05/02/2021

O que deve-se saber sobre as interrupções massivas da Internet


Este é o título do artigo (em português) da Internet Society, uma organização global sem fins lucrativos que capacita as pessoas a manter a Internet como uma força aberta, globalmente conectada, segura e confiável.

O artigo foi publicado originalmente em novembro de 2017 e atualizado em dezembro de 2019.

Introdução

As restrições ao acesso à Internet estão aumentando globalmente, com notícias freqüentes de interrupções do acesso à Internet ordenadas por governos. Impulsionados em grande parte por preocupações políticas e de segurança nacional, os desligamentos da Internet ordenados pelo estado já se tornaram o “novo normal” em muitos países.

As Nações Unidas consideram desproporcional o corte do acesso dos usuários à Internet, independentemente da justificativa fornecida, inclusive com base na violação da lei de direitos de propriedade intelectual, e, portanto, uma violação do Artigo 19, Parágrafo 3, do Pacto Internacional sobre Direitos civis e políticos. Também apela a todos os Estados para que garantam que o acesso à Internet seja mantido em todos os momentos, inclusive durante os momentos de agitação política.

Em um momento em que governos de todo o mundo se comprometem em alavancar esforços para ampliar o alcance e poder da Internet e das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) para alcançar as metas das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em áreas como educação, saúde e crescimento econômico; isolar populações inteiras da Internet é exatamente o oposto do compromisso firmado.

Este artigo destaca uma série de externalidades associadas ao desligamento da Internet e pede aos formuladores de políticas que “repensem” ao considerar restringir o acesso a Internet, como meio de enfrentar desafios políticos.

Definição de o “Desligamento da Internet”

Um desligamento da Internet é uma interrupção massiva intencional das comunicações baseadas na Internet, tornando-as inacessíveis ou efetivamente indisponíveis, para uma população ou uma região geográfica, muitas vezes para exercer controle sobre o fluxo de informações. O desligamento da Internet pode ocorrer em nível nacional, onde os usuários de todo o país não conseguem acessar a Internet, ou em nível sub nacional (local), onde o acesso à Internet móvel e / ou fixa de um estado, cidade ou outra área, é interrompido. Para os fins deste documento informativo, o bloqueio de aplicativo / conteúdo deve ser considerado separado e distinto. Consulte as Perspectivas da sociedade da Internet sobre o bloqueio de conteúdo: uma visão geral, para obter informações adicionais.

O que vem acontecendo?

O desligamento da Internet começou a ganhar atenção global durante o levante no Egito em 2011, quando as autoridades fecharam a Internet por quase uma semana para interromper as comunicações dos manifestantes. Desde então, o uso de paralisações da Internet como ferramenta de fins políticos tem aumentado constantemente: de acordo com o Access Now,75 paralisações em 2016;
106 paralisações em 2017;
196 paralisações em 2018; e
114 paralisações em 23 países nos primeiros seis meses de 2019,

de acordo com a Access Now e a Keep It On, a tendência não mostra sinais de desaceleração.

Embora o fenômeno seja global, as tendências atuais indicam que a Índia e o Paquistão lideram com as paralisações mais documentadas, seguidos pelo MENA e as regiões Subsaarianas. Destas paralisações, apenas uma fração é reconhecida pelos governos ou entidades que as ordenaram.

O Access Now observa que os governos que realizam interrupções na Internet, historicamente usam justificativas semelhantes para solicitar interrupções, mas que raramente correspondem ao que os observadores podem concluir ser a verdadeira motivação. Em 2018, as informações oficiais incluíram o combate às “notícias falsas” (apropriadamente chamadas de desinformação e má informação), discurso de ódio e violência relacionada, proteção da segurança pública e nacional, medidas cautelares e prevenção de fraudes, entre outros.

Nesse contexto, um número crescente de governos, empresas, organizações da sociedade civil, órgãos da comunidade técnica e indivíduos têm se manifestado contra o desligamento da Internet. O Keep It On!, já inclui mais de 200 organizações em quase 100 países.

Principais considerações

O desligamento da Internet tem impactos técnicos, econômicos e de direitos humanos de longo alcance. Eles minam a confiança dos usuários na Internet, colocando em movimento toda uma série de consequências para a economia local, a confiabilidade de serviços governamentais online essenciais e até mesmo para a reputação do próprio país. Os políticos precisam considerar esses custos juntamente com os imperativos de segurança.

Impacto Técnico

Quando ocorre uma interrupção completa da Internet em um determinado país, o impacto técnico pode se estender além das fronteiras do país para o resto da Internet global.

Fazer parte de uma rede interconectada significa ter responsabilidade pela rede como um todo, e as interrupções têm o potencial de gerar riscos sistêmicos (desbalanceamentos de tráfego e sobrecargas de roteadores).

Danos intencionais à infraestrutura, como o corte físico de cabos de fibra óptica, é provavelmente o método mais extremo de implementar uma interrupção da Internet. Para vários países, os danos físicos aos cabos de telecomunicações são particularmente problemáticos porque são estados de trânsito. Por exemplo, o Egito está em uma posição geográfica única para ser fisicamente atravessado por vários cabos de alta capacidade que vão do Leste Asiático, ao longo do Oceano Índico, através do Mar Vermelho e através do Mediterrâneo até a Europa Ocidental, conforme mostrado na figura abaixo.

Figura 1: Mapa mostrando vários cabos de telecomunicações cruzando o Egito
Fonte: https://www.treinaweb.com.br/blog/cabos-submarinos-sua-internet-cruzando-oceanos/amp/

Várias das linhas desembarcam no Canal de Suez e passam por terra através do Cairo antes de entrar no Mediterrâneo em Abu Talat ou Alexandria. Cortar cabos de fibra ótica para impedir o acesso do Egito à Internet global seria uma proposta perigosa, pois poderia interromper uma parte significativa das conexões de telecomunicações entre a Ásia e a Europa Ocidental também.

Os serviços ou aplicativos baseados na Web desenvolvidos e hospedados em um determinado país, costumam se tornar populares entre os expatriados e / ou emigrados e costumam ser usados por essas comunidades para manter a comunicação, transferir dinheiro ou comprar mercadorias. Outros serviços e aplicativos, ao ficar indisponíveis, podem afetar toda a cadeia de suprimentos global de uma organização internacional. Embora uma paralisação da Internet, tenha como objetivo interromper o acesso naquele país, ela acaba bloqueando o acesso a serviços e aplicativos do restante da Internet global, interrompendo a comunicação interpessoal crítica, as transações financeiras e os fluxos de trabalho corporativos.

O desligamento da Internet em larga escala também pode ter um impacto prejudicial no sistema de nomes de domínio (DNS). Em algumas situações, os cortes de tráfego são assimétricos: o tráfego da Internet global é impedido de chegar ao país que sofre o corte, mas o tráfego do país ainda é capaz de alcançar a Internet global. Nesse caso, ocorre um aumento nas solicitações de DNS, pois os sistemas do país afetado repetidamente tentam, em vão, resolver os nomes de host – as respostas são enviadas pelos servidores DNS, mas não são recebidas pelos sistemas de origem; que continuam reenviando as solicitações. Dependendo da resiliência da infraestrutura autoritativa de DNS, essa carga pode aumentar o tempo de resposta dos servidores ou fazer com que os servidores fiquem indisponíveis. Além disso, os usuários podem configurar serviços de DNS backup, fora de seus provedores de serviço locais; no momento em que os DNSs locais não conseguirem concluir as pesquisas solicitadas, os DNSs backup passarão a tentar resolver as requisições e isso pode potencialmente resultar no “vazamento” de informações para provedores de serviços de fora do país, bem como na criação de carga adicional inesperada nessas outras infraestruturas.

A política de roteamento da Internet é baseada em relacionamentos entre Sistemas Autônomos (ASs), e os relacionamentos podem ser do tipo cliente-servidor e ponto-a-ponto. Em ambos os casos, as interconexões podem cruzar as fronteiras nacionais e uma rede pode sofrer disponibilidade reduzida e latência aumentada como danos colaterais se a rede do AS vizinho for impactada por um desligamento da Internet, mesmo que os dois estejam em países diferentes.

Por fim, se o desligamento da Internet for usado como um meio direto de bloquear o acesso local a um serviço ou aplicativo específico, o acesso a outros serviços não relacionados também pode ser impactado como dano colateral. Por exemplo, desligar o acesso à Internet para bloquear o acesso aos serviços de mídia social também limitará o acesso local a aplicativos de compartilhamento logístico e táxi, provavelmente criando uma grande interrupção para os serviços de transporte.

Impacto econômico

Os desligamentos da Internet afetam as economias de várias maneiras, afetando a produtividade e gerando perdas monetárias.

Vários estudos determinaram que há um impacto real no Produto Interno Bruto (PIB) dos países. Por exemplo, uma pesquisa da Brookings Institution mostra que o desligamento da Internet custou aos países cerca de US $ 2,4 bilhões entre 1º de julho de 2015 e 30 de junho de 2016, com perdas máximas incorridas pela Índia (US $ 968 milhões). De acordo com um relatório da CIPESA, a África Subsaariana perdeu até US $ 237 milhões com o desligamento da Internet desde 2015. Em países onde a banda larga móvel está aumentando, um relatório da Ericsson de 2017 descobriu que conforme a penetração da banda larga móvel aumenta em 10%, ela causa um aumento de 0,6-2,8% no PIB, o que significa que o desligamento da infraestrutura móvel terá um impacto na economia do país.

Estudo da Deloitte de 2016

Os impactos de um desligamento temporário da Internet crescem à medida que um país se desenvolve e um ecossistema online mais maduro emerge. Estima-se que, para um país altamente conectado à Internet [penetração da Internet > 79%], o impacto diário de um desligamento temporário da Internet e de todos os seus serviços seria em média de $ 23,6 milhões por 10 milhões de habitantes. Com níveis mais baixos de acesso à Internet, os impactos médios estimados no PIB chegam a US $ 6,6 milhões e a US $ 0,6 milhões por 10 milhões de habitantes para economias de conectividade de Internet médias [penetração da Internet 49% – 79%] e baixa [penetração da Internet < 49%], respectivamente.

Embora esses estudos não tenham sido atualizados nos últimos anos, os números associados aos desligamentos mais recentes estão prontamente disponíveis:A paralisação da Internet em dezembro de 2018 na República Democrática do Congo foi estimada em um custo econômico de US $ 3 milhões/dia.Uma paralisação da Internet em janeiro de 2019 no Zimbábue custou ao país US $ 5,7 milhões para cada um dos seis dias em que esteve indisponível.Foi estimado que um mês de paralisação da Internet em junho de 2019 no Sudão custou ao país mais de US $ 1 bilhão, ou quase 1% do PIB do país.

Além dos impactos macroeconômicos, as paralisações também afetam de forma mais dura as PMEs. Por exemplo, no início de 2017, uma paralisação de 94 dias afetou parte dos Camarões – uma região também conhecida como “Montanha do Silício”. Inúmeros relatos de empreendedores locais, que perderam contratos e não puderam realizar transações importantes, levando à perda de dinheiro, fechamento de negócios e demissão de trabalhadores.

