29/01/2021

A próxima geração das Telecomunicações

Este artigo foi originalmente postado em por tcs.com e seus autores são:

Kamal Bhadada, Presidente da TCS Communications, Media, e Serviços de Informação e Shanky Viswanathan, Vice Presidente & CTO – Unidade de negócios e chefe de comunicações, mídia e serviços de informação – Grupo consultivo de indústria da TCS.

As telecomunicações são uma Indústria global de US $ 6 trilhões, que também foi golpeada pela tecnologia digital, nesta década. Para os provedores móveis, a receita média por usuário (que é um indicador chave de suas receitas) caiu 34% globalmente entre 2006 e 2017; apesar dos trilhões de dólares de investimentos em infraestrutura de redes em todo o mundo.

A capacidade das empresas de telecomunicações de colher lucros de seus gastos com infraestrutura está diminuindo muito. Os principais serviços – como telefonia móvel, conectividade com a Internet e dados – são commodities que não geram mais retornos sólidos.

Tendo reconhecido essa condição, os provedores de serviços de comunicação estão se adaptando. Produtos e serviços digitais se tornaram uma importante fonte de receita nesta década, de acordo com uma pesquisa da TCS com executivos de 60 empresas de telecomunicações europeias e norte-americanas. 80% tiveram receita de US $ 1 bilhão ou mais e 23% ultrapassaram US $ 20 bilhões. Sua receita de negócios, produtos e serviços digitais está subindo: de 45% em média em 2010 para 59% em 2018.

A rede de última geração terá novas aplicações de tecnologia digital – serviços que podem conectar e melhorar a maneira como as pessoas e empresas operam.

As grandes operadoras sabem que agora estão competindo em um ecossistema digital com uma gama cada vez maior de concorrentes. A indústria do entretenimento pode usar as redes de um CSP para criar um novo modelo de negócios. As empresas de tecnologia podem criar aplicativos ao cliente que os ajudam a navegar, fazer compras e etc. E todas as indústrias podem usar serviços CSP para desenvolver novas experiências ao cliente, de publicidade B2C a logística B2B.

Mas, ao mesmo tempo que os CSPs enfrentam desafios claros e competição crescente, os ecossistemas digitais nos quais operam apresentam uma infinidade de oportunidades. Os CSPs têm um forte conjunto de recursos básicos – fornecendo conectividade e coletando grandes quantidades de dados sobre o desempenho de suas redes.

A principal diferencial das empresas de telecomunicações é sua capacidade de direcionar e gerenciar o tráfego de rede em tempo real, ciente do contexto do serviço digital ao consumidor final, para que a excelência na experiência do cliente final seja garantida. Isso exige que as empresas de telecomunicações obtenham percepções sobre a experiência dos seus clientes no ecossistema digital; seja durante o uso de serviços de automação residencial ou desfrutando de serviços de entretenimento de realidade imersiva. Os dados dos dispositivos, canais e plataformas de rede do cliente desempenham um papel fundamental para ajudar as telcos a obter insights e conduzir ações antecipatórias de IA.

A partir desses e de outros dados, as empresas de telecomunicações têm a capacidade de criar novos produtos e serviços. No entanto, isso exigirá uma mudança cultural para muitas deles – começando com a compreensão do negócio em que realmente atuam.

Nos últimos 20 anos, a indústria de telecomunicações, foi um grande pivô, chegando a ser 95% vertical, dominando os negócios de comunicações; agora estão passando a ser um negócio horizontal, subjacente, para quase tudo que a sociedade precisa, agora e especialmente no futuro”, disse Christoffer von Schantz, vice-presidente sênior de estratégia e fusões e aquisições do DNA Telco.

Para aproveitar as oportunidades, as empresas de telecomunicações precisam ver seus investimentos em redes 5G, não apenas pela velocidade e desempenho que oferecem aos clientes, mas também como uma chance de oferecer serviços além de voz, dados e vídeo. A rede de última geração lançará novas aplicações de tecnologia digital – serviços que podem conectar e melhorar a maneira como as pessoas e empresas operam. As empresas de telecomunicações precisam fazer suas apostas nesses campos porque, se não o fizerem, outras provavelmente o farão – (Apple, Facebook, Netflix e Google ou ou algum outro novo disruptor digital).

Estratégias para competir

As empresas de telecomunicações não conseguem controlar todos os elementos dos ecossistemas digitais em que atuam. Esses ecossistemas geram valor, justamente porque várias empresas participam deles. Os CSPs podem usar seus principais recursos em conectividade (alta velocidade, dados e vídeo) para se estabelecerem como “os guardiões das experiências digitais”. Eles podem usar esses recursos para fornecer produtos e serviços do mercado digital e ir além de serem apenas provedores de conectividade.

Especificamente, existem quatro estratégias que os CSPs podem adotar:

1. Provedor inteligente de conectividade.

Essas empresas de comunicações aproveitariam software e sistemas avançados e redes de comunicações para fornecer serviços de internet ultrarrápidos. Ter redes baseadas em software que usam IA, análise preditiva e mais automação, permite que essas empresas forneçam redes melhores. Objetivo: criar redes de autocura que automaticamente antecipam e agem para evitar congestionamentos e violações de segurança na rede – sem intervenção humana.

2. Provedor de serviços e produtos inteligentes

Nessa função, os CSPs venderiam serviços para clientes corporativos, aproveitando as vantagens da conectividade, Internet das coisas e aplicativos de negócios. Por exemplo, o serviço Smart Office da Comcast realiza vigilância física de escritórios. Para o mercado consumidor, as empresas de telecomunicações também oferecem muitas oportunidades. A Comcast desenvolveu um painel digital (Xfinity xFi) que personaliza a experiência do consumidor e o ajuda a gerenciar sua rede Wi-Fi e serviços domésticos conectados. A BT vende câmeras de segurança doméstica wi-fi há vários anos em seu mercado do Reino Unido, capitalizando em sua marca e a tornando cada vez mais confiável e reconhecida.

3. Agregador de valor

Aqui, uma telco seria um intermediário entre consumidores e empresas que fornecem conteúdo e serviços em mercados digitais. A excelência nesta estratégia requer uma experiência digital superior do cliente por meio de hiperpersonalização, integração Omnichannel e inovação de serviço.

A AT&T, por exemplo, tem um serviço para prestadores de serviços de saúde consultarem os pacientes por meio de chats de vídeo. Rogers Communications (Canadá) e Telefônica (Alemanha) lançaram iniciativas em serviços bancários digitais.

As chaves para os CSPs que buscam essa estratégia: Fazer com que esses serviços funcionem para os clientes, em vez de o CSP se concentrar no gerenciamento de seus próprios produtos. Formar e gerenciar parcerias digitais com outras empresas – e se destacar nesses relacionamentos – irá diferenciar um CSP do outro.

4. Criador de valor

Os CSPs que seguem essa estratégia desenvolvem plataformas de serviços digitais que podem vender para outros canais. Aqui, uma telco se torna uma empresa centrada em software (em vez de centrada em rede). A telco japonesa NTT Docomo, por exemplo, está desenvolvendo um sistema de cobrança e pagamento próprio. A Saudi Telecom tem como alvo os serviços financeiros, mídia e serviços corporativos de TI com um serviço de carteira digital chamado STC Pay. A empresa também está lançando seu serviço de mídia (denominado OTT) e construindo uma nova plataforma de TI para dar suporte a um novo sistema de transporte metropolitano em Riade (Arábia Saudita).

A importância de dominar uma estratégia

Os CSPs enfrentarão uma grande escolha ao decidir como avançar de fornecedores de commodities para fornecer produtos e serviços digitais e de análise de dados, que são mais valiosos. A chave é selecionar uma das quatro estratégias acima – e dominá-la.

Qualquer uma dessas estratégias provavelmente exigirá uma mudança cultural que irá romper com funções e atividades tradicionais das CSPs para que possam desenvolver inovação. Os líderes de telecomunicações sabem que devem agir rapidamente para implementar essas mudanças, devido ao ambiente competitivo. 32% das teles na América do Norte e na Europa disseram que veem uma competição mais acirrada até 2025 como empresas nativas digitais, de acordo com a pesquisa TCS. E 45% esperam que seus concorrentes mais difíceis sejam as novas empresas digitais que ainda não estão atuando, e que chegarão ao mercado até 2025. Apenas 23% disseram que veem seus maiores desafios vindo de rivais tradicionais do mercado de teles.

As empresas de qualquer setor que buscam uma estratégia de ecossistema também devem estar cientes de seus pontos fortes. As telcos têm uma enormes quantidades de dados digitais, gerados continuamente por suas redes. Considere os dados de localização que as empresas de telecomunicações podem aproveitar, com a permissão do cliente, para criar novos serviços de informação. Uma telco poderia usar seus dados e experiência de rede para ajudar os comerciantes a personalizar ofertas aos clientes, dependendo de onde eles estejam; seja no trabalho (por exemplo, oferecendo cupons para um restaurante próximo) ou fora, com a família (por exemplo, oferecendo vouchers de cinema).

A pesquisa da TCS ainda revelou que, as telcos reconhecem essa oportunidade. 61% disseram que pensam em atuar nas oportunidades digitais em termos de ecossistema; e entre os tipos de dados mais importantes para o futuro de seus negócios, está a forma como os clientes os veem e o que estão interessados em comprar. Cerca de 80% das empresas de telecomunicações disseram que a mineração de dados de clientes para melhorar produtos e serviços, será um fator chave de crescimento.

Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que os líderes de telecomunicações têm oportunidades de fazer mais, analisando os dados dos clientes. Uma pesquisa da TCS com diretores de marketing na América do Norte e na Europa, incluindo 33 de telcos, descobriu que apenas uma minoria está aproveitando ao máximo suas ricas fontes de dados. Apenas 42% usam dados de geolocalização para personalizar mensagens de marketing e apenas 40% usam esses dados para personalizar mensagens no atendimento ao cliente na pós-venda. Além disso, metade usa a localização geográfica de clientes em vendas cruzadas e incrementadas.

Claramente ainda há oportunidades a serem exploradas. As empresas de telecomunicações bem-sucedidas em ecossistemas digitais usarão essas e outras fontes de dados para desenvolver novos produtos e serviços, bem como determinar como construir suas plataformas de crescimento. Os executivos de telecomunicações, ouvidos na pesquisa reconhecem isso. No final de 2020, 64% deles acreditavam que será de fundamental ou alta importância usar dados e análises com base na localização geográfica dos clientes para fornecer uma experiência superior a eles.

