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09/12/2023

Redes sociais

Você é viciado em mídias sociais?

Não seria uma surpresa. Com tantos aplicativos diferentes disponíveis, Snapchat, TikTok e o mais recente, Threads, é fácil passar muito mais tempo na tela do smartphone do que o necessário.

Sim. É difícil admitir, mas grande parte dos jovens já apresenta um perfil de pessoa viciada. Muitos, definitivamente, passam mais tempo nas redes sociais do que é necessário. Muitos estudos que analisam o comportamento e como as redes sociais afetam a saúde mental, já apontam como estes aplicativos, que parecem inocentes, podem ser tão viciantes quanto qualquer jogo de azar.

Uma pesquisa nos EUA descobriu que adolescentes que passam mais de três horas por dia nas redes sociais têm o dobro do risco de desenvolver depressão e ansiedade. Adolescente é alguém com idade entre 10 e 19 anos, entre a infância e a idade adulta. Não é de admirar que os pais estejam preocupados. Para ajudar nisso, os EUA estão atualmente em processo de regulamentação de aplicativos de mídia social para adolescentes. Alguns cientistas acreditam que outros países deveriam fazer o mesmo. O fato é que, a maioria dos especialistas em saúde, em todo o mundo, estão passando a concordar sobre os efeitos negativos, nocivos e crônicos do uso das mídias sociais. Eles revelaram em pesquisas que as mídias sociais fazem com que o público jovem, se sintam pior em relação à imagem corporal, e 64% dos adolescentes disseram que são regularmente expostos a conteúdo baseado em ódio.

O aplicativo Snapchat é uma forma muito comum de os adolescentes se comunicarem hoje em dia. Em parte, isso ocorre porque as mensagens e fotos desaparecem após um determinado período de tempo. Mas qual a porcentagem de jovens de 13 a 24 anos nos EUA e Reino Unido que usam o Snapchat?

Muitas plataformas de mídia social, como o TikTok, funcionam mostrando e sugerindo contas e conteúdos semelhantes àqueles que alguém já pesquisou. A professora Devi Sridhar, presidente de saúde pública global da Universidade de Edimburgo, acha que isso pode ser preocupante, como relatou à BBC, no programa Inside Science:

“Isso é preocupante: há casos de meninas jovens com sérios distúrbios alimentares, em que elas mencionam – seguir orientações, do que se acredita ser, uma forma viciante de algoritmo que as ajuda a não comer, e elas gostam desse conteúdo. Esse algoritmo às mantém usando os seus smartphones, e aqui está a parte crítica, de qualquer um desses aplicativos: a receita deles vem da publicidade. Os adolescentes estão sendo alimentados com conteúdo viciante. O conteúdo é viciante porque as redes sociais usam algoritmos com a pura finalidade de viciar. Algoritmos são um conjunto complexo de regras e cálculos que priorizam e personalizam o conteúdo que o usuário vê”.

Mas precisamos lembrar que as plataformas de mídia social usam algoritmos para manter os usuários nas plataformas pelo maior tempo possível, porque a receita vem da publicidade. Receita é o dinheiro que uma empresa ganha. Eles são pagos por outras empresas para usar o espaço da mídia social para promover seus produtos.

É importante dizer aqui também que, no passado e ainda hoje, revistas, jornais, rádio e TV, também usavam tais artifícios para cativar e prender seus usuários a seus conteúdo, mas havia algum controle de veiculação deste conteúdo, seja por tempo de exposição, por idade e até mesmo pelo horário de exibição e isso não acontece com os atuais aplicativos e com as mídias sociais. Elas estão disponíveis a qualquer pessoa, a qualquer momento e sem regulamentação.

Priorizar o ganho de dinheiro em detrimento da saúde mental dos usuários, deixando a responsabilidade e a preocupação apenas para os pais é algo terrível. A professora Devi Sridhar ainda falou sobre os desafios de ter jovens viciados em mídias sociais:

“Acredito que o desafio aqui, a você, como pai, é: ao ler isso é: o que você faz a respeito. A responsabilidade realmente recaiu sobre os pais e adultos preocupados em encontrar soluções para tal condicionamento dos filhos. E isso significa debater com seu filho sobre o que você está fazendo, se está usando as mídias sociais para algo bom ou ruim, mas isso é como que, quase, uma batalha perdida porque todas as redes sociais estão assim… competindo por cada segundo de atenção, e nem sempre competindo de forma justa e honesta. Quando se trata de ajudar os adolescentes a navegar nas redes sociais, cabe aos pais a responsabilidade de encontrar soluções. O ônus significa a responsabilidade ou dever. Os pais precisam de ser capazes de desafiar os filhos, mesmo que esta seja uma batalha perdida, uma luta que não podem vencer, pois os adolescentes têm sua “vida inteira” nas redes sociais.

No começo deste post, eu Perguntei qual a porcentagem de jovens de 13 a 24 anos que usam o Snapchat? Eu mesmo me arrisquei a imaginar que seria algo em torno dos 80%. E eu errei. Na verdade, hoje, cerca de 90% das pessoas com idade entre 13 e 24 anos nos EUA e Reino Unido, usam o Snapchat – bastante assustador. Então cuidado!

Conteúdo: Isso é o que a plataforma de mídia social oferece automaticamente, e não o que você procura.

Algoritmos: são um conjunto complexo de regras e cálculos que priorizam e personalizam o conteúdo que o usuário vê.

Receita: é o dinheiro que uma empresa ganha, que pode vir de vendas ou publicidade.

E finalmente, uma batalha perdida, em teoria, é uma luta que você não pode vencer. ‘Em teoria!’

1 – Descubra qual rede social seu filho está usando e para o quê ele esta usando e como isso o afeta.

2 – Tente criar um plano familiar para uso das redes sociais.

3 – Eduque seus filhos sobre o que eles podem ver, mas tente ao máximo respeitar a privacidade dele.

4 – Incentive atividades sociais saudáveis, fora da Internet.

09/06/2022

Por que sucesso e fracasso são imprevisíveis?

“Por que os Beatles se tornaram uma sensação mundial? Por que alguns produtos culturais são bem-sucedidos e outros fracassam? Por que alguns músicos, poetas e romancistas desconhecidos, tornam-se icônicos décadas ou gerações após suas mortes? Por que o sucesso e o fracasso são tão imprevisíveis?”, essas são algumas das questões exploradas em Beatlemania, um rascunho de artigo do professor de Harvard Cass Sunstein que será publicado ainda este ano na edição inaugural do The Journal of Beatles Studies.

“De um ponto de vista, a explicação mais simples e geral é a melhor, e aponta para a qualidade, medida apropriadamente: o sucesso é resultado da qualidade, e os Beatles tiveram sucesso por causa da pura qualidade de sua música”, escreveu Sunstein. “Em outra visão, as influências sociais são críticas: o entusiasmo oportuno ou a indiferença oportuna podem fazer a diferença para todos, incluindo os Beatles, levando livros, filmes e músicas extraordinários ao fracasso, mesmo que sejam indistinguíveis em qualidade daqueles que tiveram sucesso.”