A Índia experimenta interrupções freqüentes, em nível estadual, e estados com dependência significativa do turismo, incluindo Caxemira, Darjeeling e Rajasthan, viram empresas de turismo sofrerem grandes perdas devido ao desligamento da Internet. As paralisações limitaram a comunicação entre empresas e clientes, impedindo que esses acessassem as plataformas de reservas em hotéis, causando danos à reputação e imagem destes. Além disso, a falta de conectividade com a Internet, causadas por desligamentos, impacta a capacidade das pequenas empresas de fazer divulgações e dificulta a capacidade do turista de descobrir serviços e empresas locais por meio de aplicativos e plataformas online.

Apesar do impacto em toda a economia, os negócios fortemente dependentes das transações eletrônicas estão particularmente expostos e vulneráveis a consequências muito mais graves. Por exemplo, os pagamentos eletrônicos estão se tornando cada vez mais populares, não apenas no mundo desenvolvido, mas em muitos países em desenvolvimento. Em países como a Índia, onde o governo lançou um plano ambicioso de desmonetização e pagamentos digitais, frequentes interrupções da Internet em vários estados estão em conflito direto com as perspectivas da economia digital.

Embora as paralisações aumentem os riscos financeiros e de reputação para as empresas de TIC e a seus investidores, os impactos econômicos secundários resultantes de um clima de incerteza podem potencialmente desencorajar investidores estrangeiros e repercutir em uma ampla gama de setores, incluindo educação, saúde, imprensa e mídia de notícias e e-commerce. A Ferramenta de Custo de Desligamento do NetBlocks (COST) usa indicadores do Banco Mundial, do ITU e só Censo dos EUA para estimar e monitorar o impacto econômico dos desligamentos da Internet.

Impacto sobre os direitos humanos

As pessoas rotineiramente dependem da Internet para manter contato com a família e amigos, criar comunidades de interesse, relatar informações públicas, responsabilizar as instituições e acessar e compartilhar conhecimento. Nesse sentido, pode-se argumentar que o acesso à Internet não se distingue do exercício da liberdade de expressão e opinião e do direito à reunião pacífica. Esses direitos – reconhecidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos e refletidos nas Constituições de muitos dos países onde essas paralisações ocorrem – atribuem aos governos a responsabilidade de respeitá-los e proteger o gozo de seus cidadãos. Conforme declarado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU em 2012 e reafirmado desde então, as pessoas deveriam gozar das mesmas proteções desses direitos em contextos online ou offline.

Assim, o desligamento da Internet, em particular aqueles que desativam todos os meios de comunicação, devem ser considerados como potenciais violações dos direitos humanos. Embora direitos como a liberdade de expressão não sejam absolutos e possam ser restritos por motivos excepcionais – como a segurança nacional e ordem pública – eles também precisam seguir os protocolos estabelecido no Artigo 19 (3) do PIDCP, incluindo o cumprimento da proporcionalidade e critérios de necessidade.

Nos últimos anos, a comunidade de Direitos Humanos intensificou seus esforços para lidar com o impacto do desligamento da Internet. O Relator Especial da ONU para a liberdade de expressão manifestou preocupação com o impacto desproporcional das paralisações da Internet sobre o direito das pessoas à expressão. Uma resolução do Conselho de Direitos Humanos (CDH), adotada por consenso em 2016, afirmou que

“condena inequivocamente as medidas para prevenir ou interromper intencionalmente o acesso ou a disseminação de informações online em violação do direito internacional dos direitos humanos”.

Vários parceiros da Internet Society também estão dedicando recursos significativos para rastrear paralisações da Internet que ocorrem em todo o mundo, publicando pesquisas detalhadas sobre o impacto dessas paralisações sobre os direitos humanos, incluindo o Freedom on the Net 2018: The Rise of Digital Authoritarianism (Freedom House), Desconectado: uma abordagem baseada em direitos humanos para interrupções de rede (Global Network Initiative), e The State of Internet Shutdowns Around the World: The 2018 #KeepItOn Relatório.

Desafios

O aumento de paralisações da Internet por motivos políticos é uma das principais preocupações refletidas no relatório Access Now, bem como no Relatório Global da Internet da Internet Society de 2017, onde o papel crescente do governo foi identificado como um dos principais impulsionadores de mudança do futuro da rede. Os desafios relacionados aos desligamentos da Internet por parte dos governos, ainda incluem:

Segurança Nacional e Ordem Pública

Os governos têm preocupações e deveres legítimos de salvaguardar a ordem pública e a segurança nacional de seus cidadãos. Ainda assim, qualquer medida que restrinja a liberdade de expressão ou associação para atingir tais objetivos deve permanecer excepcional, ser fundamentada na lei e ser estritamente necessária e proporcional para atingir um objetivo legítimo. Durante as paralisações, muitos cidadãos sentem que seus direitos fundamentais estão sendo violados, alimentando o descontentamento e um sentimento de insegurança que pode gerar consequências negativas para a estabilidade do país.

Aplicação além das fronteiras

Os governos enfrentam o desafio de aplicar sua legislação nacional em um ambiente online marcado por plataformas de conteúdo além de suas fronteiras geográficas. No contexto de uma Internet aberta e conectada globalmente, remover conteúdo considerado problemático, em uma jurisdição específica, não é tão simples quanto pedir a um provedor local para remover esse conteúdo. A menos que sejam capazes de obter colaboração efetiva de tais plataformas, essa complexidade transfronteiriça pode levar alguns governos a optar pela abordagem mais pesada de encerrar totalmente a capacidade de acesso a essas plataformas.

Aumento da censura

Embora o desligamento da Internet usado como uma ferramenta contundente continue a atrair a atenção global, técnicas de filtragem de conteúdo cada vez mais sofisticadas provavelmente se tornarão mais onipresentes no futuro. Algoritmos inteligentes movidos por aprendizado de máquina já estão alimentando ferramentas de censura em tempo real em algumas partes do mundo e tal cenário tornaria a censura menos visível e mais difícil de detectar e reagir porque está sendo feita de forma invisível, antes do usuário. Essas ferramentas e as políticas restritivas associadas já estão sendo exportadas pela China para dezenas de países em todo o mundo.

Minando os compromissos com os objetivos de desenvolvimento sustentável

Devido ao papel da Internet no avanço das metas de políticas públicas, incluindo educação, saúde e desenvolvimento econômico, em 2015, 194 países da Assembleia Geral da ONU reconheceram as TIC como um catalisador horizontal para alcançar a nova Agenda de Desenvolvimento para 2030. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS) demonstram o compromisso do mundo com o crescimento social e econômico. Em particular, os governos se comprometem a

“aumentar significativamente o acesso à tecnologia da informação e comunicação e se esforçar para fornecer acesso universal à Internet nos países menos desenvolvidos até 2020”.

Embora haja progresso em direção a essa meta de curto prazo, o desligamento da Internet está em claro conflito com esse compromisso.

Eficácia

Atualmente, não há evidências da eficácia das paralisações para resolver os problemas que devem abordar, em particular quando se destinam a restaurar a ordem pública. Na verdade, pesquisas descobriram que blecautes de informações, resultantes de interrupções na Internet podem realmente resultar em aumento da violência, com táticas violentas que são menos dependentes de comunicação e coordenação eficazes, sendo substituídas por protestos não violentos que dependem da Internet para organização. Existem também vários relatos de danos colaterais provocados por essas medidas, incluindo impactos sobre os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais.

Além disso, os desligamentos da Internet tendem a atrair a atenção internacional e a criar pressão sobre os países que os praticam. Isso se relaciona com o chamado “efeito Streisand”, onde a tentativa de silenciar vozes ou ocultar informações leva à consequência de chamar mais atenção para elas.

Liberdade de expressão

A liberdade de expressão deve ser a regra e qualquer limitação a este direito, a exceção. O papel central da Internet na vida social e econômica dos usuários recentemente levou as Nações Unidas a promulgar uma resolução apoiando “a promoção, proteção e gozo dos direitos humanos na Internet”. A resolução condena os esforços do Estado para impedir ou interromper intencionalmente o acesso às informações online.

Proporcionalidade e Necessidade

Com base nos princípios do direito internacional dos direitos humanos, as avaliações de proporcionalidade e necessidade devem orientar as ações de qualquer formulador de políticas que considere o uso de desligamentos da Internet como ferramenta política.

Necessidade significa que qualquer restrição ao acesso à Internet deve ser limitada a medidas estrita e comprovadamente necessárias para atingir um objetivo legítimo. Deve-se demonstrar que nenhuma outra medida alcançaria efeitos semelhantes com mais eficiência e menos danos colaterais.

A necessidade também implica uma avaliação da proporcionalidade das medidas. Qualquer restrição de acesso à Internet também deve ser proporcional. Uma avaliação de proporcionalidade deve garantir que a restrição seja “o instrumento menos intrusivo entre aqueles que podem alcançar o resultado desejado”. A limitação deve atingir um objetivo específico e não interferir indevidamente em outros direitos das pessoas visadas.

Avaliação de custo-benefício

Existem muitos custos a serem considerados como resultado do desligamento da Internet, incluindo os econômicos, técnicos e sociais, e os governos precisam considerar esses efeitos de curto e longo prazo. Na maioria dos casos, mesmo desligamentos de curta duração podem ter implicações de longo prazo, estendendo-se por muito tempo após o retorno da conectividade.
A perda de confiança e segurança na Internet como uma plataforma confiável de oportunidades pode resultar em dificuldades
quantificar os impactos negativos, em particular nas gerações mais jovens que veem a conectividade como um caminho para o seu futuro. Além disso, as paralisações também destacam que o governo acredita que tomar tal ação é aceitável, sugerindo que a economia do país não está pronta para se juntar à economia digital global, exigindo que as empresas pensem cuidadosamente se devem investir e / ou localizar instalações naquele país.

Recomendações

O desligamento da Internet é, inequivocamente, prejudicial à Internet global e às comunidades locais. Os governos devem estar cientes de que as paralisações da Internet afetam muitos setores da sociedade, e é imperativo estabelecer um intercâmbio aberto com eles com o objetivo de buscar formas alternativas de abordar questões legítimas, em vez de recorrer às paralisações como ferramenta política.Construir infraestrutura resiliente: A comunidade técnica da Internet, grupos da indústria e governo local têm um papel fundamental a desempenhar na expansão de soluções de conectividade resilientes. Pontos de troca de Internet mais distribuídos e numerosos, juntamente com o aumento da diversidade de conectividade da Internet nas fronteiras internacionais, tornarão mais difícil e incômodo para os governos implementar efetivamente um único “switch kill”.Eliminar todas as opções de não desligamento: Os governos devem identificar as melhores práticas para lidar com os problemas em sua origem, priorizando medidas alternativas para desligamentos da Internet. Compartilhar experiências e trazer soluções que não dependem de restrições de acesso.Medir o custo primeiro: os governos precisam fazer uma análise de custo-benefício do impacto do desligamento da Internet antes de tomar tal ação. As interrupções na rede prejudicam a produtividade, afetam negativamente a confiança dos negócios e podem ser prejudiciais aos investimentos financeiros de curto e longo prazo.Diversificar vozes: Os capitalistas de risco e investidores devem incorporar o desligamento da Internet como parte de sua avaliação de risco. A importância das pequenas e médias empresas, incluindo aquelas fora do setor de TIC, para o futuro da economia local também deve ser levado em consideração, de forma mais ampla, à luz de como o desligamento da Internet pode minar completamente sua capacidade de operar.Desempenhar funções de vigilância: as organizações da sociedade civil, junto com outras partes interessadas, devem continuar a monitorar o impacto das paralisações da Internet e desempenhar um papel fundamental, exigindo responsabilidades dos governos e transparência em relação às paralisações da Internet. Ao lado desses pares, a comunidade técnica deve continuar a expandir seus esforços de monitoramento e medição da Internet e disponibilizar as ferramentas de informações ao público. Uma maior capacidade de analisar dados coletados ativa e passivamente de redes internas e externas pode ajudar a trazer maior visibilidade aos desligamentos da Internet, incluindo seu escopo, duração e impacto.