03/01/2021

Como a Covid está reorganizando a economia global

De acordo com a OCDE, a economia da China será 10% maior até o final de 2021, do que era antes da pandemia de 2019, a economia dos EUA se manterá essencialmente, do mesmo tamanho, enquanto as economias da região do euro, do Reino Unido, O Japão e a Coréia do Sul verão um declínio até o final de 2021 em comparação com seus níveis pré pandêmicos.

A pandemia covid-19 está acelerando a mudança na economia mundial”, diz o The Economist. Está se tornando cada vez mais claro que “a pandemia levará a mudanças estruturais imensas na economia global: uma economia menos globalizada, mais digitalizada e menos igualitária”. As cadeias de abastecimento estão levando a produção para mais próximo das pessoas, para reduzir os riscos. Os trabalhadores de escritório continuarão trabalhando em suas casas pelo menos parte da semana. Os trabalhadores de serviços urbanos com salários mais baixos enfrentarão desemprego. O abismo entre Wall Street e Main Street aumentará. “O desafio para os governos democráticos será se adaptar a todas essas mudanças, mantendo o consentimento popular para suas políticas e para os mercados livres.

Há três áreas principais, as quais o The Economist afirma que as mudanças serão duradouras: globalização, digitalização e desigualdade.

1. Menos globalização

A pandemia não vai acabar com a globalização, mas vai reformulá-la”, diz a reportagem. “À medida que a pandemia se espalhou, a localização deixou de ter muita relevância. Não havia como escapar da doença: a economia mundial teve seu colapso mais profundo e sincronizado já registrado. A cadeia de suprimentos quebrou elos e expôs fragilidades. Para os negócios, foi mais uma evidência dos riscos de uma ruptura nos modelos estabelecidos. Para os governos, oferece mais razões para se voltar para dentro. O resultado foi a aceleração das mudanças para a globalização, que já estavam em andamento de forma mais lenta”.

As décadas de 1990 e 2000 foram verdadeiramente a era de ouro da globalização. O livro de Thomas Friedman, The World is Flat, de 2005, explica bem as principais forças que estavam achatando o mundo, – desde o crescimento explosivo da Internet até o aumento das cadeias de suprimentos globais.

Mas, a globalização já havia começado a desacelerar, na década de 2010, por uma série de razões, como a crescente competição enfrentada por empresas globais, as guerras comerciais e as tarifas dos últimos três anos, com a tarifa média sobre as importações americanas subindo para 3,4%, a mais alta em 40 anos.

A Covid-19 teve um impacto muito maior do que as interrupções anteriores da cadeia de suprimentos, como o surto de SARS em 2003 na Ásia e o desastre nuclear de Fukushima em 2011. Esses eventos foram muito mais localizados, duraram um tempo relativamente curto e impactaram principalmente a oferta, não a demanda, enquanto o covid-19 tem afetado a demanda do consumidor, bem como as cadeias de abastecimento, e provavelmente durará um pouco mais.

A história das cadeias de abastecimento é que elas não são robustas, mas são resilientes, porque as empresas são rápidas para encontrar soluções alternativas … Em vez de uma quebra no atacado, o covid-19 provavelmente causará uma aceleração das forças já em movimento. As empresas trocarão um pouco de eficiência por mais robustez, percebendo que, no longo prazo, a robotização da manufatura pode levar a aumento da produção. Os governos trabalharão para encurtar e diversificar as cadeias de abastecimento de equipamentos médicos.

2. Maior digitalização

Como Rahm Emanuel disse em uma entrevista em 2008: “Você nunca deve desejar que uma crise séria vá para o lixo”. Com esse espírito, as empresas devem aproveitar as vantagens da crise da Covid para acelerar sua jornada em direção ao que quase todos concordam que será um futuro cada vez mais digital.

As infraestruturas digitais mantiveram as nações e as economias em funcionamento durante a pandemia, – o maior choque que o mundo já experimentou desde a Segunda Guerra Mundial. A Covid-19 agora promove a aceleração da taxa e do ritmo da transformação digital. As empresas provavelmente irão abraçar e dimensionar as mudanças que foram forçadas a fazer para ajudá-las a lidar com a crise.

Durante anos, as empresas encontraram todos os tipos de motivos para não adotar reuniões virtuais, trabalho de casa, telemedicina e outros aplicativos online. Mas, não apenas esses aplicativos online funcionaram muito bem, mas também oferecem uma série de benefícios importantes, – como não esperar por uma consulta médica em uma sala cheia de pessoas doentes e não ter que viajar horas para participar de uma reunião de 45 minutos.

A pandemia criou uma experiência muito interessante, observa o The Economist. “Em questão de semanas, os profissionais abandonaram seus escritórios e foram trabalhar em casa. As reuniões foram substituídas por chamadas pelo Zoom e os deslocamentos até o trabalho por mais horas de trabalho… Parece que as empresas e os trabalhadores descobriram repentinamente os benefícios do trabalho remoto. A tecnologia que permite isso não é nova.

O trabalho remoto existe há décadas, mas decolou em meados da década de 1990 com o crescimento explosivo da Internet. Alguns até argumentaram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque a tecnologia estava tornando a localização cada vez menos relevante para nossos negócios e vida pessoal. Mas, em vez de declinar, a atividade econômica concentrou-se nas cidades superstars, que atraíram os mais talentosos e ambiciosos trabalhadores do conhecimento, cuja aglomeração levou ao aumento da produtividade, inovação, entretenimento e oportunidades educacionais, atraindo ainda mais e mais trabalhadores do conhecimento.

A pandemia estimulou as empresas a investir em tecnologias e aplicativos necessários para tornar possível a colaboração remota. “As empresas americanas preveem que a proporção de dias trabalhados em casa vai saltar de 5% antes do covid-19 para cerca de 20%, um número que condiz com o desejo médio dos trabalhadores. Parece provável que muitas empresas adotarão um modelo no qual um grande número de pessoas dividirá suas horas de trabalho entre o trabalho em casa e a colaboração no escritório.

Isso dificilmente acabará com cidades superstars ou acabará com os efeitos da aglomeração. As empresas precisam de escritórios para recrutar, integrar, monitorar desempenho, construir relacionamentos e disseminar conhecimento. Muitas pessoas, especialmente os jovens, ainda querem se reunir e compartilhar experiências, … E as nossas interações sociais ainda apelam para encontros presenciais. No entanto, tudo isso levará a mudanças estruturais significativas.

3. Desigualdade crescente

A pandemia poderia deixar os mercados mais desiguais?”, é o tópico de outro artigo. “O crescimento do trabalho remoto é a mais recente iteração de um choque tecnológico de décadas … Ele contribuiu para duas características distintas da economia mundial: (1) o domínio das empresas que acumularam know-how, dados e propriedade intelectual, difíceis de replicar; e um declínio associado na parcela do PIB acumulada pelos trabalhadores nos salários (uma tendência que é mais evidente na América).

A Covid-19 provavelmente aumentará a concentração da desigualdade do mercado. A maior dependência da tecnologia beneficiará empresas maiores, que têm melhores condições financeiras para fazer os investimentos necessários em automação, habilidades e treinamento da força de trabalho. E isso afeta desproporcionalmente as pequenas e médias empresas, muitas das quais, sem a capacidade financeira necessária para sobreviver. A onda de fechamento de empresas de pequeno e médio porte seguirá em alta e acelerará o domínio crescente de grandes empresas em vários setores.

Essa realocação da atividade econômica para as grandes empresas reduzirá a renda de uma parcela dos trabalhadores e levará a uma maior concentração da renda e ao aumento da desigualdade. As grandes empresas tenderão a pagar menores salários, enquanto criam uma parcela maior de lucros aos proprietários e investidores.

Em cada década do século 20, a relação entre o estado e o indivíduo foi reforçada pelo fogo das crises”, comenta o artigo do The Economist, já na parte final. A depressão de 1930 levou ao New Deal; A Segunda Guerra Mundial foi seguida pela expansão dos serviços sociais para cidadãos e trabalhadores; e na década de 1980, Ronald Reagan e Margaret Thatcher reverteram as tendências do pós-guerra com sua filosofia neoliberal de supremacia do mercado e governo.

Antes da Covid-19, os grandes choques econômicos do século 21 foram – os avanços tecnológicos, a terceirização de empregos na indústria e a crise financeira de 2008 – que levaram a uma onda de ações políticas. “Em muitos países, os cidadãos mais velhos já sentem saudades de uma economia que, independentemente do que os governos façam, nunca vai voltar a ser como era. Os jovens estão frustrados com o declínio da mobilidade social e os altos preços dos ativos, e temem os efeitos das mudanças climáticas. Embora haja um debate acirrado sobre o quanto tudo isso nos afetará ao longo do tempo, quase todo mundo lamenta o aumento das desigualdades de renda, da riqueza e oportunidades.

Em vez de tentar restaurar a economia de antes, os governos devem se adaptar às mudanças, garantir não expor as pessoas a perdas abruptas e procurar compartilhar os logros de forma mais ampla. Um mercado de trabalho digital global, impulsionado pelos investimentos das empresas em tecnologia, pode desencadear uma nova onda de inovação … 2020 pode marcar o início de uma era onde o populismo cai em declínio, enquanto a formulação de políticas econômicas sairá da rotina.

02/01/2021

Coisas que todos devem saber sobre tecnologia

A tecnologia está presente em tudo e por isso está se tornando mais importante do que nunca, afetando profundamente a cultura, a política e a sociedade. Considerando todo o tempo e dinheiro que gastamos com sistemas e aplicativos, é essencial entender os princípios que determinam como a tecnologia afeta nossas vidas.

Compreendendo a tecnologia de hoje

A tecnologia não é uma indústria. É um método de transformar a cultura e a economia. Isso pode ser um pouco difícil de entender se julgarmos a tecnologia apenas como produtos de consumo. A tecnologia vai muito além dos telefones em nossas mãos, e provoca mudanças muito significativas na sociedade e precisamos entede-las se quisermos tomar boas decisões sobre a forma como elas moldam nossas vidas – e especialmente se quisermos influenciar pessoas e negócios.

Mesmo aqueles que estão imersos no mundo da tecnologia há muito tempo, podem, por vezes, não entender as forças que moldam e impactam a sociedade.

O que você precisa saber:

1. A tecnologia não é neutra.

Uma das coisas mais importantes que todos devem saber sobre os sistemas, aplicativos e serviços é que eles carregam em cada botão, cada link e cada ícone brilhante, uma maneira de criar valor e lucro. As escolhas que os desenvolvedores fazem sobre o design, a arquitetura ou modelo de negócios, podem ter impactos profundos sobre nossa privacidade, segurança e até mesmo direitos civis, como usuários. Quando o software nos incentiva a tirar fotos quadradas em vez de retangulares, ou a deixar o microfone sempre ligado, ou nos permite ser alcançados por nossos chefes a qualquer momento, ele muda nosso comportamento e muda nossas vidas. Todas as mudanças que acontecem quando usamos novas tecnologias, ocorrem de acordo com as prioridades e preferências de quem as cria.