Em 1961, os Beatles eram uma banda de rock inglesa de Liverpool, sem empresário, ainda sem reconhecimento e com perspectivas modestas. Eles tentaram lançar um single de estreia, Love Me Do, mas todas as gravadoras que eles abordaram os rejeitaram e a banda chegou perto de se separar. Em janeiro de 1962, Brian Epstein tornou-se seu empresário. Epstein não tinha experiência em gerenciar artistas, mas gostava de música. Ele finalmente convenceu o produtor da EMI, George Martin a fazer um teste com a banda em junho de 1962, que apesar de sentir que eles eram “um grupo bastante modesto” com “músicas não muito boas“, concordou em assinar um contrato de gravação.

Love Me Do foi lançado no Reino Unido em outubro de 1962 e se tornou um sucesso modesto chegando ao número 17. Em 1963, a banda lançou uma série de singles, incluindo Please Please Me, From Me to You e She Loves You e seu primeiro álbum, Please, Please Me. Sua popularidade explodiu a tal ponto que a imprensa britânica começou a usar o termo Beatlemania para descrever os fãs da banda. Em fevereiro de 1964, quando os Beatles vieram aos Estados Unidos para aparecer no programa de TV Ed Sullivan, eles então se tornaram estrelas internacionais que alcançaram níveis sem precedentes de sucesso crítico e comercial.

Mas, o quê explica o sucesso espetacular dos Beatles?

De acordo com Sunstein, “não há dúvida de que o sucesso dos Beatles e a ascensão da Beatlemania envolveram uma cascata de informações”. As cascatas de informações ocorrem quando as pessoas tomam uma decisão com base apenas na decisão anterior de outras pessoas, e não em seu próprio julgamento pessoal.

“As cascatas funcionam porque as pessoas “atendem racionalmente aos sinais informativos dados pelas declarações e ações dos outros; amplificamos o volume dos próprios sinais pelos quais fomos influenciados”. As cascatas informativas são frequentemente vistas nos mercados financeiros, onde podem levar a comportamento especulativo, movimentos excessivos de preços e bolhas de mercado. “Movimentos sociais de vários tipos, incluindo modismos, modas e rebeliões (bottoms, a ascensão dos Monkees, a Primavera Árabe, #MeToo, o ataque à Teoria Racial Crítica) podem ser entendidos como um produto de efeitos em cascata.”

O artigo de Sunstein usa os Beatles e a Beatlemania como um estudo de caso concreto para explorar o impacto das influências sociais e cascatas informativas em músicas, programas de TV e outras obras culturais. “É importante ressaltar que os modelos econômicos de cascatas informacionais geralmente assumem um comportamento racional. Se alguém não sabe se um livro, um filme ou uma música é boa, pode ser razoável confiar nas opiniões dos outros, pelo menos se você confia neles (ou não desconfia deles).” É disso que se trata a sabedoria da multidão.

“Uma cascata de informações pode levar as pessoas a baixar músicas, começar a ler um livro ou ir ao cinema, mas pode realmente levar as pessoas a gostar de músicas, livros ou filmes?“, pergunta Sunstein. “A melhor resposta é não, mas é uma resposta muito simples. É verdade que se as pessoas dizem poraí que uma música é ruim ou sem graça, há uma chance de que outras pessoas não vão gostar dela, e, eventualmente, a popularidade da música diminuirá. Nesse sentido, as cascatas informacionais podem ser frágeis. Mas para músicas ou outros produtos culturais que ultrapassam um certo limite de qualidade, não podemos descartar a possibilidade de que a realidade ou a percepção de entusiasmo generalizado levem a um sucesso duradouro.”

Em seu artigo, Sunstein cita uma pesquisa do sociólogo de Princeton Matthew Salganik e seus colaboradores que visavam entender um aparente paradoxo. Embora canções de sucesso, programas de TV e outros produtos culturais sejam significativamente mais bem-sucedidos do que a média, os especialistas têm muita dificuldade em prever quais deles provavelmente terão sucesso. Para investigar esse paradoxo experimentalmente, os pesquisadores criaram um mercado artificial de música online que ofereceu a mais de 14.000 participantes a oportunidade de ouvir 48 músicas reais, mas desconhecidas, de bandas desconhecidas.

Os participantes foram aleatoriamente designados para dois grupos. Os do grupo 1, não tinham conhecimento das escolhas dos outros, do grupo 2. Os participantes do grupo 1 foram então convidados a ouvir músicas, e enquanto ouviam, eles eram convidados a atribuir uma classificação (nota), em forma de estrelas, de 1 a 5, sendo 1 estrela (odeio) e 5 estrelas (adorei), e eles poderiam fazer o download da música, se desejassem. Este primeiro grupo deu uma noção clara de quais músicas as pessoas mais gostavam.

Os participantes do grupo 2 também podiam escolher quais músicas ouvir, mas, além disso, também viam quantas vezes cada música havia sido baixada, e tinham a liberdade de usar ou ignorar essas informações ao tomar suas próprias decisões. Além disso, os participantes do grupo de influência social foram aleatoriamente designados para um dos oito subgrupos independentes e só podiam ver as escolhas feitas pelo membro de seu próprio subgrupo.

Os resultados mostraram que, se as pessoas vissem que membros de seu subgrupo haviam baixado uma música, provavelmente também fariam o download da música. A popularidade das músicas era diferente para cada um dos oito subgrupos, porque para cada subgrupo, quase qualquer música poderia acabar sendo um sucesso de fracasso principalmente com base em quais músicas foram baixadas inicialmente. Tudo dependia da popularidade inicial. No entanto, houve uma exceção ao poder de influência social. As músicas que receberam as classificações mais altas do grupo independente raramente se saíram muito mal, e as músicas com classificação mais baixa realmente se saíram muito bem. Ou seja, as músicas verdadeiramente superiores, como as dos Beatles, provavelmente acabariam fazendo sucesso simplesmente por causa de sua alta qualidade.

Para validar os resultados, Salganik e seus colaboradores realizaram um segundo experimento com um grupo diferente de cerca de 12.000 participantes. Nesse experimento, eles inverteram artificialmente as opções de download reais que os novos participantes foram mostrados, de modo que as músicas anteriormente mais populares agora eram as menos populares e as menos populares agora eram as mais populares. Eles descobriram que algumas das músicas anteriormente impopulares subiram ao topo do ranking, enquanto algumas das populares caíram, mostrando mais uma vez que as pessoas prestam muita atenção ao que as outras pessoas gostam. E, mais uma vez, eles descobriram que as melhores músicas recuperaram sua popularidade a longo prazo. Os experimentos de Salganik mostram a importância das influências sociais e cascatas de informações no sucesso ou fracasso de canções e outras obras culturais.