30/01/2021

Tecnologia versus Empregos


Outro dia falamos aqui sobre o futuro do trabalho, e também sobre o relatório do Pew Research sobre o impacto da IA, robótica e outras tecnologias avançadas, no futuro dos empregos. Esse relatório foi baseado nas respostas de 1.900 especialistas a várias perguntas, e uma delas foi:

“Os aplicativos e dispositivos robóticos em rede, automatizados e de inteligência artificial (IA) acabarão com mais empregos do que criarão até 2025?”

Nessa linha de raciocínio, o economista do MIT David Autor, – em seu artigo Polanyi’s Paradox and the Shape of Employment Growth (O paradoxo de Polanyi e a forma de crescimento do emprego) apresentado no simpósio anual Jackson Hole Federal Reserve, uma reunião de banqueiros, especialistas em finanças e acadêmicos mais proeminentes do mundo, onde o tema principal foi “Reavaliar a dinâmica do mercado de trabalho“, os participantes puderam expôr seus argumentos com base nas evidências empíricas existentes e aqui vai um resumo dos pontos principais.

Os computadores trouxeram grandes avanços na automação de muitas tarefas humanas físicas e cognitivas, especialmente aquelas tarefas que podem ser bem descritas por um conjunto de regras.

O professor Autor argumentou que, apesar dos avanços contínuos em IA e robótica, os “desafios para substituir trabalhadores por máquinas em tarefas que exigem flexibilidade, julgamento e bom senso, permanecem imensos”.

Esse argumento é baseado no conceito de conhecimento tácito, introduzido pela primeira vez na década de 1950 pelo cientista e filósofo Michael Polanyi. O conhecimento explícito é formal, codificado e pode ser facilmente explicado às pessoas e replicado em um programa de computador. O conhecimento tácito, por outro lado, é o tipo de conhecimento que frequentemente não temos consciência de que temos e, portanto, é difícil de transferir para outra pessoa, quanto mais para uma máquina. Geralmente, esse tipo de conhecimento é melhor transmitido por meio de interações pessoais e experiências práticas. Exemplos do dia a dia incluem falar um idioma, andar de bicicleta, dirigir um carro e reconhecer facilmente muitos objetos e animais diferentes.

“Podemos saber mais do que podemos dizer”, observou Polanyi no que Autor se refere como o paradoxo de Polanyi. Esse aparente paradoxo capta de forma sucinta o fato de que sabemos muito sobre como o mundo funciona, mas não somos capazes de descrever explicitamente esse conhecimento.

O artigo baseia-se ainda na pesquisa anterior de Autor sobre a polarização das oportunidades de emprego nos EUA, onde ele examinou a dinâmica de mudança do mercado de trabalho dos EUA, observando três segmentos diferentes:Empregos de alta qualificação e altos salários, onde as oportunidades se expandiram significativamente, com os ganhos dos trabalhadores com formação universitária necessários para preencher esses empregos aumentando continuamente nos últimos trinta anos;Empregos de baixa qualificação e baixos salários, que também têm se expandido, enquanto seu crescimento salarial, especialmente desde 2000, tem sido estável a negativo;Empregos de média qualificação e com salários médios que têm diminuído, embora seu crescimento salarial também tenha diminuído ao longo dos anos, especialmente desde 2000.

Muitas atividades de nível médio envolvem tarefas relativamente rotineiras, ou seja, tarefas ou processos que podem ser bem descritos por um conjunto de regras. Eles incluem atividades manuais, como manufatura e outras formas de produção, bem como, atividades baseadas em informações, como contabilidade, manutenção de registros, lidar com questões simples de atendimento ao cliente e muitos tipos de tarefas administrativas.

“Como as principais tarefas dessas ocupações seguem procedimentos precisos e bem compreendidos, elas são cada vez mais codificadas em softwares de computador e executadas por máquinas”, escreve Autor. “Esta força levou a um declínio substancial no emprego em apoio administrativo e administrativo e, em menor grau, na produção e no emprego operacional.”

Atividades de baixa e alta qualificação são geralmente de natureza não rotineira. Atividades de baixa habilidade tendem a ser tarefas manuais que não podem ser descritas por um conjunto de regras que uma máquina pode seguir. Os empregos nesta categoria incluem serviços de zeladoria, jardinagem, cargos em restaurantes de fast-food e auxiliares de saúde. Essas atividades não são candidatas a substituições de tecnologia, nem podem ser facilmente complementadas com ferramentas baseadas em tecnologia.

A maioria dos trabalhos de alta qualificação envolve a resolução de problemas por especialistas, comunicações complexas e outras atividades humanas cognitivas para as quais não existem soluções baseadas em regras. Os exemplos incluem diagnósticos médicos sofisticados, projetos complexos e muitas tarefas de P&D, bem como gerenciamento de grandes organizações, ensino e redação de livros e artigos. Os computadores complementaram e aumentaram significativamente a produtividade dessas tarefas altamente qualificadas e com grande quantidade de informações, e permitiram que tratassem de muitos novos tipos de problemas.

Seria de se esperar, portanto, que crescessem os empregos não rotineiros, tanto os de alta habilidade, como os cognitivos e os manuais de baixa habilidade, uma vez que são muito menos passíveis de substituição de tecnologia. No entanto, os empregos de alta e de média habilidade mais rotineiros estão diminuindo, uma vez que são os principais candidatos à automação. O artigo de Autor, apresentado no Federal Reserve dá as evidências quantitativas consideráveis de que este é realmente o caso, não apenas nos EUA, mas também em 16 outros países da União Europeia.

“Na prática, o paradoxo de Polanyi significa que muitas tarefas comuns, que vão do simples ao difícil, não podem ser informatizadas atualmente porque não conhecemos as regras para isso”, acrescenta Autor. “A nível econômico, o paradoxo de Polanyi significa algo mais. O fato de uma tarefa não poder ser informatizada não significa que a informatização não tenha efeito sobre essa tarefa. Pelo contrário: tarefas que não podem ser substituídas pela informatização são geralmente complementadas por ela. Este ponto é tão fundamental que é esquecido.”

Quanto ao futuro, já que as máquinas estão sendo cada vez mais aplicadas a atividades que exigem inteligência e capacidades cognitivas, talvez jamais vistas antes, que eram de amplo domínio humano – todos os trabalhadores de uma faixa de conhecimentos ou pelo perfil da atividade, correm o risco de perder a ‘Race Against the Machine’.

O que o paradoxo de Polanyi pode nos ensinar sobre os esforços para informatizar tarefas que exigem flexibilidade, julgamento e bom senso? Autor discute duas abordagens principais que podem nos ajudar a informatizar essas tarefas: controle ambiental e aprendizado de máquina.

O controle ambiental envolve essencialmente a engenharia do ambiente para compensar as muitas limitações das máquinas, ao mesmo tempo em que aproveita seus muitos benefícios. Embora as máquinas achem muito difícil operar em ambientes imprevisíveis, há muito tempo adaptamos e simplificamos os ambientes de trabalho para que possamos nos beneficiar do que as máquinas fazem. As linhas de montagem são exemplos bem conhecidos de adaptação do ambiente de fábrica no qual as máquinas operam. Assim como os trilhos de trem e as estradas pavimentadas que nos permitem usar trens, carros e caminhões, respectivamente. Em ambientes altamente selecionados, como a movimentação entre terminais em um aeroporto, os trens podem até mesmo ser totalmente automatizados e não exigir um operador humano. Mais recentemente, os armazéns estão sendo reprojetados para que humanos e máquinas robóticas inteligentes, possam trabalhar juntos.

E quanto à promessa de carros e caminhões autônomos, que muitos acreditam estar entre nós em menos de uma década, mas outros não têm tanta certeza de quão totalmente automatizados eles serão?

Um carro autônomo do Google, por exemplo, requer mapas altamente detalhados e selecionados para suas operações, através dos quais eles navegam usando os dados em tempo real de seus sensores. Se seu software determinar que o ambiente real é suficientemente diferente de seus mapas pré-especificados, ele ‘entrega’ o controle ao operador humano. “Assim”, observa Autor, “embora o carro do Google pareça exteriormente tão adaptável e flexível quanto um motorista humano, na realidade é mais parecido com um trem correndo em trilhos invisíveis”.

O controle ambiental é uma grande promessa para o futuro, à medida que projetamos nossas máquinas cada vez mais inteligentes com o ambiente no qual elas irão operar e interagir. E, tais ambientes amigáveis às máquinas não precisam se parecer com os ambientes mais imprevisíveis que são naturais para os humanos devido a todo o conhecimento tácito que adquirimos através da experiência.

O aprendizado de máquina é uma tentativa de aproveitar toda essa experiência prática para contornar o paradoxo de Polanyi. Envolve a aplicação de raciocínio indutivo para que a máquina possa aprender a partir de dados padrões, em vez de seguir instruções explicitamente programadas. “Assim, por meio de um processo de exposição, treinamento e reforço, os algoritmos de aprendizado de máquina podem potencialmente inferir como realizar tarefas que se mostraram extremamente desafiadoras para codificar com procedimentos explícitos.”

O aprendizado de máquina foi aplicado com sucesso a muitas tarefas nas últimas décadas. O crescimento explosivo do big data e o advento da ciência de dados como uma nova disciplina representam uma grande promessa para o futuro do aprendizado de máquina e das metodologias baseadas em dados relacionais. Mas, embora tenha grande sucesso em muitas tarefas sofisticadas com uso intensivo de dados, – por exemplo, saúde, marketing, finanças, – o aprendizado de máquina pode enfrentar sérias limitações em tarefas simples do dia a dia que uma criança pode dominar rapidamente, como reconhecer visualmente uma cadeira ou um gato, algo que aprendemos a fazer sem saber bem como.

