25/02/2020

A tecnologia para a emergência global


Os Coronavírus estão se tornando uma enorme ameaça para o mundo, ainda maior que o surto de SARS há alguns anos atrás. No entanto, agora, cientistas, pesquisadores, médicos e especialistas em saúde têm a opção de usar as mais recentes tecnologias, como aprendizado de máquina e inteligência artificial para tentar derrotar o vírus. Além disso, eles têm a opção de realizar análises preditivas e usar os insights gerados a partir dela para entender e monitorar a epidemia. Este artigo, foca-se mais em demonstrar o uso de novas tecnologias como IA e ML para a prevenção ou redução de Corona vírus.

Por que o Coronavírus é tão perigoso?

O Coronavírus pode causar vários problemas de saúde. Desde um resfriado comum, até algo mortal, como a Síndrome Respiratória Aguda, o Coronavírus é definitivamente um vírus com risco de vida. O que torna o Coronavírus ainda mais assustador é o fato de ser a primeira vez que foi identificada essa família de vírus, que atacam seres humanos. Além disso, como ele é altamente transmissível, pode afetar e se alastrar pelos humanos rapidamente, espalhando-se através de tosse, gotículas de espirro, etc. Na verdade, pode até espalhe-se apenas com o toque das mãos da pessoa contaminada.

Uso da tecnologia

As tecnologias mais recentes para tratamento de doenças, ainda não são capaz de salvar as pessoas de contrair doenças, mas ajuda a entender as razões por trás dela e até as maneiras possíveis de evitá-la. Antes, levava-se muito tempo para sequenciar o genoma de qualquer vírus. Mesmo quando o SARS chegou, demorou muito tempo para seu sequenciamento. Mas agora, com a ajuda da IA e da ML, foi possível sequenciar rapidamente o genoma do vírus. De fato, no caso do Coronavírus, a ferramenta precisou apenas de um mês para identificar a sequência do seu genoma. A primeira tentativa foi relatada em dezembro de 2019 e em janeiro de 2020, os cientistas tinham a sequência completa do genoma.

Mapeamento da doença

Os especialistas também estão usando a tecnologia para rastrear a propagação da doença; já havia ferramentas de mapeamento usadas anteriormente. Mas agora o processo se tornou mais rápido e eficiente.

Os especialistas já conseguem olhar para um mapa em tempo real focado na disseminação do Coronavírus. Ele exibe as estatísticas relacionadas aos vários casos confirmados internacionalmente. Mostrando até as mortes relatadas nos países. Com a ajuda dos dados, os especialistas podem obter várias informações.

O mapeamento também ajuda a implementar restrições de viagem, se necessário. No entanto, muitos dados precisam ser coletados e processados para obter tais informações.

Os especialistas em big data também estão cruzando informações relacionadas aos padrões de tráfego das companhias aéreas, ao mesmo tempo que analisam todos os detalhes mais recentes sobre a propagação do vírus e as últimas descobertas relacionadas à transmissão da doenças.

Assim, o big data e o aprendizado de máquina, ambas as tecnologias, serão amplamente utilizadas para fins de mapeamento.

O papel da Inteligência Artificial e da Análise Preditiva

Muitas empresas de IA e ML, especialmente aquelas que lidam com assistência médica, estão ansiosas para construir uma hábil ferramenta de previsão de Coronavírus. De fato, algumas empresas criaram ferramentas que podem ajudar os profissionais de saúde a detectar os sinais de alerta do vírus. A BlueDot, uma empresa especializada em vigilância de doenças contagiosas, criou uma ferramenta eficiente baseada em IA e ML. A ferramenta é usada para prever com exatidão e eficiência o surto do vírus.

Basicamente, a ferramenta funciona pesquisando e coletando uma enorme quantidade de informações. Ao processar o grande número de conjuntos de dados, a ferramenta pode gerar insights preditivos valiosos. Os dados são coletados de várias fontes, como sites e mídias sociais, reportagens, relatórios governamentais, além de vários outros recursos. A ferramenta também ajudou a identificar as áreas geográficas em que não se deve ir por causa da propagação do vírus.

Além disso, existem outras ferramentas baseadas em IA e ML, que são usadas para identificar os locais onde o vírus poderá chegar em breve. Com base nas previsões, os profissionais de saúde podem iniciar o processo de conceber formas de combater a possível propagação da doença e evitá-la. Além disso, os profissionais e institutos de saúde devem estar preparados para o tratamento de pacientes.

De fato, a Universidade Humboldt está também fazendo previsões sobre o surto de Coronavírus. Seus dados incluem muitas informações, como o risco de transmissão, avanços e muitos outros detalhes. Profissionais desta universidade já estão prontos para fornecer seus dados e insumos para fazer previsões em larga escala. Portanto, a análise preditiva tem um papel importante a desempenhar na tomada de decisões para ajudar a prevenir e reduzir a possibilidade do surto.

Robôs em hospitais para atender pacientes infectados

A China já começou a usar robôs com inteligência artificial para atender pacientes com Coronavírus. Os robôs são capazes de se auto desinfetar e alguns robôs andam pelo meio dos pacientes, medem a temperatura corporal e outros atendimentos elementares. Inicialmente, os robôs estavam entregando medicamentos e realizando outras tarefas, como trocar os lençóis da cama, etc. Isso permitiu aos humanos mais tempo para cuidar dos pacientes, reduzindo a pressão do trabalho sobre enfermeiros humanos. Além disso, o trabalho dos robôs praticamente erradica a possibilidade de infecção cruzada. Como o país relata casos em que até mesmo os profissionais médicos começaram a contrair a doença, foi importante usar robôs para evitar disseminar a infecção pelos hospitais.

Muitas organizações de saúde usam IA e ML há anos. E agora, muitas dessas ferramentas serão usadas para reduzir os efeitos nocivos do vírus.

Como existem muitos dados disponíveis, processá-los, para produzir previsões e insights, não será difícil; mas tomará tempo. Todas as informações eventualmente ajudarão a superar o surto da doença, e é exatamente isso que o mundo deseja no momento – reduzir o impacto do Coronavírus.

23/02/2020

A economia na terceira onda digital


“A próxima onda de inovação digital está chegando. Os países podem alcançar novos patamares de inovação e prosperidade, ou podem ignorar as mudanças e perder a onda”. Isso foi o que escreveu Robert Atkinson em seu trabalho The Task Ahead of Us. Atkinson é fundador e presidente da Fundação de Tecnologia da Informação e Inovação (ITIF), um órgão focado em políticas de ciência e tecnologia.

Agora estamos entrando na terceira onda da economia digital, diz Atkinson. A primeira foi baseada em computação pessoal, Internet, Web 1.0 e comércio eletrônico. A segunda nos trouxe a Web 2.0, big data, smartphones e computação em nuvem.

A terceira onda promete estar significativamente mais conectada, – incluindo maior largura de banda e uma ampla variedade de dispositivos; mais automatizada, – com mais trabalho sendo realizado por máquinas enquanto integra os mundos físico e digital; e mais inteligente, aproveitando grandes volumes de dados e algoritmos avançados para nos ajudar a entender e lidar com nosso mundo cada vez mais complexo.

“A construção e adoção do novo sistema de tecnologia conectada, automatizada e inteligente trará enormes benefícios globalmente, entre os quais se destacam grandes taxas de crescimento da produtividade e melhorias nos padrões de vida. Além disso, essas tecnologias ajudarão a enfrentar desafios globais relacionados ao meio ambiente, saúde pública e transporte, entre outros.”

Estamos nos estágios iniciais desta terceira onda. 5G, IoT, robótica, Inteligência Artificial e outras tecnologias promissoras estão sendo adotadas pelos primeiros usuários do mercado, mas seu impacto em larga escala ainda irá acontecer em 5 a 10 anos. Estamos em um período não muito diferente do final dos anos 80, quando ficou claro que a TI estava à beira de uma grande transição, mas a revolução da Internet não chegou até meados dos anos 90.

Segundo Atkinson, essa transição será mais complicada e levará mais tempo para ser concretizada que as duas primeiras. Nas duas épocas anteriores, “os consumidores precisavam apenas de dispositivos conectados à Internet e as empresas precisavam de pouco mais que sites (e, algumas mudanças na logística e novos sistemas de pagamento). No futuro, o progresso dependerá de uma reformulação muito mais complexa dos sistemas de produção e dos modelos de negócios das organizações – não apenas dentro das organizações, mas entre elas”.

Além disso, além dos desafios técnicos e organizacionais, um dos maiores riscos no caminho é a crescente oposição neo-duddita à digitalização contínua da economia e da sociedade.

“A implementação da próxima onda de tecnologias digitais será muito mais difícil do ponto de vista sócio-político do que durante as duas últimas transformações digitais, porque hoje existe uma oposição mais ampla e mais rígida. Nas transições digitais passadas, o setor de tecnologia era amplamente visto como uma força para mudanças sociais positivas: os computadores ajudavam as organizações a se tornarem mais produtivas e a Internet a disseminar o acesso ao conhecimento. Hoje, por outro lado, a “Big Tech” é cada vez mais demonizada e desafiada em uma série de questões, desde a privacidade até a interrupção do trabalho”.

Dados seus benefícios atraentes, a próxima onda digital será em grande parte inevitável, diz Atkinson. Mas, seu apoio não precisa se basear em otimismo irrealista. Haverá sérios desafios, como tem sido o caso das transformações tecnológicas nos últimos dois séculos, incluindo a cibersegurança e a necessidade de fornecer assistência de transição aos trabalhadores deslocados. Conforme observado em um relatório recente da McKinsey sobre o futuro do trabalho“embora possa haver trabalho suficiente para manter o emprego pleno até 2030 na maioria dos cenários, as transições serão muito desafiadoras – igualar ou até exceder as taxas de trabalho da agricultura e manufatura vimos no passado.”

“Mas as sociedades conseguiram enfrentar desafios semelhantes nas transformações passadas, e não há motivos para acreditar que não possam fazê-lo novamente no futuro, especialmente se a sociedade civil mudar da oposição à implementação de tecnologia para apoiar regras e estruturas de governança”, completa Atkinson .

