22/12/2020

A Covid-19 e a vida urbana

Em Por que as cidades mais ricas da América continuam ficando mais ricas, um artigo de 2017 no The Atlantic, o professor de estudos urbanos e autor Richard Florida escreveu:

As indústrias mais importantes e inovadoras e as pessoas mais talentosas, ambiciosas e ricas estão convergindo como nunca antes, para poucas cidades superstars – centros de conhecimento e tecnologia. Este pequeno grupo de lugares de elite, sempre avança, enquanto a maioria dos outros lugares, estagnou ou ficaram para trás … Eles não são apenas os lugares onde as pessoas mais ambiciosas e talentosas desejam estar – eles estão onde essas pessoas sentem que precisam estar.

Os setores de conhecimentos, há muito tempo se concentram nas cidades e nas áreas metropolitanas vizinhas, onde eles têm mais acesso a uma força de trabalho com formação superior e alta qualificação. Mas, – de Milão a Nova York, – áreas urbanas de alta densidade conectadas globalmente foram o marco zero para a disseminação da Covid-19. As cidades agora correm o risco de perder o status de superstars de que desfrutaram nas últimas décadas?

Em meados da década de 1990, alguns previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar e fazer compras em casa, manter contato com seus amigos por e-mail e ter acesso a notícias e entretenimento conectados. Mas, em vez de declinar, as megacidades continuaram a gerar os maiores níveis de inovação e bons empregos e, assim, atrair uma parcela desproporcional do talento mundial.

Por que as áreas urbanas se saíram bem nas últimas décadas?

Cerca de 25 anos atrás, o físico Geoffrey West, – Professor e Ex-Presidente do Instituto Santa Fé, – se interessou em saber se algumas das técnicas do mundo da física poderiam ser aplicadas ao estudo de sistemas biológicos e sociais complexos. Ele se perguntou se poderíamos aplicar métodos científicos empíricos, quantificáveis e preditivos para tentar entender melhor as cidades e outras organizações sociais altamente complexas.

O Dr. West e seus colaboradores analisaram uma vasta quantidade de dados sobre cidades ao redor do mundo para explorar as relações entre a população e uma ampla gama de infraestrutura e medidas socioeconômicas. Eles descobriram que na infraestrutura das cidades, – por exemplo, a largura das vias e estradas, as linhas elétricas, o consumo de energia, o número de postos de gasolina – influenciam numa escala sublinear, com um fator de 0,85 a decisão de morar ou não na cidade.

Isso significa que as cidades que possuem tais infraestrutura, desfrutam de um benefício de 15% em economias de escala, – se a população de uma cidade dobrar, sua infraestrutura só precisa aumentar por um fator de 1,85. Esse benefício de 15% foi verdadeiro para cidades de qualquer tamanho em todo o mundo, bem como para qualquer infraestrutura mensurável.

Os resultados foram diferentes para medidas socioeconômicas associadas a pessoas, por exemplo, salários, patentes, instituições educacionais, entretenimento, espaços culturais. Eles também escalam com a população, mas em vez de seguir um fator de escala sublinear de 0,85, os atributos socioeconômicos escalam exponencialmente, com um fator super linear de 1,15. Isso significa que, se você dobrar a população de uma cidade, haverá um aumento de aproximadamente 15% na produtividade, salários, entretenimento e instituições educacionais e assim por diante. A escala exponencial dessas medidas socioeconômicas positivas torna as cidades ainda mais atraentes para pessoas talentosas, o que, por sua vez, reforça seu apelo, levando a efeitos de rede e ao surgimento de cidades superstars.

No entanto, algumas coisas ruins acompanham essas cidades superstars. Coisas como um aumento sistemático do crime e doenças, como AIDS, gripe e assim por diante.”

Esses problemas se elevam nos mesmos 15% que as qualidades das cidades. O que nos leva à Covid-19.

