para financiamento e apoio.
Inteligência Estratégica. Expandir o Open Source Observatory – um lugar onde a comunidade OSS se reúne para aprender, encontrar soluções relevantes de software de código aberto e ler sobre o uso de código aberto e gratuito em administrações públicas em toda a Europa e fora dela; e integrar o Open Source nas atividades de coleta de dados do Eurostat.

Criação do Conhecimento. Aumentar o financiamento de P&D relacionado a projetos OSS e OSH por meio de programas existentes, como Horizon Europe, e novas iniciativas voltadas para startups de PMEs e desenvolvedores individuais; e oferecer prêmios e prêmios de pesquisa para comunidades, estudantes e professores de OSS e OSH.
Difusão de Conhecimento e Networking. Apoiar o desenvolvimento e manutenção de plataformas e repositórios OSS/OSH; e fornecer incentivos para o upload de código gerado em projetos de P&D com financiamento público.
Atividades Empreendedoras. Fornecer habilidades empreendedoras em start-ups baseadas em OSS e OSH com apoio financeiro de fundações para esses fins.
Criação de Mercado. Considerar o Open Source explicitamente nas políticas de concorrência e plataforma relacionadas à governança de comunidades de código aberto.

Desenvolvimento do Capital Humano. Promover a educação Open Source, – incluindo desenvolvimento, modelos de negócios, licenciamento e gestão, – em instituições de ensino superior; oferecer licenças de certificação para indivíduos com habilidades em OSS/OSH; e apoiar projetos de pesquisa para aumentar a diversidade de colaboradores.

Desenvolvimento de Capital Financeiro. Tratar contribuições OSS/OSH de pessoas físicas e jurídicas como doações de caridade para fins fiscais; e lançar instrumentos financeiros como fundos de capital de risco focados para ajudar as startups OSS/OSH a se unirem a empresas.

Ambiente regulatório. Promover o OSS como um importante canal de transferência de conhecimento e tecnologia; melhorar a inclusão de OSS nas compras públicas; considerar Open Source em futuras revisões da legislação europeia de direitos autorais e patentes; e financiar auditorias de segurança de projetos críticos de OSS.

O software de código aberto já está tendo um grande impacto na economia europeia e o potencial do hardware de código aberto está começando a surgir. É necessária uma abordagem abrangente e coordenação política certa para ampliar e incentivar ainda mais as produções de código aberto em benefício da economia global.

04/03/2022

É Possível estabelecer normas e responsabilidades do no Ciberespaço?

Em dezembro de 2021, o Council One Foreign Relations patrocinou um debate virtual com Joseph Nye, – ex-reitor da Kennedy School of Government de Harvard, – para discutir seu recente artigo de Relações Exteriores The End of Anarchy?: How to Build a New Digital Order. O professor Nye tem sido considerado um dos mais proeminentes pensadores estratégicos e cientistas políticos da América. Na década de 1970, ele presidiu o Grupo do Conselho de Segurança Nacional sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares e, na última década, trouxe sua experiência para o estudo de conflitos e dissuasão no ciberespaço.

A segurança cibernética é um aspecto cada vez mais importante da estratégia de segurança nacional dos EUA, incluindo o comércio global e a proteção das infraestruturas críticas. Em junho de 2021, o diretor do FBI, Christopher Wray, comparou o perigo de ataques de ransomware a empresas americanas por grupos criminosos russos aos ataques terroristas de 11 de setembro. E, em um editorial de julho, o NY Times disse que os ataques de ransomware surgiram como “uma ameaça potencial à segurança nacional”, dada “sua capacidade de perturbar seriamente as economias e violar empresas ou agências estrategicamente críticas”, instando os governos que “essa é uma guerra que precisa ser travada e vencida.”

Em uma conferência do MIT em fevereiro de 2019, perguntaram ao ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger se precisamos de acordos de controle de segurança cibernética com Rússia, China e outras nações; semelhantes aos acordos de controle de armas nucleares que ele passou tanto tempo negociando durante a Guerra Fria. O Dr. Kissinger respondeu que para que o controle de armas fosse eficaz, os dois lados precisavam compartilhar informações e concordar com as inspeções. Mas esses mecanismos são mais difíceis de aplicar no mundo digital, porque a transparência que era essencial para o controle de armas seria muito difícil de estabelecer para ameaças cibernéticas. Além disso, embora os controles de armas físicas sejam relativamente explicáveis e negociáveis, a variedade e a velocidade dos ataques cibernéticos tornam muito mais difícil de se desenvolver acordos e controles adequados.