Mercados e empresas terão o maior papel no desenvolvimento e implementação de tecnologias digitais da próxima onda e suas transformações organizacionais subsequentes. Mas os governos têm um papel importante a desempenhar. Eles precisam fazer da evolução digital da próxima onda um objetivo político central. Mais especificamente, os governos devem adotar políticas que apoiem e permitam a transformação digital; removendo barreiras institucionais e regulamentares à implementação; e incentivando os cidadãos a abraçar a evolução digital.

Eis algumas das principais recomendações de políticas:

Apoiar políticas em que os benefícios sejam amplamente inequívocos

Tais políticas incluem “apoiar Pesquisa & Desenvolvimento, habilidades digitais e infraestruturas digitais; transformar as operações do próprio governo; abraçar a integração do mercado global; e incentivar a transformação de sistemas fortemente influenciados pelo governo (por exemplo, educação, saúde, finanças, transporte).“

Os EUA criaram, em 2005, um plano chamado Iniciativa Nacional de Inovação (NII), um relatório baseado em 15 meses de intensos estudos e deliberações, sobre a natureza mutável da inovação para os primórdios do século XXI e o que seria necessário para os EUA competirem e colaborarem efetivamente em um mundo cada vez mais interconectado. As conclusões e recomendações do relatório NII foram organizadas em três grandes categorias:

1. Talento: A dimensão humana da inovação, incluindo criação de conhecimento, educação, treinamento e apoio à força de trabalho.

2. Investimento: a dimensão financeira da inovação, incluindo investimento em Pesquisa & Desenvolvimento; apoio à assunção de riscos e ao empreendedorismo; e incentivo a estratégias de inovação de longo prazo.

3. Infraestrutura: as estruturas físicas e políticas que apoiam os inovadores, incluindo redes de informação, transporte, assistência médica e energia; proteção da propriedade intelectual; e regulamentação comercial.

No Brasil, temos o plano de ação para promoção da ciência e tecnologia, que um resumo, propõe um conjunto de programas, ações e projetos prioritários de apoio à inovação, para o período de 2018/2022, que visa contribuir para a superação dos desafios relacionados com a ampliação da capacidade de desenvolvimento tecnológico e inovação das empresas brasileiras.

Não é de surpreender que os governos apelem por políticas que apoiem talento, investimento e infraestrutura; embora já possamos estar na terceira onda de tecnologias digitais, seu impacto transformacional nas economias e sociedades ainda está nos estágios iniciais.

Remover barreiras institucionais e regulatórias

Nas ondas anteriores, vimos as tecnologias digitais aprimorando as comunicações, disseminando conhecimento e melhorando a produtividade. Agora, as tecnologias digitais também são vistas como ameaçadoras à privacidade e segurança, fornecendo acesso a informações polarizantes e odiosas, e causando muito desemprego e afetando o bem-estar de muitos trabalhadores.

“A oposição mais estridente ao progresso econômico digital vem de uma classe crescente que procura proibir ou regular fortemente as tecnologias digitais emergentes, como robôs, veículos autônomos e biometria, para limitar drasticamente sua adoção”.

Precisamos de políticas que apoiem os benefícios positivos das tecnologias digitais e, ao mesmo tempo, abordem seus impactos negativos. Políticas de privacidade de dados excessivamente rigorosas dificultam os avanços potenciais que a Inteligência Artificial pode trazer à medicina, ao projeto de medicamentos e à saúde pública.

“Por exemplo, conceder aos usuários o direito de optar por não receber a coleta de dados (em vez de exigir sua inclusão) protegerá a privacidade e limitará os efeitos negativos sobre a inovação digital”.

Embora evitem políticas que limitem os avanços digitais, os formuladores de políticas devem buscar ativamente conter atividades ilegais ou antiéticas. Por exemplo, políticas que buscam regular atividades negativas, como pornografia, spam, fraude financeira, hackers, roubo de identidade, malware e pirataria na Internet. Atualmente, pouco ou nada é feito para limitar tais ações (e, na maioria dos casos, elas avançam).

Incentivar os cidadãos a abraçar a evolução digital

A armadilha do pensamento coletivo anti tecnologia limitará seriamente e desacelerará a transformação digital.

“Oficiais do governo e outras elites precisam adotar uma narrativa otimista sobre como a transformação digital levará a um aumento dos padrões e qualidade de vida, além de combater ativamente os que buscam instigar o pânico tecnológico.”

As narrativas anti tecnológicas culpam as inovações digitais por vários desafios sociais, incluindo “desigualdade; perda de empregos e direitos dos trabalhadores; vício; vigilância; manipulação; cibercrime; polarização das mídias sociais; falta de diversidade; viés político; poder econômico e político concentrado; e evasão fiscal”.

A verdade é que as tecnologias digitais não são a principal causa da maioria dessas questões; e onde elas contribuem, as respostas geralmente podem fornecer soluções eficazes sem prejudicar a inovação.

“No final das contas, o sucesso dos governos em adotar as tecnologias digitais da próxima onda dependerá de uma combinação de conscientização e ação estratégica”, escreve Atkinson em conclusão.

Cada governo precisa perguntar a si mesmo, de que lado está nas duas frentes. Os políticos precisam realmente compreender as tecnologias, seus pontos fortes, fracos, oportunidades e ameaças competitivas que elas representam …

Ao tomar ações estratégicas, os governos deverão estar focados em aprender com as melhores práticas globais como as políticas afetarão as tecnologias digitais da próxima onda e, em seguida, garantir que se adaptem a essas lições para se ajustarem às realidades de seus próprios governos. Seguir o certo terá um impacto significativo e positivo nos padrões e na qualidade de vida das gerações futuras.

22/02/2020

Globalização em transição


 

Dias atrás, tive a oportunidade de ler dois relatórios interessantes sobre questões de globalização:

  1. The Economist;
  2. McKinsey Global Institute.

Ambos concordam que a globalização e o comércio global estão passando por mudanças consideráveis desde a crise financeira global de 2008. Mas eles diferem em suas explicações sobre os motivos das mudanças.

“A era de ouro da globalização, de 1990-2010, foi algo de se admirar”,

O The Economist em seu artigo, A globalização perdeu o impulso, menciona que

“O comércio disparou à medida que o custo da transferência de mercadorias em navios e aviões caiu, as ligações telefônicas ficaram mais baratas, tarifas foram cortadas e o sistema financeiro liberalizado”.

Mas agora, fizemos a transição para a chamada era da Slow Globalization.

“A globalização diminuiu sua velocidade e está mais para uma transição vacilante do que para manter o ritmo da última década por várias razões. O custo da movimentação de mercadorias parou de cair. Empresas multinacionais descobriram que a expansão global queima dinheiro enquanto os rivais locais ganham força. A atividade está mudando para serviços, que são mais difíceis de vender além-fronteiras. E as fábricas chinesas tornaram-se mais autossuficientes, necessitando importar menos peças.”

Finalmente, temos as guerras comerciais e tarifas bem mais divulgadas dos últimos anos. Em suma, as “regras de comércio estão sendo reescritas em todo o mundo”.

O artigo principal do Economist, Globalização vacilante, apresenta evidências quantitativas do aumento anterior e da desaceleração atual. O comércio mundial passou de 39% do PIB mundial em 1990 para 61% em 2008 e agora caiu para 58%, principalmente por causa de uma desaceleração do comércio de mercados emergentes, incluindo a China. Das doze medidas de integração global mostradas no artigo, sete caíram desde 2008. A participação nos lucros globais das empresas multinacionais listadas caiu de 33% em 2008 para 31% agora, enquanto os investimentos internacionais diminuíram de 3,5% do PIB global em 2007 para 1,3% em 2018. Os empréstimos bancários além-fronteiras caíram de 60% do PIB global em 2006 para cerca de 36%, e os fluxos brutos de capital caíram de um pico de 7% em 2007 para 1,5%.

Alguns setores continuaram a crescer. Encomendas e voos internacionais cresceram rapidamente na última década e a migração para o mundo rico aumentou um pouco. De longe, o crescimento mais rápido está no volume de dados, que aumentou 64 vezes desde 2007.

A McKinsey argumenta que a globalização está mais em transição do que vacilante, como refletido no título de seu relatório – Globalização em transição: o futuro do comércio e das cadeias de valor.

“As décadas de 1990 e 2000 viram a expansão de cadeias de valor complexas em todo o mundo. Mas as redes de produção não são imutáveis; eles continuam a evoluir. ”

Para entender melhor a natureza dessa evolução, o relatório analisou 23 cadeias de valor globais em 43 países, além de dados e contas das indústrias e entrevistou especialistas de todo o mundo.

Principais mudanças estruturais

A descoberta principal da McKinsey é que as cadeias globais de valor sofreram cinco grandes mudanças estruturais na última década.

As cadeias de valor produtoras de bens tornaram-se menos intensivas em comércio. Os anos entre 1995 e 2007 viram o rápido aumento do comércio em quase todas as cadeias de valor globais. Mas desde então, a intensidade do comércio – isto é, a proporção entre as exportações brutas e a produção bruta – tem caído em quase todas as cadeias de valor produtoras de bens físicos. As exportações caíram de 28,1% da produção bruta em 2007 para 22,5% em 2017.

“Entre 1990 e 2007, os volumes comerciais globais cresceram 2,1 vezes mais rápido que o PIB real, em média, mas cresceram apenas 1,1 vezes mais que o PIB desde 2011”.

Os serviços desempenham um papel crescente e subvalorizado nas cadeias de valor globais. Em 2017, o comércio bruto de serviços foi de US $ 5,1 trilhões, menos de um terço do comércio de US $ 17,3 trilhões em bens físicos. O comércio de serviços cresceu mais de 60% mais rapidamente que o comércio de mercadorias na última década. Além disso, como tem sido o caso da medição do verdadeiro valor do PIB dos serviços, o comércio transfronteiriço de serviços gera muito mais valor econômico do que o que é capturado nas estatísticas comerciais tradicionais, incluindo as contribuições dos serviços de valor agregado para bens físicos, por exemplo , Pesquisa & Desenvolvimento, engenharia, vendas e marketing, finanças, RH; as empresas intangíveis enviam para afiliadas estrangeiras, – por exemplo, software, marca, design, etc.; e serviços digitais disponibilizados para usuários globais.