2. Não é possível evitar a tecnologia.

A cultura popular apresenta a tecnologia de consumo como uma progressão ascendente sem fim, que continuamente torna as coisas melhores e mais fáceis para todos. Na realidade, novos produtos de tecnologia geralmente envolvem um conjunto de compensações em que, melhorias em áreas, como usabilidade ou design vêm junto com pontos fracos em outras áreas como privacidade e segurança. Às vezes, a nova tecnologia é melhor para uma comunidade, enquanto torna as coisas piores para outras. Mais importante ainda, só porque uma determinada tecnologia é “melhor” de alguma forma, isso não garante que ela será amplamente adotada ou que fará com que outras tecnologias mais populares sejam aprimoradas.

3. A maioria das pessoas de tecnologia deseja fazer o bem.

Podemos ser bastante céticos e críticos em relação aos produtos e empresas de tecnologia, sem ter que acreditar que a maioria das pessoas que criam tecnologia são “ruins”. Tendo conhecido alguns milhares de pessoas ao redor do mundo que criam hardware e software, posso atestar que o clichê de que eles querem mudar o mundo para melhor é verdadeiro. Os criadores de tecnologia são sérios em querer causar um impacto positivo. Ao mesmo tempo, é importante para aqueles que fazem tecnologia entender que boas intenções não os isentam de serem responsáveis pelas consequências negativas de seu trabalho, não importa o quão bem-intencionados estejam. É importante reconhecer as boas intenções da maioria das pessoas que atuam com tecnologia porque nos permite seguir e analisar essas intenções e reduzir a influência daqueles que não têm boas intenções, e para garantir que o mal não ofusque o impacto do bem.

4. A história da tecnologia é mal documentada e mal compreendida.

Pessoas que aprendem a criar tecnologia geralmente podem descobrir todos os detalhes de como uma linguagem de programação ou um dispositivo favorito foi criado, mas muitas vezes é quase impossível saber por que certas tecnologias deram certo ou o que aconteceu com aquelas que não vingaram. Embora ainda estejamos no início da revolução computacional e que muitos de seus pioneiros ainda estejam vivos e trabalhando, é comum descobrir que parte da história da tecnologia recente, já foi apagada. Por que um aplicativo teve sucesso e outros não? Quantas tentativas fracassaram antes de algo dar certo para um aplicativo? Quais problemas esses aplicativos encontraram – ou quais problemas eles causaram? Quais criadores ou inovadores foram apagados da história? Todas essas perguntas são encobertas, silenciadas ou, às vezes, deliberadamente respondidas incorretamente, em favor da construção de uma história de progresso elegante, contínuo e inevitável no mundo da tecnologia. E não podemos esquecer que isso não é exclusivo da tecnologia – quase todos os setores passaram por problemas semelhantes.

5. A maior parte da educação em tecnologia não inclui treinamento ético.

Em disciplinas maduras como direito ou medicina, temos séculos de aprendizagem incorporados ao currículo profissional, com requisitos explícitos para a educação ética. Isso não impede que as transgressões éticas aconteçam. Mas esse nível básico de familiaridade com questões éticas dá a esses campos profissionais, uma ampla fluência em conceitos que motivam o comportamento humano. E, mais importante, garante que aqueles que desejam fazer a coisa certa e fazer seu trabalho de maneira ética, tenham uma base sólida de informações relevantes sobre o seu campo de atuação. Mas as reações recentes contra alguns excessos do mundo da tecnologia, recebem pouca atenção e há pouco progresso no aumento da expectativa de que a educação ética seja incorporada ao treinamento técnico. Existem poucos programas voltados para a atualização do conhecimento ético de quem já está na força de trabalho; a educação continuada é amplamente focada na aquisição de novas habilidades técnicas, em vez de habilidades sociais. Não há solução mágica para esse problema; é muito simplista pensar que trazer os cientistas da computação para uma colaboração mais próxima com os especialistas em artes liberais resolverá significativamente essas questões éticas. Mas está claro que os tecnólogos terão que se tornar rapidamente fluentes em questões éticas se quiserem continuar a ter o amplo apoio público de que desfrutam atualmente.

6. A tecnologia geralmente é construída sobre a ignorância dos seus usuários.

Nas últimas décadas, a sociedade aumentou muito o seu respeito pelos criadores de tecnologia, mas isso resultou em tratar essas pessoas como gênios infalíveis. Os criadores de tecnologia agora são regularmente tratados como autoridades em uma ampla gama de campos, como mídia, trabalho, transporte, infraestrutura e política – mesmo que não tenham experiência nessas áreas. Mas saber como fazer um aplicativo para iPhone não significa que a pessoa verdadeiramente entenda de um outro setor no qual nunca trabalhou! Os melhores e mais atenciosos criadores de tecnologia se envolvem profundamente com as comunidades que desejam ajudar, para garantir que atendam às necessidades reais em vez de “interromper” indiscriminadamente a forma como os sistemas estabelecidos funcionam. Mas às vezes, novas tecnologias atropelam essas comunidades, e as pessoas que as fabricam têm recursos financeiros e sociais suficientes para que as deficiências de suas abordagens não as impeçam de perturbar o equilíbrio de um ecossistema. Muitas vezes, os criadores de tecnologia têm dinheiro suficiente para encobrir os efeitos negativos das falhas em seus projetos, especialmente se estiverem isolados das pessoas afetadas por essas falhas. Para piorar tudo isso, há ainda os problemas de inclusão tecnológica, o que significa que muitas comunidades mais vulneráveis terão pouca ou nenhuma representação entre as equipes que criam novas tecnologias, tornando-se apenas consumidores ou usuários de tais tecnologias, sem que tenham consciência, conhecimentos e principalmente preocupações com o que está sendo criado.

7. Não existe apenas um único criador de tecnologia.

Uma das representações mais comuns sobre inovação tecnológica, na cultura popular, é a do gênio em uma garagem, criando uma inovação revolucionária como que em um passe de mágica. Isso alimenta a criação de mitos comum em torno de pessoas como Steve Jobs, que recebeu o crédito individual por “inventar o iPhone” quando isso, na verdade, foi obra de milhares de pessoas. Na realidade, a tecnologia é sempre medida pelos insights e valores da comunidade onde seus criadores estão baseados, e quase todo momento de inovação é precedido por anos ou até mesmo décadas de outras pessoas tentando e criando produtos semelhantes. O mito do “criador solitário” é particularmente ruim porque agrava os problemas de exclusão que afligem a indústria de tecnologia em geral; esses gênios solitários, que são retratados na mídia raramente vêm de origens tão diversas quanto as pessoas em comunidades reais. Enquanto os meios de comunicação podem se beneficiar por serem capazes de dar prêmios ou reconhecimento individuais, as histórias reais da criação são complicadas e envolvem muitas pessoas. Devemos ser céticos em relação a narrativas que indiquem o contrário.

8. A maioria das tecnologias não vem de startups.

Apenas cerca de 15% dos programadores trabalham em startups e, em muitas grandes empresas de tecnologia, a maioria da equipe nem mesmo é de programadores. Portanto, o foco em definir tecnologia pelos hábitos ou cultura de programadores que trabalham em startups, distorce a forma como a tecnologia é vista na sociedade. Em vez disso, devemos considerar que a maioria das pessoas que criam tecnologia trabalham em organizações ou instituições que não consideramos puramente de “tecnologia”. Além do mais, existem muitas empresas de tecnologia independentes – pequenas empresas que fazem sites, aplicativos ou software personalizado, e muitos dos programadores mais talentosos preferem a cultura ou os desafios dessas organizações, do que ser um famosos titã da tecnologia. Não devemos apagar o fato de que as startups são importantes, mas apenas uma pequena parte do todo está com elas, e não devemos deixar essa cultura distorcer a maneira como se cria tecnologia em geral.

9. A maioria das grandes empresas de tecnologia ganha dinheiro apenas de três maneiras.

É importante entender como as empresas de tecnologia ganham dinheiro, se você quiser entender de negócios de tecnologia. 

  1. Publicidade: Google e Facebook ganham quase todo o seu dinheiro vendendo informações sobre você para anunciantes. Quase todos os produtos que eles criam são projetados para extrair o máximo de informações possíveis, para que possam ser usadas para criar um perfil mais detalhado de seus comportamentos e preferências, e os resultados de pesquisa e feeds sociais feitos por empresas de publicidade são fortemente incentivados a empurram você para sites ou aplicativos que mostram mais anúncios dessas plataformas. É um modelo de negócios construído em torno da vigilância, o que é particularmente impressionante, pois é aquele em que a maioria das empresas de Internet voltadas para o consumidor dependem.
  2. Big Business: Algumas das maiores empresas de tecnologia, como Microsoft, Oracle e Salesforce, existem para obter dinheiro de outras grandes empresas que precisam de software de negócios, e que pagam por facilidades e agilidade para gerenciar e de bloquear as formas como os funcionários as usam. Muito pouco dessa tecnologia é prazerosa de usar, especialmente porque os clientes dela são obcecados em controlar e monitorar seus funcionários, mas isso torna essas empresas, as mais lucrativas em tecnologia.
  3. Pessoas físicas: empresas como a Apple e a Amazon desejam que você pague diretamente por seus produtos ou pelos produtos que outras pessoas vendem em suas lojas. (Embora os serviços da Amazon Web Services existam para atender ao mercado de grandes empresas). Este é um dos modelos de negócios mais simples – você sabe exatamente o que está recebendo quando compra um iPhone ou Kindle, ou quando assina o Spotify, e como não depende da publicidade e nem de ceder o controle de compras ao seu empregador, as empresas com esse modelo tendem a ser aquelas em que os indivíduos têm mais poder. Praticamente todas as empresas de tecnologia estão tentando fazer uma dessas três coisas, e você pode entender por que elas fazem essas escolhas, vendo como isso se conecta a esses três modelos de negócios.