“A pandemia Covid-19 cria tanta incerteza porque atinge o coração de nosso mundo urbano”, escreveu o economista de Harvard Edward Glaeser em um artigo recente, – Cities and Pandemics Have a Long History. O artigo de Glaeser conta um pouco dessa longa história:

  • em 430 aC, a praga de Atenas matou dezenas de milhares, incluindo seu proeminente líder Péricles, contribuindo para a derrota de Atenas na Guerra do Peloponeso, que marcou o eclipse da antiga civilização mediterrânea;
  • em 541 DC a praga de Justiniano atingiu Constantinopla, matando um quinto de sua população e encerrando a tentativa do imperador Justiniano de reconstruir a glória do Império Romano;
  • em 1347, a Peste Negra transmitida por pulgas matou 100-200 milhões de pessoas na Europa, Oriente Médio e Norte da África, com cidades sendo particularmente vulneráveis à propagação da doença; e
  • em 1918, a gripe espanhola infectou cerca de 500 milhões de pessoas, – cerca de um terço da população mundial na época, – e matou cerca de 50 milhões em todo o mundo.

“Somente no século passado as cidades deixaram de ser campos de matança”, disse Glaeser.

Por cem anos, as cidades, especialmente aquelas em economias mais avançadas, não sofreram uma grande pandemia. Covid-19 é como um lembrete bíblico de que, apesar de todos os avanços científicos, tecnológicos e médicos do século passado, nossas cidades cada vez mais populosas estão mais uma vez à mercê de uma pandemia.

Como a Covid-19 vai transformar a vida urbana?

As opiniões são muitas, mas ainda é muito cedo para dizer. Em Como será a vida em nossas cidades após a pandemia do coronavírus, a Foreign Policy pediu a 12 importantes especialistas em planejamento urbano, incluindo os professores Florida e Glaeser, suas previsões. E qui estão alguns de seus pontos chave.

Richard Florida continua otimista. “As previsões de morte de cidades sempre seguem choques como este. Mas a urbanização sempre foi uma força maior do que as doenças infecciosas … Alguns aspectos de nossas cidades e áreas metropolitanas serão remodelados … o desejo por arredores mais seguros e privados pode atrair alguns para os subúrbios e áreas rurais. Famílias com crianças e pessoas vulneráveis, em particular, podem trocar seus apartamentos na cidade por uma casa com quintal. Mas outras forças empurrarão as pessoas de volta aos grandes centros urbanos … As grandes cidades sobreviverão ao coronavírus”.

Edward Glaeser alerta para possíveis consequências econômicas. “Só nos Estados Unidos, 32 milhões de empregos estão no varejo, lazer e hospedagem. Eles estão na linha de frente da pandemia … Se as pandemias se tornarem o novo normal, dezenas de milhões de empregos nos serviços urbanos desaparecerão. A única chance de evitar o Armagedom do mercado de trabalho é investir bilhões de dólares de forma inteligente na infraestrutura de saúde anti pandêmica, para que este terrível surto possa permanecer uma aberração única.”

Rebecca Katz, professora de Georgetown, se pergunta se “Agora que tantos de nós criamos novas rotinas trabalhando remotamente por meio teleconferências, usando o Zoom, podemos começar a ver um êxodo da cidade para ambientes mais rurais”.

Talvez o declínio das cidades previsto por alguns na década de 1990 finalmente aconteça devido às nossas infraestruturas digitais significativamente mais avançadas.

Embora seja impossível prever qual será o novo normal, pode muito bem ser a urbanização reversa”, acrescenta Katz. “No entanto, também esperamos que os líderes municipais se destaquem na preparação e resposta às doenças. O que antes era uma área subfinanciada e com falta de pessoal dos departamentos de saúde se tornará mais robusta. Vamos desenvolver as melhores práticas para proteger a saúde da população nas cidades, o que ajudará a manter os ambientes urbanos atraentes.