Além disso, pode haver limitações práticas de engenharia para as aplicações de tais aplicativos de dados intensivos. Como observou o incrível artigo do NY Times de 2012!, os pesquisadores do Google usaram 16.000 processadores para ensinar uma máquina a identificar um gato usando os princípios do aprendizado de máquina. E o computador IBM Watson que em 2011 venceu o Jeopardy! Challenge, consumiu 85.000 watts de potência para derrotar os dois melhores Jeopardy humanos! jogadores, cujos cérebros consumiram cerca de 20 watts. Embora os avanços na tecnologia já tenham melhorado significativamente a eficiência de tais aplicativos com uso intensivo de dados, seu sucesso comercial pode ser limitado dado seus altos custos de energia. Quando se trata de tarefas que exigem amplo uso de conhecimento tácito, ainda temos muito a aprender com a biologia humana.

“Ainda assim, o potencial de longo prazo do aprendizado de máquina para contornar o paradoxo de Polanyi é um assunto de debate ativo entre os cientistas da computação”, escreve Autor. “Alguns pesquisadores esperam que, à medida que o poder de computação aumente e os bancos de dados cresçam, a abordagem de aprendizado de máquina de força bruta se aproxime ou excede as capacidades humanas.”

O professor Autor conclui o artigo com algumas observações pessoais importantes.

“À medida que o trabalho físico deu lugar ao trabalho cognitivo, a demanda do mercado de trabalho por habilidades analíticas formais, comunicação escrita e conhecimento técnico específico aumentou espetacularmente. . . Portanto, o investimento em capital humano deve estar no centro de qualquer estratégia de longo prazo para a produção de habilidades que sejam complementadas em vez de substituídas por tecnologia.”

“Embora muitas tarefas de habilidade média sejam suscetíveis à automação, muitos empregos de habilidade média exigem uma mistura de tarefas de todo o espectro de habilidades. . . muitos dos empregos de habilidades intermediárias que persistem no futuro combinarão tarefas técnicas de rotina com o conjunto de tarefas não rotineiras nas quais os trabalhadores detêm vantagem comparativa – interação interpessoal, flexibilidade, adaptabilidade e resolução de problemas.”

E, finalmente, “os desafios para informatizar inúmeras tarefas diárias – do sublime ao mundano – permanecem substanciais. . . há uma longa história de pensadores importantes superestimando o potencial das novas tecnologias para substituir o trabalho humano e subestimando seu potencial para complementá-lo”.

29/01/2021

A próxima geração das Telecomunicações

Este artigo foi originalmente postado em por tcs.com e seus autores são:

Kamal Bhadada, Presidente da TCS Communications, Media, e Serviços de Informação e Shanky Viswanathan, Vice Presidente & CTO – Unidade de negócios e chefe de comunicações, mídia e serviços de informação – Grupo consultivo de indústria da TCS.

As telecomunicações são uma Indústria global de US $ 6 trilhões, que também foi golpeada pela tecnologia digital, nesta década. Para os provedores móveis, a receita média por usuário (que é um indicador chave de suas receitas) caiu 34% globalmente entre 2006 e 2017; apesar dos trilhões de dólares de investimentos em infraestrutura de redes em todo o mundo.

A capacidade das empresas de telecomunicações de colher lucros de seus gastos com infraestrutura está diminuindo muito. Os principais serviços – como telefonia móvel, conectividade com a Internet e dados – são commodities que não geram mais retornos sólidos.

Tendo reconhecido essa condição, os provedores de serviços de comunicação estão se adaptando. Produtos e serviços digitais se tornaram uma importante fonte de receita nesta década, de acordo com uma pesquisa da TCS com executivos de 60 empresas de telecomunicações europeias e norte-americanas. 80% tiveram receita de US $ 1 bilhão ou mais e 23% ultrapassaram US $ 20 bilhões. Sua receita de negócios, produtos e serviços digitais está subindo: de 45% em média em 2010 para 59% em 2018.

A rede de última geração terá novas aplicações de tecnologia digital – serviços que podem conectar e melhorar a maneira como as pessoas e empresas operam.

As grandes operadoras sabem que agora estão competindo em um ecossistema digital com uma gama cada vez maior de concorrentes. A indústria do entretenimento pode usar as redes de um CSP para criar um novo modelo de negócios. As empresas de tecnologia podem criar aplicativos ao cliente que os ajudam a navegar, fazer compras e etc. E todas as indústrias podem usar serviços CSP para desenvolver novas experiências ao cliente, de publicidade B2C a logística B2B.

Mas, ao mesmo tempo que os CSPs enfrentam desafios claros e competição crescente, os ecossistemas digitais nos quais operam apresentam uma infinidade de oportunidades. Os CSPs têm um forte conjunto de recursos básicos – fornecendo conectividade e coletando grandes quantidades de dados sobre o desempenho de suas redes.

A principal diferencial das empresas de telecomunicações é sua capacidade de direcionar e gerenciar o tráfego de rede em tempo real, ciente do contexto do serviço digital ao consumidor final, para que a excelência na experiência do cliente final seja garantida. Isso exige que as empresas de telecomunicações obtenham percepções sobre a experiência dos seus clientes no ecossistema digital; seja durante o uso de serviços de automação residencial ou desfrutando de serviços de entretenimento de realidade imersiva. Os dados dos dispositivos, canais e plataformas de rede do cliente desempenham um papel fundamental para ajudar as telcos a obter insights e conduzir ações antecipatórias de IA.

A partir desses e de outros dados, as empresas de telecomunicações têm a capacidade de criar novos produtos e serviços. No entanto, isso exigirá uma mudança cultural para muitas deles – começando com a compreensão do negócio em que realmente atuam.

Nos últimos 20 anos, a indústria de telecomunicações, foi um grande pivô, chegando a ser 95% vertical, dominando os negócios de comunicações; agora estão passando a ser um negócio horizontal, subjacente, para quase tudo que a sociedade precisa, agora e especialmente no futuro”, disse Christoffer von Schantz, vice-presidente sênior de estratégia e fusões e aquisições do DNA Telco.

Para aproveitar as oportunidades, as empresas de telecomunicações precisam ver seus investimentos em redes 5G, não apenas pela velocidade e desempenho que oferecem aos clientes, mas também como uma chance de oferecer serviços além de voz, dados e vídeo. A rede de última geração lançará novas aplicações de tecnologia digital – serviços que podem conectar e melhorar a maneira como as pessoas e empresas operam. As empresas de telecomunicações precisam fazer suas apostas nesses campos porque, se não o fizerem, outras provavelmente o farão – (Apple, Facebook, Netflix e Google ou ou algum outro novo disruptor digital).

Estratégias para competir

As empresas de telecomunicações não conseguem controlar todos os elementos dos ecossistemas digitais em que atuam. Esses ecossistemas geram valor, justamente porque várias empresas participam deles. Os CSPs podem usar seus principais recursos em conectividade (alta velocidade, dados e vídeo) para se estabelecerem como “os guardiões das experiências digitais”. Eles podem usar esses recursos para fornecer produtos e serviços do mercado digital e ir além de serem apenas provedores de conectividade.

Especificamente, existem quatro estratégias que os CSPs podem adotar:

1. Provedor inteligente de conectividade.

Essas empresas de comunicações aproveitariam software e sistemas avançados e redes de comunicações para fornecer serviços de internet ultrarrápidos. Ter redes baseadas em software que usam IA, análise preditiva e mais automação, permite que essas empresas forneçam redes melhores. Objetivo: criar redes de autocura que automaticamente antecipam e agem para evitar congestionamentos e violações de segurança na rede – sem intervenção humana.

2. Provedor de serviços e produtos inteligentes

Nessa função, os CSPs venderiam serviços para clientes corporativos, aproveitando as vantagens da conectividade, Internet das coisas e aplicativos de negócios. Por exemplo, o serviço Smart Office da Comcast realiza vigilância física de escritórios. Para o mercado consumidor, as empresas de telecomunicações também oferecem muitas oportunidades. A Comcast desenvolveu um painel digital (Xfinity xFi) que personaliza a experiência do consumidor e o ajuda a gerenciar sua rede Wi-Fi e serviços domésticos conectados. A BT vende câmeras de segurança doméstica wi-fi há vários anos em seu mercado do Reino Unido, capitalizando em sua marca e a tornando cada vez mais confiável e reconhecida.

3. Agregador de valor

Aqui, uma telco seria um intermediário entre consumidores e empresas que fornecem conteúdo e serviços em mercados digitais. A excelência nesta estratégia requer uma experiência digital superior do cliente por meio de hiperpersonalização, integração Omnichannel e inovação de serviço.

A AT&T, por exemplo, tem um serviço para prestadores de serviços de saúde consultarem os pacientes por meio de chats de vídeo. Rogers Communications (Canadá) e Telefônica (Alemanha) lançaram iniciativas em serviços bancários digitais.

As chaves para os CSPs que buscam essa estratégia: Fazer com que esses serviços funcionem para os clientes, em vez de o CSP se concentrar no gerenciamento de seus próprios produtos. Formar e gerenciar parcerias digitais com outras empresas – e se destacar nesses relacionamentos – irá diferenciar um CSP do outro.

4. Criador de valor

Os CSPs que seguem essa estratégia desenvolvem plataformas de serviços digitais que podem vender para outros canais. Aqui, uma telco se torna uma empresa centrada em software (em vez de centrada em rede). A telco japonesa NTT Docomo, por exemplo, está desenvolvendo um sistema de cobrança e pagamento próprio. A Saudi Telecom tem como alvo os serviços financeiros, mídia e serviços corporativos de TI com um serviço de carteira digital chamado STC Pay. A empresa também está lançando seu serviço de mídia (denominado OTT) e construindo uma nova plataforma de TI para dar suporte a um novo sistema de transporte metropolitano em Riade (Arábia Saudita).

A importância de dominar uma estratégia

Os CSPs enfrentarão uma grande escolha ao decidir como avançar de fornecedores de commodities para fornecer produtos e serviços digitais e de análise de dados, que são mais valiosos. A chave é selecionar uma das quatro estratégias acima – e dominá-la.

Qualquer uma dessas estratégias provavelmente exigirá uma mudança cultural que irá romper com funções e atividades tradicionais das CSPs para que possam desenvolver inovação. Os líderes de telecomunicações sabem que devem agir rapidamente para implementar essas mudanças, devido ao ambiente competitivo. 32% das teles na América do Norte e na Europa disseram que veem uma competição mais acirrada até 2025 como empresas nativas digitais, de acordo com a pesquisa TCS. E 45% esperam que seus concorrentes mais difíceis sejam as novas empresas digitais que ainda não estão atuando, e que chegarão ao mercado até 2025. Apenas 23% disseram que veem seus maiores desafios vindo de rivais tradicionais do mercado de teles.

As empresas de qualquer setor que buscam uma estratégia de ecossistema também devem estar cientes de seus pontos fortes. As telcos têm uma enormes quantidades de dados digitais, gerados continuamente por suas redes. Considere os dados de localização que as empresas de telecomunicações podem aproveitar, com a permissão do cliente, para criar novos serviços de informação. Uma telco poderia usar seus dados e experiência de rede para ajudar os comerciantes a personalizar ofertas aos clientes, dependendo de onde eles estejam; seja no trabalho (por exemplo, oferecendo cupons para um restaurante próximo) ou fora, com a família (por exemplo, oferecendo vouchers de cinema).