10. O modelo econômico das grandes empresas distorce a tecnologia.

As maiores empresas de tecnologia de hoje seguem uma fórmula simples: Fazer um produto interessante ou útil que transforme um grande mercado; Obter muito dinheiro de investidores de capital de risco; Aumentar rapidamente um grande público de usuários, mesmo que isso signifique perder muito dinheiro por um tempo; Descobrir como transformar aquele grande público em um negócio que vale o suficiente para dar aos investidores um retorno enorme; Lutar ferozmente (ou comprar) outras empresas concorrentes no mercado. Esse modelo é muito diferente de como as empresas tradicionais são planejadas para o crescimento orgânico, que começam com pequenos investimentos e crescem atraindo principalmente, clientes que pagam diretamente por produtos ou serviços. As empresas que seguem esse novo modelo podem crescer muito mais rapidamente do que as empresas mais antigas que dependiam do crescimento da receita dos clientes pagantes. Mas essas novas empresas também têm uma responsabilidade muito menor para com os mercados em que estão entrando porque estão atendendo aos interesses de curto prazo de seus investidores antes dos interesses de longo prazo de seus usuários ou da comunidade. A difusão desse tipo de plano de negócios pode tornar a concorrência quase impossível para empresas sem investimento de capital de risco. Empresas regulares que crescem com base no ganho de dinheiro dos clientes não podem perder tanto dinheiro por tanto tempo. Não é um jogo justo e equilibrado, o que muitas vezes significa que as empresas estão presas a pequenos esforços independentes ou esforços monstruosamente gigantes. O resultado final se parece muito com a indústria do cinema, onde existem minúsculos filmes de arte indie e grandes sucessos de bilheteria, e não muito mais que isso. E qual é o maior custo para essas novas grandes empresas de tecnologia? Contratação de codificadores. Eles injetam a grande maioria de seu dinheiro de investimento na contratação e retenção dos programadores que construirão suas plataformas de tecnologia. Muito pouco dessas enormes somas de dinheiro é aplicado em coisas que servirão a uma comunidade ou criarão patrimônio para qualquer pessoa que não seja os fundadores ou investidores da empresa. Não existe a pretensão de se fazer uma empresa extremamente valiosa que também implique na criação de muitos empregos para muitos tipos de pessoas.

11. Tecnologia é tanto moda quanto função.

Para quem está de fora, a criação de aplicativos ou dispositivos é apresentada como um processo hiper-racional em que os engenheiros escolhem as tecnologias com base nas mais avançadas e adequadas à tarefa. Na realidade, a escolha de coisas como linguagens de programação ou kits de ferramentas podem estar sujeitas aos caprichos de programadores ou gerentes específicos, ou ao que quer que esteja simplesmente na moda. Com a mesma frequência, o processo ou metodologia pela qual a tecnologia é criada pode seguir modismos ou tendências que estão em alta, afetando tudo, desde como as reuniões são realizadas até como os produtos são pensados e desenvolvidos. Às vezes, as pessoas que criam tecnologia buscam novidades, às vezes querem voltar às bases de suas ferramentas tecnológicas, mas essas escolhas são influenciadas por fatores sociais, além de uma avaliação objetiva do mérito técnico. Uma tecnologia mais complexa nem sempre é igual a um produto final mais valioso. Portanto, embora muitas empresas gostem de divulgar o quão ambiciosas ou de ponta são suas novas tecnologias, isso não é garantia de que elas forneçam mais valor para usuários, especialmente quando novas tecnologias, vêm com novos bugs e efeitos inesperados.

12. Nenhuma instituição tem o poder de conter os abusos da tecnologia.

Na maioria dos setores, se as empresas começarem a fazer algo errado ou a explorar os consumidores, serão refreadas por políticas e investigações que criticarão suas ações. Então, se os abusos continuarem e se tornarem suficientemente graves, as empresas podem ser sancionadas por órgãos legisladores local, estadual, governamental ou internacional. Hoje, porém, grande parte da imprensa especializada em tecnologia se concentra em cobrir o lançamento de novos produtos ou novas versões de produtos existentes, e os repórteres de tecnologia que cobrem os importantes impactos sociais da tecnologia são muitas vezes comentaristas das análises de novos telefones, seu formato, sua cor, seu processador, em vez de dar destaque na cobertura dos negócios ou da cultura. Embora isso tenha começado a mudar à medida que as empresas de tecnologia se tornaram absurdamente ricas e poderosas, a cobertura também ainda é limitada pela cultura dentro das empresas de mídia. Repórteres seguem os clichês tradicionais e costumam relatar as novidades, como antigamente, nos principais meios de comunicação, e costumam ser analfabetos em conceitos básicos de tecnologia de uma forma que seria impensável que estes jornalistas cobrem sobre os impactos, finanças ou direitos dos consumidores e usuários. Em vez disso, os repórteres de tecnologia são frequentemente designados (ou inclinados a) cobrir anúncios de produtos, em vez de preocupações cívicas ou sociais mais amplas. O problema é muito mais sério quando consideramos os reguladores e autoridades eleitas, que muitas vezes se gabam de seu analfabetismo sobre tecnologia. Ter líderes políticos que não conseguem nem mesmo instalar um aplicativo em seus smartphones torna impossível entender a tecnologia bem o suficiente para regulá-la de forma adequada ou para atribuir responsabilidade legal quando os criadores de tecnologia violam leis. Mesmo que a tecnologia abra novos desafios para a sociedade, os legisladores ficam muito atrás do estado da arte ao criar leis apropriadas. Sem a força corretiva da responsabilidade jornalística e legislativa, as empresas de tecnologia muitas vezes funcionam como se fossem completamente desreguladas, e as consequências dessa realidade geralmente recaem sobre quem está fora da tecnologia. Pior ainda, ativistas tradicionais que contam com métodos convencionais, como boicotes ou protestos, muitas vezes se consideram ineficazes devido ao modelo de negócios indireto de empresas de tecnologia gigantes, que podem contar com publicidade ou vigilância (“coleta de dados do usuário”) ou investimento de capital de risco para continuar as operações mesmo que os ativistas sejam eficazes na identificação de problemas. Essa falta de sistemas de responsabilidade é um dos maiores desafios que a tecnologia enfrenta hoje. Se entendermos essas coisas, podemos mudar a tecnologia para melhor. Se tudo é tão complicado e tantos pontos importantes sobre a tecnologia não são óbvios, devemos simplesmente desistir? Não. Assim que conhecermos as forças que moldam a tecnologia, podemos começar a impulsionar a mudança. Se sabemos que o maior custo para os gigantes da tecnologia é atrair e contratar programadores, podemos incentivá-los a defender coletivamente os avanços éticos e sociais de seus empregadores. Se sabemos que os investidores que impulsionam as grandes empresas respondem aos riscos potenciais do mercado, podemos enfatizar que o risco de seus investimentos aumenta se eles apostarem em empresas que agem de forma prejudicial à sociedade. Se entendermos que a maioria em tecnologia tem boas intenções, mas falta o contexto histórico ou cultural para garantir que seu impacto seja tão bom quanto suas intenções, podemos garantir que eles obtenham o reconhecimento de que precisam para prevenir danos antes que aconteçam. Muitos de nós que criam tecnologia, ou que amam a forma como ela nos fortalece e melhora nossas vidas, estamos lutando com os muitos efeitos negativos que algumas dessas mesmas tecnologias estão tendo na sociedade. Mas talvez se começarmos com um conjunto de princípios comuns que nos ajudam a entender como a tecnologia realmente funciona, possamos começar a enfrentar e combater os maiores problemas da tecnologia.

22/12/2020

A Covid-19 e a vida urbana

Em Por que as cidades mais ricas da América continuam ficando mais ricas, um artigo de 2017 no The Atlantic, o professor de estudos urbanos e autor Richard Florida escreveu:

As indústrias mais importantes e inovadoras e as pessoas mais talentosas, ambiciosas e ricas estão convergindo como nunca antes, para poucas cidades superstars – centros de conhecimento e tecnologia. Este pequeno grupo de lugares de elite, sempre avança, enquanto a maioria dos outros lugares, estagnou ou ficaram para trás … Eles não são apenas os lugares onde as pessoas mais ambiciosas e talentosas desejam estar – eles estão onde essas pessoas sentem que precisam estar.

Os setores de conhecimentos, há muito tempo se concentram nas cidades e nas áreas metropolitanas vizinhas, onde eles têm mais acesso a uma força de trabalho com formação superior e alta qualificação. Mas, – de Milão a Nova York, – áreas urbanas de alta densidade conectadas globalmente foram o marco zero para a disseminação da Covid-19. As cidades agora correm o risco de perder o status de superstars de que desfrutaram nas últimas décadas?

Em meados da década de 1990, alguns previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar e fazer compras em casa, manter contato com seus amigos por e-mail e ter acesso a notícias e entretenimento conectados. Mas, em vez de declinar, as megacidades continuaram a gerar os maiores níveis de inovação e bons empregos e, assim, atrair uma parcela desproporcional do talento mundial.

Por que as áreas urbanas se saíram bem nas últimas décadas?

Cerca de 25 anos atrás, o físico Geoffrey West, – Professor e Ex-Presidente do Instituto Santa Fé, – se interessou em saber se algumas das técnicas do mundo da física poderiam ser aplicadas ao estudo de sistemas biológicos e sociais complexos. Ele se perguntou se poderíamos aplicar métodos científicos empíricos, quantificáveis e preditivos para tentar entender melhor as cidades e outras organizações sociais altamente complexas.

O Dr. West e seus colaboradores analisaram uma vasta quantidade de dados sobre cidades ao redor do mundo para explorar as relações entre a população e uma ampla gama de infraestrutura e medidas socioeconômicas. Eles descobriram que na infraestrutura das cidades, – por exemplo, a largura das vias e estradas, as linhas elétricas, o consumo de energia, o número de postos de gasolina – influenciam numa escala sublinear, com um fator de 0,85 a decisão de morar ou não na cidade.

Isso significa que as cidades que possuem tais infraestrutura, desfrutam de um benefício de 15% em economias de escala, – se a população de uma cidade dobrar, sua infraestrutura só precisa aumentar por um fator de 1,85. Esse benefício de 15% foi verdadeiro para cidades de qualquer tamanho em todo o mundo, bem como para qualquer infraestrutura mensurável.

Os resultados foram diferentes para medidas socioeconômicas associadas a pessoas, por exemplo, salários, patentes, instituições educacionais, entretenimento, espaços culturais. Eles também escalam com a população, mas em vez de seguir um fator de escala sublinear de 0,85, os atributos socioeconômicos escalam exponencialmente, com um fator super linear de 1,15. Isso significa que, se você dobrar a população de uma cidade, haverá um aumento de aproximadamente 15% na produtividade, salários, entretenimento e instituições educacionais e assim por diante. A escala exponencial dessas medidas socioeconômicas positivas torna as cidades ainda mais atraentes para pessoas talentosas, o que, por sua vez, reforça seu apelo, levando a efeitos de rede e ao surgimento de cidades superstars.