A McKinsey estima que esses serviços intangíveis “produzam coletivamente até US $ 8,3 trilhões em valor anual – um número que aumentaria os fluxos comerciais totais em US $ 4,0 trilhões (ou 20%) e realocaria outros US $ 4,3 trilhões atualmente contados como parte do fluxo de mercadorias para serviços. Se visto dessa maneira, o comércio de serviços já é mais valioso do que o comércio de mercadorias [US $ 13,4 trilhões em serviços versus US $ 13,0 trilhões em bens físicos].”

O comércio baseado na arbitragem do custo do trabalho está diminuindo em algumas cadeias de valor. Muitas das decisões que levaram ao crescimento do comércio transfronteiriço nas décadas de 1990 e 2000 foram baseadas na arbitragem do custo da mão-de-obra, particularmente em indústrias com bens e serviços que demandam muito trabalho. Hoje, menos de 20% dessas decisões são baseadas em custos de mão-de-obra, com mais de 80% de decisões baseadas em outras considerações, incluindo acesso a mão de obra qualificada, recursos naturais e proximidade com os consumidores. Os custos crescentes do trabalho nas economias em desenvolvimento também estão influenciando essas decisões. Além disso, os avanços na IA e na automação provavelmente transformarão a produção intensiva de mão-de-obra em produção intensiva de capital, uma mudança com implicações importantes para os países de baixa renda.

As cadeias de valor globais estão cada vez mais intensivas em conhecimento. Os investimentos em ativos intangíveis, incluindo Pesquisa & Desenvolvimento, software e marcas, aumentaram de 5,4% da receita em 2000 para 13,1% em 2016. A crescente dependência do conhecimento favorece países com força de trabalho altamente qualificada, forte inovação e capacidades de Pesquisa & Desenvolvimento e robusta Proteções de dados. Essa tendência está aumentando em vários setores industriais. É particularmente pronunciado em produtos farmacêuticos e dispositivos médicos, que gastam em média 80% da receita em pesquisa e desenvolvimento e outros ativos intangíveis.

As cadeias de valor estão se tornando mais regionais e menos globais. Até recentemente, o comércio de longo curso era mais prevalente à medida que as cadeias de valor globais se expandiam para a China e outros países com baixos custos de mão-de-obra. Mas a tendência agora está se revertendo, impulsionada em parte pelo crescente padrão de vida e consumo nos mercados emergentes. As cadeias de valor produtoras de mercadorias estão se concentrando mais regionalmente, com empresas estabelecendo produção mais próxima de seus clientes.

“A regionalização é mais aparente nas cadeias de valor das inovações globais, dada a necessidade de integrar estreitamente muitos fornecedores para o sequenciamento just-in-time. Essa tendência também pode acelerar em outras cadeias de valor, pois a automação reduz a importância dos custos de mão-de-obra e aumenta a importância da velocidade de comercialização nas decisões da empresa sobre onde produzir mercadorias.”

Estratégias de operação global

Dadas essas grandes mudanças nas cadeias de valor, a McKinsey recomenda que as empresas reavaliem suas estratégias globais de operação.

Reavaliar onde competir ao longo da cadeia de valor. “Os líderes empresariais precisam monitorar continuamente para onde o valor está se movendo em seu setor e se adaptar de acordo. Para algumas empresas, isso pode significar trazer mais operações internamente. Aqueles que terceirizam precisam de relacionamentos estreitos com fornecedores e maior visibilidade nos níveis mais baixos da cadeia de suprimentos.”

Considere como capturar valor dos serviços. “Em várias cadeias de valor (incluindo manufatura), mais valor vem dos serviços … Para fazer essa mudança com sucesso, as empresas precisam obter informações sobre as necessidades dos clientes, investir em dados e análises e desenvolver a assinatura, uso ou desempenho corretos contratos de serviços.”

Reconsidere sua presença operacional para refletir novos riscos. “Novas tecnologias de automação, mudanças nos custos dos fatores, um conjunto crescente de riscos e a crescente importância da velocidade de comercialização em alguns setores estão impulsionando a localização em muitas cadeias de valor produtoras de bens.”

Seja flexível e resiliente. “Hoje, as empresas enfrentam um conjunto mais complexo de incógnitas, pois a ordem mundial do pós-guerra, mantida por décadas, parece ceder … Construir operações ágeis pode ajudar as empresas a se prepararem para esses tipos de incertezas.”

Priorize a velocidade de comercialização e a proximidade com os clientes. “A velocidade do mercado permite respostas mais rápidas ao que os clientes desejam e menos desperdício de produtos devido a erros de previsão”.

Crie relacionamentos mais estreitos com os fornecedores. “Os relacionamentos com fornecedores em todo o mundo envolvem riscos e custos ocultos. Faz sentido identificar quais fornecedores são essenciais para os negócios, solicitar suas ideias e aprofundar o relacionamento com eles.”

“A globalização está no meio de uma transformação. No entanto, o debate público sobre o comércio é frequentemente sobre recuperar o passado, em vez de olhar para o futuro. A mistura de países, empresas e trabalhadores que podem ganhar na próxima era está mudando. Compreender como o cenário está mudando ajudará os formuladores de políticas e líderes empresariais a se prepararem para o próximo capítulo da globalização e as oportunidades e desafios que ela apresentará.”

21/02/2020

Como será o trabalho em 2030?

Vários estudos estão a analisar atentamente o futuro do trabalho nos próximos 10 a 15 anos. Um relatório de dezembro de 2017 da McKinsey examinou quais empregos provavelmente serão substituídos pela automação até 2030, bem como, quais empregos provavelmente serão criados no mesmo período, com base em dados de 46 países.


A conclusão geral da McKinsey foi que uma economia crescente baseada em tecnologia criará um número significativo de novas ocupações que, compensará os declínios nas ocupações causados pela automação. No entanto,

“embora possa haver trabalho suficiente para manter o emprego pleno até 2030 na maioria dos cenários, as transições serão muito desafiadoras – igualar ou exceder a escala de turnos da agricultura e manufatura que vimos no passado”.

Outro relatório, The Changing Nature of Work, – publicado pelo Banco Mundial em outubro de 2018 – concluiu que nosso problema não é que não haverá trabalho suficiente no futuro, mas sim, que em muitos países, a força de trabalho não estará preparada para trabalhar.

Negligenciar os investimentos em capital humano, ou seja, a soma total da saúde, habilidades, conhecimento e experiência de uma população, enfraquecerá drasticamente a competitividade de um país.

Vamos falar um pouco sobre Oito futuros cenários de trabalho e suas implicações: um documento publicado em janeiro de 2018 pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) em colaboração com o Boston Consulting Group (BCG). Esse artigo considerou oito cenários distintos sobre como seria o trabalho até 2030, com base em diferentes combinações de três das variáveis mais impactantes e incertas que afetam o futuro do trabalho: a taxa de mudança tecnológica; a evolução da aprendizagem na força de trabalho; e a magnitude da mobilidade de talentos entre regiões geográficas.

Por uma questão de simplicidade, o estudo considerou dois resultados possíveis para cada variável:

Mudança tecnológica. Os desenvolvimentos em ciência de dados, Inteligência Artificial, robótica, IoT, Blockchain e outras tecnologias avançadas terão um grande impacto nos mercados de trabalho nos próximos 10 a 15 anos. Os dois resultados possíveis são:

Constante: a mudança prossegue no ritmo atual (ou mais lento), com automação em larga escala das tarefas rotineiras, mas as tarefas mais qualificadas permanecem relativamente intocadas.

Acelerado: além das tarefas rotineiras, as máquinas tornam-se capazes de executar tarefas não rotineiras que exigem habilidades cognitivas, além de uma ampla variedade de tarefas físicas.

Evolução da Aprendizagem. Um desafio ainda maior será garantir que os trabalhadores tenham as habilidades e o apoio necessários para fazer a transição para novos empregos. A crescente demanda por conhecimento em tecnologias que avançam rapidamente exigirá treinamento contínuo. Veremos uma demanda crescente por habilidades humanas, como criatividade, originalidade, pensamento crítico, inteligência emocional, liderança, raciocínio, resolução de problemas e idealização. Os dois resultados considerados são:

Lento: muitos trabalhadores competirão por menos papéis ou vagas que correspondem às suas habilidades, enquanto as empresas enfrentarão uma crescente escassez de talentos.

Rápido: as preocupações com as mudanças tecnológicas e as lacunas de talento levarão a drásticas reformas nos sistemas educacionais; as empresas investirão pesadamente em treinamento e na qualificação de seus funcionários, que, juntamente com a aprendizagem ao longo da vida, ajudarão a criar uma força de trabalho dinâmica e criativa.

Mobilidade de Talentos. A terceira variável, o movimento dos trabalhadores dentro e além das fronteiras, será afetada por vários fatores, incluindo oportunidades econômicas, regulamentos de viagens, crises e conflitos. Os dois resultados possíveis são:

Baixo: governos nacionais e regionais imporão restrições à migração para proteger empregos no curto prazo; a escassez de talentos afetará o crescimento econômico, enquanto os baixos níveis de mobilidade reduzirão a troca de novas ideias e a expansão dos mercados.

Alto: movimentos em larga escala de pessoas em busca de melhores oportunidades se tornarão normal; trabalhadores altamente qualificados, com possibilidades de ganhos de altas rendas, estarão concentrados próximos a grandes áreas urbanas em todo o mundo.

Os oito cenários futuros de trabalho são baseados em diferentes combinações dessas três variáveis. Vamos resumir brevemente as qualidades marcantes de cada uma.

Autarquias da força de trabalho: mudança tecnológica constante; lenta evolução da aprendizagem; baixa mobilidade de talentos.

As autarquias da força de trabalho são economias nacionalistas que pretendem ser autossuficientes.

“Reagindo às preocupações dos trabalhadores, os governos impõem restrições à mobilidade internacional da mão-de-obra e procuram satisfazer internamente as necessidades de talento de suas economias”.