A pesquisa da TCS ainda revelou que, as telcos reconhecem essa oportunidade. 61% disseram que pensam em atuar nas oportunidades digitais em termos de ecossistema; e entre os tipos de dados mais importantes para o futuro de seus negócios, está a forma como os clientes os veem e o que estão interessados em comprar. Cerca de 80% das empresas de telecomunicações disseram que a mineração de dados de clientes para melhorar produtos e serviços, será um fator chave de crescimento.

Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que os líderes de telecomunicações têm oportunidades de fazer mais, analisando os dados dos clientes. Uma pesquisa da TCS com diretores de marketing na América do Norte e na Europa, incluindo 33 de telcos, descobriu que apenas uma minoria está aproveitando ao máximo suas ricas fontes de dados. Apenas 42% usam dados de geolocalização para personalizar mensagens de marketing e apenas 40% usam esses dados para personalizar mensagens no atendimento ao cliente na pós-venda. Além disso, metade usa a localização geográfica de clientes em vendas cruzadas e incrementadas.

Claramente ainda há oportunidades a serem exploradas. As empresas de telecomunicações bem-sucedidas em ecossistemas digitais usarão essas e outras fontes de dados para desenvolver novos produtos e serviços, bem como determinar como construir suas plataformas de crescimento. Os executivos de telecomunicações, ouvidos na pesquisa reconhecem isso. No final de 2020, 64% deles acreditavam que será de fundamental ou alta importância usar dados e análises com base na localização geográfica dos clientes para fornecer uma experiência superior a eles.

03/01/2021

Como a Covid está reorganizando a economia global

De acordo com a OCDE, a economia da China será 10% maior até o final de 2021, do que era antes da pandemia de 2019, a economia dos EUA se manterá essencialmente, do mesmo tamanho, enquanto as economias da região do euro, do Reino Unido, O Japão e a Coréia do Sul verão um declínio até o final de 2021 em comparação com seus níveis pré pandêmicos.

A pandemia covid-19 está acelerando a mudança na economia mundial”, diz o The Economist. Está se tornando cada vez mais claro que “a pandemia levará a mudanças estruturais imensas na economia global: uma economia menos globalizada, mais digitalizada e menos igualitária”. As cadeias de abastecimento estão levando a produção para mais próximo das pessoas, para reduzir os riscos. Os trabalhadores de escritório continuarão trabalhando em suas casas pelo menos parte da semana. Os trabalhadores de serviços urbanos com salários mais baixos enfrentarão desemprego. O abismo entre Wall Street e Main Street aumentará. “O desafio para os governos democráticos será se adaptar a todas essas mudanças, mantendo o consentimento popular para suas políticas e para os mercados livres.

Há três áreas principais, as quais o The Economist afirma que as mudanças serão duradouras: globalização, digitalização e desigualdade.

1. Menos globalização

A pandemia não vai acabar com a globalização, mas vai reformulá-la”, diz a reportagem. “À medida que a pandemia se espalhou, a localização deixou de ter muita relevância. Não havia como escapar da doença: a economia mundial teve seu colapso mais profundo e sincronizado já registrado. A cadeia de suprimentos quebrou elos e expôs fragilidades. Para os negócios, foi mais uma evidência dos riscos de uma ruptura nos modelos estabelecidos. Para os governos, oferece mais razões para se voltar para dentro. O resultado foi a aceleração das mudanças para a globalização, que já estavam em andamento de forma mais lenta”.

As décadas de 1990 e 2000 foram verdadeiramente a era de ouro da globalização. O livro de Thomas Friedman, The World is Flat, de 2005, explica bem as principais forças que estavam achatando o mundo, – desde o crescimento explosivo da Internet até o aumento das cadeias de suprimentos globais.

Mas, a globalização já havia começado a desacelerar, na década de 2010, por uma série de razões, como a crescente competição enfrentada por empresas globais, as guerras comerciais e as tarifas dos últimos três anos, com a tarifa média sobre as importações americanas subindo para 3,4%, a mais alta em 40 anos.

A Covid-19 teve um impacto muito maior do que as interrupções anteriores da cadeia de suprimentos, como o surto de SARS em 2003 na Ásia e o desastre nuclear de Fukushima em 2011. Esses eventos foram muito mais localizados, duraram um tempo relativamente curto e impactaram principalmente a oferta, não a demanda, enquanto o covid-19 tem afetado a demanda do consumidor, bem como as cadeias de abastecimento, e provavelmente durará um pouco mais.

A história das cadeias de abastecimento é que elas não são robustas, mas são resilientes, porque as empresas são rápidas para encontrar soluções alternativas … Em vez de uma quebra no atacado, o covid-19 provavelmente causará uma aceleração das forças já em movimento. As empresas trocarão um pouco de eficiência por mais robustez, percebendo que, no longo prazo, a robotização da manufatura pode levar a aumento da produção. Os governos trabalharão para encurtar e diversificar as cadeias de abastecimento de equipamentos médicos.

2. Maior digitalização

Como Rahm Emanuel disse em uma entrevista em 2008: “Você nunca deve desejar que uma crise séria vá para o lixo”. Com esse espírito, as empresas devem aproveitar as vantagens da crise da Covid para acelerar sua jornada em direção ao que quase todos concordam que será um futuro cada vez mais digital.

As infraestruturas digitais mantiveram as nações e as economias em funcionamento durante a pandemia, – o maior choque que o mundo já experimentou desde a Segunda Guerra Mundial. A Covid-19 agora promove a aceleração da taxa e do ritmo da transformação digital. As empresas provavelmente irão abraçar e dimensionar as mudanças que foram forçadas a fazer para ajudá-las a lidar com a crise.

Durante anos, as empresas encontraram todos os tipos de motivos para não adotar reuniões virtuais, trabalho de casa, telemedicina e outros aplicativos online. Mas, não apenas esses aplicativos online funcionaram muito bem, mas também oferecem uma série de benefícios importantes, – como não esperar por uma consulta médica em uma sala cheia de pessoas doentes e não ter que viajar horas para participar de uma reunião de 45 minutos.

A pandemia criou uma experiência muito interessante, observa o The Economist. “Em questão de semanas, os profissionais abandonaram seus escritórios e foram trabalhar em casa. As reuniões foram substituídas por chamadas pelo Zoom e os deslocamentos até o trabalho por mais horas de trabalho… Parece que as empresas e os trabalhadores descobriram repentinamente os benefícios do trabalho remoto. A tecnologia que permite isso não é nova.

O trabalho remoto existe há décadas, mas decolou em meados da década de 1990 com o crescimento explosivo da Internet. Alguns até argumentaram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque a tecnologia estava tornando a localização cada vez menos relevante para nossos negócios e vida pessoal. Mas, em vez de declinar, a atividade econômica concentrou-se nas cidades superstars, que atraíram os mais talentosos e ambiciosos trabalhadores do conhecimento, cuja aglomeração levou ao aumento da produtividade, inovação, entretenimento e oportunidades educacionais, atraindo ainda mais e mais trabalhadores do conhecimento.

A pandemia estimulou as empresas a investir em tecnologias e aplicativos necessários para tornar possível a colaboração remota. “As empresas americanas preveem que a proporção de dias trabalhados em casa vai saltar de 5% antes do covid-19 para cerca de 20%, um número que condiz com o desejo médio dos trabalhadores. Parece provável que muitas empresas adotarão um modelo no qual um grande número de pessoas dividirá suas horas de trabalho entre o trabalho em casa e a colaboração no escritório.

Isso dificilmente acabará com cidades superstars ou acabará com os efeitos da aglomeração. As empresas precisam de escritórios para recrutar, integrar, monitorar desempenho, construir relacionamentos e disseminar conhecimento. Muitas pessoas, especialmente os jovens, ainda querem se reunir e compartilhar experiências, … E as nossas interações sociais ainda apelam para encontros presenciais. No entanto, tudo isso levará a mudanças estruturais significativas.

3. Desigualdade crescente

A pandemia poderia deixar os mercados mais desiguais?”, é o tópico de outro artigo. “O crescimento do trabalho remoto é a mais recente iteração de um choque tecnológico de décadas … Ele contribuiu para duas características distintas da economia mundial: (1) o domínio das empresas que acumularam know-how, dados e propriedade intelectual, difíceis de replicar; e um declínio associado na parcela do PIB acumulada pelos trabalhadores nos salários (uma tendência que é mais evidente na América).

A Covid-19 provavelmente aumentará a concentração da desigualdade do mercado. A maior dependência da tecnologia beneficiará empresas maiores, que têm melhores condições financeiras para fazer os investimentos necessários em automação, habilidades e treinamento da força de trabalho. E isso afeta desproporcionalmente as pequenas e médias empresas, muitas das quais, sem a capacidade financeira necessária para sobreviver. A onda de fechamento de empresas de pequeno e médio porte seguirá em alta e acelerará o domínio crescente de grandes empresas em vários setores.

Essa realocação da atividade econômica para as grandes empresas reduzirá a renda de uma parcela dos trabalhadores e levará a uma maior concentração da renda e ao aumento da desigualdade. As grandes empresas tenderão a pagar menores salários, enquanto criam uma parcela maior de lucros aos proprietários e investidores.

Em cada década do século 20, a relação entre o estado e o indivíduo foi reforçada pelo fogo das crises”, comenta o artigo do The Economist, já na parte final. A depressão de 1930 levou ao New Deal; A Segunda Guerra Mundial foi seguida pela expansão dos serviços sociais para cidadãos e trabalhadores; e na década de 1980, Ronald Reagan e Margaret Thatcher reverteram as tendências do pós-guerra com sua filosofia neoliberal de supremacia do mercado e governo.

Antes da Covid-19, os grandes choques econômicos do século 21 foram – os avanços tecnológicos, a terceirização de empregos na indústria e a crise financeira de 2008 – que levaram a uma onda de ações políticas. “Em muitos países, os cidadãos mais velhos já sentem saudades de uma economia que, independentemente do que os governos façam, nunca vai voltar a ser como era. Os jovens estão frustrados com o declínio da mobilidade social e os altos preços dos ativos, e temem os efeitos das mudanças climáticas. Embora haja um debate acirrado sobre o quanto tudo isso nos afetará ao longo do tempo, quase todo mundo lamenta o aumento das desigualdades de renda, da riqueza e oportunidades.

Em vez de tentar restaurar a economia de antes, os governos devem se adaptar às mudanças, garantir não expor as pessoas a perdas abruptas e procurar compartilhar os logros de forma mais ampla. Um mercado de trabalho digital global, impulsionado pelos investimentos das empresas em tecnologia, pode desencadear uma nova onda de inovação … 2020 pode marcar o início de uma era onde o populismo cai em declínio, enquanto a formulação de políticas econômicas sairá da rotina.

02/01/2021

Coisas que todos devem saber sobre tecnologia

A tecnologia está presente em tudo e por isso está se tornando mais importante do que nunca, afetando profundamente a cultura, a política e a sociedade. Considerando todo o tempo e dinheiro que gastamos com sistemas e aplicativos, é essencial entender os princípios que determinam como a tecnologia afeta nossas vidas.