No entanto, algumas coisas ruins acompanham essas cidades superstars. Coisas como um aumento sistemático do crime e doenças, como AIDS, gripe e assim por diante.”

Esses problemas se elevam nos mesmos 15% que as qualidades das cidades. O que nos leva à Covid-19.

“A pandemia Covid-19 cria tanta incerteza porque atinge o coração de nosso mundo urbano”, escreveu o economista de Harvard Edward Glaeser em um artigo recente, – Cities and Pandemics Have a Long History. O artigo de Glaeser conta um pouco dessa longa história:

  • em 430 aC, a praga de Atenas matou dezenas de milhares, incluindo seu proeminente líder Péricles, contribuindo para a derrota de Atenas na Guerra do Peloponeso, que marcou o eclipse da antiga civilização mediterrânea;
  • em 541 DC a praga de Justiniano atingiu Constantinopla, matando um quinto de sua população e encerrando a tentativa do imperador Justiniano de reconstruir a glória do Império Romano;
  • em 1347, a Peste Negra transmitida por pulgas matou 100-200 milhões de pessoas na Europa, Oriente Médio e Norte da África, com cidades sendo particularmente vulneráveis à propagação da doença; e
  • em 1918, a gripe espanhola infectou cerca de 500 milhões de pessoas, – cerca de um terço da população mundial na época, – e matou cerca de 50 milhões em todo o mundo.

“Somente no século passado as cidades deixaram de ser campos de matança”, disse Glaeser.

Por cem anos, as cidades, especialmente aquelas em economias mais avançadas, não sofreram uma grande pandemia. Covid-19 é como um lembrete bíblico de que, apesar de todos os avanços científicos, tecnológicos e médicos do século passado, nossas cidades cada vez mais populosas estão mais uma vez à mercê de uma pandemia.

Como a Covid-19 vai transformar a vida urbana?

As opiniões são muitas, mas ainda é muito cedo para dizer. Em Como será a vida em nossas cidades após a pandemia do coronavírus, a Foreign Policy pediu a 12 importantes especialistas em planejamento urbano, incluindo os professores Florida e Glaeser, suas previsões. E qui estão alguns de seus pontos chave.

Richard Florida continua otimista. “As previsões de morte de cidades sempre seguem choques como este. Mas a urbanização sempre foi uma força maior do que as doenças infecciosas … Alguns aspectos de nossas cidades e áreas metropolitanas serão remodelados … o desejo por arredores mais seguros e privados pode atrair alguns para os subúrbios e áreas rurais. Famílias com crianças e pessoas vulneráveis, em particular, podem trocar seus apartamentos na cidade por uma casa com quintal. Mas outras forças empurrarão as pessoas de volta aos grandes centros urbanos … As grandes cidades sobreviverão ao coronavírus”.

Edward Glaeser alerta para possíveis consequências econômicas. “Só nos Estados Unidos, 32 milhões de empregos estão no varejo, lazer e hospedagem. Eles estão na linha de frente da pandemia … Se as pandemias se tornarem o novo normal, dezenas de milhões de empregos nos serviços urbanos desaparecerão. A única chance de evitar o Armagedom do mercado de trabalho é investir bilhões de dólares de forma inteligente na infraestrutura de saúde anti pandêmica, para que este terrível surto possa permanecer uma aberração única.”

Rebecca Katz, professora de Georgetown, se pergunta se “Agora que tantos de nós criamos novas rotinas trabalhando remotamente por meio teleconferências, usando o Zoom, podemos começar a ver um êxodo da cidade para ambientes mais rurais”.

Talvez o declínio das cidades previsto por alguns na década de 1990 finalmente aconteça devido às nossas infraestruturas digitais significativamente mais avançadas.

Embora seja impossível prever qual será o novo normal, pode muito bem ser a urbanização reversa”, acrescenta Katz. “No entanto, também esperamos que os líderes municipais se destaquem na preparação e resposta às doenças. O que antes era uma área subfinanciada e com falta de pessoal dos departamentos de saúde se tornará mais robusta. Vamos desenvolver as melhores práticas para proteger a saúde da população nas cidades, o que ajudará a manter os ambientes urbanos atraentes.

Finalmente, o ex-vice prefeito de Nova York, Dan Doctoroff, apresenta um forte argumento para aproveitar esta oportunidade para construir cidades melhores. “As cidades voltarão mais fortes do que nunca depois da pandemia. Mas quando o fizerem, será impulsionado por um novo modelo de crescimento que enfatiza a inclusão, sustentabilidade e oportunidade econômica … Reanimar o crescimento da população urbana após a pandemia começará com a restauração da confiança na saúde pública urbana e na segurança de uma vida densa. Mas quando as pessoas retornam às cidades – como sempre fizeram no passado – devemos alavancar novas políticas e tecnologias para tornar a vida urbana mais acessível e sustentável para mais pessoas.

21/12/2020

O trabalho remoto é produtivo; mas...

E se o trabalho em casa continuasse … para sempre? Essa foi a pergunta do jornalista de ciência e tecnologia Clive Thompson em seu artigo na NY Times Magazine, de junho passado.

A crise do coronavírus forçou o mundo a reconsiderar quase todos os aspectos da vida, inclusive no trabalho. Algumas práticas, que agora parecem perda de tempo, são descartadas; outras parecem ser inesperadamente cruciais e impossíveis de se replicar online. Para os trabalhadores que estão se perguntando, se agora vão voltar para o escritório, a resposta mais honesta é esta: mesmo que voltem, o escritório pode nunca mais ser o mesmo.

Essa pesquisa descobriu que dos 56% das pessoas entrevistadas, empregadas antes da Covid-19, metade trabalhava em casa, – 35% passaram para trabalhar em casa, enquanto outros 15% já o faziam antes da Covid; 37% continuaram a se deslocar para o trabalho e 10% foram dispensados ou desligados de suas empresas. A pesquisa foi baseada em duas amostras distintas de dados – uma que coletou 25.000 respostas no início de abril e a segunda, que coletou outras 25.000 respostas no início de maio.

O artigo de Thompson cita a experiência da Accenture, que tem cerca de 500.000 funcionários em mais de 200 cidades em 120 países. Antes da pandemia, não mais do que 10% trabalhavam remotamente em um determinado dia da semana. Mas, em meados de março, quase todos foram convidados a trabalhar em casa. Os funcionários se adaptaram rapidamente, disse o CTO da Accenture. O volume das chamadas de vídeo aumentou seis vezes, enquanto o das chamadas de áudio triplicou. Apesar de ter que mudar das interações face a face para áudio e vídeo, a produtividade geral realmente aumentou conforme indicado por várias métricas.

É difícil avaliar se o aumento no trabalho remoto vai durar. A vida em confinamento é muito mais difícil do que parece”, observa Thompson. “Muitos trabalhadores que vivem sozinhos estão vivenciando o isolamento de forma forçada como uma chatice emocional … Quase todos os pais com quem conversei cruzaram os dedos para que as escolas e creches reabrissem no outono – ponto em que o trabalho remoto pode se tornar uma opção, oposta àquela que foram forçados a suportar no início da Pandemia. Supondo que esse dia chegue, é possível que alguns optem por continuar trabalhando fora do escritório.

O trabalho remoto, também conhecido como teletrabalho, existe há décadas, mas decolou em meados da década de 1990 com o crescimento explosivo da Internet. Alguns até previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar, manter contato com amigos e colegas e fazer compras em casa. Por que alguém escolheria morar em uma área metropolitana cara e lotada, se eles poderiam morar em um local mais acessível, menos estressante e potencialmente mais saudável?

A pesquisa conduzida antes da pandemia descobriu que o trabalho remoto oferece efeitos positivos significativos tanto para o funcionário quanto para o empregador... O que a Accenture descobriu não é, ao que parece, um acaso: a produção geralmente aumenta quando as pessoas trabalham remotamente.” O artigo ainda aponta dois estudos de caso de produtividade: um, focado no trabalho de casa (WFH - work from home) e o segundo no trabalho de qualquer lugar (WFA - work from anywhere). A pesquisa sobre trabalho remoto tem lidado amplamente com os programas da WFH, nos quais os funcionários geralmente vivem perto do escritório. Esses programas oferecem flexibilidade temporal aos trabalhadores, incluindo tempos de deslocamento reduzidos e melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Mas, quão eficaz é trabalhar em casa?

Pesquisadores de Stanford abordaram essa questão em um artigo de 2013 com base em um experimento de 9 meses conduzido com a CTrip, – a maior agência de viagens da China. A CTrip perguntou a quase 1.000 funcionários em seu call center em Xangai se eles estariam interessados ​​em trabalhar em casa quatro dias por semana, com o quinto dia no escritório como de costume. Cerca de metade dos funcionários se interessou, – principalmente aqueles que tinham filhos e deslocamentos longos para o trabalho, – e cerca de 250 qualificados em virtude de terem pelo menos seis meses de mandato, além de acesso à banda larga e um quarto privativo em que pudessem trabalhar em casa. CTrip então realizou um sorteio, e um grupo foi selecionado para o experimento, enquanto o restante continuou a trabalhar no escritório como um grupo de controle.

O trabalho em casa levou a um aumento de desempenho de 13%, dos quais cerca de 9% foi de trabalhar mais minutos por turno (menos pausas e dias de licença médica) e 4% de mais chamadas por minuto (atribuído a um ambiente de trabalho mais silencioso)... Esses trabalhadores também relataram maior satisfação no trabalho e menos rotatividade, mas sua taxa de promoção, condicionada ao desempenho, caiu. Devido ao sucesso do experimento, a CTrip implementou a opção WFH para toda a empresa e permitiu que os funcionários decidissem entre trabalhar em casa ou o escritório. Curiosamente, mais da metade deles optou por trabalhar à partir de casa, o que levou o modelo WFH quase dobrar, passando para 22% da força de trabalho”.

Como trabalhar em qualquer lugar (WFA) se compara a trabalhar em casa (WFH)? 

Um outro artigo avaliou a diferença de produtividade entre os programas WFH e WFA, com base nas experiências do US Patent and Trademark Office (USPTO), que em 2006, implantou um programa WFH de forma voluntária, com um grupo inicial de 500 examinadores de patentes, permitindo que os funcionários trabalhassem em casa até quatro dias por semana. Então, em 2012, o USPTO lançou um programa piloto WFA, agora permitindo que seus funcionários, trabalhassem em qualquer lugar. Os funcionários elegíveis para o piloto WFA deveriam já estar inscritos no WFH, e residir a mais de 50 milhas da sede do USPTO e também que concordassem em renunciar aos seus direitos de serem reembolsados ​​pelas viagens à sede, que eram limitadas a cinco por ano. No geral, o programa WFA levou a um aumento adicional na produção de trabalho de 4,4% em comparação com o programa WFH.