Finalmente, o ex-vice prefeito de Nova York, Dan Doctoroff, apresenta um forte argumento para aproveitar esta oportunidade para construir cidades melhores. “As cidades voltarão mais fortes do que nunca depois da pandemia. Mas quando o fizerem, será impulsionado por um novo modelo de crescimento que enfatiza a inclusão, sustentabilidade e oportunidade econômica … Reanimar o crescimento da população urbana após a pandemia começará com a restauração da confiança na saúde pública urbana e na segurança de uma vida densa. Mas quando as pessoas retornam às cidades – como sempre fizeram no passado – devemos alavancar novas políticas e tecnologias para tornar a vida urbana mais acessível e sustentável para mais pessoas.

21/12/2020

O trabalho remoto é produtivo; mas...

E se o trabalho em casa continuasse … para sempre? Essa foi a pergunta do jornalista de ciência e tecnologia Clive Thompson em seu artigo na NY Times Magazine, de junho passado.

A crise do coronavírus forçou o mundo a reconsiderar quase todos os aspectos da vida, inclusive no trabalho. Algumas práticas, que agora parecem perda de tempo, são descartadas; outras parecem ser inesperadamente cruciais e impossíveis de se replicar online. Para os trabalhadores que estão se perguntando, se agora vão voltar para o escritório, a resposta mais honesta é esta: mesmo que voltem, o escritório pode nunca mais ser o mesmo.

Essa pesquisa descobriu que dos 56% das pessoas entrevistadas, empregadas antes da Covid-19, metade trabalhava em casa, – 35% passaram para trabalhar em casa, enquanto outros 15% já o faziam antes da Covid; 37% continuaram a se deslocar para o trabalho e 10% foram dispensados ou desligados de suas empresas. A pesquisa foi baseada em duas amostras distintas de dados – uma que coletou 25.000 respostas no início de abril e a segunda, que coletou outras 25.000 respostas no início de maio.

O artigo de Thompson cita a experiência da Accenture, que tem cerca de 500.000 funcionários em mais de 200 cidades em 120 países. Antes da pandemia, não mais do que 10% trabalhavam remotamente em um determinado dia da semana. Mas, em meados de março, quase todos foram convidados a trabalhar em casa. Os funcionários se adaptaram rapidamente, disse o CTO da Accenture. O volume das chamadas de vídeo aumentou seis vezes, enquanto o das chamadas de áudio triplicou. Apesar de ter que mudar das interações face a face para áudio e vídeo, a produtividade geral realmente aumentou conforme indicado por várias métricas.

É difícil avaliar se o aumento no trabalho remoto vai durar. A vida em confinamento é muito mais difícil do que parece”, observa Thompson. “Muitos trabalhadores que vivem sozinhos estão vivenciando o isolamento de forma forçada como uma chatice emocional … Quase todos os pais com quem conversei cruzaram os dedos para que as escolas e creches reabrissem no outono – ponto em que o trabalho remoto pode se tornar uma opção, oposta àquela que foram forçados a suportar no início da Pandemia. Supondo que esse dia chegue, é possível que alguns optem por continuar trabalhando fora do escritório.

O trabalho remoto, também conhecido como teletrabalho, existe há décadas, mas decolou em meados da década de 1990 com o crescimento explosivo da Internet. Alguns até previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar, manter contato com amigos e colegas e fazer compras em casa. Por que alguém escolheria morar em uma área metropolitana cara e lotada, se eles poderiam morar em um local mais acessível, menos estressante e potencialmente mais saudável?

A pesquisa conduzida antes da pandemia descobriu que o trabalho remoto oferece efeitos positivos significativos tanto para o funcionário quanto para o empregador... O que a Accenture descobriu não é, ao que parece, um acaso: a produção geralmente aumenta quando as pessoas trabalham remotamente.” O artigo ainda aponta dois estudos de caso de produtividade: um, focado no trabalho de casa (WFH - work from home) e o segundo no trabalho de qualquer lugar (WFA - work from anywhere). A pesquisa sobre trabalho remoto tem lidado amplamente com os programas da WFH, nos quais os funcionários geralmente vivem perto do escritório. Esses programas oferecem flexibilidade temporal aos trabalhadores, incluindo tempos de deslocamento reduzidos e melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Mas, quão eficaz é trabalhar em casa?