Compreendendo a tecnologia de hoje

A tecnologia não é uma indústria. É um método de transformar a cultura e a economia. Isso pode ser um pouco difícil de entender se julgarmos a tecnologia apenas como produtos de consumo. A tecnologia vai muito além dos telefones em nossas mãos, e provoca mudanças muito significativas na sociedade e precisamos entede-las se quisermos tomar boas decisões sobre a forma como elas moldam nossas vidas – e especialmente se quisermos influenciar pessoas e negócios.

Mesmo aqueles que estão imersos no mundo da tecnologia há muito tempo, podem, por vezes, não entender as forças que moldam e impactam a sociedade.

O que você precisa saber:

1. A tecnologia não é neutra.

Uma das coisas mais importantes que todos devem saber sobre os sistemas, aplicativos e serviços é que eles carregam em cada botão, cada link e cada ícone brilhante, uma maneira de criar valor e lucro. As escolhas que os desenvolvedores fazem sobre o design, a arquitetura ou modelo de negócios, podem ter impactos profundos sobre nossa privacidade, segurança e até mesmo direitos civis, como usuários. Quando o software nos incentiva a tirar fotos quadradas em vez de retangulares, ou a deixar o microfone sempre ligado, ou nos permite ser alcançados por nossos chefes a qualquer momento, ele muda nosso comportamento e muda nossas vidas. Todas as mudanças que acontecem quando usamos novas tecnologias, ocorrem de acordo com as prioridades e preferências de quem as cria.

2. Não é possível evitar a tecnologia.

A cultura popular apresenta a tecnologia de consumo como uma progressão ascendente sem fim, que continuamente torna as coisas melhores e mais fáceis para todos. Na realidade, novos produtos de tecnologia geralmente envolvem um conjunto de compensações em que, melhorias em áreas, como usabilidade ou design vêm junto com pontos fracos em outras áreas como privacidade e segurança. Às vezes, a nova tecnologia é melhor para uma comunidade, enquanto torna as coisas piores para outras. Mais importante ainda, só porque uma determinada tecnologia é “melhor” de alguma forma, isso não garante que ela será amplamente adotada ou que fará com que outras tecnologias mais populares sejam aprimoradas.

3. A maioria das pessoas de tecnologia deseja fazer o bem.

Podemos ser bastante céticos e críticos em relação aos produtos e empresas de tecnologia, sem ter que acreditar que a maioria das pessoas que criam tecnologia são “ruins”. Tendo conhecido alguns milhares de pessoas ao redor do mundo que criam hardware e software, posso atestar que o clichê de que eles querem mudar o mundo para melhor é verdadeiro. Os criadores de tecnologia são sérios em querer causar um impacto positivo. Ao mesmo tempo, é importante para aqueles que fazem tecnologia entender que boas intenções não os isentam de serem responsáveis pelas consequências negativas de seu trabalho, não importa o quão bem-intencionados estejam. É importante reconhecer as boas intenções da maioria das pessoas que atuam com tecnologia porque nos permite seguir e analisar essas intenções e reduzir a influência daqueles que não têm boas intenções, e para garantir que o mal não ofusque o impacto do bem.

4. A história da tecnologia é mal documentada e mal compreendida.

Pessoas que aprendem a criar tecnologia geralmente podem descobrir todos os detalhes de como uma linguagem de programação ou um dispositivo favorito foi criado, mas muitas vezes é quase impossível saber por que certas tecnologias deram certo ou o que aconteceu com aquelas que não vingaram. Embora ainda estejamos no início da revolução computacional e que muitos de seus pioneiros ainda estejam vivos e trabalhando, é comum descobrir que parte da história da tecnologia recente, já foi apagada. Por que um aplicativo teve sucesso e outros não? Quantas tentativas fracassaram antes de algo dar certo para um aplicativo? Quais problemas esses aplicativos encontraram – ou quais problemas eles causaram? Quais criadores ou inovadores foram apagados da história? Todas essas perguntas são encobertas, silenciadas ou, às vezes, deliberadamente respondidas incorretamente, em favor da construção de uma história de progresso elegante, contínuo e inevitável no mundo da tecnologia. E não podemos esquecer que isso não é exclusivo da tecnologia – quase todos os setores passaram por problemas semelhantes.

5. A maior parte da educação em tecnologia não inclui treinamento ético.

Em disciplinas maduras como direito ou medicina, temos séculos de aprendizagem incorporados ao currículo profissional, com requisitos explícitos para a educação ética. Isso não impede que as transgressões éticas aconteçam. Mas esse nível básico de familiaridade com questões éticas dá a esses campos profissionais, uma ampla fluência em conceitos que motivam o comportamento humano. E, mais importante, garante que aqueles que desejam fazer a coisa certa e fazer seu trabalho de maneira ética, tenham uma base sólida de informações relevantes sobre o seu campo de atuação. Mas as reações recentes contra alguns excessos do mundo da tecnologia, recebem pouca atenção e há pouco progresso no aumento da expectativa de que a educação ética seja incorporada ao treinamento técnico. Existem poucos programas voltados para a atualização do conhecimento ético de quem já está na força de trabalho; a educação continuada é amplamente focada na aquisição de novas habilidades técnicas, em vez de habilidades sociais. Não há solução mágica para esse problema; é muito simplista pensar que trazer os cientistas da computação para uma colaboração mais próxima com os especialistas em artes liberais resolverá significativamente essas questões éticas. Mas está claro que os tecnólogos terão que se tornar rapidamente fluentes em questões éticas se quiserem continuar a ter o amplo apoio público de que desfrutam atualmente.

6. A tecnologia geralmente é construída sobre a ignorância dos seus usuários.

Nas últimas décadas, a sociedade aumentou muito o seu respeito pelos criadores de tecnologia, mas isso resultou em tratar essas pessoas como gênios infalíveis. Os criadores de tecnologia agora são regularmente tratados como autoridades em uma ampla gama de campos, como mídia, trabalho, transporte, infraestrutura e política – mesmo que não tenham experiência nessas áreas. Mas saber como fazer um aplicativo para iPhone não significa que a pessoa verdadeiramente entenda de um outro setor no qual nunca trabalhou! Os melhores e mais atenciosos criadores de tecnologia se envolvem profundamente com as comunidades que desejam ajudar, para garantir que atendam às necessidades reais em vez de “interromper” indiscriminadamente a forma como os sistemas estabelecidos funcionam. Mas às vezes, novas tecnologias atropelam essas comunidades, e as pessoas que as fabricam têm recursos financeiros e sociais suficientes para que as deficiências de suas abordagens não as impeçam de perturbar o equilíbrio de um ecossistema. Muitas vezes, os criadores de tecnologia têm dinheiro suficiente para encobrir os efeitos negativos das falhas em seus projetos, especialmente se estiverem isolados das pessoas afetadas por essas falhas. Para piorar tudo isso, há ainda os problemas de inclusão tecnológica, o que significa que muitas comunidades mais vulneráveis terão pouca ou nenhuma representação entre as equipes que criam novas tecnologias, tornando-se apenas consumidores ou usuários de tais tecnologias, sem que tenham consciência, conhecimentos e principalmente preocupações com o que está sendo criado.

7. Não existe apenas um único criador de tecnologia.

Uma das representações mais comuns sobre inovação tecnológica, na cultura popular, é a do gênio em uma garagem, criando uma inovação revolucionária como que em um passe de mágica. Isso alimenta a criação de mitos comum em torno de pessoas como Steve Jobs, que recebeu o crédito individual por “inventar o iPhone” quando isso, na verdade, foi obra de milhares de pessoas. Na realidade, a tecnologia é sempre medida pelos insights e valores da comunidade onde seus criadores estão baseados, e quase todo momento de inovação é precedido por anos ou até mesmo décadas de outras pessoas tentando e criando produtos semelhantes. O mito do “criador solitário” é particularmente ruim porque agrava os problemas de exclusão que afligem a indústria de tecnologia em geral; esses gênios solitários, que são retratados na mídia raramente vêm de origens tão diversas quanto as pessoas em comunidades reais. Enquanto os meios de comunicação podem se beneficiar por serem capazes de dar prêmios ou reconhecimento individuais, as histórias reais da criação são complicadas e envolvem muitas pessoas. Devemos ser céticos em relação a narrativas que indiquem o contrário.

8. A maioria das tecnologias não vem de startups.

Apenas cerca de 15% dos programadores trabalham em startups e, em muitas grandes empresas de tecnologia, a maioria da equipe nem mesmo é de programadores. Portanto, o foco em definir tecnologia pelos hábitos ou cultura de programadores que trabalham em startups, distorce a forma como a tecnologia é vista na sociedade. Em vez disso, devemos considerar que a maioria das pessoas que criam tecnologia trabalham em organizações ou instituições que não consideramos puramente de “tecnologia”. Além do mais, existem muitas empresas de tecnologia independentes – pequenas empresas que fazem sites, aplicativos ou software personalizado, e muitos dos programadores mais talentosos preferem a cultura ou os desafios dessas organizações, do que ser um famosos titã da tecnologia. Não devemos apagar o fato de que as startups são importantes, mas apenas uma pequena parte do todo está com elas, e não devemos deixar essa cultura distorcer a maneira como se cria tecnologia em geral.

9. A maioria das grandes empresas de tecnologia ganha dinheiro apenas de três maneiras.

É importante entender como as empresas de tecnologia ganham dinheiro, se você quiser entender de negócios de tecnologia. 

  1. Publicidade: Google e Facebook ganham quase todo o seu dinheiro vendendo informações sobre você para anunciantes. Quase todos os produtos que eles criam são projetados para extrair o máximo de informações possíveis, para que possam ser usadas para criar um perfil mais detalhado de seus comportamentos e preferências, e os resultados de pesquisa e feeds sociais feitos por empresas de publicidade são fortemente incentivados a empurram você para sites ou aplicativos que mostram mais anúncios dessas plataformas. É um modelo de negócios construído em torno da vigilância, o que é particularmente impressionante, pois é aquele em que a maioria das empresas de Internet voltadas para o consumidor dependem.
  2. Big Business: Algumas das maiores empresas de tecnologia, como Microsoft, Oracle e Salesforce, existem para obter dinheiro de outras grandes empresas que precisam de software de negócios, e que pagam por facilidades e agilidade para gerenciar e de bloquear as formas como os funcionários as usam. Muito pouco dessa tecnologia é prazerosa de usar, especialmente porque os clientes dela são obcecados em controlar e monitorar seus funcionários, mas isso torna essas empresas, as mais lucrativas em tecnologia.
  3. Pessoas físicas: empresas como a Apple e a Amazon desejam que você pague diretamente por seus produtos ou pelos produtos que outras pessoas vendem em suas lojas. (Embora os serviços da Amazon Web Services existam para atender ao mercado de grandes empresas). Este é um dos modelos de negócios mais simples – você sabe exatamente o que está recebendo quando compra um iPhone ou Kindle, ou quando assina o Spotify, e como não depende da publicidade e nem de ceder o controle de compras ao seu empregador, as empresas com esse modelo tendem a ser aquelas em que os indivíduos têm mais poder. Praticamente todas as empresas de tecnologia estão tentando fazer uma dessas três coisas, e você pode entender por que elas fazem essas escolhas, vendo como isso se conecta a esses três modelos de negócios.