Trabalhar em casa também pode melhorar a forma como os funcionários se sentem em relação ao trabalho, disse Thompson, citando estudos e mostrando uma correlação positiva entre o teletrabalho e a satisfação no trabalho. “As pessoas tendem a valorizar a maior flexibilidade na definição de suas horas de trabalho, o tempo adicional com os membros da família, as distrações reduzidas.

Além de aumentar a produtividade e a satisfação no trabalho de seus funcionários, outra atração para os empregadores é a redução dos custos imobiliários. O USPTO estima que eles economizaram mais de US $38 milhões em espaço para escritórios. Além disso, as empresas têm acesso a um grupo maior de funcionários talentosos que podem não ter recursos para se mudar para cidades caras ou preferir não fazê-lo por motivos familiares ou outros. “E depois da pandemia – muitos não vão querer voltar”, acrescentou Thompson. “Muitos hesitarão com a ideia de elevadores lotados e escritório, onde as pessoas ficam amontoadas.”

Mas há um outro lado, como ouvi de muitos dos trabalhadores que entrevistei, que afirmam que, por mais que nossos escritórios possam ser ineficientes, disseminadores de doenças e outras coisas que atrapalham a produtividade, muitas pessoas querem voltar para eles, escreveu Thompson em conclusão. “Isso porque o trabalho no escritório é mais do que apenas produtividade direta. Ele também influencia a química da cultura do local de trabalho, que vem da interação de funcionários o dia todo, de maneiras inesperadas e até despretensiosas; e muitos funcionários temem que essa cultura esteja se desgastando ou no final de um ciclo”.

16/12/2020

Tendências 2030 – um período de Transformação

O Conselho Nacional de Inteligência é o centro do pensamento estratégico de médio e longo prazo na Comunidade de Inteligência dos EUA. A cada quatro anos, ele mostra um relatório de Tendências Globais com um horizonte de tempo previsível de aproximado de quinze anos, a fim de fornecer à Casa Branca e à comunidade de inteligência uma estrutura para avaliação de política estratégica de longo prazo. Seu último relatório – Global Trend 2030: Alternative Worlds (GT2030) – foi lançado em dezembro passado.

Este relatório pretende estimular a reflexão sobre as rápidas mudanças geopolíticas que caracterizam o mundo hoje e as possíveis trajetórias globais nos próximos anos”, afirma no Sumário Executivo. “Tal como acontece com os relatórios de tendências globais anteriores, Ele não busca prever o futuro mas, fornecer uma maneira de pensar sobre possíveis futuros e suas implicações.”

O GT2030 identificou quatro megatendências que devem moldar e transformar o mundo nas próximas décadas: a capacitação individual; a difusão do poder; padrões demográficos; e o nexo crescente entre alimentos, água, energia e mudanças climáticas. Essas mega tendências são reconhecidas e aceitáveis e estão bem bem presentes em nossas discussões do dia-a-dia.

Essas tendências podem levar a mundos radicalmente diferentes, dependendo de como elas interagem com o que o relatório chama cenários de virada de jogo, cada um dos quais levanta questões que não podem ser respondidas sobre direções distintas que as mega tendências podem seguir. O GT2030 explora em detalhes, seis dessas viradas de jogo:

  1. Uma economia global volátil e propensa a crises;
  2. Incapacidade dos governos de se adaptarem a um mundo em rápida mudança;
  3. O potencial para aumento de conflitos;
  4. Instabilidades regionais mais amplas;
  5. O impacto das novas tecnologias; e
  6. O futuro papel dos Estados Unidos.

Na parte final do relatório, a equipe GT2030 trabalhou com a McKinsey para analisar os vários cenários alternativos que podem ocorrer com base nas complexas interações entre as quatro mega tendências e as seis viradas de jogo. Eles usaram o Modelo de Estudos do Crescimento Global da McKinsey para modelar esses vários cenários e escolheram os quatro mais prováveis. Em seguida, desenvolveram uma visão fictícia e um enredo para cada um dos quatro mundos alternativos:

  1. A globalização se estagna e os conflitos inter estados aumentam;
  2. Cooperação mundial em uma série de questões lideradas pelos EUA e China;
  3. As desigualdades econômicas dominam, levando ao aumento das tensões sociais e conflitos globais; e
  4. Atores não estatais colaboram para enfrentar os desafios globais que levam a um mundo mais estável e socialmente coeso.

O relatório é bastante interessante. Fornece uma estrutura bem construída para refletir sobre como o mundo poderá ser nos próximos 15 a 20 anos. E, em particular, dá um bom suporte para pensar sobre a contínua revolução da tecnologia digital e seu impacto transformador nas economias e sociedades em todo o mundo. Estamos passando por um período de grandes mudanças, enquanto fazemos a transição da sociedade industrial dos últimos dois séculos para um novo tipo de sociedade baseada na informação.

Como será o nosso mundo nas próximas décadas?

O impacto das novas tecnologias é uma das seis viradas do jogo, que dá foco à seguinte questão: “Será que os avanços tecnológicos serão desenvolvidos a tempo de aumentar a produtividade econômica e resolver os problemas causados pelo crescimento da população mundial, pela rápida urbanização e pelas mudanças climáticas?”. Mas, na verdade, as mudanças tecnológicas desempenham um papel importante em cada uma das quatro mega tendências.

Empoderamento individual: o empoderamento individual será acelerado devido à redução da pobreza, o crescimento da classe média global, maior realização educacional, amplo uso de novas tecnologias de comunicação e manufatura; e avanços na área de saúde.

Nos últimos dois séculos, a Revolução Industrial levou a grandes melhorias no padrão de vida em todo o mundo. De acordo com o economista Richard Steckel, de 1920 a 1998, o PIB per capita mundial aumentou 8,6 pontos percentuais, em diferentes regiões. O PIB per capita aumentou 3,3 vezes na África e na Índia e 5,5 na China. Mas nos países mais industrializados, cujas economias se beneficiaram fortemente dos avanços tecnológicos e científicos da Revolução Industrial, o PIB per capita cresceu a uma taxa muito mais rápida. Os países da Europa Ocidental registraram um aumento de mais de dez vezes, os EUA chegaram a crescer 21,7 e o Japão de 30,5.

Esses avanços levaram a um crescimento da classe média de mais ou menos um bilhão de pessoas, principalmente concentrada nos países industrializados. Ao mesmo tempo, mais de um bilhão de pessoas em economias menos desenvolvidas ainda vivem em extrema pobreza. Mas, graças ao empoderamento individual, a GT2030 acredita que EWTA pode ser a mega tendência mais importante, e que essa situação irá mudar rapidamente.

Um número significativo de pessoas tem saído de um nível bem abaixo do limiar da pobreza para um nível relativamente melhor devido ao amplo desenvolvimento econômico. Na ausência de uma recessão global, o número de pessoas que vivem em extrema pobreza está prestes a declinar, à medida que a renda continua a aumentar na maior parte do mundo. O número pode cair cerca de 50% até 2030, de acordo com alguns modelos… Na maioria dos cenários – exceto nos mais terríveis – avanços significativos na redução da pobreza extrema, serão alcançados até 2030...”

A maioria das classes médias em todo o mundo em desenvolvimento está destinada a se expandir substancialmente em termos de números absolutos e da porcentagem da população que pode reivindicar o status de classe média durante os próximos 15-20 anos. Mesmo os modelos mais conservadores veem um aumento no total global daqueles que vivem na classe média dos atuais 1 bilhão ou mais para mais de 2 bilhões de pessoas. Outros veem aumentos ainda mais substanciais como, por exemplo, a classe média global atingindo 3 bilhões de pessoas em 2030.”

As tecnologias digitais têm desempenhado um papel central neste empoderamento individual global. Desde meados dos anos 1990, a Internet tem gerado uma economia digital verdadeiramente global, que conecta pessoas e empresas em todo o mundo. Nos últimos cinco anos, nossos avanços tecnológicos contínuos estão trazendo os benefícios de capacitação da revolução digital para quase todas as pessoas no planeta. Três desses avanços se destacam em particular. 1) O crescimento explosivo de dispositivos móveis cada vez mais poderosos, baratos e inteligentes; 2) a ascensão da computação em nuvem, que está permitindo a distribuição econômica de serviços e aplicativos sofisticados para todos esses dispositivos; e 3) as onipresentes redes sem fio de banda larga conectando tudo isso. Juntos, esses avanços estão dando origem a uma plataforma baseada na Internet para inovações digitais inclusivas que está tirando as pessoas da pobreza extrema, bem como expandindo significativamente a classe média mundial.

Difusão de Poder: Não haverá poder hegemônico. O poder mudará para redes e coalizões em um mundo multipolar.

Existem dois aspectos principais nesta mega tendência. O poder econômico e político está mudando da América do Norte e da Europa Ocidental para as economias de crescimento mais rápido do Leste e do Sul. O poder nacional está sendo distribuído para países com PIB e populações crescentes, não apenas China, Índia e Brasil, mas também nos atores regionais como Colômbia, Indonésia, Nigéria, África do Sul e Turquia.

A mudança no poder é apenas parte da história e pode ser ofuscada por uma mudança ainda mais fundamental na natureza do poder”, observa o relatório. “Em 2030, nenhum país – sejam os EUA, China ou qualquer outro grande país – será uma potência hegemônica. Ativado por tecnologias de comunicação, o poder quase certamente se deslocará mais para redes multifacetadas e amorfas compostas de atores estatais e não estatais que se formarão para influenciar as políticas globais em várias questões. A liderança dessas redes dependerá da posição, do enredamento, da habilidade diplomática e do comportamento construtivo. As redes irão restringir os formuladores de políticas porque vários participantes serão capazes de bloquear as ações dos formuladores de políticas em vários pontos.”

Os atores não estatais incluirão grandes cidades e regiões urbanas, empresas multinacionais, organizações não governamentais (ONGs), instituições acadêmicas e comunidades ad-hoc com poderes. A mídia social, big data e outras tecnologias avançadas permitirão que esses grupos colaborem uns com os outros, bem como com os governos locais, para enfrentar os desafios globais. Dadas as populações polarizadas e os governos nos Estados Unidos e em outros grandes países, esse modelo distribuído de governança pode muito bem emergir como a maneira mais razoável de fazer as coisas.

Padrões demográficos: o arco demográfico de instabilidade se estreitará. O crescimento econômico pode diminuir em países em envelhecimento. Sessenta por cento da população mundial viverá em áreas urbanizadas; a migração aumentará.