“Ataques de ransomware, interferência em eleições, espionagem corporativa, ameaças às redes elétricas: com base nas manchetes atuais, parece haver pouca esperança de trazer ordem à anarquia do ciberespaço”, escreveu Nye em The End of Anarchy. “As implacáveis notícias ruins pintam um quadro de um mundo online sem governo que está se tornando mais perigoso a cada dia – com implicações sombrias não apenas para o próprio ciberespaço, mas também para economias, geopolítica, sociedades democráticas e questões básicas de guerra e paz.”

Os ataques cibernéticos são um novo tipo de conflito. Embora as defesas inadequadas do setor privado possam impactar significativamente a segurança nacional, os sistemas de TI são, em sua maioria, de propriedade privada e, ao contrário das armas convencionais ou nucleares, os militares não os controlam. Além de setores regulamentados, como finanças e assistência médica, cabe às empresas tomar decisões sobre seus investimentos e controles de segurança cibernética.

“A dissuasão deve ser parte das abordagens, mas a dissuasão cibernética parece ser diferente das formas mais tradicionais e familiares de dissuasão que Washington pratica há décadas. Um ataque nuclear é um evento singular, e o objetivo da dissuasão nuclear é evitar sua ocorrência. Em contraste, os ataques cibernéticos são numerosos e constantes, e dissuadi-los é mais como dissuadir o crime comum: o objetivo é mantê-lo dentro dos limites. As autoridades detêm o crime não apenas prendendo e punindo pessoas, mas também por meio do efeito educacional de leis e normas, patrulhando bairros e policiamento comunitário. Dissuadir o crime não requer a ameaça de uma nuvem de cogumelo atômico.”

Dadas essas realidades, “qualquer sugestão de que é possível criar regras de trânsito no ciberespaço tende a ser recebida com ceticismo: os atributos centrais do ciberespaço, tornam quase impossível impor quaisquer normas ou mesmo saber se elas estão sendo violados em primeiro lugar”, disse Nye. “Os Estados que declaram seu apoio às normas cibernéticas realizam simultaneamente operações cibernéticas em larga escala contra seus adversários.” Para os céticos, isso é uma evidência de que “estabelecer normas para o comportamento responsável do Estado no ciberespaço é um sonho impossível. No entanto, esse ceticismo revela um mal-entendido sobre como as normas funcionam e são fortalecidas ao longo do tempo”.

As normas sociais são os entendimentos não escritos e informais que governam o comportamento dos membros de um grupo ou cultura. Mesmo que não explicitamente codificadas em regras ou leis, as normas sociais fornecem ordem e previsibilidade.

É possível estabelecer normas para o comportamento responsável do Estado?

Sim, argumenta Nye. “As normas criam expectativas sobre o comportamento que tornam possível responsabilizar outros Estados. As normas também ajudam a legitimar as ações sociais e ajudam os estados a recrutar aliados quando decidem responder a uma violação. E as normas não aparecem de repente ou começam a funcionar da noite para o dia. A história mostra que as sociedades levam tempo para aprender como responder às grandes mudanças tecnológicas disruptivas e estabelecer regras que tornem o mundo mais seguro contra novos perigos.”

O artigo cita vários exemplos de normas de comportamento do Estado ao longo da história: depois de muitas décadas, a Europa e os EUA desenvolveram normas contra a escravidão no século XIX; em 1963, o Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares proibiu testes de armas nucleares na atmosfera, debaixo d’água e no espaço sideral; e em 1975, a Convenção de Armas Biológicas proibiu o desenvolvimento, produção e uso de armas biológicas.

“Embora a cibertecnologia apresente desafios únicos, as normas internacionais para reger seu uso parecem estar se desenvolvendo da maneira usual: lenta mas constantemente, ao longo de décadas. À medida que se firmarem, essas normas serão cada vez mais críticas para reduzir o risco que os avanços da cibertecnologia podem representar para a ordem internacional, especialmente se Washington e seus aliados e parceiros reforçarem essas normas com outros métodos de dissuasão. Embora alguns analistas argumentem que a dissuasão não funciona no ciberespaço, essa conclusão é simplista: funciona de maneiras diferentes do que no domínio nuclear.”