O protecionismo do Estado pode proporcionar algum alívio aos trabalhadores menos qualificados, mas obriga os empregadores a mudar o trabalho que exige talentos mais qualificados para países com mercados sem restrições.

“A redução resultante na transferência de conhecimento e a contínua falta de talentos para as empresas locais reduzem o crescimento e o dinamismo ao longo do tempo, reduzindo a capacidade dos mercados de trabalho locais”.

Movimento de massas: constante mudança tecnológica; lenta evolução da aprendizagem; alta mobilidade de talentos

Nesse cenário, os trabalhadores com qualificações inferiores e superiores estão em movimento, buscando melhores oportunidades. Isso ajuda as empresas a acessar os melhores talentos, mas aumenta a competição entre trabalhadores em todos os níveis de habilidade, potencialmente levando a tensões sociais.

Substituição de robôs: mudança tecnológica acelerada; lenta evolução da aprendizagem; baixa mobilidade de talentos

Nesse cenário, a tecnologia e as máquinas avançam rapidamente, enquanto muitos no local de trabalho não conseguem acompanhar o ritmo e enfrentam oportunidades cada vez menores, levando ainda mais ao aumento da automação. Esse esvaziamento do mercado de trabalho potencialmente levará a

“desigualdades profundas e crescentes, valores polarizados e visões divididas sobre a tecnologia”, com conflitos em ascensão.

Empreendedores empoderados: mudança tecnológica constante; evolução rápida do aprendizado; baixa mobilidade de talentos

Esse cenário é caracterizado por uma força de trabalho altamente qualificada e motivada, levando a um mercado dinâmico para os trabalhadores criarem oportunidades empreendedoras para si mesmos. Isso também pode levar os governos a restringir a mobilidade do trabalho para proteger seus investimentos em talentos altamente qualificados.

Mundo polarizado: mudança tecnológica acelerada, evolução lenta da aprendizagem; alta mobilidade de talentos

A combinação de mudança tecnológica acelerada e aprendizado lento levou a grandes seções da força de trabalho a ficarem desempregadas, enquanto a falta de habilidades humanas está aumentando a pressão para automatizar. Desigualdades profundas e crescentes dominam a sociedade, com movimentos em larga escala de pessoas dentro e entre países em busca de oportunidades. Super economias urbanas ricas e dispersas globalmente trocam ideias, bens e serviços entre si.

Fluxos qualificados: mudança tecnológica constante, evolução rápida da aprendizagem; alta mobilidade de talentos

O ritmo acelerado de aprendizado levou a uma força de trabalho altamente qualificada, motivada e dinâmica em vários setores e setores. A mobilidade da mão-de-obra dentro e além das fronteiras se tornou a norma, com credenciais e graus cada vez mais padronizados entre países e regiões.

Locais Produtivos: mudança tecnológica acelerada, evolução rápida da aprendizagem; baixa mobilidade de talentos

A combinação de mudanças tecnológicas aceleradas e aprendizado rápido leva a uma forte demanda de trabalhadores humanos altamente qualificados para trabalhar e complementar máquinas cada vez mais inteligentes. No entanto, a baixa mobilidade leva à escassez de talentos e prejudica o intercâmbio de novas ideias e a expansão dos mercados, fazendo com que empresas e trabalhadores se concentrem em suas economias locais.

Adaptadores Ágeis: mudança tecnológica acelerada, evolução rápida da aprendizagem; alta mobilidade de talentos.

“Existe uma forte demanda de trabalhadores humanos para complementar máquinas, gerenciar as mudanças em andamento e se especializar em novos tipos de papéis. A alta mobilidade de talentos nos países e além-fronteiras, combinada com amplas oportunidades de trabalho em plataforma on-line que atravessa fronteiras, criou um cenário global. Força de trabalho altamente ágil, produtiva e globalizada, que difunde rapidamente valores, ideias, tecnologias, bens e serviços em todo o mundo.”

Esse white paper deixa claro que os cenários não são previsões, o que, no final, seria um feito impossível. Em vez disso, os cenários são projetados para estimular discussões entre formuladores de opinião política, empresas, instituições acadêmicas e indivíduos, para que estejam melhor preparados para as grandes mudanças que estão por vir.

“De fato, nossa intenção neste trabalho é demonstrar que o futuro não é pré-determinado. Todos os cenários que apresentamos são possíveis, mas nenhum é certo. O resultado mais provável é uma combinação, com diferentes cenários ocorrendo simultaneamente em diferentes geografias, indústrias, grupos etários e grupos socioeconômicos.”

Neste outro documento da FIESP/CIESP são abordadas Macrotendências mundiais, são destacadas mudança no padrão de produção, aumento das tensões geopolíticas, intensificação da demanda por alimentos, aumento da demanda por energia, expansão do entretenimento e turismo, urbanização e emergência das megacidades e a Infraestrutura moderna e competitiva, junto com o envelhecimento da população.

19/02/2020

O impacto de uma população idosa no crescimento econômico e na automação.


lavierose.com.br

Contexto: O mundo ficou preso em uma era de lento crescimento econômico na última década. Especialistas propõem várias explicações para a desaceleração econômica, mas, no final, não há consenso sobre os reais motivos, quanto tempo provavelmente a desaceleração durará ou o que fazer a respeito.

O crescimento econômico tem dois componentes principais:

  1. O crescimento da produtividade, e 
  2. O crescimento da força de trabalho.

Uma teoria bastante interessante para a estagnação do crescimento econômico é a demografia; a saber, o rápido declínio da população motriz da força de trabalho em todo o mundo.

A população do mundo atual é de 8 bilhões de pessoas. A ONU estima que a população global chegará a 9,8 bilhões, com uma taxa de crescimento de 0,5% em 2050, e atingirá o pico em 2100, com aproximadamente 11,2 bilhões de pessoas, com uma taxa de crescimento de 0,1%. Outras projeções estimam que a população crescerá mais lentamente, atingindo um pico de 9,4 bilhões em 2070 e depois diminuindo para cerca de 9 bilhões em 2100. Alguns projetam que, após atingir um pico de 9 bilhões, a população mundial voltará aos níveis atuais – em torno de 7 bilhões, – até 2100.

O Japão e alguns outros países já estão sofrendo declínios populacionais. Atualmente, a população dos Estados Unidos é de cerca de 331 milhões e está projetada para atingir 390 milhões em 2050 e 450 milhões em 2100. Enquanto a taxa de natalidade nos Estados Unidos atingiu um nível histórico baixo em 2017, a população continuou a crescer devido à imigração. A taxa de crescimento nos Estados Unidos é de 0,71%, incluindo imigração e 0,43% sem ela.

A força de trabalho global cresceu a uma média de 1,8% ao ano entre 1960 e 2005, mas desde então vem crescendo a apenas 1,1% ao ano. A força de trabalho ainda está crescendo em alguns países em desenvolvimento como Índia, Nigéria e Filipinas, mas já está encolhendo na China, Japão e Alemanha. Nos Estados Unidos, a força de trabalho está crescendo muito lentamente – 0,5% ao ano na última década, em comparação com 1,7% entre 1960 e 2005. Dado o contínuo declínio nas taxas de fecundidade em muitas partes do mundo, a força de trabalho global deverá cair ainda mais nas próximas décadas.

O rápido envelhecimento da população das economias desenvolvidas e de grande parte do mundo … é visto como um dos males econômicos mais perigosos das próximas décadas”, escreveram os professores de economia Daron Acemoglu e Pascual Restrepo. As populações mais velhas não apenas reduzem a participação da força de trabalho, mas também levam a uma produtividade mais baixa, uma vez que a produtividade e os ganhos dos trabalhadores têm um pico na faixa dos 40 anos. Pode-se esperar, portanto, que os países em envelhecimento mais rápido sejam mais afetados pelo crescimento econômico mais lento e pelo PIB per capita. Mas, de fato, este não é o caso.

…países com envelhecimento mais rápido cresceram mais nas últimas décadas … A falta de uma forte associação negativa entre mudanças na estrutura etária e mudanças no PIB per capita é surpreendente. Então, o que explica isso?

No estudo Demographics and Automation, publicado em março de 2019, Acemoglu e Restrepo analisaram o impacto de uma força de trabalho em envelhecimento no crescimento econômico e na automação com base em um modelo simples de adoção e inovação de tecnologia. 

Os trabalhadores foram classificados em dois grupos etários: 

  • Meia-idade – entre 21 e 55 anos; e 
  • Mais velhos – aqueles com 56 anos ou mais. 

Esses trabalhadores foram alocados em diferentes tarefas de diversos ramos industriais. O modelo supunha que os trabalhadores de meia idade tenham uma vantagem comparativa em tarefas de produção com orientação física, enquanto os trabalhadores mais velhos se especializam em serviços de não produção.

Em nosso modelo, a tecnologia é endógena - isto é: as empresas podem investir recursos para automatizar e substituir máquinas por trabalho nas tarefas de produção e terão incentivos mais fortes para automatizar quando o salário de meia-idade for maior”. “Conseguimos mostramos que alterações demográficas que reduzem a proporção de trabalhadores de meia-idade e mais velhos induzem a adoção de tecnologias adicionais de automação”.

Vou resumir brevemente as principais descobertas e previsões do estudo: Primeiro, o modelo prevê que uma força de trabalho com pessoas mais velhas, leva a uma maior automação, especialmente em indústrias orientadas para a produção, que dependem mais de trabalhadores de meia-idade e cujas tarefas são mais passíveis de automação por robôs e tecnologias relacionadas. Uma análise de dados de várias fontes, confirma essas previsões. Quanto mais rápido o envelhecimento da população de um país, maior o uso e o desenvolvimento de robôs industriais e automação para compensar a relativa escassez de trabalhadores de meia-idade. Os países que experimentam um envelhecimento mais rápido, por exemplo Japão, Alemanha, Coréia do Sul – também são os que estão na vanguarda da adoção de robôs industriais. A Coréia do Sul possui 20,1 robôs industriais por mil trabalhadores, a Alemanha 17,0 e o Japão 14,2. Os Estados Unidos estão atrasados com 9,1 robôs industriais por mil trabalhadores. Parte do motivo é que nos Estados Unidos e, em parte, no Reino Unido, as pessoas não estão envelhecendo tão rapidamente quanto na Coréia do Sul, Alemanha e no Japão.

