17/07/2006

A natureza mutável da estratégia

Com a primeira metade da primeira década dos anos 2000 cumprida trabalhando, já me sinto um veterano, por estar bastante envolvido com estratégias de negócios. Já consigo definir por mim mesmo, como a natureza da estratégia no setor de TIC mudou nos últimos dez anos. 

O mais evidente é o ritmo crescente das mudanças nas tecnologias da informação e no mercado. Os ciclos de produção são, agora, significativamente mais curtos do que no início dos anos 90. Tudo está se movendo bem mais rápido. 

Outra mudança importante é a crescente importância de focar no mercado e nas aplicações da tecnologia, não apenas nas tecnologias, produtos e serviços em si. À medida que os componentes de hardware e software se tornam cada vez mais poderosos, baratos e onipresentes, grande parte da inovação no setor de TIC estará nos tipos de sistemas, aplicativos e soluções industriais que agora podemos desenvolver aproveitando esses componentes tecnológicos.

Esses são alguns dos fatores que exigem que as empresas abordem a estratégia de uma forma significativamente diferente da que costumavam fazer. Embora meus comentários sejam baseados em minhas experiências no setor, acredito que eles se apliquem a qualquer setor, em que as tecnologias e mercados estejam passando por mudanças rápidas e profundas.

A maioria das empresas criavam suas estratégias de forma hierárquica, que praticamente seguia uma organização hierárquica. Cada linha de negócios elaborava seu plano estratégico uma ou duas vezes por ano e o apresentava à gerência geral da empresa. Uma vez aceitos, todos os planos eram integrados por uma equipe de estratégia corporativa à estratégia geral da empresa. Em empresas com integração flexível, a estratégia geral era simplesmente a soma das estratégias das unidades individuais, enquanto em empresas mais integradas, buscava-se elaborar uma estratégia relativamente holística para toda a empresa. 

Essa abordagem hierárquica funcionou bem quando tecnologias e produtos eram o foco principal de uma estratégia e quando essas tecnologias e produtos mudavam muito mais lentamente. Hoje, é preciso preservar aspectos da abordagem hierárquica, como, por exemplo, para a gestão da estratégia financeira da empresa. Mas, para tecnologias e mercados, a abordagem hierárquica é muito rígida e deve ser complementada por abordagens mais dinâmicas, de baixo para cima, que reajam constantemente ao que está acontecendo dentro da empresa e no mercado. Alcançar o equilíbrio adequado entre uma estratégia de cima para baixo – e uma estratégia de baixo para cima que reflita as realidades do mercado, pode ser um dos maiores desafios competitivos que uma empresa enfrenta.

No passado, uma empresa claramente precisava prestar atenção à concorrência e ao mercado, mas não no mesmo grau que hoje. Dado o ambiente global hipercompetitivo e em rápida mudança que temos hoje, as forças do mercado alcançaram um status quase mítico. Penso nelas como forças que nos atingem frequentemente e alteram o ambiente, muitas vezes de maneiras drásticas, a ponto de exigir respostas igualmente drásticas e rápidas demais para as empresa. Portanto, é muito importante que a empresa tenha uma compreensão muito clara e atualizada do ambiente e do mercado e faça o possível para se ajustar e estar em harmonia com esses ambientes, em vez de tentar combatê-lo para preservar o status quo.

Em tal clima, é preciso prestar muita atenção ao que está acontecendo lá fora; olhando para seus clientes e parceiros de negócios e suas principais fontes de ideias inovadoras. Cada vez mais empresas estão percebendo a importância de considerar a inovação de seus produtos e serviços como fortes indicadores do rumo que seus mercados estão tomando. Colaborar com universidades, laboratórios de pesquisa e comunidades abertas é essencial para antecipar o futuro que se aproxima rapidamente e buscar tempo suficiente para fazer algo a respeito. Essas colaborações não podem ser feitas com equipes terceiras, que estão monitorando o que está acontecendo lá fora; a empresa precisa ter seus próprios talentos e que suas opiniões e contextos sejam respeitados. 

Assim, parte do processo estratégico de baixo para cima, seria ajudar a organizar comunidades de inovação empresarial que possam informar o que realmente está acontecendo, sugerir todos os tipos de ideias inovadoras e analisá-las como comunidade antes de fazer recomendações à gerência. A inovação colaborativa em geral, tanto dentro quanto fora da empresa, deve ser um dos principais objetivos.

No passado, um fornecedor ia a um analista para descobrir mais sobre um concorrente, porque uma conversa direta estava fora de questão. O controle da informação era a ordem do dia. Tudo sobre estratégia era segredo. 

No presente, há um equilíbrio intrigante emergindo à medida que os executivos corporativos tentam descobrir o que está acontecendo. É provável que desenvolvedores estejam por aí conversando alegremente com o mercado sobre o que está acontecendo na empresa — os blogs são uma manifestação óbvia de como as informações estão cruzando as fronteiras organizacionais e competitivas... De repente, a coleta de requisitos se tornou muito mais eficaz...

Pessoalmente, gosto do modelo aberto e colaborativo de cono se disseminar conhecimento, pelas comunidades colaborativas do mundo todo. Outro dia ajudei um jovem na Índia que estava com dificuldades em configurar um servidor DNS e eu o ajudei em todos os passos: da instalação à configuração avançada do servidor. 

Formulações de estratégias de negocios podem estar virando conversa de chat — identificando tecnologias emergentes e desenvolvimentos de soluções e até estratégias de mercado, que são cruciais para o futuro do setor de TIC.
Mas ainda mais gratificante para mim é ter a responsabilidade de executar os esforços gerais para implementar uma estratégia de negócios. Abertamente falando: há uma grande diferença entre elaborar recomendações para outras pessoas e implementar uma estratégia e ter que descobrir como implementar as recomendações você mesmo. 

Para mim, quanto mais complexa e competitiva a estratégia, mais estimulante ela é. No setor de TIC, quando se olha de cima, vê-se os restos de muitas empresas que não fizeram um bom trabalho na gestão de suas estratégias e, consequentemente, de seus negócios, e que não existem mais. Formular e gerenciar estratégias é um negócio muito sério — e que está em constante transformação. 

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