Por que os estados abraçariam tais normas de comportamento?

Nye cita várias razões: coordenação, prudência, custos de reputação e pressão dos pares.

Coordenação. “Expectativas comuns inscritas em leis, normas e princípios ajudam os estados a coordenar seus esforços.” Por exemplo, embora não ratificada universalmente, quase todos os estados tratam a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar como direito internacional consuetudinário para resolver disputas em águas internacionais. Os benefícios da cooperação no ciberespaço ficaram evidentes nas poucas ocasiões em que a ICANN, – o sistema de nomes de domínio da Internet, – foi hackeada. Embora os estados possam controlar o acesso à Internet dentro de seus limites, eles se abstiveram de colocar em risco a estabilidade básica da Internet global.

Prudência. “A prudência resulta do medo de criar consequências não intencionais em sistemas imprevisíveis.” Por exemplo, a crise dos mísseis cubanos de 1962, que levou o mundo à beira de uma guerra nuclear, foi um fator importante no Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares de 1963.

Custos de reputação. “Preocupações com danos à reputação e poder brando de um país também podem produzir contenção voluntária… e aumentar os custos de usar ou mesmo possuir uma arma que pode causar danos maciços.” Vimos isso com as condenações generalizadas dos regimes de Saddam Hussein do Iraque, Bashar a-Assad da Síria e Kim Jong-un da Coreia do Norte. “É difícil imaginar o surgimento de um tabu semelhante contra o uso de armas cibernéticas… Um tabu mais provável é aquele que proíbe o uso de armas cibernéticas contra alvos específicos, como hospitais ou sistemas de saúde”, semelhante aos tabus existentes contra o uso de armas convencionais em civis.

Pressão dos pares. “Depois de um certo período de gestação, algumas normas chegam a um ponto de inflexão, quando cascatas de aceitação se traduzem em uma crença generalizada e os líderes descobrem que pagariam um preço alto por rejeitá-la.” Nye cita a disseminação da preocupação com os direitos humanos universais após 1945, que, embora nem sempre bem-sucedidas, pressionaram Estados autoritários a reduzir suas violações de direitos humanos. Da mesma forma, nas últimas duas décadas, a pressão dos colegas levou ao aumento da aceitação da igualdade no casamento em todo o mundo.

O que deve ser feito quando ‘o cyberespaco’ de um país for atacado/invadido?

Acordos sobre ‘onde e como traçar linhas fronteiriças’ e o que fazer quando forem cruzadas, são difíceis de alcançar. “Ao invés de fazer uma pergunta sim ou não, os críticos argumentam que o foco (e qualquer advertência subsequente contra tais ações) deveria estar na quantidade de dano causado, não nas linhas precisas que foram cruzadas ou como as violações foram realizadas.”

“No ciberespaço, o ‘tamanho único’ não serve para todos”, escreveu Nye em conclusão. “Grupos de democracias podem estabelecer um padrão mais alto para si mesmos, concordando com normas relacionadas à privacidade, vigilância e liberdade de expressão e aplicando-as por meio de acordos comerciais especiais que dariam preferência àqueles que atendem aos padrões mais altos. A diplomacia entre as democracias sobre essas questões não será fácil, mas será uma parte importante da estratégia… Essa estratégia também deve incluir o desenvolvimento de normas com o objetivo de longo prazo para proteger ‘o velho teto de vidro’ da democracia, das novas pedras da era da Internet.”

23/01/2022

Segurança cibernética & conformidade regulatória

As ameaças à segurança cibernética aumentaram significativamente desde março de 2020, quando grande parte da economia foi forçada a estar online para nos ajudar a lidar com a crise do Covid, incluindo vários ataques cibernéticos que partiram de grupos criminosos internacionais. Em junho passado, o diretor do FBI, Christopher Wray, comparou o perigo de ataques de ransomware a empresas americanas por grupos criminosos russos, aos ataques terroristas de 11 de setembro. Quando Biden e Putin se encontraram em Genebra algumas semanas depois, o controle de armas cibernéticas estava no topo da agenda, um ponto anteriormente ocupado pelo controle de armas nucleares.