Pesquisadores de Stanford abordaram essa questão em um artigo de 2013 com base em um experimento de 9 meses conduzido com a CTrip, – a maior agência de viagens da China. A CTrip perguntou a quase 1.000 funcionários em seu call center em Xangai se eles estariam interessados ​​em trabalhar em casa quatro dias por semana, com o quinto dia no escritório como de costume. Cerca de metade dos funcionários se interessou, – principalmente aqueles que tinham filhos e deslocamentos longos para o trabalho, – e cerca de 250 qualificados em virtude de terem pelo menos seis meses de mandato, além de acesso à banda larga e um quarto privativo em que pudessem trabalhar em casa. CTrip então realizou um sorteio, e um grupo foi selecionado para o experimento, enquanto o restante continuou a trabalhar no escritório como um grupo de controle.

O trabalho em casa levou a um aumento de desempenho de 13%, dos quais cerca de 9% foi de trabalhar mais minutos por turno (menos pausas e dias de licença médica) e 4% de mais chamadas por minuto (atribuído a um ambiente de trabalho mais silencioso)... Esses trabalhadores também relataram maior satisfação no trabalho e menos rotatividade, mas sua taxa de promoção, condicionada ao desempenho, caiu. Devido ao sucesso do experimento, a CTrip implementou a opção WFH para toda a empresa e permitiu que os funcionários decidissem entre trabalhar em casa ou o escritório. Curiosamente, mais da metade deles optou por trabalhar à partir de casa, o que levou o modelo WFH quase dobrar, passando para 22% da força de trabalho”.

Como trabalhar em qualquer lugar (WFA) se compara a trabalhar em casa (WFH)? 

Um outro artigo avaliou a diferença de produtividade entre os programas WFH e WFA, com base nas experiências do US Patent and Trademark Office (USPTO), que em 2006, implantou um programa WFH de forma voluntária, com um grupo inicial de 500 examinadores de patentes, permitindo que os funcionários trabalhassem em casa até quatro dias por semana. Então, em 2012, o USPTO lançou um programa piloto WFA, agora permitindo que seus funcionários, trabalhassem em qualquer lugar. Os funcionários elegíveis para o piloto WFA deveriam já estar inscritos no WFH, e residir a mais de 50 milhas da sede do USPTO e também que concordassem em renunciar aos seus direitos de serem reembolsados ​​pelas viagens à sede, que eram limitadas a cinco por ano. No geral, o programa WFA levou a um aumento adicional na produção de trabalho de 4,4% em comparação com o programa WFH.

Trabalhar em casa também pode melhorar a forma como os funcionários se sentem em relação ao trabalho, disse Thompson, citando estudos e mostrando uma correlação positiva entre o teletrabalho e a satisfação no trabalho. “As pessoas tendem a valorizar a maior flexibilidade na definição de suas horas de trabalho, o tempo adicional com os membros da família, as distrações reduzidas.

Além de aumentar a produtividade e a satisfação no trabalho de seus funcionários, outra atração para os empregadores é a redução dos custos imobiliários. O USPTO estima que eles economizaram mais de US $38 milhões em espaço para escritórios. Além disso, as empresas têm acesso a um grupo maior de funcionários talentosos que podem não ter recursos para se mudar para cidades caras ou preferir não fazê-lo por motivos familiares ou outros. “E depois da pandemia – muitos não vão querer voltar”, acrescentou Thompson. “Muitos hesitarão com a ideia de elevadores lotados e escritório, onde as pessoas ficam amontoadas.”

Mas há um outro lado, como ouvi de muitos dos trabalhadores que entrevistei, que afirmam que, por mais que nossos escritórios possam ser ineficientes, disseminadores de doenças e outras coisas que atrapalham a produtividade, muitas pessoas querem voltar para eles, escreveu Thompson em conclusão. “Isso porque o trabalho no escritório é mais do que apenas produtividade direta. Ele também influencia a química da cultura do local de trabalho, que vem da interação de funcionários o dia todo, de maneiras inesperadas e até despretensiosas; e muitos funcionários temem que essa cultura esteja se desgastando ou no final de um ciclo”.