A Alemanha implantou robôs industriais com quase o dobro da taxa dos Estados Unidos. Se os Estados Unidos tivessem as mesmas tendências demográficas da Alemanha, a previsão é de que a diferença seria 25% menor.

Acemoglu e Restrepo também investigaram se as pressões demográficas afetam não apenas o uso de robôs e outras tecnologias de automação, mas também o desenvolvimento real de robôs, outras tecnologias de automação industrial e patentes. Em todos os casos, a análise mostrou correlações estatisticas significativas. Por exemplo, a Alemanha e o Japão têm seis grandes produtores de robôs industriais, enquanto os Estados Unidos – que, como vimos, estão envelhecendo menos rapidamente – têm apenas um.

Além dos robôs, a análise encontrou um forte efeito do envelhecimento nos países com as maiores participações nas exportações de tecnologias de automação industrial. Para verificar a precisão de seus achados, os autores analisaram se havia correlações positivas entre o envelhecimento e as exportações de tecnologias não relacionadas à automação industrial. Tais correlações não foram encontradas. Eles realizaram uma análise semelhante com as patentes relacionadas à automação industrial e, mais uma vez, encontraram uma correlação significativa entre o envelhecimento e o número dessas patentes, mas nenhuma correlação entre o envelhecimento e as patentes não relacionadas à automação industrial.

Por fim, Acemoglu e Restrepo analisaram a relação entre o envelhecimento da força de trabalho e a produtividade, medida pelo valor adicionado por trabalhador. Em geral, as implicações de produtividade do envelhecimento são ambíguas. 

Por um lado, as mudanças demográficas podem reduzir o número de trabalhadores de meia idade de alta produtividade em relação aos trabalhadores mais velhos de baixa produtividade. Por outro lado, as mudanças demográficas podem aumentar a produtividade devido à adoção da tecnologia induzida.” Embora o principal efeito do envelhecimento sobre a produtividade seja ambíguo. “na presença de mudanças demográficas, os setores com maiores oportunidades de automação estão experimentando um crescimento mais rápido de produtividade e maiores quedas na participação do trabalho em relação a outras indústrias.”

Os autores ainda lembram que, embora sua pesquisa tenha sido focada em tarefas de produção na manufatura, um conjunto muito mais amplo de tarefas em uma ampla variedade de indústrias agora está aberto à automação – dados os contínuos avanços na Inteligência Artificial e em outras tecnologias. 

E eu concluo com os seguintes comentários: Ainda há muita pesquisa a ser feita sobre a relação entre envelhecimento da população, crescimento econômico e automação; mas o mundo vem passando por acelerada transição demográfica. Há menos nascimentos e menos mortes, portanto, vida mais longa. Maior longevidade gera mudanças significativas na distribuição etária das pessoas. Como o comportamento e as necessidades dos indivíduos variam com a idade, alterações na distribuição etária da população trarão mudanças econômicas e sociais. Essas mudanças ocorrem ao mesmo tempo e em sinergia com avanços rápidos e profundos que revolucionam a ciência e a tecnologia. A transformação digital provoca rápida queda das barreiras, alterando de forma radical os métodos, os conceitos e as ferramentas de inovação. A mudança tecnológica está em evolução exponencial, remodelando as organizações e a sociedade, de forma nunca vista. A sociedade digital conecta pessoas e objetos e automatiza o trabalho humano. 

As intersecções entre demografia, tecnologia e trabalho suscitam debates e preocupações no âmbito de diversos setores econômicos. A economia será, portanto, cada vez mais baseada no conhecimento, sempre pressionada a incorporar inovações. Teremos que ser sábios para acolher as mudanças na sociedade e o crescimento exponencial da tecnologia como fontes de mudança positiva e de geração de valor para a humanidade. Teremos que ser hábeis para lidar com as incertezas. Questões difíceis vão nos desafiar o tempo todo. O futuro está sendo construído hoje. Talvez de forma dispersa, em muitos lugares. Mas, eventualmente, o conhecimento se aglutina e gera mudanças, inovações e respostas para perguntas difíceis. A curiosidade e o engenho humano são as forças motoras desse processo.

17/02/2020

Promovendo uma cultura de inovação

As reflexões sobre este artigo abordam: Futuro do Trabalho, Inovação, Sociedade & Cultura e a o texto contém links para as principais ênfases e destaques do artigo.

época negócios

A inovação tem sido um tema contemporâneo muito importante. Empresas de todo o mundo a incluem em suas estratégias e campanhas de marketing e vendas. Todos lançam iniciativas de inovação na tentativa de atrair mais negócios. Mas, gerenciar essas iniciativas de inovação é difícil; muito mais do que parece à primeira vista.

Em um artigo da Harvard Business Review, intitulado The Hard Truth About Innovative Cultures [ou A dura verdade sobre culturas inovadoras], do professor Gary Pisano, ele diz:

“Uma cultura propícia à inovação não é boa apenas para os resultados de uma empresa. É também algo que líderes e funcionários valorizam em suas organizações”.

Quase todo mundo concorda que essa cultura envolve cinco comportamentos principais:

  1. Tolerância ao fracasso; 
  2. Vontade de experimentar;
  3. Segurança psicológica;
  4. Colaboração; e 
  5. Não hierarquia.

“Mas, apesar do fato de que culturas inovadoras são desejáveis e que a maioria dos líderes afirma entender o que elas implicam, elas são difíceis de se criar e sustentar. Isso é muito intrigante. Como práticas aparentemente tão universalmente aceitas – podem ser tão difíceis de se implementar?”.

O Professor Pisano responde que a principal razão dessa dificuldade, é que esses comportamentos muito apreciados, são apenas um lado da moeda, que devem ser balanceados com alguns comportamentos mais complexos.

As pessoas gostam de resolver problemas que parecem impossíveis para todos os outros e criar algo qualitativamente diferente de tudo o que já apareceu antes. Mas elas raramente terão desempenho nos níveis necessários para fazer isso. A verdadeira inovação não é, de fato, tão simples. Para alcançar algo verdadeiramente inovador é necessário sentir o estresse que surge quando se sabe que, o que está fazendo é absolutamente crucial. No final, a necessidade é a verdadeira mãe da inovação.

“Culturas inovadoras são paradoxais. A menos que as tensões criadas por esse paradoxo sejam cuidadosamente gerenciadas, as tentativas de criar uma cultura inovadora fracassarão.”

Cada um dos cinco comportamentos da inovação deve ser balanceado com outros comportamentos mais difíceis, necessário para que tudo funcione:

  1. Tolerância ao fracasso, mas sem tolerância à incompetência“Dado que a inovação envolve a exploração de terrenos incertos e desconhecidos, não é de surpreender que a tolerância ao fracasso seja uma característica importante das culturas inovadoras. Porém organizações inovadoras devem ser intolerantes à incompetência.”
  2. Disposição para experimentar, mas altamente disciplinada“As organizações que adotam a experimentação se sentem à vontade com a incerteza e a ambiguidade … Elas experimentam aprender mais do que produzir um produto ou serviço imediatamente comercializável”.
  3. Psicologicamente seguro, mas brutalmente sincero“A segurança psicológica é um clima organizacional em que os indivíduos sentem que podem falar sincera e abertamente sobre problemas sem medo de represálias”.
  4. Colaboração, mas com responsabilidade individual. “As pessoas que trabalham em uma cultura colaborativa veem a ajuda de colegas como natural, independentemente de fornecer tal ajuda, estar dentro das descrições formais de seus colegas”.
  5. Liderança Plana, mas Forte. “Nas organizações culturalmente planas, as pessoas recebem ampla latitude para tomar ações, tomar decisões e expressar suas opiniões. A deferência é concedida com base na competência, não no título.”

Vamos falar um pouco mais sobre os dois primeiros comportamentos com base em experiências pessoais.

Tolerância à falha, mas sem tolerância à incompetência

Por vezes fico perplexo com aqueles que dizem que comemorar o fracasso é um aspecto essencial de uma cultura de inovação. Parece que estamos dizendo que uma cultura de pesquisa deve comemorar o fracasso de seus experimentos e projetos. Pisano deixa muito claro que:

“explorar ideias arriscadas que acabam por falhar é bom, mas habilidades técnicas medíocres, pensamento desleixado, maus hábitos de trabalho e gerenciamento deficiente não são”.

Trazer ao mercado um novo produto ou modelo de negócios, especialmente um baseado em uma inovação disruptiva, é realmente uma experiência de aprendizado. Não pode basear-se em uma análise rigorosa das informações, porque, a princípio, há poucos dados a serem analisados. Existem muitas incógnitas porque, desde o início, não está claro como o mercado de um novo produto, serviço ou modelo de negócios se desenvolverá. Gerenciar os estágios iniciais de uma inovação disruptiva requer experimentação bem planejada para aprender o máximo possível, seguido de aprimoramento contínuo até que fique claro qual deve ser a estratégia correta – incluindo o fato de que aparentemente boas ideias, em princípio, nem sempre deem certo na prática.

As empresas devem alcançar um delicado equilíbrio entre gerenciar cuidadosamente suas operações e abraçar as inovações que as impulsionarão para o futuro. A excelência operacional implica na melhoria dos produtos e serviços existentes da empresa, com uma série de inovações incrementais que adicionam novos recursos, reduzem custos e melhoram a qualidade. Isso significa nutrir funcionários, parceiros de negócios e clientes, para que todos fiquem felizes em se associar à empresa. E exige um forte foco no atendimento às expectativas de receita e lucros de seus investidores.

Mas, como Pisano argumenta:

“A tolerância ao fracasso exige ter pessoas extremamente competentes. As tentativas de criar modelos tecnológicos ou de negócios estão repletas de incertezas. Você muitas vezes não sabe o que não sabe e precisa aprender à medida que avança. Falhas nessas circunstâncias fornecem lições valiosas sobre os caminhos a seguir. Mas o fracasso também pode resultar de projetos mal pensados, análises falhas, falta de transparência e má administração … Um dos motivos de ser tão difícil de encontrar o equilíbrio, é que as causas do fracasso, nem sempre são claras. O design de um produto acabou sendo defeituoso devido ao mau julgamento de um engenheiro ou porque encontrou um problema que até o engenheiro mais talentoso teria perdido?”