Está claro, já há algum tempo que, em um mundo cada vez mais governado por dados e transações digitais, nossos métodos de segurança cibernética existentes estão longe de serem adequados. Para ampliar os debates sobre essa área tão importante, o CAMS, uma iniciativa interdisciplinar de segurança cibernética do MIT, em um seminário recente, apresentou informações muito interessante sobre conformidade e segurança cibernética da afiliada de pesquisa do CAMS, Angelica Marotta. Seu seminário foi baseado em Convergência e divergência de conformidade regulatória e segurança cibernética, um artigo recente que ela escreveu em coautoria com o professor do MIT Stuart Madnick.

Na abertura do seminário, Marotta incluiu definições de segurança cibernética e conformidade que destacam seus diferentes objetivos:A área de segurança cibersegurança é responsável pelos “procedimentos internos estabelecidos por uma empresa para melhorar a segurança de suas operações”.A área de conformidade é responsável pelas “regulamentações externas estabelecidas por governos ou grupos industriais que devem ser cumpridas”.

Hoje, para ter sucesso, toda organização precisa estar em conformidade e ter cibersegurança. Mas, até que ponto a conformidade ajuda ou atrapalha a segurança de uma organização, continua sendo uma questão muito importante.

A conformidade regulatória é um tópico extenso que varia de acordo com o setor e a localização geográfica.

“Compliance em relação à segurança cibernética é uma disciplina relativamente recente que se concentra nos processos e comportamentos das pessoas que visam prevenir e reduzir riscos em diferentes áreas e indústrias”, escreveram Marotta e Madnick em seu artigo. “A necessidade de regulamentação da segurança cibernética decorre principalmente do desejo de certeza no que é percebido como um campo imprevisível.”

“Os últimos anos foram muito críticos para muitas empresas em relação às suas necessidades de segurança cibernética”, acrescentaram. “Os recentes eventos cibernéticos – em vários setores – expuseram circunstâncias em que a má gestão regulatória e regulamentações ineficazes contribuíram para consequências negativas significativas. O aumento da conscientização gerou conversas sobre a importância de estar em conformidade com os padrões atuais de segurança cibernética.”

Estar em conformidade não é necessariamente o mesmo que estar seguro.

A conformidade, por si só, não substitui um programa eficaz de segurança cibernética. Para entender o impacto dos fatores de conformidade na segurança cibernética em diferentes setores, Marotta e Madnick conduziram oito estudos de caso de empresas americanas e europeias de 5 setores: serviços financeiros, biofarmacêuticos, serviços públicos, eletricidade e comunicações. Os oito estudos de caso e sua metodologia de pesquisa são descritos em detalhes no artigo.

Os dados para esses estudos de caso foram coletados por meio de entrevistas com membros do C-suite, especialistas no assunto e funcionários em diferentes partes da organização, bem como com reguladores, para capturar suas percepções e experiências. As entrevistas forneceram perspectivas sobre procedimentos e questões do ponto de vista dos reguladores e das organizações reguladas.

Como primeiro passo para cada estudo de caso, foram identificaram as principais partes interessadas que podem afetar ou são afetadas pelo sistema regulatório. Embora existam vários tipos diferentes de partes interessadas, foram eleitas as que geralmente se enquadram em uma das seis categorias:Jurídico e conformidade incluem os “executores internos” que lidam com a supervisão do gerenciamento de conformidade, obrigações legais, auditorias internas e desenvolvimento de políticas; e os “executores externos” como reguladores, governos, associações industriais, auditores externos e instituições financeiras.Liderança e governança incluem as principais pessoas que lidam com o alinhamento dos requisitos de conformidade com as necessidades de negócios, riscos organizacionais, processos, projetos e pessoas.Profissionais de segurança ajudam as organizações a traduzir a conformidade em segurança real e incluem CISOs, gerentes de segurança de TI, analistas de segurança de TI, gerentes de suporte de TI e gerentes de risco.Profissionais de finanças, CFOs, gerentes financeiros, gerentes de orçamentos, que estão responsáveis por decidir como investir dinheiro de maneira consistente e em conformidade, em segurança cibernética.Countries Managers e outros atores, que não os do governo nacional e local, – como organizações intergovernamentais e não governamentais, organizações privadas e indivíduos – todos interagem de maneiras a promover regulamentos e acordos.Partes Internacionais interessadas, que incluem uma variedade de governos, ONGs e organizações privadas, que se esforçam para desenvolver uma estrutura de conformidade regulatória global realista.