10. O modelo econômico das grandes empresas distorce a tecnologia.

As maiores empresas de tecnologia de hoje seguem uma fórmula simples: Fazer um produto interessante ou útil que transforme um grande mercado; Obter muito dinheiro de investidores de capital de risco; Aumentar rapidamente um grande público de usuários, mesmo que isso signifique perder muito dinheiro por um tempo; Descobrir como transformar aquele grande público em um negócio que vale o suficiente para dar aos investidores um retorno enorme; Lutar ferozmente (ou comprar) outras empresas concorrentes no mercado. Esse modelo é muito diferente de como as empresas tradicionais são planejadas para o crescimento orgânico, que começam com pequenos investimentos e crescem atraindo principalmente, clientes que pagam diretamente por produtos ou serviços. As empresas que seguem esse novo modelo podem crescer muito mais rapidamente do que as empresas mais antigas que dependiam do crescimento da receita dos clientes pagantes. Mas essas novas empresas também têm uma responsabilidade muito menor para com os mercados em que estão entrando porque estão atendendo aos interesses de curto prazo de seus investidores antes dos interesses de longo prazo de seus usuários ou da comunidade. A difusão desse tipo de plano de negócios pode tornar a concorrência quase impossível para empresas sem investimento de capital de risco. Empresas regulares que crescem com base no ganho de dinheiro dos clientes não podem perder tanto dinheiro por tanto tempo. Não é um jogo justo e equilibrado, o que muitas vezes significa que as empresas estão presas a pequenos esforços independentes ou esforços monstruosamente gigantes. O resultado final se parece muito com a indústria do cinema, onde existem minúsculos filmes de arte indie e grandes sucessos de bilheteria, e não muito mais que isso. E qual é o maior custo para essas novas grandes empresas de tecnologia? Contratação de codificadores. Eles injetam a grande maioria de seu dinheiro de investimento na contratação e retenção dos programadores que construirão suas plataformas de tecnologia. Muito pouco dessas enormes somas de dinheiro é aplicado em coisas que servirão a uma comunidade ou criarão patrimônio para qualquer pessoa que não seja os fundadores ou investidores da empresa. Não existe a pretensão de se fazer uma empresa extremamente valiosa que também implique na criação de muitos empregos para muitos tipos de pessoas.

11. Tecnologia é tanto moda quanto função.

Para quem está de fora, a criação de aplicativos ou dispositivos é apresentada como um processo hiper-racional em que os engenheiros escolhem as tecnologias com base nas mais avançadas e adequadas à tarefa. Na realidade, a escolha de coisas como linguagens de programação ou kits de ferramentas podem estar sujeitas aos caprichos de programadores ou gerentes específicos, ou ao que quer que esteja simplesmente na moda. Com a mesma frequência, o processo ou metodologia pela qual a tecnologia é criada pode seguir modismos ou tendências que estão em alta, afetando tudo, desde como as reuniões são realizadas até como os produtos são pensados e desenvolvidos. Às vezes, as pessoas que criam tecnologia buscam novidades, às vezes querem voltar às bases de suas ferramentas tecnológicas, mas essas escolhas são influenciadas por fatores sociais, além de uma avaliação objetiva do mérito técnico. Uma tecnologia mais complexa nem sempre é igual a um produto final mais valioso. Portanto, embora muitas empresas gostem de divulgar o quão ambiciosas ou de ponta são suas novas tecnologias, isso não é garantia de que elas forneçam mais valor para usuários, especialmente quando novas tecnologias, vêm com novos bugs e efeitos inesperados.

12. Nenhuma instituição tem o poder de conter os abusos da tecnologia.

Na maioria dos setores, se as empresas começarem a fazer algo errado ou a explorar os consumidores, serão refreadas por políticas e investigações que criticarão suas ações. Então, se os abusos continuarem e se tornarem suficientemente graves, as empresas podem ser sancionadas por órgãos legisladores local, estadual, governamental ou internacional. Hoje, porém, grande parte da imprensa especializada em tecnologia se concentra em cobrir o lançamento de novos produtos ou novas versões de produtos existentes, e os repórteres de tecnologia que cobrem os importantes impactos sociais da tecnologia são muitas vezes comentaristas das análises de novos telefones, seu formato, sua cor, seu processador, em vez de dar destaque na cobertura dos negócios ou da cultura. Embora isso tenha começado a mudar à medida que as empresas de tecnologia se tornaram absurdamente ricas e poderosas, a cobertura também ainda é limitada pela cultura dentro das empresas de mídia. Repórteres seguem os clichês tradicionais e costumam relatar as novidades, como antigamente, nos principais meios de comunicação, e costumam ser analfabetos em conceitos básicos de tecnologia de uma forma que seria impensável que estes jornalistas cobrem sobre os impactos, finanças ou direitos dos consumidores e usuários. Em vez disso, os repórteres de tecnologia são frequentemente designados (ou inclinados a) cobrir anúncios de produtos, em vez de preocupações cívicas ou sociais mais amplas. O problema é muito mais sério quando consideramos os reguladores e autoridades eleitas, que muitas vezes se gabam de seu analfabetismo sobre tecnologia. Ter líderes políticos que não conseguem nem mesmo instalar um aplicativo em seus smartphones torna impossível entender a tecnologia bem o suficiente para regulá-la de forma adequada ou para atribuir responsabilidade legal quando os criadores de tecnologia violam leis. Mesmo que a tecnologia abra novos desafios para a sociedade, os legisladores ficam muito atrás do estado da arte ao criar leis apropriadas. Sem a força corretiva da responsabilidade jornalística e legislativa, as empresas de tecnologia muitas vezes funcionam como se fossem completamente desreguladas, e as consequências dessa realidade geralmente recaem sobre quem está fora da tecnologia. Pior ainda, ativistas tradicionais que contam com métodos convencionais, como boicotes ou protestos, muitas vezes se consideram ineficazes devido ao modelo de negócios indireto de empresas de tecnologia gigantes, que podem contar com publicidade ou vigilância (“coleta de dados do usuário”) ou investimento de capital de risco para continuar as operações mesmo que os ativistas sejam eficazes na identificação de problemas. Essa falta de sistemas de responsabilidade é um dos maiores desafios que a tecnologia enfrenta hoje. Se entendermos essas coisas, podemos mudar a tecnologia para melhor. Se tudo é tão complicado e tantos pontos importantes sobre a tecnologia não são óbvios, devemos simplesmente desistir? Não. Assim que conhecermos as forças que moldam a tecnologia, podemos começar a impulsionar a mudança. Se sabemos que o maior custo para os gigantes da tecnologia é atrair e contratar programadores, podemos incentivá-los a defender coletivamente os avanços éticos e sociais de seus empregadores. Se sabemos que os investidores que impulsionam as grandes empresas respondem aos riscos potenciais do mercado, podemos enfatizar que o risco de seus investimentos aumenta se eles apostarem em empresas que agem de forma prejudicial à sociedade. Se entendermos que a maioria em tecnologia tem boas intenções, mas falta o contexto histórico ou cultural para garantir que seu impacto seja tão bom quanto suas intenções, podemos garantir que eles obtenham o reconhecimento de que precisam para prevenir danos antes que aconteçam. Muitos de nós que criam tecnologia, ou que amam a forma como ela nos fortalece e melhora nossas vidas, estamos lutando com os muitos efeitos negativos que algumas dessas mesmas tecnologias estão tendo na sociedade. Mas talvez se começarmos com um conjunto de princípios comuns que nos ajudam a entender como a tecnologia realmente funciona, possamos começar a enfrentar e combater os maiores problemas da tecnologia.

22/12/2020

A Covid-19 e a vida urbana

Em Por que as cidades mais ricas da América continuam ficando mais ricas, um artigo de 2017 no The Atlantic, o professor de estudos urbanos e autor Richard Florida escreveu:

As indústrias mais importantes e inovadoras e as pessoas mais talentosas, ambiciosas e ricas estão convergindo como nunca antes, para poucas cidades superstars – centros de conhecimento e tecnologia. Este pequeno grupo de lugares de elite, sempre avança, enquanto a maioria dos outros lugares, estagnou ou ficaram para trás … Eles não são apenas os lugares onde as pessoas mais ambiciosas e talentosas desejam estar – eles estão onde essas pessoas sentem que precisam estar.

Os setores de conhecimentos, há muito tempo se concentram nas cidades e nas áreas metropolitanas vizinhas, onde eles têm mais acesso a uma força de trabalho com formação superior e alta qualificação. Mas, – de Milão a Nova York, – áreas urbanas de alta densidade conectadas globalmente foram o marco zero para a disseminação da Covid-19. As cidades agora correm o risco de perder o status de superstars de que desfrutaram nas últimas décadas?

Em meados da década de 1990, alguns previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar e fazer compras em casa, manter contato com seus amigos por e-mail e ter acesso a notícias e entretenimento conectados. Mas, em vez de declinar, as megacidades continuaram a gerar os maiores níveis de inovação e bons empregos e, assim, atrair uma parcela desproporcional do talento mundial.

Por que as áreas urbanas se saíram bem nas últimas décadas?

Cerca de 25 anos atrás, o físico Geoffrey West, – Professor e Ex-Presidente do Instituto Santa Fé, – se interessou em saber se algumas das técnicas do mundo da física poderiam ser aplicadas ao estudo de sistemas biológicos e sociais complexos. Ele se perguntou se poderíamos aplicar métodos científicos empíricos, quantificáveis e preditivos para tentar entender melhor as cidades e outras organizações sociais altamente complexas.

O Dr. West e seus colaboradores analisaram uma vasta quantidade de dados sobre cidades ao redor do mundo para explorar as relações entre a população e uma ampla gama de infraestrutura e medidas socioeconômicas. Eles descobriram que na infraestrutura das cidades, – por exemplo, a largura das vias e estradas, as linhas elétricas, o consumo de energia, o número de postos de gasolina – influenciam numa escala sublinear, com um fator de 0,85 a decisão de morar ou não na cidade.

Isso significa que as cidades que possuem tais infraestrutura, desfrutam de um benefício de 15% em economias de escala, – se a população de uma cidade dobrar, sua infraestrutura só precisa aumentar por um fator de 1,85. Esse benefício de 15% foi verdadeiro para cidades de qualquer tamanho em todo o mundo, bem como para qualquer infraestrutura mensurável.

Os resultados foram diferentes para medidas socioeconômicas associadas a pessoas, por exemplo, salários, patentes, instituições educacionais, entretenimento, espaços culturais. Eles também escalam com a população, mas em vez de seguir um fator de escala sublinear de 0,85, os atributos socioeconômicos escalam exponencialmente, com um fator super linear de 1,15. Isso significa que, se você dobrar a população de uma cidade, haverá um aumento de aproximadamente 15% na produtividade, salários, entretenimento e instituições educacionais e assim por diante. A escala exponencial dessas medidas socioeconômicas positivas torna as cidades ainda mais atraentes para pessoas talentosas, o que, por sua vez, reforça seu apelo, levando a efeitos de rede e ao surgimento de cidades superstars.