“Se Love Me Do não tivesse sido um sucesso, não é totalmente injusto imaginar se os Beatles teriam desfrutado de algo como o sucesso espetacular que tiveram”, observou Sunstein. “A história é executada apenas uma vez, então essa proposição é difícil de provar. Mas se e em que sentido esse sucesso foi um produto do acaso, ou contingente de fatores que são evasivos e talvez até perdidos na história, é essencialmente irrespondível.”

Inicialmente, Love Me Do recebeu críticas mistas, mas a entusiástica base de fãs do grupo em Liverpool e o trabalho incansável de Brian Epstein transformaram a música em um sucesso inesperado, iniciando uma cascata informativa. George Martin, que originalmente era cético em relação à banda, decidiu gravar um álbum de estreia, Please, Please Me, com 14 músicas, 8 das quais compostas por Lennon-McCartney. O álbum foi lançado em março de 1963 e logo alcançou o número 1 no Reino Unido, onde permaneceu por 30 semanas – algo sem precedentes. O resto é história.

“Existem muitos caminhos para o sucesso, e talvez os Beatles tivessem encontrado um”, escreveu Sunstein em conclusão. “[M] qualquer um dos fatores fortuitos não teve nada a ver com influências sociais e cascatas informativas. O envolvimento e o entusiasmo de Epstein podem ter sido essenciais (não sabemos), mas pode ser um exagero vê-lo como o equivalente funcional dos primeiros downloads (quanto exagero?) obter popularidade inicial (suficiente) em 1961 quase condenou os Beatles. Quão perto chegou? Nós não sabemos. Além disso, algo muito parecido com um grande número de downloads iniciais de Love Me Do em 1963 fez toda a diferença. Foi essencial para o sucesso dos Beatles? Nós também não sabemos disso.”

26/06/2021

Humanos versus Máquinas


No início dos anos 2000 poucas pessoas poderiam imaginar que as mensagens de texto se tornariam o centro de uma cultura onipresente de uso da Internet via smartphones e tablets. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2018, cerca de 24,3 milhões de crianças e adolescentes, com idade entre 9 e 17 anos, são usuários de internet no Brasil, o que corresponde a cerca de 86% do total de pessoas dessa faixa etária no país.

Este percentual é mais alto do que a média da população em geral [conectada], que está em torno de 70%. Isso mostra que crianças e adolescentes são um público bastante conectado à rede”,

disse Fabio Senne, coordenador de projetos de pesquisas do Cetic.br. Segundo ele, há três anos o uso da internet por esse público era 79%.

Há um incremento constante no percentual de usuários. E isso tem a ver também com as faixas etárias. Quando se chega na faixa entre 15 e 17 anos, esse percentual é ainda maior que os 86%”.

Esses números são apenas do público adolescente/jovem do Brasil. E esse público faz uma pressão por conteúdos simples, direto e instantâneo, e as mensagens de texto são a ferramenta perfeita, já desenvolvida para uma era imersa em informação, visto que não existe forma de interação digital mais simples que suas meras letras e números.

Escrita, editada e reescrita no ritmo do remetente, a aparência final de uma mensagem de texto não deixa transparecer nada de seu
processo de produção: hesitações, deslizes, atos falhos ou distrações. É, ao mesmo tempo, instantânea e atemporal, necessitando de atenção, mas sem exigi-la. Requer praticamente o mínimo possível de todos os envolvidos.

importância das mensagens de texto evidencia um fato muitas vezes
menosprezado: de que as possibilidades teóricas da tecnologia são em último caso, menos importantes do que conveniência e controle. Se existe um sinal aqui, é o de que nossa necessidade crescente por conveniência envolve o risco de
sacrificarmos o controle de uma forma diferente: nossa capacidade de exigir
mais do que o mínimo possível tanto de nós mesmos quanto dos outros.

Na produção de cinema, Tudo pelo poder, dirigido por George Clooney, membros da equipe de uma campanha presidencial são constantemente interrompidos por mensagens de texto e e-mails – realidade dos nossos tempos – e que, cada vez mais, invade todos os setores da sociedade. Milhares de mensagens de texto, não respeitam qualquer divisão de tempo e espaço que se queira impor. Como no filme, podemos acabar descobrindo que estamos colocando as “necessidades instantâneas e imediatas” acima de nossas próprias.

Já comentei sobre a importância de entender os momentos conectados e os momentos não conectados, como duas importantes fontes de recursos para nossa vida. É algo fácil de ser dito, mas bastante difícil de pôr em prática. De qualquer forma, estabelecer diferentes tipos de tempo para diferentes modos de ser é fundamental em muitas circunstâncias: não apenas em termos de se desconectar de todas as mídias, mas em perceber as diferenças entre dois desafios distintos – A melhor forma de utilizar um sistema tecnológico e a melhor forma de aproveitar a própria vida.

Vamos falar sobre uma das palavras mais repetidas de nossa era: “multitarefa”. Nesse termo, está embutido um conjunto de pressupostos que fundamenta muitas vidas modernas – a crença de que uma das maiores conveniências da tecnologia é a capacidade de executar várias tarefas simultaneamente, e que por causa disso só estamos em nossa melhor e mais eficiente forma quando conseguimos unir diversas correntes de atividade em uma.

Em março de 2007, esse pressuposto foi tema de um artigo do New York
Times. Com o título “Diminua o ritmo, bravo indivíduo multitarefa, e não leia este artigo no engarrafamento”, que revela a essência do argumento, o texto oferece uma conclusão indiscutível, em forma de conselho, e foi assinado pelo cientista cognitivo David E. Meyer, diretor do Laboratório de Cérebro, Cognição e Ação da Universidade de Michigan. Quando se trata de qualquer operação não corriqueira,

executar diversas tarefas ao mesmo tempo irá desconcentrá-lo,
aumentando suas chances de erro. (…) Adiamentos e interrupções são um mau negócio quando se trata de nossa capacidade de processar informações”.

Na realidade, o artigo sugere que a própria ideia de ser multitarefa é uma espécie de mito – afirmação confirmada por diversas pesquisas feitas por psicólogos, neurocientistas e sociólogos tanto antes quanto depois da publicação do artigo. Ao contrário das máquinas, nós humanos não temos a capacidade de dividir nossa atenção de maneira eficaz por entre múltiplas tarefas complexas. Em vez disso, nos deslocamos rapidamente de uma para outra, de forma que não estamos exatamente executando as operações simultaneamente, mas constantemente dividindo nossa atenção em pequenas porções.

Quando se trata de mensagens de texto e e-mails, isso funciona muito bem pela maior parte do tempo. Porém, se é preciso alternar essas “porções” de atenção com qualquer coisa que exija um esforço mental contínuo, nosso desempenho cai muito e rapidamente.

Por exemplo: de acordo com uma pesquisa da Microsoft, os funcionários levam em média 15 minutos para retomar “tarefas mentais complexas” depois de responder a um e-mail ou a uma mensagem de texto. Assim que são interrompidos, eles tendem a se distrair respondendo a outras mensagens ou navegando na internet.