16/12/2020

Tendências 2030 – um período de Transformação

O Conselho Nacional de Inteligência é o centro do pensamento estratégico de médio e longo prazo na Comunidade de Inteligência dos EUA. A cada quatro anos, ele mostra um relatório de Tendências Globais com um horizonte de tempo previsível de aproximado de quinze anos, a fim de fornecer à Casa Branca e à comunidade de inteligência uma estrutura para avaliação de política estratégica de longo prazo. Seu último relatório – Global Trend 2030: Alternative Worlds (GT2030) – foi lançado em dezembro passado.

Este relatório pretende estimular a reflexão sobre as rápidas mudanças geopolíticas que caracterizam o mundo hoje e as possíveis trajetórias globais nos próximos anos”, afirma no Sumário Executivo. “Tal como acontece com os relatórios de tendências globais anteriores, Ele não busca prever o futuro mas, fornecer uma maneira de pensar sobre possíveis futuros e suas implicações.”

O GT2030 identificou quatro megatendências que devem moldar e transformar o mundo nas próximas décadas: a capacitação individual; a difusão do poder; padrões demográficos; e o nexo crescente entre alimentos, água, energia e mudanças climáticas. Essas mega tendências são reconhecidas e aceitáveis e estão bem bem presentes em nossas discussões do dia-a-dia.

Essas tendências podem levar a mundos radicalmente diferentes, dependendo de como elas interagem com o que o relatório chama cenários de virada de jogo, cada um dos quais levanta questões que não podem ser respondidas sobre direções distintas que as mega tendências podem seguir. O GT2030 explora em detalhes, seis dessas viradas de jogo:

  1. Uma economia global volátil e propensa a crises;
  2. Incapacidade dos governos de se adaptarem a um mundo em rápida mudança;
  3. O potencial para aumento de conflitos;
  4. Instabilidades regionais mais amplas;
  5. O impacto das novas tecnologias; e
  6. O futuro papel dos Estados Unidos.

Na parte final do relatório, a equipe GT2030 trabalhou com a McKinsey para analisar os vários cenários alternativos que podem ocorrer com base nas complexas interações entre as quatro mega tendências e as seis viradas de jogo. Eles usaram o Modelo de Estudos do Crescimento Global da McKinsey para modelar esses vários cenários e escolheram os quatro mais prováveis. Em seguida, desenvolveram uma visão fictícia e um enredo para cada um dos quatro mundos alternativos:

  1. A globalização se estagna e os conflitos inter estados aumentam;
  2. Cooperação mundial em uma série de questões lideradas pelos EUA e China;
  3. As desigualdades econômicas dominam, levando ao aumento das tensões sociais e conflitos globais; e
  4. Atores não estatais colaboram para enfrentar os desafios globais que levam a um mundo mais estável e socialmente coeso.

O relatório é bastante interessante. Fornece uma estrutura bem construída para refletir sobre como o mundo poderá ser nos próximos 15 a 20 anos. E, em particular, dá um bom suporte para pensar sobre a contínua revolução da tecnologia digital e seu impacto transformador nas economias e sociedades em todo o mundo. Estamos passando por um período de grandes mudanças, enquanto fazemos a transição da sociedade industrial dos últimos dois séculos para um novo tipo de sociedade baseada na informação.

Como será o nosso mundo nas próximas décadas?

O impacto das novas tecnologias é uma das seis viradas do jogo, que dá foco à seguinte questão: “Será que os avanços tecnológicos serão desenvolvidos a tempo de aumentar a produtividade econômica e resolver os problemas causados pelo crescimento da população mundial, pela rápida urbanização e pelas mudanças climáticas?”. Mas, na verdade, as mudanças tecnológicas desempenham um papel importante em cada uma das quatro mega tendências.

Empoderamento individual: o empoderamento individual será acelerado devido à redução da pobreza, o crescimento da classe média global, maior realização educacional, amplo uso de novas tecnologias de comunicação e manufatura; e avanços na área de saúde.