A tecnologia deve desempenhar um papel importante para ajudar a encontrar soluções acessíveis para os desafios colocados por uma população crescente e cada vez mais urbana, que deverá crescer de 7,1 para 8,3 bilhões de pessoas em 2030, sessenta por cento das quais viverão em cidades, em comparação com cinquenta por cento hoje.

Além disso, a idade média de quase todos os países está aumentando rapidamente, especialmente nas economias mais avançadas. Uma grande porcentagem de suas populações terá mais de 65 anos, o que representa grandes desafios para os programas de saúde e benefícios sociais. As inovações tecnológicas são necessárias para ajudar a fornecer serviços de saúde de alta qualidade a preços acessíveis para uma população que envelhece, bem como um ambiente adequado que lhes permita trabalhar por mais tempo e adiar a aposentadoria.

Alimentos, água e energia: a demanda por esses recursos crescerá substancialmente devido ao aumento da população global. O enfrentamento dos problemas relativos a uma commodity estará vinculado à oferta e à demanda das demais.

Com bilhões saindo da pobreza e ingressando na classe média, podemos esperar um aumento na demanda por recursos naturais, bem como por produtos e serviços de todos os tipos. Mas, atender a essas demandas e, esperançosamente, desencadear uma era de prosperidade só será possível em uma economia baseada em padrões de produção e consumo sustentáveis.

Uma classe média em expansão e o aumento das populações urbanas aumentarão as pressões sobre os recursos críticos – principalmente alimentos e água – mas novas tecnologias – como a agricultura vertical em edifícios altos que também reduzem os custos de transporte – podem ajudar a expandir os recursos necessários. A segurança alimentar e hídrica está sendo agravada pela mudança das condições climáticas fora das normas esperadas.”

Não estamos necessariamente caminhando para um mundo de escassez, mas os formuladores de políticas e seus parceiros do setor privado precisarão ser proativos para evitar a escassez no futuro. . . As questões serão se a gestão de recursos críticos se torna mais eficaz, até que ponto as tecnologias mitigam os desafios dos recursos e se melhores mecanismos de governança são empregados para evitar os piores resultados possíveis.”

Em sua página de abertura, o relatório Global Trends 2030 compara nossos tempos atuais com o alvorecer da Era Industrial. “Estamos vivendo um período de transformação semelhante, no qual a amplitude e o escopo dos possíveis desenvolvimentos – bons e ruins – são iguais, se não maiores, do que as consequências das revoluções políticas e econômicas do final do século XVIII.

Em seguida, resume nossos tempos atuais com as famosas linhas de abertura usadas por Charles Dickens ao escrever sobre o período do final do século 18 de “A Tale of Two Cities”:

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos... foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero... estávamos todos indo direto para o Céu, todos nós estávamos indo direto para o outro lado...

22/11/2020

O impacto contínuo e transformador da TI


Há alguns anos, o McKinsey Global Institute publicou Dez tendências de negócios focados em TI para a próxima década. O relatório é fruto de uma pesquisa profunda e muito bem trabalhada; porém sem muitas surpresas. Qualquer tecnologia que tenha um impacto transformador nos negócios na próxima década deve, pelo menos, estar ao alcance imediato (agora) dos usuários, pois as inovações disruptivas levam tempo para acontecer.

Muitas tendências refletem o crescente domínio da Internet como uma tecnologia capacitadora, bem como um modelo e metáfora para interações comerciais e sociais”, diz o relatório em sua introdução. “Vinte anos após a revolução da Internet, as empresas e os consumidores esperam que as informações estejam a uma pesquisa do Google, amigos e colegas estão sempre disponíveis em sites de redes sociais e bens e serviços (incluindo bens públicos, como educação e serviços governamentais) podem ser obtido instantaneamente de um serviço online em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora do dia.”

A matriz social, a Internet das coisas, o big data, as análises avançadas e a realização de qualquer coisa como um serviço, são as principais tendências do relatório. O SMAC – Social, Mobile, Analytics & Cloud, – se tornou o novo plástico, capturando o futuro da TI em uma palavra, ou melhor, em uma sigla. Quase todo mundo concorda que essas são tecnologias fundamentais, como a Internet há vinte anos, que todas as empresas deverão adotar.

No entanto, embora essas tecnologias estejam sendo amplamente discutidas, elas ainda estão nos estágios iniciais e até embrionários de implantação. Por exemplo, de acordo com um estudo da McKinsey, sobre a evolução da empresa em rede, mais de 80% das empresas pesquisadas usam tecnologias sociais, mas apenas 10% estão obtendo o valor de negócios esperado por estarem realmente em rede. E, embora a nuvem já esteja fornecendo muitos serviços ao consumidor, incluindo acesso a filmes, música e aplicativos móveis de todos os tipos, as empresas estão apenas começando a implantar e aprender como usá-la da melhor maneira, como foi discutido no MIT Sloan CIO Symposium. Seu potencial para impulsionar a inovação, ainda está no inicio.

Dada sua ampla aceitação e implantação crescente, há poucas dúvidas de que até 2025 essas tendências de TI terão um impacto transformador em empresas e setores em todo o mundo. E embora não sejam tão conhecidas e possivelmente não sejam tão impactantes, as próximas tendências de TI provavelmente também serão amplamente adotadas na próxima década: automação de trabalho do conhecimento, experiências digitais / físicas integradas, “eu + grátis + facilidade de uso = e-volução do comércio”.

Porém, sobre as duas últimas tendências – os próximos três bilhões de cidadãos digitais e a transformação do governo, da saúde e da educação – parecem de natureza diferente. Embora também tenham um impacto sobre os negócios e as economias, provavelmente terão um impacto ainda mais forte na qualidade de vida de indivíduos, nações e sociedades em todo o mundo. Consequentemente, essas tendências são significativamente mais complexas e sua evolução são mais difíceis de se prever, porque são diretamente afetadas por fortes forças sociais.

A McKinsey estima que, na próxima década, até três bilhões de pessoas adicionais poderão se conectar à Internet com dispositivos móveis e redes sem fio e, assim, tornar-se parte da economia digital global. Além disso, mais de 1,8 bilhão de pessoas se tornarão consumidores até 2025, ou seja, ganharão o suficiente para comprar bens e serviços além de atender às suas necessidades básicas.

Este rápido aumento na conectividade pode ser um fator-chave no desenvolvimento de comunidades em regiões menos desenvolvidas”, observa o relatório. A Internet móvel ajudará a levar pagamentos móveis e serviços financeiros aos ‘sem banco’. A inclusão financeira é um dos motores mais importantes do crescimento econômico e do consumo. O mesmo ocorre com o crescimento do empreendedorismo local impulsionado pela expansão do acesso a serviços digitais. Empresas locais e globais desenvolverão produtos e serviços voltados especificamente para esses consumidores recém-chegados ao mundo digital.

Essa pode muito bem ser a tendência de TI mais importante de todas. Uma previsão feita em um relatório, pelo Conselho Nacional de Inteligência dos EUA, analisando as principais tendências até 2030, mostra que haverá uma mega tendência ao empoderamento individual; e, como resultado, um amplo desenvolvimento econômico e redução da pobreza extrema e que a porcentagem da população classificada como classe média, irá se expandir substancialmente em quase todos os países. “Mesmo os modelos mais conservadores veem um aumento no total global de pessoas que vivem na classe média dos atuais 1 bilhão ou mais para mais de 2 bilhões de pessoas. Outros veem aumentos ainda mais substanciais com, por exemplo, a classe média global atingindo 3 bilhões de pessoas em 2030.

A Internet móvel agora está trazendo os benefícios de capacitação da revolução digital para quase todas as pessoas no planeta e ajudando a melhorar seu padrão de vida. A promessa de até três bilhões de cidadãos digitais adicionais está transformando a Internet em uma plataforma para inovação verdadeiramente inclusiva e de desenvolvimento econômico.

Mas, junto com seus enormes benefícios, o empoderamento econômico generalizado vem com seu próprio conjunto de desafios. O estudo Global Trends 2030 lista a crescente demanda por alimentos, água e energia como mega tendências mundial. Com bilhões saindo da pobreza e ingressando na classe média e uma população global crescente, podemos esperar um aumento na demanda por esses recursos essenciais, bem como por produtos e serviços de todos os tipos. Grandes inovações tecnológicas e colaborações globais são necessárias para nos ajudar a evoluir para uma economia baseada em padrões de produção e consumo mais sustentáveis.

O que nos traz à última e igualmente desafiadora tendência de TI: a transformação do governo, da saúde e da educação. Os setores público e privado reagiram de maneira bem diferente às mudanças estruturais provocadas pela revolução da tecnologia digital. Nos últimos vinte anos, as empresas adotaram a TI para melhorar significativamente sua produtividade, reduzir custos e se adaptar melhor às condições de mercado em rápida mudança e ao aumento da concorrência. As empresas aprenderam como se tornar organizações digitais eficazes.

No entanto, esses benefícios têm sido menos aparentes no governo, na saúde e na educação”, observa o relatório da McKinsey. “Esses serviços vitais respondem por quase um terço do PIB global, mas ficaram para trás no crescimento da produtividade. Até recentemente, eles demoravam a adotar plataformas baseadas na Web, análises de big data e outras inovações de TI”. No entanto, acreditamos que o governo, a saúde e a educação podem entrar em uma nova era de crescimento da produtividade via TI. Na verdade, o poder e a acessibilidade crescentes da TI estão enfrentando uma pressão crescente para fornecer melhores serviços públicos e sociais a um custo menor, superando cada vez mais a profunda resistência à mudança.

Alinhar o governo às realidades econômicas do século 21 exigirá inovações pelo menos tão disruptivas e profundas quanto aquelas adotadas pelo setor privado. Os gastos do governo têm aumentado constantemente nas nações ricas no século passado. Um relatório do Economist sobre O Futuro do Estado inclui dados mostrando que o gasto médio do governo como porcentagem do PIB em treze países do mundo rico passou de 10% em 1870 para 28% em 1960 e 48% em 2009.

Os cidadãos desses países democráticos e ricos continuaram a exigir mais serviços de seus governantes eleitos. Eles querem educação, saúde, segurança, transporte melhorados e assim por diante. Tudo isso faz parte do processo de se tornar uma economia avançada e uma sociedade rica. À medida que o padrão de vida aumenta nas economias emergentes, seus cidadãos exigem mais e melhores serviços públicos.