Já em 1998, a escritora americana Linda Stone cunhou o termo

atenção parcial contínua

para descrever a noção de acompanhar informações de diversas fontes, ao mesmo tempo, em nível superficial. Essa ideia de uma atenção rasa e oscilante é provavelmente a descrição mais precisa do que muitos de nós fazemos a maior parte do tempo, em vez de sermos multitarefa: executamos uma simples operação mental de deslocamento em meio a uma enorme gama de fontes de informações, a nenhuma das quais conseguimos dar a atenção individual que uma verdadeira “tarefa” requer.

Monitorar múltiplas fontes de informação pode ser extremamente rentável em determinadas circunstâncias: quando estamos buscando dados, acompanhando os desdobramentos de um evento, coordenando um grupo de pessoas ou simplesmente procurando de forma livre por inspiração ou diversão. É uma habilidade necessária para vidas saturadas de informação. Contudo, isso não é o mesmo que dedicar integralmente sua atenção a uma atividade complexa – ou permitir que você se envolva profundamente com o lugar onde está e com as pessoas que estão ali com você. Multitarefa não é algo que a nossa mente realize com facilidade. Você consegue focar no trânsito e digitar, ao mesmo tempo? Não tente isso por favor.

Quando estou me deslocado, de ônibus, trem ou táxi, vou checando meus e-mails, escrevendo mensagens de texto, twitando e ouvindo música, estou ao mesmo tempo presente e ausente ali. O mundo e as pessoas ao meu redor estão em segundo plano em relação ao que acontece na minha tela. Minha atenção está não só em outro lugar, mas fragmentada e distribuída por diversos espaços.

Um novo tipo de comportamento surge a partir dessa noção de atenção parcial. Ligados em nossos fones de ouvido, digitando, falando ou até mesmo filmando o que acontece ao nosso redor, interpretamos um papel no drama da vida digital: o do cidadão autossuficiente, protegido das entediantes restrições da realidade pelos sons, imagens e amigos ao alcance de nossas mãos. Consideramos esse comportamento de uma forma legítimo porque ele está integrado à lógica da vida moderna: é um isolamento necessário para equilibrar nossa ininterrupta disponibilidade. É essencial representar esse papel esporadicamente. Contudo, a forma como ele pode passar de um recolhimento temporário a um modo constante de ser, traz à tona muitas questões importantes. Que tipo de atenção merecemos daqueles à nossa volta, ou devemos a eles? E que tipo de atenção nós mesmos merecemos, ou precisamos, se somos capazes de ser “nós” no sentido mais profundo possível?

Esta é uma questão que envolve não apenas as ações que buscamos
executar de maneira simultânea, mas também que parcela de nossa vida estamos preparados para delegar às tecnologias digitais – e até que ponto estamos dispostos a terceirizar não apenas a comunicação, mas também um crescente número de aspectos que nos cercam.

A memória.

Em um dispositivo digital, “memória” é uma sequência binária que codifica uma informação. Limitada, mas incrivelmente vasta, a capacidade média da memória de um computador atual alcança muitos bilhões de bits digitais: suficiente para armazenar bibliotecas inteiras, milhões de imagens, semanas de filmes.

Esse tipo de armazenamento digital é, de certa forma, superior à memória humana. Memórias de computador oferecem um registro completo, confiável e objetivo do que quer que seja alocado nelas. Elas não perdem capacidade com o passar do tempo e não se enganam. Podem ser compartilhadas e replicadas quase que infinitamente, sem perda, ou ser completamente apagadas, se assim desejarmos. Podem ser totalmente indexadas e rapidamente vasculhadas.
Podem ser acessadas a distância e transmitidas para o outro lado do mundo em uma fração de segundo, e seus conteúdos podem ser rearranjados, aumentados e atualizados de maneira ilimitada. De números de telefone e fotografias a documentos e diários, mantemos uma quantidade cada vez maior de memórias importantes de nossa vida dentro de máquinas: de informação bruta a momentos entre amigos e família.

Já a memória humana, em termos de computação, é bastante pobre: e é em termos de computação, que cada vez mais classificamos muitos aspectos de nossa mente. De forma muito previsível, nós as julgamos ultrapassadas e até mesmo desnecessárias. Chamar nossa memória de “memória”, comparada a computação, corro o risco de provocar uma confusão fundamental em relação ao que memórias significam para mim enquanto ser humano – e aos aspectos do eu e da lembrança que não podem ser terceirizados nem mesmo pela mais sofisticada das máquinas. Para dar um exemplo, nem mesmo o mais completo banco de dados possui algo que todo ser humano neste planeta tem, indiscutivelmente: uma história. Somos produto de nossa natureza, mas também de experiências únicas que nos remodelaram ao longo de nossa vida. Ao mesmo tempo que podemos identificar as áreas do nosso cérebro responsáveis pelas memórias de curto e de longo prazo, não existe nenhum módulo de memória mecânica dentro de nós.

Apesar da grande esperança da ciência, a mente humana não pode ser compartimentada como uma máquina. Não há dúvida de que é impossível haver algo como a memória humana sem que haja também raciocínio, sentimento e individualidade. O que vivenciamos, fazemos e aprendemos se torna uma parte de nós. Internalizamos acontecimentos, pessoas e ideais; refletimos, mudamos de ideia e temos
lembranças equivocadas, mantendo nosso passado como uma forma contínua de nosso presente. Não podemos terceirizar nossas verdadeiras memórias, da mesma forma que não podemos terceirizar nossos sentimentos e crenças – nem podemos separá-los de “nós”.

O escritor Nicholas Carr escreveu em seu livro A geração superficial: o que a internet está fazendo com o nosso cérebro, de 2010:

O que dá à verdadeira memória sua riqueza e seu caráter, para não dizer seu mistério e sua fragilidade, é a contingência. Ela existe no tempo, mudando conforme o corpo muda. (…) Quando passamos a usar a internet em substituição à memória pessoal, evitando o processo interno de consolidação, corremos o risco de esvaziar nossa mente de suas riquezas”.

Cada computador e cada dispositivo podem ser únicos e possuir uma história única, mas não é a singularidade deles que faz com que sejam o que são. Na maioria das vezes, eles funcionam apesar de suas histórias, como qualquer pessoa familiarizada com os sintomas de uma redução no desempenho nos sistemas operacionais sabe. Para uma máquina, o passado é um fardo obstrutivo. Classificar informação de maneira organizada e manter o setor operacional limpo é o melhor a fazer. É uma ótima lição para o reino do trabalho e da produtividade – mas também exatamente o oposto do necessário para se desenvolver uma mente humana bem abastecida.

Quando observamos a natureza e a qualidade de nossas interações com as pessoas à nossa volta, vemos que – e-mail, mensagens de texto, atualizações de status, redes sociais – têm o poder de nos privar daquilo que significa prosperar como ser humano: histórias compartilhadas, profundidade de sentimentos, respeito pelas singularidades alheias.