Nos últimos dois séculos, a Revolução Industrial levou a grandes melhorias no padrão de vida em todo o mundo. De acordo com o economista Richard Steckel, de 1920 a 1998, o PIB per capita mundial aumentou 8,6 pontos percentuais, em diferentes regiões. O PIB per capita aumentou 3,3 vezes na África e na Índia e 5,5 na China. Mas nos países mais industrializados, cujas economias se beneficiaram fortemente dos avanços tecnológicos e científicos da Revolução Industrial, o PIB per capita cresceu a uma taxa muito mais rápida. Os países da Europa Ocidental registraram um aumento de mais de dez vezes, os EUA chegaram a crescer 21,7 e o Japão de 30,5.

Esses avanços levaram a um crescimento da classe média de mais ou menos um bilhão de pessoas, principalmente concentrada nos países industrializados. Ao mesmo tempo, mais de um bilhão de pessoas em economias menos desenvolvidas ainda vivem em extrema pobreza. Mas, graças ao empoderamento individual, a GT2030 acredita que EWTA pode ser a mega tendência mais importante, e que essa situação irá mudar rapidamente.

Um número significativo de pessoas tem saído de um nível bem abaixo do limiar da pobreza para um nível relativamente melhor devido ao amplo desenvolvimento econômico. Na ausência de uma recessão global, o número de pessoas que vivem em extrema pobreza está prestes a declinar, à medida que a renda continua a aumentar na maior parte do mundo. O número pode cair cerca de 50% até 2030, de acordo com alguns modelos… Na maioria dos cenários – exceto nos mais terríveis – avanços significativos na redução da pobreza extrema, serão alcançados até 2030...”

A maioria das classes médias em todo o mundo em desenvolvimento está destinada a se expandir substancialmente em termos de números absolutos e da porcentagem da população que pode reivindicar o status de classe média durante os próximos 15-20 anos. Mesmo os modelos mais conservadores veem um aumento no total global daqueles que vivem na classe média dos atuais 1 bilhão ou mais para mais de 2 bilhões de pessoas. Outros veem aumentos ainda mais substanciais como, por exemplo, a classe média global atingindo 3 bilhões de pessoas em 2030.”

As tecnologias digitais têm desempenhado um papel central neste empoderamento individual global. Desde meados dos anos 1990, a Internet tem gerado uma economia digital verdadeiramente global, que conecta pessoas e empresas em todo o mundo. Nos últimos cinco anos, nossos avanços tecnológicos contínuos estão trazendo os benefícios de capacitação da revolução digital para quase todas as pessoas no planeta. Três desses avanços se destacam em particular. 1) O crescimento explosivo de dispositivos móveis cada vez mais poderosos, baratos e inteligentes; 2) a ascensão da computação em nuvem, que está permitindo a distribuição econômica de serviços e aplicativos sofisticados para todos esses dispositivos; e 3) as onipresentes redes sem fio de banda larga conectando tudo isso. Juntos, esses avanços estão dando origem a uma plataforma baseada na Internet para inovações digitais inclusivas que está tirando as pessoas da pobreza extrema, bem como expandindo significativamente a classe média mundial.

Difusão de Poder: Não haverá poder hegemônico. O poder mudará para redes e coalizões em um mundo multipolar.

Existem dois aspectos principais nesta mega tendência. O poder econômico e político está mudando da América do Norte e da Europa Ocidental para as economias de crescimento mais rápido do Leste e do Sul. O poder nacional está sendo distribuído para países com PIB e populações crescentes, não apenas China, Índia e Brasil, mas também nos atores regionais como Colômbia, Indonésia, Nigéria, África do Sul e Turquia.

A mudança no poder é apenas parte da história e pode ser ofuscada por uma mudança ainda mais fundamental na natureza do poder”, observa o relatório. “Em 2030, nenhum país – sejam os EUA, China ou qualquer outro grande país – será uma potência hegemônica. Ativado por tecnologias de comunicação, o poder quase certamente se deslocará mais para redes multifacetadas e amorfas compostas de atores estatais e não estatais que se formarão para influenciar as políticas globais em várias questões. A liderança dessas redes dependerá da posição, do enredamento, da habilidade diplomática e do comportamento construtivo. As redes irão restringir os formuladores de políticas porque vários participantes serão capazes de bloquear as ações dos formuladores de políticas em vários pontos.”