Disposição para experimentar, sendo altamente disciplinado

Em 1996, a World Wide Web estava em seus estágios iniciais. Qualquer projeto baseado na Web era algo ambicioso. Não se sabia quantas pessoas poderiam visitar o site, de onde viria o tráfego, qual volume de banda correto a se estimar e muitos outros problemas. O cenário geral era de riscos consideráveis, inerentes à realização de um projeto complexo e novo em um cenário tão global e complexo.

Mas muitos projetos daquela época decolaram exatamente pelo tipo de experimento de mercado que optaram por fazer, para aprender o que era necessário, para dar suporte a muitos usuários da Web e tantos outros.

Quem vivenciou projetos nos primórdios da web, certamente acompanhou muitas pessoas técnicas envolvidas em projetos, monitoramento praticamente o tempo todo e pessoas prontas para intervir se algo desse errado.

Aprendeu-se naquela época, muito sobre os requisitos para criar e operar sites grandes e complexos.

“A experimentação disciplinada é um ato de equilíbrio. Como líder, você deseja incentivar as pessoas a receber ideias irracionais e dar-lhes tempo para formular suas hipóteses … [mas] Julgamentos científicos e de negócios são coisas distintas e necessárias para descobrir o que deve avançar, o que deve ser reformulado e quais devem ser abortados em um projeto de inovação “.

Concluindo, podemos dizer que, quem realmente quiser inovar, precisará encarar a dura realidade de não basta apenas ter a melhor ideia do mundo. Ela precisa ser aderente ao público e aos negócios. É necessário assumir riscos doloridos, mas no final, compensa. É melhor errar tentando do que passar a vida pensando se aquela ideia realmente daria certo. Seja rápido nos erros para aprender mais rápido ainda.


16/02/2020

O Blockchain está pronto para ser mais útil?

As reflexões sobre este artigo abordam: Economia, dinheiro digital, pagamento digital e Inovação. O texto contém links para as principais ênfases e destaques do artigo.

tecjump.com.br

O Blockchain foi criado em 2008 para atuar como o livro razão e totalmente distribuído para a criptomoeda Bitcoin, e quase todo mundo concorda que a arquitetura do Blockchain é verdadeiramente brilhante, construída com base em pesquisas fundamentadas em décadas de estudos em criptografia, dados distribuídos, computação distribuída, teoria dos jogos e outras tecnologias avançadas. Quando surgiu, o Blockchain não tinha objetivos mais amplos além do suporte ao Bitcoin. Mas, como foi o caso da Internet e da World Wide Web, o Blockchain logo transcendeu seus objetivos originais.

Em 2016, o Blockchain passou a fazer parte da lista das dez principais tecnologias emergentes do Fórum Econômico Mundial; que em seu relatório, comparou o Blockchain à Internet, observando que:

“Assim como a Internet, o Blockchain é uma infraestrutura global aberta sobre a qual outras tecnologias e aplicativos podem ser construídos. E, como a Internet, permite que as pessoas ignorem os intermediários tradicionais em suas transações, reduzindo assim ou mesmo eliminando os custos de transação.”

Nesse mesmo ano, o Blockchain fez sua primeira aparição nos ciclos de hype do Gartner Group [que explica os ciclos de crescimento de tecnologias emergentes], e em 2017, o Gartner Group observou que:

“O Blockchain pode parecer que está chegando. No entanto, a maioria das iniciativas ainda está em fase alfa ou beta … A longo prazo, acredita-se que essa tecnologia levará a uma reforma de setores inteiros.”

Em um artigo publicado pelo MIT Technology Review, o editor associado Mike Orcutt resumiu sucintamente o estado atual da Blockchain:

“Em 2017, a tecnologio Blockchain foi uma revolução que deveria perturbar o sistema financeiro global. Em 2018, se tornou uma decepção. Em 2019, começou a se tornar global … Após a Grande Corrida da Cripto Bull de 2017 (que permitia o investimentos em ativos financeiros tradicionais e de criptomoeda) e a queda monumental de 2018, (chegando a incrível desvalorização de 87%) a tecnologio Blockchain não conseguiu tanto destaque em 2019. Mas se tornará mais útil.”

A maioria das tecnologias potencialmente transformadoras passa pelo tipo de ciclos de adoção que Orcutt (metaforicamente) comprimiu em três anos. Houve muito hype em torno da Blockchain? Absolutamente. Um pouco desse hype agora se transformou em decepção, – talvez até desilusão – quando as pessoas percebem que o Blockchain ainda está em suas fases iniciais de adoção, e ainda há muito a ser feito para fazer a transição bem-sucedida dos primeiros usuários para os principais mercados. A principal questão é se os especialistas ainda acreditam que, com o tempo, o Blockchain tem potencial para se tornar uma tecnologia verdadeiramente transformadora. E, com poucas exceções, a resposta é positiva.

Décadas atrás, o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke disse que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica.

Ainda me lembro da sensação de mágica, quando a Internet decolou nos principais mercados em meados da década de 90. As pessoas falaram sobre o surgimento de toda uma nova economia da Internet. Cliques e globos oculares agora substituiriam modelos de negócios antiquados com base em receita, lucro e caixa. As cidades declinariam, pois agora as pessoas poderiam viver, trabalhar e fazer compras on-line em pequenas cidades e subúrbios. À medida que o frenesi das empresas ponto com ganhou intensidade, todos os tipos de Startups foram lançadas no mercado – algumas bastante inovadoras e outras bastante limitadas -, muitas das quais não sobreviveram à bolha das ponto com.

Uma nova economia digital baseada na Internet realmente surgiu nas últimas duas décadas, mas, como geralmente é o caso, foram necessários muito mais tempo e muito mais investimentos do que o inicialmente previsto, além de grandes inovações adicionais, como Smartphones, Internet das Coisas, Big Data e Computação em Nuvem. Uma história semelhante e paralela, pode ser contada sobre a Eletricidade, o Motor de Combustão e agora a Inteligência Artificial.

E quanto ao Blockchain? Em seu artigo, Orcutt oferece três razões pelas quais o Blockchain está pronto para deixar o hype para trás, e fazer a transição para uma era mais útil.

Os testes pilotos e provas de conceito entraram em produção e alguns já foram até validados. Walmart, IBM, bancos e muitos outros, já deram por encerrado seus testes e passarão para a fase de uso dos livros contábeis baseados em Blockchain para gerenciar sua cadeia de suprimentos de alimentos; da fazenda à prateleira (no caso do Walmart) que já anunciou, para 2020, todos os fornecedores de vegetais verdes folhosos de suas lojas irão inserir informações detalhadas sobre seus alimentos em um banco de dados Blockchain, para que se possa acompanhar melhor sua enorme rede de distribuição para produtos frescos. Mais de 100 fornecedores agrícolas irão participar.

O rastreamento da fonte de produção é hoje um processo manual, lento e trabalhoso. Em um experimento conduzido pelo Walmart, seus funcionários levaram sete dias para rastrear a origem das mangas fatiadas e localizar a fazenda específica no México onde as frutas foram cultivadas. Com o Blockchain, a fonte das mangas pôde ser rastreada em segundos. A nova tecnologia ajudará o Walmart a

“identificar as fontes de doenças transmitidas por alimentos muito mais rapidamente do que é possível hoje, o que poderia salvar vidas e dinheiro. Um recente surto de Escherichia coli que afetou a Alface Romana matou cinco pessoas, de acordo com os Centros de Controle de Doenças, e forçou o {Ualmart}  a jogar fora todos os produtos que já estavam em estoque, até localizar a fonte.”

O artigo também menciona que duas plataformas baseadas em Blockchain entrariam em produção para apoiar o gerenciamento e a negociação de ativos digitais. A Intercontinental Exchange, empresa controladora da Bolsa de Valores de Nova York, anunciou seus planos de criar uma nova empresa a Bakkt, para permitir que consumidores e instituições comprem, vendam, armazenem e gastem ativos digitais com segurança. E, alguns meses depois, a Fidelity anunciou a criação do Fidelity Digital Assets, uma plataforma corporativa de serviço completo para armazenamento, negociação e manutenção de ativos digitais.

Além do gerenciamento de registros distribuídos e ativos digitais, as plataformas Blockchain estão sendo projetadas para suportar aplicativos distribuídos com base no conceito de contratos inteligentes, ou seja: programas serão executados automaticamente quando um conjunto de condições pré-especificadas for atendido. Uma vez acordados e armazenados em uma Blockchain, os contratos inteligentes são irreversíveis e destinam-se a garantir digitalmente a execução de um contrato entre duas ou mais partes, reduzindo assim a necessidade de intermediários.

Mas, como Orcutt apontou em outro artigo, mais recente:

“antes que os contratos inteligentes possam fazer algo realmente útil, eles precisam de uma maneira confiável de se conectar com os eventos do mundo real”.

Por exemplo, uma apólice de seguro de voo que é paga automaticamente se um o voo é cancelado, é um exemplo de um simples aplicativo de contrato inteligente. No entanto, esse aplicativo automatizado de seguro de voo exige uma fonte confiável de dados de voo; caso contrário, os hackers podem fornecer dados fraudulentos e reivindicar esses pagamentos para si. Esse problema está sendo tratado por empresas como a Chainlink, uma startup que desenvolveu um sistema à prova de violações que alimenta com segurança os dados necessários para contratos inteligentes em uma Blockchain.

As aplicações legais são outra área potencialmente importante para contratos inteligentes. Várias empresas, como a Open Law, procuram reduzir os custos e atritos da criação e aplicação de acordos legais vinculativos, incorporando a totalidade ou parte do contrato em um contrato inteligente. Empresas renomadas e startups estão estudando seriamente como incorporar contratos inteligentes e outras tecnologias de Blockchain em suas principais práticas legais.

Moedas digitais apoiadas pelo Estado.