Apesar das previsões pessimistas de críticos como Carr, isso não precisa ser a máxima verdade. Porque o que está em jogo aqui não são apenas diferentes modos de atenção e de memória, mas diferentes modos de pensar que se situam entre ambos: um campo no qual nós, humanos, mostramos uma notável capacidade para a adaptação e para assumirmos a devida responsabilidade pelo que se passa em nossa cabeça.

Vamos considerar agora o campo emergente de estudos conhecido na ciência da computação como “engenharia de memória”. Projetada para cuidar da enorme enxurrada de informação que deixamos para trás, sua proposta não é a agregação bruta, mas sim o desejo de humanizar esses dados – e convertê-los de material eletrônico inerte em algo mais esotérico, diferenciado e que possa ser percebido de forma mais profunda.

O programador Jonathan Wegener, ajudou a inventar um serviço que chama a atenção para coisas que ocorreram em nossos históricos digitais exatamente um ano atrás: batizado de PastPosts, ele usa o Facebook para nos “trazer de volta” a atividades que ocorreram há exatamente um ano pelas nossas contas. Funcionando sob o slogan

O que você fez neste mesmo dia um ano atrás no Facebook?”,

é uma ideia simples, mas que evidencia quão fácil pode ser dar forma à história de um indivíduo por meio de um registro eletrônico indiferente. Dados, no fim das contas, são inertes apenas se deixarmos que permaneçam assim.

Eu vejo as páginas dos meus amigos no Facebook, seus sites, até mesmo seus avatares nos video games, e não enxergo nada anti-humano neles, mas sim a constante reafirmação do individual. Terminar um relacionamento por meio de mensagem de texto pode ser uma atitude cruel e covarde, mas o anúncio do nascimento de um filho em uma rede social, seguido por centenas de desejos de coisas boas por parte de amigos e familiares, não diminui ninguém.

Da mesma forma, um avanço positivo é o surgimento, na internet, de aplicativos e conselhos que ajudam a manter o foco em uma única tarefa, com dispositivos que vão desde um programa capaz de suspender a conexão com a internet por um determinado tempo até processadores de texto do tipo “tema escuro”, que reduzem a tela a um fundo preto e às palavras que estão sendo digitadas.

Entretanto, talvez o estado mental mais difícil de ser desenvolvido na era digital, seja bem diferente tanto da rápida reflexividade da atenção parcial quanto da concentração absoluta da atenção pura: os devaneios amorfos associados ao impulso criativo e à paz interior.

Os tipos de pensamento que podem surgir em momentos “vazios” de nossa vida – em uma viagem de ônibus, durante o banho, olhando pela janela enquanto viramos a página de um livro – são impossíveis de ser reproduzidos não só por meio de um dedicado planejamento digital, também por sessões de desconexão cuidadosamente agendadas. São momentos que nos assaltam, na maior parte das vezes, quando estamos desligados do tempo. São idiossincráticos, individuais e fruto da sorte – uma espécie de liberdade, nas palavras do filósofo iluminista britânico John Locke em seu Ensaio acerca do entendimento humano,

quando as ideias flutuam em nossa mente, sem qualquer reflexão ou percepção do entendimento”.

– assumir o controle e entender a natureza de nossa atenção –, esta frase indica que devemos dar atenção especial a alguns pontos:

  • Todos os sistemas e estratégias necessitam de algum espaço para o excêntrico.
  • Para que os pensamentos sejam inteiramente nossos, precisamos nos libertar não apenas do mau uso de determinadas ferramentas, mas também de nossas exigências e estratégias mais refinadas.

Enquanto escrevo este post, percebo quanto isso está presente. Quando escrevo regularmente usando papel e caneta, opção que faço pouco ultimamente, as palavras fluem como se já existissem com meia frase de antecedência em relação à ponta da caneta.

A lentidão mecânica da escrita me ajuda a senti-las tanto como sons e objetos quanto ideias, proporcionando um prazer sinestésico e estético conforme se apresentam. Escrever em um caderno, ajuda a mesclar processos de escrita e divagação, normalmente de forma inesperada: sentenças e frases surgem de repente, e sou obrigado a pensar até na grafia correta, na acentuação, etc; e depois de momentos de devaneio.

Talvez seja esse também o motivo pelo qual eu também faça anotações nas margens dos livros de papel. Peguei um livro antigo, da época da faculdade. Seus textos, margens e bordas todos marcados com anotações das falas e observações dos mestres. Momentos em que minhas ideias entravam em foco completo, estão marcados por linhas de garranchos.

Essas ações – ler com uma caneta na mão, andar com um caderno na mochila – permitem que mente viaje. Que minhas ideias sejam parte de um processo requintado, mas ao mesmo tempo necessário, para transformar meu trabalho em algo que seja ao mesmo tempo rigoroso e propriedade exclusiva minha.

Minha escrita no computador, ao contrário, é marcada mais por releituras pela estruturação de parágrafos e argumentos: disciplinas essenciais, mas muito mais vulneráveis às tentações da atenção parcial e da navegação na internet.

Digitando em meu computador, fica fácil permitir que essas distrações
empurrem um ansioso arsenal de ideias para áreas distantes da minha atenção. Enquanto eu estiver editando, digitando, fazendo pesquisas e checando e-mails pouco importantes, posso permanecer em negação. Então, me afasto da tela e os assuntos com os quais preciso me preocupar de verdade começam a emergir.
Meus métodos pessoais de trabalho não são um modelo ou um ideal. Às
vezes eles não funcionam nem comigo, que dirá com outras pessoas. Mas eles sugerem, eu espero, algo que pode ser feito na prática para evitar que a lógica das ferramentas digitais se sobreponham à lógica do nosso pensamento: o modo como diferentes tipos e texturas de tempo podem nos ajudar a nos conhecermos melhor, em vez de nos restringir a um único comportamento. Os cadernos e as anotações do próprio autor: uma licença semilegível para deixar a atenção vagar.
Devemos ser capazes de nos adaptar às circunstâncias. Mas também
precisamos adaptar nossas circunstâncias a nós mesmos, fazendo um esforço para que elas se ajustem ao grande espectro de nossa observação, nossos pensamentos e nossas emoções. Isso inclui a capacidade de dividir nossa atenção; ou então de nos dedicarmos inteiramente a uma ideia, ou a uma pessoa em detrimento de todas as outras. Porém, é preciso que haja tempo e espaço para outras liberdades – e para que coloquemos em prática métodos de trabalho que não precisam de nenhuma justificativa além do fato de que funcionam para nós.

Conectados versus Desconectados


Na edição de agosto de 1921 da revista americana The Wireless Age, foram dedicadas 11 páginas a descrição de uma luta de boxe que ficou conhecida como “a batalha do século”. Era a disputa do título mundial dos pesos pesados que havia acontecido no mês anterior, na cidade de Jersey, em que o americano Jack Dempsey derrotou por nocaute, no quarto round, o desafiante francês Georges Carpentier.