“É importante notar que as partes interessadas geralmente têm objetivos e prioridades diferentes, muitas vezes conflitantes, dependendo de sua perspectiva de conformidade e do papel que desempenham”, disseram os autores. “A maioria das questões derivadas da análise dos casos, surgem quando os interesses das categorias de partes interessadas não são adequadamente equilibrados ou harmonizados.”

Depois de analisar as várias questões que surgiram em cada estudo de caso, Marotta e Madnick identificaram cinco problemas principais:

Má supervisão e gerenciamento de conformidade. “Os problemas de gerenciamento mais comuns enfrentados pelas organizações, envolvem lidar com vários regimes de conformidade e coordenar ações internas e externas para relatar os resultados de conformidade. … Há um equilíbrio muito delicado na relação entre as necessidades regulatórias e da indústria. … Essa divergência decorre da falta de conhecimento que está disponível para os auditores em oposição àqueles que realmente trabalham nos sistemas.”

Dificuldade em desenvolver e implementar regulamentos. “Regulações excessivamente complexas e numerosas contribuem para o aumento do desalinhamento entre as metas regulatórias e de segurança. … A maioria dos participantes relatou uma experiência geralmente negativa em relação à interpretação correta dos requisitos de conformidade. Os exemplos mais comuns incluíram problemas associados a informações regulatórias fragmentadas ou pouco claras, regulamentos desatualizados e linguagem excessivamente técnica”.

Alocação adequada de recursos e orçamento. “Os orçamentos e os recursos necessários para as funções de conformidade estão profundamente interligados em uma organização… um desafio de conformidade significativo que as organizações enfrentam é equilibrar os orçamentos diante do aumento dos custos de conformidade e segurança cibernética. … O principal problema está no fato de que as organizações não conseguem implementar uma estratégia abrangente de orçamento e avaliação de risco.”

Falta de cultura de compliance. “Papéis e responsabilidades organizacionais pouco claros parecem desempenhar um papel significativo em todos os casos. … Alinhar os funcionários à cultura de conformidade é do interesse de todas as organizações, mas pode haver dificuldades em alocar responsabilidades para estabelecer uma cultura que incentive a implementação bem-sucedida de regulamentos. … O papel do conselho é fundamental para o sucesso a longo prazo de um programa de compliance.”

Implicações geográficas causam alto risco sistêmico. “As regulamentações têm um impacto único nas organizações e nos atores globais ligados às suas operações. … Embora a maioria das regulamentações seja gerenciada localmente, seu escopo e impacto podem ser globais.” Portanto, é importante equilibrar os requisitos globais com as necessidades locais ou organizacionais.

“Depois de realizar a análise comparativa, uma maneira de analisar o complicado dilema segurança cibernética versus conformidade é que conformidade e segurança cibernética são ‘falhas’, mas por razões diferentes”, escreveram os autores. “A cibersegurança e a conformidade têm objetivos semelhantes em relação à proteção de dados e ativos por meio do gerenciamento de riscos. Ambos tratam de medidas e controles para reduzir o risco. No entanto, os casos sugerem que a conformidade é impulsionada principalmente pelo risco de aplicação, enquanto a segurança cibernética geralmente é impulsionada pelo risco comercial.”

Marotta terminou sua apresentação com três recomendações concretas para ajudar a resolver esses vários problemas e questões:Impulsione a harmonização nos níveis organizacional local e internacional, estabelecendo estruturas que mapeiam vários requisitos de conformidade.Tenha uma visão realista dos riscos aceitáveis ao analisar exposições, penalidades legais, questões comerciais / financeiras e segurança cibernética.Alinhe os interesses de todas as partes interessadas em programas que não apenas fortalecem a segurança cibernética, mas também integram conformidade e segurança à cultura da organização.

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Introdução Lançado em 2005 por W. Chan Kim e Renée Mauborgne, A Estratégia do Oceano Azul revolucionou o pensamento estratégico...