O Bitcoin começou a vida como uma espécie de projeto tecno-anarquista para capacitar e proteger indivíduos que compartilhavam uma profunda desconfiança de governos e grandes empresas. O objetivo era criar uma moeda universal e um sistema financeiro global alternativo, não sujeito a interferências de governos ou bancos. Alguns de seus mais fortes apoiadores esperavam que, com o tempo, o Bitcoin substituísse as moedas fiduciárias tradicionais e se tornasse a moeda mundial.

Até agora, não foi bem assim. Mas, vários bancos de várias nacionalidades estão analisando seriamente a adoção de algumas das tecnologias pioneiras do Bitcoin e o lançamento de suas próprias moedas digitais. Existem várias razões para essa tendência, incluindo o papel cada vez menor do dinheiro em nossa economia cada vez mais digital; o potencial de reduzir os custos de gerenciamento e substituição de notas físicas; melhor segurança, privacidade e proteção ao consumidor; e a capacidade de alcançar melhor as centenas de milhões em todo o mundo que não têm uma conta bancária ou acesso a serviços financeiros.

Isso é, de muitas maneiras, “o oposto da revolução que os pioneiros das criptomoedas imaginavam; mas as revoluções nem sempre se desenrolam da maneira que os revolucionários tinham em mente.”

Qual o valor da resiliência?


A Revolução Industrial foi “tanto para inovações de processo, que reduziram o desperdício e aumentaram a produtividade, quanto para a aplicação de novas tecnologias”, isso foi escrito por Roger Martin em um artigo da Harvard Business Review, intitulado: – O Alto preço da eficiência. Martin é professor e ex-reitor da Rotman School of Management da Universidade de Toronto, além de também atuar como escritor.

A crença de que a eficiência é fundamental para a vantagem competitiva transformou o gerenciamento em uma ciência – ensinada em todas as escolas de administração do planeta – cujo objetivo é a eliminação de desperdícios – seja de tempo, de materiais ou de capital.

O professor Martin faz a seguinte pergunta em seu artigo: 

“Por que não exigir que os gestores se esforcem para o uso cada vez mais eficiente dos recursos?”. Porque o foco excessivo na eficiência pode produzir efeitos surpreendentemente negativos. Para contrabalançar esses possíveis efeitos negativos, as empresas devem prestar atenção a uma fonte menos apreciada de vantagem competitiva: a resiliência, – “que é a capacidade de se recuperar de dificuldades – de lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas”.

O artigo ainda nos convida a refletir sobre resiliência, como sendo uma forma de “Pensar na diferença entre estar adaptado a um ambiente existente (que é, o que a eficiência permite) e ser adaptável às mudanças no ambiente. Sistemas resilientes são tipicamente caracterizados pelos próprios recursos – diversidade e redundância – que a eficiência procura destruir.” [Muito interessante o ponto abordado pelo professor Martin].

Mas o que há de errado então, com um foco incansável na eficiência?

Um foco incansável na eficiência pode levar a problemas sérios. O artigo do professor Roger Martin discute três pontos em particular:

  1. Intensa concentração de riqueza e poder;
  2. Riscos elevados de falhas catastróficas, e
  3. Possíveis abusos de poder.

A consolidação da indústria está aumentando.

A tendência para consolidação de empresas e tamanho crescente é evidenciada por algumas estatísticas globais:

  • 10% das empresas públicas geram 80% de todos os lucros;
  • Empresas com mais de US $ 1 bilhão em receita anual são responsáveis por 60% da receita global total; e
  • A taxa de fusões e aquisições é mais do que o dobro da década de 1990.

A tendência é particularmente proeminente nos Estados Unidos, onde:

  • 75% das indústrias dos Estados Unidos ficaram mais concentradas nos últimos 20 anos.
  • Em 1978, as 100 empresas mais lucrativas obtiveram 48% dos lucros de todas as empresas de capital aberto juntas;
  • Em 2015, o número havia subido para 84%.
  • Em 1994, 33% do PIB foi gerado pelas 100 maiores empresas;
  • Em 2013, o número havia subido para 46%.

Os cinco maiores bancos americanos, agora representam 45% de todos os ativos bancários, contra 25% em 2000. (Esses números são realmente incríveis e ameaçadores).

As tecnologias digitais – em particular a Internet – desempenharam um papel central no surgimento de empresas globais [chamadas de empresas “pop stars”]. Nas últimas décadas, a Internet se tornou a plataforma mais inovadora que o mundo já viu. Ele transformou muitas de nossas atividades diárias, incluindo a maneira como trabalhamos, compramos, aprendemos, negociamos, ouvimos música, assistimos a filmes e lidamos com o governo. Ao mesmo tempo, o alcance universal da Internet tornou o “efeito rede” cada vez mais poderoso e criou um tipo de plataforma dinâmica de negócios.

A escala [ou a oferta em larga escala] aumenta a vantagem competitiva de uma plataforma. Quanto mais produtos ou serviços uma plataforma oferece, mais consumidores ela atrai, ajudando-a a atrair mais ofertas, o que, por sua vez, atrai mais consumidores, tornando a plataforma ainda mais poderosa e valiosa. Além disso, quanto maior a rede, mais dados estão disponíveis para personalizar ofertas, de acordo com as preferências do usuário e atender melhor à oferta e à demanda, aumentando ainda mais o alcance global da plataforma e a eficiência geral.

Como resultado, um pequeno número de empresas tornaram-se imperadoras no mundo digital, dominando a concorrência em seus mercados particulares.

“O ambiente de negócios resultante é extremamente arriscado, com altos retornos para um número cada vez mais limitado de empresas e pessoas – um resultado claramente não sustentável.” Complementa o professor Martin.

Risco de falhas catastróficas

Mas, se os consumidores se beneficiam com os preços baixos, maior escolha e conveniência oferecidas por empresas supereficientes baseadas na Internet, por que alguém deveria se opor?

O problema, argumenta o professor Martin, é que concentrações muito altas aumentam o risco de falhas catastróficas, como ele ilustra com um exemplo da agricultura de monoculturas.

Na agricultura, uma monocultura se refere à prática de cultivar um único produto, de uma safra de alto rendimento ou criar alguma raça de animal, de forma extensiva e de rápido crescimento em um sistema agrícola.

As monoculturas são amplamente utilizadas na agricultura industrial para aumentar a escala e a eficiência de suas operações. No entanto, a monocultura contínua pode levar ao acúmulo de pragas e doenças. Se uma doença vira uma praga, contra a qual não se tem resistência, ela pode acabar rapidamente com uma população inteira de plantações ou criações.

Algo semelhante poderia acontecer a uma empresa ou economia muito dependente de alguns processos e modelos de negócios altamente eficientes.

Poder e interesse próprio

“Dado que as pessoas substancialmente atuam por interesse próprio, quanto mais eficiente um sistema se torna, maior a probabilidade de que […] o objetivo da eficiência cesse de ser e ter a maximização a longo prazo, do valor social geral. Em vez disso, a eficiência começa a ser interpretada como a que oferece o maior valor imediato ao poder digital dominante.”

Nas últimas décadas, maximizar o valor para os acionistas tem sido o objetivo principal de muitas empresas. Mas, como vários especialistas apontam, incluindo o professor Mártin, maximizar o valor para os acionistas pode incentivar os executivos da empresa a tomar ações que aumentem o preço de suas ações a curto prazo, satisfazendo os investidores e aumentando sua própria remuneração baseadas em salários e prêmios por alcance de metas. Isso pode levar a folhas de pagamento reduzidas, cortes em Pesquisas & Desenvolvimento e despesas de capital mais baixas; todas estas decisões, tomadas em nome da redução de desperdícios e para aumentar receitas e lucros. Mas os ganhos têm um custo, para funcionários, suas comunidades, investidores e para o futuro da empresa.

Em um mercado dinâmico e em bom funcionamento, essa medida abriria as portas para o aumento da concorrência entre as empresas existentes e de novos entrantes nesse mercado. Mas isso não funciona se o poder estiver concentrado entre um punhado de dominadores, cujas posições dominantes dificultam a entrada dos concorrentes. 

“E, às vezes, o poder se torna tão concentrado que é necessária ação política para afrouxar o domínio dos atores dominantes, como no movimento antitruste da década de Mil oitocentos e noventa″.

[O Antitruste foi um conjunto de normas do governo federal e estadual dos Estados Unidos que buscava regular a conduta e a organização de empresas corporativas, para promover uma concorrência leal em benefício dos consumidores, que também ficou conhecida como direito da livre concorrência em outros países.]

O valor da resiliência

Em uma economia imprevisível e em rápida mudança, as empresas enfrentam um número crescente de possíveis interrupções em suas estratégias, incluindo avanços tecnológicos, concorrência global e mercados turbulentos. Conforme observado em um artigo da Harvard Business Review de 2016, The Biology of Corporate Survival, [ou: A biologia da sobrevivência corporativa] as empresas estão desaparecendo mais rapidamente do que nunca.

“Empresas têm uma chance em três de terem suas atividades encerradas nos próximos cinco anos, seja por falência, liquidação, fusões e aquisições ou outras causas. Isso é seis vezes a taxa de encerramento de empresas de 40 anos atrás” … Nem a escala nem a experiência protegem contra uma morte prematura.

Os sistemas biológicos têm sido uma inspiração no estudo de sistemas complexos. A alta resiliência diante de um ambiente incerto e em mudança é a essência da biologia evolutiva e da seleção natural. Da mesma forma, a resiliência dos negócios é fundamental para uma empresa suportar grandes interrupções e sobreviver a um futuro imprevisível e turbulento.

Para ajudar a alcançar um melhor equilíbrio entre eficiência e resiliência, Martin oferece várias recomendações:

Limite de escala.Na política antitruste, a tendência desde o início dos anos 80 tem sido afrouxar a fiscalização para não impedir a eficiência … Precisamos reverter essa tendência. A dominação do mercado não é um resultado aceitável, mesmo que seja alcançada por meios legítimos, como o crescimento orgânico … As políticas antitruste precisam ser mais rigorosas para garantir uma concorrência dinâmica, mesmo que isso signifique menor eficiência líquida.”