Este evento arrecadou mais de um milhão de dólares com a venda de ingressos. Mas não foi esse o motivo pelo qual a The Wireless Age deu tanta atenção para o evento. O dia 2 de julho de 1921 também entrou para a história por ter sido a primeira vez que o número de ouvintes de um programa de rádio superou o número de pessoas presentes em um evento de grande porte. Noventa mil pessoas lotaram a arena da cidade de Jersey. Porém, pelas contas da revista, “uma multidão – não menor que 300 mil pessoas – tensas e ansiosas” acompanhou a luta a distância.

Isso foi possível graças, basicamente ao locutor do evento, J. Andrew White ter disponível uma linha telefônica, à mão, no local do evento e falar com um outro locutor, na estação transmissora, e era a voz deste que viajava pelas ondas de rádio.

Graças à Amateur Wireless Association, Dempsey vs. Carpentier, em julho de 1921, forneceu um ponto de inflexão na história da mídia. A revista estava plenamente ciente do poder daquele fato:

Um recorde (…) e o início de uma nova era. Enquanto os olhos do mundo todo aguardavam o lançamento da tradicional palavra impressa
para contar a história – o rádio contou-a pela voz! Instantaneamente, pelos ouvidos de um público ansioso, um evento internacional foi ‘ilustrado’em todos os seus emocionantes detalhes. (…) O apelo à imaginação não tem fronteiras. Previsões para o futuro agora serão o tema de uma especulação prazerosa, estimulante e praticamente infinita.”

Um século depois, pode-se dizer com segurança que mesmo a mais inventiva dessas especulações foi superada. Hoje, mais de 4 bilhões de pessoas têm acesso à internet, e mais de 7 bilhões estão conectadas umas às outras via telefone celular. A audiência de programas ao vivo de notícias e de esportes atinge constantemente a casa de centenas de milhões. Atualmente, mais da metade da população mundial está quase que permanentemente acessível por meio de alguma forma de conexão digital em tempo real. Esses são números para serem observados com espanto. No entanto, depois de pouco mais de duas décadas do presente século começamos a passar por outro momento histórico das comunicações: dessa vez relacionado não com números absolutos, mas com o tempo propriamente dito.

Em 1999, de acordo com uma pesquisa realizada com mais de 2 mil norte americanos entre 8 e 18 anos, conduzida pela Kaiser Family Foundation, os jovens nessa faixa etária usavam algum meio de comunicação por cerca de 6 horas e 20 minutos ao dia.

A pesquisa afirmava que, a vida de crianças e jovens estava próxima da “saturação” – isso significava que os pesquisadores que analisaram os resultados não conseguiam encontrar mais nenhum espaço livre para ser gasto com qualquer tipo de mídia. Parecia que a humanidade estava atingindo um patamar intransponível em termos da quantidade de informação que era possível consumir desde as primeiras horas do dia – uma conclusão fundamentada pelo aumento de apenas 2 minutos, em relação ao primeiro resultado, quando a pesquisa foi repetida com jovens da mesma faixa etária em 2004.

A fundação repetiu a pesquisa mais uma vez, em 2009, e para surpresa de todos descobriu que o tempo total de uso de mídias entre jovens de 8 a 18 anos agora havia aumentado em mais de vinte por cento, para quase 7 horas e 40 minutos diários. Se o uso de dispositivos portáteis fosse levado em conta, a exposição total chegava à marca de 10 horas e 45 minutos por dia.

Esse foi um resultado extremamente impressionante. Considerando que os jovens necessitam de 8 a 9 horas de sono por noite, os números de 2009 elevaram o tempo de uso de mídias para metade das horas em que estão acordados – isso sem incluir qualquer mídia utilizada para trabalhos na escola, em vez de lazer. A televisão ainda estava em primeiro lugar, como ocorreu durante meio século, com 3 horas e 40 minutos por dia. Mas, de longe, a novidade mais importante foi o uso de smartphones para o consumo tanto de mídias tradicionais como novas: para assistir a programas de televisão no ônibus, a caminho da escola, para enviar mensagens de texto e conferir o Facebook enquanto se ouvia música e checava e-mails.

Mais de uma década depois da última pesquisa, o consumo de mídia passou da saturação das horas de lazer a algo muito mais significativo: estamos em uma fase de completa integração à rotinas midiáticas em praticamente todas as nossas atividades.

Conforme concluiu um artigo semelhante, sobre os hábitos de consumo de mídias, publicado em novembro de 2010 pela POLIS de Londres, a maior parte dos jovens que vive no mundo desenvolvido não fica nunca sem acesso ás mídias e esse consumo se dá por principalmente por smartphones e tablets.

Um estoque pessoal e portátil de músicas, vídeos, jogos, aplicativos e serviços de redes sociais está sempre à mão. Os padrões de comportamento estão se transformando em um ritmo jamais visto, nem mesmo com o início das transmissões de rádio na década de 1920 e de televisão na década de 1950. Porém, o desenvolvimento mais importante de todos, a meu ver, está relacionado com um tipo diferente de padrão: não apenas com nossos hábitos, mas com o que consideramos nosso “estado de consciência” padrão.

Hoje, em nossos dias, pela primeira vez, é correto dizer que faz parte da rotina da maior parte das pessoas estar “conectado” a pelo menos uma forma personalizada de mídia. Enquanto que, há um século atrás, uma transmissão ao vivo de rádio era considerada quase um milagre, hoje é comum passar a maior parte do tempo em que estamos acordados conectados ao nosso próprio “link ao vivo” com o mundo. A questão mais óbvia que se segue a essa conclusão é de natureza pragmática:

O que vem depois disso?

Em curto prazo, a resposta mais óbvia seria mais uso de mídia, por mais tempo e em mais lugares. Entretanto, se quisermos prosperar em longo prazo, nesse novo mundo conectado, acredito que precisamos começar a pensar de outra forma sobre os diferentes tipos de tempo em nossa vida. Os momentos em que não estamos utilizando algum tipo de mídia digital não apenas deixaram de ser nosso estado padrão; eles são também algo que não conseguimos vivenciar sem que explicitamente nos planejemos para tal.

Se quisermos aproveitar o máximo tanto do mundo à nossa volta quanto uns dos outros, precisamos compreender que agora existem fundamentalmente duas formas distintas de se fazer parte deste mundo: os momentos em que estamos conectados e os momentos em que estamos desconectados.

Simplesmente depreciar um dos dois não serve para nada, pois cada um representa um conjunto diferente de possibilidades para o pensamento e a ação. Em vez disso, devemos aprender a nos perguntar – e ensinar nossos filhos a se perguntarem – quais aspectos de uma tarefa, e do viver, são melhor servidos por cada um. E precisamos encontrar formas de efetivamente consolidar ambos em nosso estilo de vida.