Os atores não estatais incluirão grandes cidades e regiões urbanas, empresas multinacionais, organizações não governamentais (ONGs), instituições acadêmicas e comunidades ad-hoc com poderes. A mídia social, big data e outras tecnologias avançadas permitirão que esses grupos colaborem uns com os outros, bem como com os governos locais, para enfrentar os desafios globais. Dadas as populações polarizadas e os governos nos Estados Unidos e em outros grandes países, esse modelo distribuído de governança pode muito bem emergir como a maneira mais razoável de fazer as coisas.

Padrões demográficos: o arco demográfico de instabilidade se estreitará. O crescimento econômico pode diminuir em países em envelhecimento. Sessenta por cento da população mundial viverá em áreas urbanizadas; a migração aumentará.

A tecnologia deve desempenhar um papel importante para ajudar a encontrar soluções acessíveis para os desafios colocados por uma população crescente e cada vez mais urbana, que deverá crescer de 7,1 para 8,3 bilhões de pessoas em 2030, sessenta por cento das quais viverão em cidades, em comparação com cinquenta por cento hoje.

Além disso, a idade média de quase todos os países está aumentando rapidamente, especialmente nas economias mais avançadas. Uma grande porcentagem de suas populações terá mais de 65 anos, o que representa grandes desafios para os programas de saúde e benefícios sociais. As inovações tecnológicas são necessárias para ajudar a fornecer serviços de saúde de alta qualidade a preços acessíveis para uma população que envelhece, bem como um ambiente adequado que lhes permita trabalhar por mais tempo e adiar a aposentadoria.

Alimentos, água e energia: a demanda por esses recursos crescerá substancialmente devido ao aumento da população global. O enfrentamento dos problemas relativos a uma commodity estará vinculado à oferta e à demanda das demais.

Com bilhões saindo da pobreza e ingressando na classe média, podemos esperar um aumento na demanda por recursos naturais, bem como por produtos e serviços de todos os tipos. Mas, atender a essas demandas e, esperançosamente, desencadear uma era de prosperidade só será possível em uma economia baseada em padrões de produção e consumo sustentáveis.

Uma classe média em expansão e o aumento das populações urbanas aumentarão as pressões sobre os recursos críticos – principalmente alimentos e água – mas novas tecnologias – como a agricultura vertical em edifícios altos que também reduzem os custos de transporte – podem ajudar a expandir os recursos necessários. A segurança alimentar e hídrica está sendo agravada pela mudança das condições climáticas fora das normas esperadas.”

Não estamos necessariamente caminhando para um mundo de escassez, mas os formuladores de políticas e seus parceiros do setor privado precisarão ser proativos para evitar a escassez no futuro. . . As questões serão se a gestão de recursos críticos se torna mais eficaz, até que ponto as tecnologias mitigam os desafios dos recursos e se melhores mecanismos de governança são empregados para evitar os piores resultados possíveis.”

Em sua página de abertura, o relatório Global Trends 2030 compara nossos tempos atuais com o alvorecer da Era Industrial. “Estamos vivendo um período de transformação semelhante, no qual a amplitude e o escopo dos possíveis desenvolvimentos – bons e ruins – são iguais, se não maiores, do que as consequências das revoluções políticas e econômicas do final do século XVIII.

Em seguida, resume nossos tempos atuais com as famosas linhas de abertura usadas por Charles Dickens ao escrever sobre o período do final do século 18 de “A Tale of Two Cities”:

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos... foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero... estávamos todos indo direto para o Céu, todos nós estávamos indo direto para o outro lado...

Além da Guerra de Preços: O Oceano Azul na Conectividade Brasileira

Introdução Lançado em 2005 por W. Chan Kim e Renée Mauborgne, A Estratégia do Oceano Azul revolucionou o pensamento estratégico...