Embora os setores público e privado sejam inerentemente diferentes, várias práticas que ajudaram a melhorar a produtividade e a reduzir custos nos negócios nos últimos 20 anos podem ser aplicadas ao governo. Porém, tornar o governo mais eficiente é absolutamente necessário, mas não suficiente. Também é necessário enfrentar os custos crescentes dos serviços sociais, especialmente dos cuidados de saúde.

Os sistemas de TI podem fornecer serviços de saúde com mais eficiência na escala necessária para dar suporte a uma população envelhecida e com vários problemas crônicos. “Controlar os gastos com saúde e melhorar os resultados para os pacientes são objetivos compartilhados por nações ao redor do mundo”, observa o relatório. “Muitas das abordagens usadas para TI, presentes neste relatório, já estão sendo aplicadas hoje, mas em proporções significativamente menores, que ainda levarão tempo para mostrar sua eficácia e reais benefícios.

É o caso da educação. Uma educação acessível e de qualidade é um requisito fundamental da economia do conhecimento do século XXI. Mas, “Na maioria dos lugares, as principais instituições educacionais estão estruturadas hoje como no século 19 e prestam seus serviços da mesma maneira”, observa McKinsey e, em seguida, adiciona uma nota de esperança: “Acreditamos que as tendências descritas neste relatório irão se combinam para forçar os educadores a repensar os modelos de aprendizagem e abraçar novas plataformas e modos de ensino.” Avanços recentes na aprendizagem online, ainda em fase experimental, podem com o tempo expandir significativamente o número de pessoas em todo o mundo com acesso a uma educação de qualidade a custos razoáveis.

É difícil prever como essas tendências de TI se desenvolverão na próxima década. Haverá sérios obstáculos a serem superados ao longo do caminho, como privacidade pessoal e cibersegurança. As empresas terão que se adaptar a novos modelos de negócios e estruturas organizacionais. Tecnologias sofisticadas e mercados em rápida mudança irão valorizar as habilidades e a criatividade em todos os níveis. Algumas das tendências levarão mais de uma década para serem totalmente implementadas, e algumas serão significativamente reformuladas ao longo do caminho. Mas, quando pudermos juntar tudo, tenho certeza de que a TI continuará a ter um impacto transformador nos negócios e na sociedade por muitos anos.

16/11/2020

O dinheiro digital

A Royal Society of Arts (RSA), – Sociedade Real para o Encorajamento das Artes, Manufaturas e Comércio, – foi fundada em 1754 para “encorajar empresas, a ampliar a ciência, refinar a arte, melhorar produtos e estender o comércio”. Hoje, ela se autodenomina “uma organização iluminista comprometida em encontrar soluções práticas inovadoras para os desafios sociais dos nossos dias”.

Em 2013, eles abriram um importante debate, chamado de painel de discussões Da exclusão digital à inovação inclusiva: o caso do dinheiro digital e publicaram um documento sobre este tema. Participaram do ato, além de outros, os professores do Imperial College, David Gann e Gerald George e o professor da University of Queensland, Mark Dodgson.

Neste debate, foi discutido o poder transformador do dinheiro digital e como as transações econômicas estão cada vez mais, mudando da esfera física, para a digital, democratizando os serviços financeiros em todo o mundo e ajudando bilhões de pessoas a ingressar na economia digital e melhorar seu padrão de vida.

Assim como as comunicações e a publicação foram transformadas pelas tecnologias digitais, o mesmo acontecerá com os serviços financeiros. O progresso do dinheiro digital inevitavelmente nos surpreenderá e se desenvolverá de maneiras inesperadas, mas acreditamos que esteja prestes a realizar uma transformação notável na economia global. Isso acabará com a divisão entre aqueles que podem e aqueles que não podem participar das transações econômicas formais. Pode dar início a uma nova era de inovação mais inclusiva, que envolve bilhões de pessoas em todo o mundo na construção de serviços que afetam seu futuro”.

O crescimento massivo de dispositivos móveis conectados à Internet é uma das principais forças que impulsionam a evolução em direção a um ecossistema de dinheiro digital global. Nos últimos vinte anos, a Internet tem sido uma plataforma incrível para inovação, permitindo que empresas startups, grandes instituições, governos, ONGs e todos os demais, desenvolvam e tragam para o mercado muitos novos produtos e serviços digitais. Isso levou à criação de todos os tipos de aplicações. Ele transformou nossas atividades diárias, incluindo a maneira como trabalhamos, fazemos compras, aprendemos, fazemos operações bancárias, ouvimos música, assistimos a filmes e lidamos com o governo.

Para ficar online na década de 1990, era necessário um computador pessoal e uma conta em um provedor de serviços. As transações de comércio eletrônico exigiam um cartão de crédito ou conta bancária. Portanto, embora a Internet fosse realmente capacitadora para aqueles com os meios para usá-la, ela levou a uma enorme divisão digital em todo o mundo.

O alcance global e a conectividade com as quais ficamos tão entusiasmados na fase inicial da Internet não eram, na realidade, tão inclusivos. À medida que nossa economia estava se tornando cada vez mais digital, novas desigualdades surgiram, porque muitas pessoas ao redor do mundo não podiam pagar um PC ou uma conta na Internet e não tinham uma conta bancária ou cartão de crédito. Foi desconcertante ver uma revolução digital global que deixou de fora a maioria da população mundial.

Porém, esse quadro começou a mudar nos últimos anos. Os avanços contínuos da tecnologia, agora estão nos permitindo levar os benefícios de capacitação da revolução digital para quase todas as pessoas no planeta. Os telefones celulares e o acesso à Internet passaram de um luxo a uma necessidade que quase todo mundo pode pagar. Estamos fazendo a transição da economia conectada de PCs, navegadores e servidores da web para nossa economia cada vez mais hiper conectada de dispositivos móveis onipresentes, poderosos e baratos, aplicativos baseados em nuvem e redes de banda larga sem fio.

Um estudo recente da McKinsey examinou os 12 principais avanços tecnológicos disruptivos que transformarão a vida, os negócios e a economia global nos próximos anos. A Internet móvel apareceu no topo da lista: “Equipada com dispositivos e aplicativos de computação móvel habilitados para Internet para quase todas as tarefas, as pessoas cada vez mais realizam suas rotinas diárias usando novas maneiras de compreender, perceber e interagir com o mundo. . . No entanto, todo o potencial da Internet móvel ainda está para ser realizado; ao longo da próxima década, esta tecnologia pode alimentar transformações e interrupções significativas, não apenas devido ao seu potencial de trazer de dois a três bilhões de pessoas a mais para o mundo conectado, mas principalmente, de mover economias em desenvolvimento”.

A Internet móvel está agora inaugurando a próxima fase importante na evolução do dinheiro e dos pagamentos. O dinheiro está continuando sua transformação através dos séculos, de ser incorporado em moedas de ouro e prata, para nada mais do que informação nas carteiras digitais de nossos dispositivos móveis, bem como em nossas contas digitais em algum lugar na nuvem. E, uma vez que quase todas as pessoas no mundo, ricos e pobres, agora têm acesso a dispositivos móveis, este capítulo importante na história do dinheiro traz consigo o potencial de inclusão universal que não existia no passado. O dinheiro digital móvel está chegando, – com o tempo, – a todos os indivíduos em todos os cantos do mundo.

A Internet móvel também está prestes a se tornar uma plataforma para inovações digitais inclusivas, das quais o dinheiro digital e os muitos serviços que surgirão em torno dele são os principais exemplos. A inovação inclusiva é um conceito relativamente novo. Seu objetivo é desenvolver produtos e serviços que quase todos podem pagar, mesmo aqueles que estão na base da pirâmide, ou seja, os grupos socioeconômicos mais pobres em todo o mundo. .

Mas, por si só, a Internet móvel não pode conduzir a transição para um ecossistema de dinheiro digital inclusivo. Se examinarmos a revolução da Internet há 1/4 de século, o que foi verdadeiramente transformador não foi apenas a capacidade de se comunicar e acessar o conteúdo, mas também a capacidade de conduzir transações econômicas de todos os tipos. E para fazer isso, é necessário que nossas plataformas digitais suportem alguns serviços essenciais, em particular a capacidade de estabelecer nossa identidade de maneira única e lidar com pagamentos eletrônicos com segurança.

O acesso a esses serviços digitais não foi um problema, para aqueles de nós, que já tinham identidades únicas no mundo físico, – por exemplo, uma certidão de nascimento, carteira de motorista, conta bancária, passaporte, – que poderíamos usar para estabelecer nossa identidade no mundo digital. No entanto, como agora buscamos tornar essas plataformas digitais verdadeiramente inclusivas, muitas das pessoas que se pretende alcançar não possuem identidades únicas. A inclusão digital age assim como uma função de força para capacitar cada indivíduo no planeta, finalmente dando a cada um algo tão básico quanto sua identidade única, um pré-requisito absoluto para a inclusão econômica e social.

O professor Gerald George e Rajiv Gandhi, falaram sobre a iniciativa da Unique ID (UID) da Índia. O projeto UID visa emitir para cada residente na Índia um número único de 12 dígitos, que será armazenado em um banco de dados centralizado e será vinculado a dados demográficos básicos e biométricos. Entre outros benefícios, o projeto permitirá que os residentes menos favorecidos da Índia se beneficiem dos muitos serviços fornecidos pelo governo e pelo setor privado, incluindo serviços digitais, que agora poderão acessar por meio de seus dispositivos móveis.

Todas essas mudanças são de escala histórica. Embora todas as discussões abertas no painel e no documento da RSA sejam reais e estejam em andamento, sua evolução levará tempo. A maioria dessas mudanças massivas começa lentamente, pois precisamos superar muitos obstáculos técnicos, de mercado e políticos. Mas, em algum momento, uma massa crítica ou ponto de inflexão será alcançado e o progresso será significativamente acelerado. Como escrito nos parágrafos finais do documento RSA:

O potencial do dinheiro digital é extraordinário. Pode ser uma das tecnologias mais transformadoras de todos os tempos. Para bilhões em todo o mundo, carteiras digitais contendo identidades digitais, dinheiro e contas são uma passagem para a inclusão na economia global. Além disso, o surgimento dessa plataforma para inovação inclusiva dará origem a uma infinidade de aplicativos e serviços, muitos dos quais mal podemos imaginar hoje. As inovações que o dinheiro digital irá induzir aumentarão as oportunidades de empreendedorismo gerador de riqueza e o fornecimento de inovações altamente localizadas, aumentando assim os padrões e a qualidade de vida.” 

Além da Guerra de Preços: O Oceano Azul na Conectividade Brasileira

Introdução Lançado em 2005 por W. Chan Kim e Renée Mauborgne, A Estratégia do Oceano Azul revolucionou o pensamento estratégico...