As maiores vantagens de estamos conectados podem ser facilmente enumeradas. Conectados, temos velocidade; podemos pesquisar e aplicar a maior parte da sabedoria reunida pela humanidade – bem como fofocas e palpites – em questão de minutos; estamos a apenas alguns segundos de distância do contato com milhares de pessoas. Possuímos poderes divinos e estamos nos especializando cada vez mais no uso deles. Pense no que pode ser obtido em apenas alguns minutos de navegação pela Wikipédia, ou numa busca no banco de livros de copy right livre digitalizados pelo Google. Essa pesquisa possui velocidade e amplitude muito além dos sonhos mais ousados que qualquer acadêmico teria, apenas meio século atrás, e agora ela não apenas existe, como também está ao alcance de praticamente qualquer cidadão moderno. Já estamos tão distantes da época da alfabetização não digital, quanto os leitores estavam da era pré-Gutenberg, quando possuir e ler livros era privilégio de uma elite.

Já, quando falamos de estar desconectados dessas mídias em tempo real, nossa originalidade e nosso rigor podem entrar em cena de uma forma diferente e bastante antiga: nossa capacidade de delegar, de tomar decisões, de agir por iniciativa própria; de pensar sem medo de copiar outra pessoa ou a sensação constante de ter uma plateia nos assistindo o tempo todo. Estamos então, sozinhos com nós mesmos, ou realmente presentes uns diante dos outros, de forma completamente distinta de qualquer momento em que estejamos conectados. Isso é igualmente verdade tanto no campo pessoal quanto no profissional.

Em fevereiro de 2011, em uma palestra na London School of Economics, a escritora Lionel Shriver, falou sobre o impacto das novas tecnologias nas formas de escrever e de pensar. Ela descreveu a experiência de escrever

com uma multidão dentro do seu estúdio

– ou seja, escrever diante das reações do público em tempo real, instantânea e amplamente visíveis – e a pressão que isso gera tanto no sentido de censurar a si mesmo quanto de tentar agradar aos outros.

“Descobri que eu precisava me proteger das opiniões alheias”,

ela comentou e ilustrou como era escrever uma coluna para um jornal com seu marido lendo o que ela estava escrevendo:

“Você não pode escrever isso”,

ele comentou em determinado momento,

“veja só como reagiram a isso pela internet da outra vez”.

É praticamente impossível dissociar esse desejo de protegermos a nós mesmos da ideia de saber, em primeiro lugar, o que é este “eu” que queremos proteger…

Os avanços que as tecnologias deste século já estão começando a promover nos pensamentos e nas ações coletivas são imensuráveis. No entanto, mais do que nunca, está claro que todos nós precisamos de momentos em nossa vida para ter nossas próprias ideias, sem distração, interrupção ou respostas imediatas, mesmo das pessoas com as quais mais nos importamos. Também está claro que, se não tivermos cuidado em administrar esse tempo, a tecnologia poderá tirá-lo de nós. Em uma era de constantes conexões em tempo real, a questão central de nosso exame de consciência está se deslocando de “Quem é você?” para “O que você está fazendo?”. Por mais que muitos de nós estejamos sedentos por estar conectados, se quisermos prosperar precisamos manter alguma parte de nós separada dessa constante vontade de exposição. Precisamos de outros tempos verbais além do presente – de outras qualidades de tempo – em nossa vida. Essa é uma questão que foi brilhantemente colocada pelo cientista da computação Jaron Lanier durante uma palestra na conferência na Southwest, em março de 2010, na qual ele pediu que o público não fizesse mais nada, além de ouvir, enquanto ele falava.

“O principal motivo para que peço que vocês parem de fazer tantas coisas ao mesmo tempo não é para que eu me sinta mais respeitado, mas para fazer vocês existirem. Se vocês escutarem primeiro, e escreverem somente mais tarde, o que for escrito terá tido tempo para passar pelo filtro dos seus cérebros, e vocês estarão presentes no que está sendo dito agora. É isso que faz vocês existirem” – argumentou Lanier.

Com este apelo, Lanier conseguiu, por cerca de uma hora e meia, captar a atenção das pessoas, promovendo a sua “desconexão do mundo online”. Isso deixa claro que, precisamos reservar momentos para estar desconectados, e isso não requer uma viagem para uma cabana afastada no topo de uma montanha, nem anunciar um longo afastamento da leitura de e-mails – apesar de significar que tirar férias dos dispositivos eletrônicos se tornou uma forma popular de indulgência para aqueles que podem arcar com as consequências. Pelo contrário, os momentos desconectados têm muito a acrescentar como parte de nossa rotina diária: a decisão de não enviar e-mails numa manhã, de desligar o telefone celular durante um encontro ou uma refeição, de dedicar alguns dias ou algumas horas para uma reflexão, sem aparelhos eletrônicos, ou simplesmente a decisão de encontrar uma pessoa ao vivo, em vez de trocar vinte e-mails com ela. Afirmo que não é fácil, mas estou tentando dedicar partes do meu dia à produtividade sem conexão: momentos em que todos os meus aparelhos digitais estão desligados ou fora do meu alcance imediato. Meus encontros pessoais tem se tornado muito mais interessantes e significativos quando estou desconectado.

No início dos anos 2000, as conferências de tecnologia pareciam reunir os participantes mais visionários, ostentando seus telefones celulares e laptops de última geração. Hoje, apesar de nenhum evento de tecnologia estar completo, sem uma transmissão paralela em uma rede social, também está se tornando comum aos palestrantes e mediadores, solicitarem algo simples que remonta ao passado:

“escutem primeiro, escrevam depois”.

Ser conservador, em algum aspecto midiático, é a palavra de ordem. Esses novos hábitos e sugestões não constituem um manifesto propriamente dito; mas são o começo de uma atitude que coloca a tecnologia digital em seu devido lugar. Definir um papel específico para ela em nossa vida, em vez de permitir que sua presença se torne uma condição inevitável e ininterrupta. Devido ao poder de comunicação avassalador das novas mídias, o tempo é mais do que nunca nosso bem mais precioso. Todas as tecnologias do mundo não podem criar uma partícula a mais dele – e sua experiência está ameaçada de se tornar o que o teórico político Fredric Jameson chamou de “presente perpétuo”, no qual a sociedade perde “a capacidade de reter o próprio passado”.

Para algumas pessoas, a saturação do presente é intensamente acompanhada de estresse, ansiedade e da sensação de perda do controle. Acredito que não perdemos nossa capacidade tanto de resistir quanto de nos adaptar a essas mudanças na forma como vivenciamos o tempo, seja como sociedade ou como indivíduos; acima de tudo, no entanto, todos os esforços de nossa parte devem começar por reconhecer que, sem a habilidade de dizer “não” quanto “sim” à tecnologia, corremos o risco de transformar esses milagres em armadilhas.

O tempo é a única coisa sobre a qual toda a tecnologia do mundo não pode invocar nem uma partícula a mais.

01/06/2021

Reinventando Relacionamentos


Como a Web, a colaboração e a mídia social “transformarão ou reinventarão – como as organizações se relacionam com seus clientes, parceiros, funcionários e cidadãos por meio de experiências mais atraentes, após a pandemia”.

Era uma vez, novas tecnologias que foram implantadas pela primeira vez em grandes instituições – empresas, universidades e laboratórios de pesquisa – de onde eventualmente partiam para o resto do mundo. Isso virou história. Cinquenta anos atrás, por exemplo, a indústria de computadores consistia principalmente em mainframes e supercomputadores caros que apenas grandes instituições podiam comprar e operar.