Introduzir atrito. “Em nossa busca para tornar nossos sistemas mais eficientes, eliminamos todos os atritos. É como se tentássemos criar uma sala perfeitamente limpa, erradicando todos os micróbios nela. As coisas vão bem até que um novo micróbio entre – causando graves problemas às pessoas, agora indefesas … Em vez de projetar soluções para manter todo o atrito fora do sistema, devemos injetar atrito produtivo nos momentos certos e nos lugares certos para aumentar a resiliência do sistema.”

Promover o capital paciente. “O capital de longo prazo é muito mais útil para uma empresa que tenta criar e implantar uma estratégia de longo prazo do que o capital de curto prazo… devemos basear os direitos de voto no período em que o capital é detido. Segundo essa abordagem, cada ação ordinária daria ao seu titular, um voto por dia de propriedade até 3.650 dias, ou 10 anos. Se você tivesse 100 ações por 10 anos, poderia votar em 365.000 ações. Se você vendesse essas ações, o comprador receberia 100 votos no dia da compra.”

Criar bons empregos. “Em nossa busca pela eficiência, passamos a acreditar que o trabalho de rotina é uma despesa a ser minimizada. As empresas investem pouco em treinamento e desenvolvimento de habilidades … e se projetássemos [empregos] para ser produtivos e valiosos? … Um elemento-chave, porém contra intuitivo da estratégia, é criar uma folga para que os funcionários tenham tempo para servir os clientes de maneiras imprevisíveis e valiosas.”

Ensinar a resiliência. “A educação gerencial se concentra na busca decidida pela eficiência – e treina os alunos em técnicas analíticas que implantam proxies de curto prazo para medir essa qualidade. Como resultado, os graduados se dirigem ao mundo para construir (inadvertidamente - acredita-se) negócios altamente eficientes que carecem de resiliência… Para o futuro do capitalismo democrático, a educação em administração deve se tornar uma voz a favor, e não contra, a resiliência.”

Finalizando, podemos então, argumentar que: 

A resiliência proporciona condições para ganho de produtividade e eficácia das ações. E a falta dessa característica conduz a uma insistência em estratégias pouco efetivas. A resiliência caminha conjuntamente com a capacidade de percepção da realidade e de reação aos problemas e dificuldades. Mas, para isso, é essencial contar com uma boa estruturação de avaliação e mensuração dos cenários, proporcionada pela tecnologia, com recursos como a Big Data e a Inteligência Artificial para a extração de insights. Com isso, a organização ganha em proatividade e cria uma estrutura mais sólida para a reação às mais complexas realidades e manifestações.


15/09/2007

Um governo mais colaborativo


Em um mundo cada vez mais conectado, a colaboração também se estende para além dos limites da empresa. Uma descoberta fundamental do Estudo Global de CEOs da IBM é a ligação entre a colaboração e a inovação. Um número crescente de CEOs enfatiza a importância de colaborar além da empresa,  considerando parceiros de negócios e clientes como as principais fontes de ideias inovadoras. Isso difere bastante dos modelos organizacionais anteriores, que presumiam que a inovação era crucial demais para envolver pessoas de fora. 

Passando do âmbito empresarial para o governamental: podemos vislumbrar uma mudança paralela de um estilo centralizado para um estilo mais distribuído e colaborativo? Essa mudança de estilo poderia ajudar os governos a obter os benefícios que têm funcionado tão bem para empresas e outras instituições sociais?

Essa questão tem sido debatida desde a época dos reis es dos feidos. E nos primeiros anos do governo dos EUA, não foi diferente, e foram marcados por intensas batalhas políticas entre os Federalistas, liderados por Alexander Hamilton, que defendiam um governo nacional forte, e os Democratas-Republicanos , liderados por Thomas Jefferson e James Madison, que favoreciam os direitos dos estados e um governo federal estritamente limitado. 

Nos anos entre a Guerra Civil e o Movimento pelos Direitos Civis da década de 1960, os direitos dos estados tornaram-se intimamente associados à segregação, com o governo federal como o principal protetor dos direitos civis para todos, especialmente com a aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964 .

Felizmente, esses dias ficaram para trás. Mas os debates sobre governança continuam. Por exemplo, o Novo Federalismo surgiu como uma filosofia política que visa devolver aos estados parte da autonomia e do poder que perderam para o governo federal nas décadas que se seguiram ao New Deal, na década de 1930. Os defensores do Novo Federalismo e de iniciativas relacionadas têm sido, em geral, políticos conservadores como os presidentes Richard Nixon e Ronald Reagan.

Mais recentemente, essa filosofia foi adotada por pessoas de todo o espectro político. Enquanto pesquisava para este blog, deparei-me com os escritos de Jonathan Taplin , professor da Escola de Comunicação Annenberg da USC. Em seu blog, ele escreveu:

"Cheguei à conclusão de que precisamos usar a mesma tecnologia de descentralização que transformou os negócios para transformar nossa república. Chamo esse movimento de Novo Federalismo , e seus princípios derivam da crença de Thomas Jefferson de que 'A verdadeira teoria de nossa Constituição é que os estados são independentes em tudo o que diz respeito a eles mesmos e unidos em tudo o que se refere a nações estrangeiras.'"

Em outra postagem em seu blog, ele escreve: "O principal problema econômico que enfrentaremos nos próximos anos é que o sistema federal não funciona mais corretamente. Da mesma forma que grandes corporações como GE, News Corp e Berkshire Hathaway achataram suas organizações e reduziram seu quadro de funcionários, precisamos reformular a maneira como governamos, tributamos e gastamos. Os estados não têm poder tributário suficiente para fornecer serviços básicos à sua população, já que todos os governos estaduais estão em crise fiscal, agravada pela incapacidade de continuar arrecadando a queda na arrecadação do imposto predial dos governos municipais."

Ele acrescenta ainda: "Como a maioria das preocupações dos cidadãos são questões locais: escolas, polícia, habitação, energia e água, transporte público e saúde, estas devem ser financiadas a nível local. Embora o Governo Federal forneça subsídios globais aos Estados para estas questões, grande parte da receita tributária é desperdiçada na burocracia federal."

Ele então usa a Califórnia como exemplo. “Em quatro anos, o estado aprovou leis sobre emissões de automóveis, níveis de CO2, pesquisa com células-tronco, privacidade de dados pessoais e padrões de energia para eletrodomésticos, todas em conflito com a agenda neoconservadora do governo Bush. Como o governador destacou, o poder e o tamanho da economia da Califórnia permitiram que o estado criasse padrões nacionais de fato, que o setor corporativo foi forçado a seguir. E embora as indústrias automobilística, petrolífera e bancária tenham se unido ao governo Bush para entrar com ações judiciais buscando alívio dos padrões da Califórnia, até o momento os tribunais não derrubaram nenhuma das leis estaduais.”

O Novo Federalismo pode nos fornecer uma estrutura para aplicar os princípios da liderança distribuída e colaborativa ao governo, especialmente em áreas importantes que são naturalmente de competência dos governos estaduais e locais, mais do que do governo federal, como desenvolvimento econômico e educação, além de questões cruciais como saúde e infraestrutura, que estão intimamente ligadas ao desenvolvimento econômico. Essas não são apenas áreas de importância crítica para o país, mas também áreas em que precisamos urgentemente de novas ideias. 

Na área da saúde, por exemplo, os estados e o setor privado estão à frente do governo federal na experimentação de novas ideias. Nos últimos anos, vimos Massachusetts e outros estados implementarem ou proporem planos abrangentes de reforma da saúde e cobertura universal. Também vimos novas iniciativas do setor privado, como as miniclínicas, que são muito promissoras para oferecer atendimento primário básico a preços acessíveis.

O apoio à pesquisa fundamental tem sido, tradicionalmente, prerrogativa do governo federal, por meio de agências importantes como a Fundação Nacional de Ciência (NSF) e o Instituto Nacional de Saúde (NIH). Contudo, observamos agora que os estados estão assumindo a liderança em certas áreas de importância econômica, em parceria com o setor privado.

Em 2004, os eleitores da Califórnia aprovaram a criação de um fundo estadual de 3 bilhões de dólares, distribuídos ao longo de dez anos, para pesquisa com células-tronco embrionárias humanas . Isso levou à criação do Instituto Californiano de Medicina Regenerativa , cuja missão é "apoiar e promover a pesquisa com células-tronco e a medicina regenerativa, seguindo os mais altos padrões éticos e médicos, para a descoberta e o desenvolvimento de curas, terapias, diagnósticos e tecnologias de pesquisa que aliviem o sofrimento humano causado por doenças crônicas e lesões".      

Outro exemplo é a liderança do Estado de Nova York na criação da Faculdade de Ciência e Engenharia em Nanoescala da SUNY Albany , realizada em estreita colaboração com a IBM e diversos outros parceiros da indústria . Isso permitiu que a SUNY Albany fosse reconhecida como a principal universidade do mundo em nanotecnologia e transformou Albany e o Vale do Médio Hudson na região líder mundial em nanotecnologia, com todos os benefícios econômicos que isso implica.      

Precisamos superar os debates ideológicos desgastados do passado. Na prática, os debates sobre governança têm sido formulados da seguinte maneira: você prefere um governo centralizado e autoritário ou um governo fraco e incompetente?

Essa não é mais a pergunta certa. No mundo dos negócios, é preciso uma liderança forte e competente no topo para implementar com eficácia um modelo distribuído e colaborativo. Esses líderes entendem os limites do seu poder. Sabem que precisam contratar as melhores pessoas possíveis, ouvir seus conselhos, capacitá-las para agir e delegar responsabilidades de fato. Os melhores líderes sabem que devem fomentar um espírito de inovação e colaboração em toda a organização.

No governo, não deve ser diferente. Devemos fazer todo o possível para encontrar os modelos organizacionais que melhor nos ajudem a abordar e a progredir na resolução dos nossos problemas críticos. Esta é uma das inovações mais importantes que precisamos implementar para salvaguardar o futuro do nosso país (e do mundo).

Além da Guerra de Preços: O Oceano Azul na Conectividade Brasileira

Introdução Lançado em 2005 por W. Chan Kim e Renée Mauborgne, A Estratégia do Oceano Azul revolucionou o pensamento estratégico...