Mas, isso se reverteu dramaticamente com o advento de tecnologias baratas, especialmente tecnologias digitais. Como resultado dos avanços incríveis em componentes digitais e computação pessoal nos últimos quarenta anos, muitas inovações estão surgindo pela primeira vez e a partir dos quais eventualmente chegarão até nós. Além da computação pessoal, vimos inovações direcionadas ao consumidor e ao usuário em celulares e smartphones, jogos, Linux e, talvez o mais importante, todos os tipos de inovações na Internet e na World Wide Web.

Muitos novos aplicativos interessantes estão sendo desenvolvidos, mas até pouco tempo, não estava claro quais seriam suas implicações, aplicações e impactos. Muitas pessoas afirmavam que, na nova economia, baseada na Internet, as startups nascidas para a Web tinham uma vantagem inerente sobre as empresas existentes, e que estás, teriam dificuldade em competir e, portanto, estavam fafadas à extinção.

Hoje, as empresas conseguem analisar com muito mais critério, o que está acontecendo no mercado e trabalhar para atender demandas em todo o mundo, elaborando melhores estratégias de e-business. Todos os tipos de negócios estão convencidos de que precisam ser digital para se beneficiarem do alcance universal e da conectividade da Internet, não apenas as startups, mas qualquer outro negócio. Hoje às empresas investem fortemente em reputação da marca, base de clientes e a infraestrutura de TI, criando combinações cada vez mais adequadas aos novos recursos oferecidos pela Internet.

As redes sociais estão entre as tecnologias mais importantes da atualidade. O número e a variedade de sites de redes sociais aumentam a cada dia. Como as ‘ponto com’ do final da década de 1990, alguns são muito inovadores e provavelmente terão sucesso, enquanto outros são mais difíceis de se avaliar e parecem construídos em modelos de negócios duvidosos.

Mais uma vez, precisamos descobrir a melhor forma de trazer essas inovações do consumidor para o mundo dos negócios. Quase todos concordam que todas as empresas podem se beneficiar com a adoção de inovações, mesmo que ainda não tenhamos descoberto como fazê-lo da maneira adequada.

Durante e após o cenário pandemico, as pessoas vão sair menos de casa, mas continuarão a consumir produtos e serviços do mundo todo, que possam chegar até elas, via Internet e para captar, engajar e converter clientes, será necessário se enquadrar em três categorias principais:

  • Relacionamentos externos com clientes e influências da marca;
  • Relacionamento interno com funcionários e parceiros; e
  • Relações sociais com cidadãos e comunidades.

Muitas empresas e agências governamentais já possuem uma variedade de aplicações em cada uma dessas categorias, mas ainda há muito a ser feito.

Ainda estamos aprendendo como traduzir melhor nossas novas tecnologias e aplicativos colaborativos em negócios e relacionamentos sociais mais eficazes. A questão não é a tecnologia. A questão principal é o capital organizacional, ou seja, as práticas de gestão e os ajustes culturais necessários para permitir que organizações implantem e aproveitem essas novas oportunidades.

Até meados da década de 1990, o rápido crescimento do uso de computadores nas empresas não se refletiu no aumento da produtividade do trabalho. Isso deu origem ao paradoxo da produtividade de Solow em referência à piada do economista ganhador do prêmio Nobel Robert Solow de 1987:

Você pode ver a era do computador em qualquer lugar, menos nas estatísticas de produtividade

Mas, no início da era da Internet, houve um aumento na produtividade, que os economistas geralmente atribuem aos avanços contínuos e ao amplo uso das tecnologias da informação. Como Erik Brynjolfsson do MIT explicou em um livro de sua co-autoria:

As empresas com os maiores retornos sobre seus investimentos em tecnologia fizeram mais do que apenas comprar tecnologia; eles investiram em capital organizacional para se tornarem organizações digitais. Estudos de produtividade revelam que as empresas que viram altos retornos em seus investimentos em tecnologia foram as mesmas que adotaram certas práticas de negócios que aumentam a produtividade.

As empresas tiveram que aprender que não era suficiente implantar a TI para automatizar os processos existentes. As organizações tiveram que repensar suas operações e redesenhar o fluxo de trabalho em suas empresas, o que finalmente começou a acontecer no início da década de 1990 com a adoção da reengenharia de processos de negócios e outras iniciativas. Desta época prá cá, muitas organizações reconectaram-se com eficácia a seus processos e fluxos de informações.

Desde 2020, em um cenário novo, por causa da pandemia, as empresas estão tendo que se adaptar e alavancar as tecnologias digitais para ajudar a lidar com as tarefas da organização, como o uso intensivo de pessoas e serviços amplamente distribuídos, ou seja, seus relacionamentos com clientes, funcionários, parceiros e cidadãos estão sendo colocados à prova neste momento. Esses relacionamentos de front-end não são tão bem compreendidos quanto os processos de back-end, nos quais fizemos um progresso significativo nos últimos anos. Essa é a maior questão.

Além disso, os objetivos são bastante diferentes. Qualidade e eficiência são as principais medidas que geralmente usamos para tarefas de back-end, mas não são suficientes quando há pessoas envolvidas. Além de eficiência e qualidade, um dos principais objetivos, agora, é o de estar baseado em relacionamento e alcançar resultados e experiências positivas para clientes, funcionários e todos os envolvidos.

Há muitos desafios pela frente, pois apesar de todas as tecnologias avançadas que temos agora, elas ainda não foram amplamente adotadas ou exploradas pelas empresas. Como geralmente é o caso com tecnologias disruptivas em estágio inicial, muitas instituições não sabem o que fazer com elas. Eles suspeitam que essas tecnologias podem ser boas para os consumidores, mas ainda não as decifraram para reverte-las para os negócios. Eles estão em processo de aprendizagem e desenvolvimento do capital organizacional necessário. Aproveitar os elementos de mídias sociais para reestruturar, religar e reinventar os negócios e as relações provavelmente será uma das áreas de inovação mais promissoras.

Seja qual for a área de atuação, mesmo as profissões de setores tradicionais estão passando por imensas transformações. Há vários segmentos promissores. A adoção de novas tecnologias fará com que surja a necessidade de uma força de trabalho que agregue à empresa muito mais que habilidades. Será necessário foco no relacionamento. Esta é a base de formação da indústria 4.0, que também exige novas características e habilidades de todos que desejam se destacar nesse mercado. Além de saber lidar com a vida competitiva e a busca constante por resultados, todos precisam conseguir se comunicar, se relacionar e inspirar pessoas, equipes e ter a capacidade de promover, quando necessário, uma mudança de mindset nos seus colaboradores. Tudo isso de maneira ágil e natural.

A Nova Conectividade no Brasil

A conectividade, outrora um artigo de luxo, transformou-se na espinha dorsal da sociedade contemporânea. No Brasil, um país de d...