No entanto, algumas coisas ruins acompanham essas cidades superstars. Coisas como um aumento sistemático do crime e doenças, como AIDS, gripe e assim por diante.”

Esses problemas se elevam nos mesmos 15% que as qualidades das cidades. O que nos leva à Covid-19.

“A pandemia Covid-19 cria tanta incerteza porque atinge o coração de nosso mundo urbano”, escreveu o economista de Harvard Edward Glaeser em um artigo recente, – Cities and Pandemics Have a Long History. O artigo de Glaeser conta um pouco dessa longa história:

  • em 430 aC, a praga de Atenas matou dezenas de milhares, incluindo seu proeminente líder Péricles, contribuindo para a derrota de Atenas na Guerra do Peloponeso, que marcou o eclipse da antiga civilização mediterrânea;
  • em 541 DC a praga de Justiniano atingiu Constantinopla, matando um quinto de sua população e encerrando a tentativa do imperador Justiniano de reconstruir a glória do Império Romano;
  • em 1347, a Peste Negra transmitida por pulgas matou 100-200 milhões de pessoas na Europa, Oriente Médio e Norte da África, com cidades sendo particularmente vulneráveis à propagação da doença; e
  • em 1918, a gripe espanhola infectou cerca de 500 milhões de pessoas, – cerca de um terço da população mundial na época, – e matou cerca de 50 milhões em todo o mundo.

“Somente no século passado as cidades deixaram de ser campos de matança”, disse Glaeser.

Por cem anos, as cidades, especialmente aquelas em economias mais avançadas, não sofreram uma grande pandemia. Covid-19 é como um lembrete bíblico de que, apesar de todos os avanços científicos, tecnológicos e médicos do século passado, nossas cidades cada vez mais populosas estão mais uma vez à mercê de uma pandemia.

Como a Covid-19 vai transformar a vida urbana?

As opiniões são muitas, mas ainda é muito cedo para dizer. Em Como será a vida em nossas cidades após a pandemia do coronavírus, a Foreign Policy pediu a 12 importantes especialistas em planejamento urbano, incluindo os professores Florida e Glaeser, suas previsões. E qui estão alguns de seus pontos chave.

Richard Florida continua otimista. “As previsões de morte de cidades sempre seguem choques como este. Mas a urbanização sempre foi uma força maior do que as doenças infecciosas … Alguns aspectos de nossas cidades e áreas metropolitanas serão remodelados … o desejo por arredores mais seguros e privados pode atrair alguns para os subúrbios e áreas rurais. Famílias com crianças e pessoas vulneráveis, em particular, podem trocar seus apartamentos na cidade por uma casa com quintal. Mas outras forças empurrarão as pessoas de volta aos grandes centros urbanos … As grandes cidades sobreviverão ao coronavírus”.

Edward Glaeser alerta para possíveis consequências econômicas. “Só nos Estados Unidos, 32 milhões de empregos estão no varejo, lazer e hospedagem. Eles estão na linha de frente da pandemia … Se as pandemias se tornarem o novo normal, dezenas de milhões de empregos nos serviços urbanos desaparecerão. A única chance de evitar o Armagedom do mercado de trabalho é investir bilhões de dólares de forma inteligente na infraestrutura de saúde anti pandêmica, para que este terrível surto possa permanecer uma aberração única.”

Rebecca Katz, professora de Georgetown, se pergunta se “Agora que tantos de nós criamos novas rotinas trabalhando remotamente por meio teleconferências, usando o Zoom, podemos começar a ver um êxodo da cidade para ambientes mais rurais”.

Talvez o declínio das cidades previsto por alguns na década de 1990 finalmente aconteça devido às nossas infraestruturas digitais significativamente mais avançadas.

Embora seja impossível prever qual será o novo normal, pode muito bem ser a urbanização reversa”, acrescenta Katz. “No entanto, também esperamos que os líderes municipais se destaquem na preparação e resposta às doenças. O que antes era uma área subfinanciada e com falta de pessoal dos departamentos de saúde se tornará mais robusta. Vamos desenvolver as melhores práticas para proteger a saúde da população nas cidades, o que ajudará a manter os ambientes urbanos atraentes.

Finalmente, o ex-vice prefeito de Nova York, Dan Doctoroff, apresenta um forte argumento para aproveitar esta oportunidade para construir cidades melhores. “As cidades voltarão mais fortes do que nunca depois da pandemia. Mas quando o fizerem, será impulsionado por um novo modelo de crescimento que enfatiza a inclusão, sustentabilidade e oportunidade econômica … Reanimar o crescimento da população urbana após a pandemia começará com a restauração da confiança na saúde pública urbana e na segurança de uma vida densa. Mas quando as pessoas retornam às cidades – como sempre fizeram no passado – devemos alavancar novas políticas e tecnologias para tornar a vida urbana mais acessível e sustentável para mais pessoas.

21/12/2020

O trabalho remoto é produtivo; mas...

E se o trabalho em casa continuasse … para sempre? Essa foi a pergunta do jornalista de ciência e tecnologia Clive Thompson em seu artigo na NY Times Magazine, de junho passado.

A crise do coronavírus forçou o mundo a reconsiderar quase todos os aspectos da vida, inclusive no trabalho. Algumas práticas, que agora parecem perda de tempo, são descartadas; outras parecem ser inesperadamente cruciais e impossíveis de se replicar online. Para os trabalhadores que estão se perguntando, se agora vão voltar para o escritório, a resposta mais honesta é esta: mesmo que voltem, o escritório pode nunca mais ser o mesmo.

Essa pesquisa descobriu que dos 56% das pessoas entrevistadas, empregadas antes da Covid-19, metade trabalhava em casa, – 35% passaram para trabalhar em casa, enquanto outros 15% já o faziam antes da Covid; 37% continuaram a se deslocar para o trabalho e 10% foram dispensados ou desligados de suas empresas. A pesquisa foi baseada em duas amostras distintas de dados – uma que coletou 25.000 respostas no início de abril e a segunda, que coletou outras 25.000 respostas no início de maio.

O artigo de Thompson cita a experiência da Accenture, que tem cerca de 500.000 funcionários em mais de 200 cidades em 120 países. Antes da pandemia, não mais do que 10% trabalhavam remotamente em um determinado dia da semana. Mas, em meados de março, quase todos foram convidados a trabalhar em casa. Os funcionários se adaptaram rapidamente, disse o CTO da Accenture. O volume das chamadas de vídeo aumentou seis vezes, enquanto o das chamadas de áudio triplicou. Apesar de ter que mudar das interações face a face para áudio e vídeo, a produtividade geral realmente aumentou conforme indicado por várias métricas.

É difícil avaliar se o aumento no trabalho remoto vai durar. A vida em confinamento é muito mais difícil do que parece”, observa Thompson. “Muitos trabalhadores que vivem sozinhos estão vivenciando o isolamento de forma forçada como uma chatice emocional … Quase todos os pais com quem conversei cruzaram os dedos para que as escolas e creches reabrissem no outono – ponto em que o trabalho remoto pode se tornar uma opção, oposta àquela que foram forçados a suportar no início da Pandemia. Supondo que esse dia chegue, é possível que alguns optem por continuar trabalhando fora do escritório.

O trabalho remoto, também conhecido como teletrabalho, existe há décadas, mas decolou em meados da década de 1990 com o crescimento explosivo da Internet. Alguns até previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar, manter contato com amigos e colegas e fazer compras em casa. Por que alguém escolheria morar em uma área metropolitana cara e lotada, se eles poderiam morar em um local mais acessível, menos estressante e potencialmente mais saudável?

A pesquisa conduzida antes da pandemia descobriu que o trabalho remoto oferece efeitos positivos significativos tanto para o funcionário quanto para o empregador... O que a Accenture descobriu não é, ao que parece, um acaso: a produção geralmente aumenta quando as pessoas trabalham remotamente.” O artigo ainda aponta dois estudos de caso de produtividade: um, focado no trabalho de casa (WFH - work from home) e o segundo no trabalho de qualquer lugar (WFA - work from anywhere). A pesquisa sobre trabalho remoto tem lidado amplamente com os programas da WFH, nos quais os funcionários geralmente vivem perto do escritório. Esses programas oferecem flexibilidade temporal aos trabalhadores, incluindo tempos de deslocamento reduzidos e melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Mas, quão eficaz é trabalhar em casa?

Pesquisadores de Stanford abordaram essa questão em um artigo de 2013 com base em um experimento de 9 meses conduzido com a CTrip, – a maior agência de viagens da China. A CTrip perguntou a quase 1.000 funcionários em seu call center em Xangai se eles estariam interessados ​​em trabalhar em casa quatro dias por semana, com o quinto dia no escritório como de costume. Cerca de metade dos funcionários se interessou, – principalmente aqueles que tinham filhos e deslocamentos longos para o trabalho, – e cerca de 250 qualificados em virtude de terem pelo menos seis meses de mandato, além de acesso à banda larga e um quarto privativo em que pudessem trabalhar em casa. CTrip então realizou um sorteio, e um grupo foi selecionado para o experimento, enquanto o restante continuou a trabalhar no escritório como um grupo de controle.

O trabalho em casa levou a um aumento de desempenho de 13%, dos quais cerca de 9% foi de trabalhar mais minutos por turno (menos pausas e dias de licença médica) e 4% de mais chamadas por minuto (atribuído a um ambiente de trabalho mais silencioso)... Esses trabalhadores também relataram maior satisfação no trabalho e menos rotatividade, mas sua taxa de promoção, condicionada ao desempenho, caiu. Devido ao sucesso do experimento, a CTrip implementou a opção WFH para toda a empresa e permitiu que os funcionários decidissem entre trabalhar em casa ou o escritório. Curiosamente, mais da metade deles optou por trabalhar à partir de casa, o que levou o modelo WFH quase dobrar, passando para 22% da força de trabalho”.

Como trabalhar em qualquer lugar (WFA) se compara a trabalhar em casa (WFH)? 

Um outro artigo avaliou a diferença de produtividade entre os programas WFH e WFA, com base nas experiências do US Patent and Trademark Office (USPTO), que em 2006, implantou um programa WFH de forma voluntária, com um grupo inicial de 500 examinadores de patentes, permitindo que os funcionários trabalhassem em casa até quatro dias por semana. Então, em 2012, o USPTO lançou um programa piloto WFA, agora permitindo que seus funcionários, trabalhassem em qualquer lugar. Os funcionários elegíveis para o piloto WFA deveriam já estar inscritos no WFH, e residir a mais de 50 milhas da sede do USPTO e também que concordassem em renunciar aos seus direitos de serem reembolsados ​​pelas viagens à sede, que eram limitadas a cinco por ano. No geral, o programa WFA levou a um aumento adicional na produção de trabalho de 4,4% em comparação com o programa WFH.

Trabalhar em casa também pode melhorar a forma como os funcionários se sentem em relação ao trabalho, disse Thompson, citando estudos e mostrando uma correlação positiva entre o teletrabalho e a satisfação no trabalho. “As pessoas tendem a valorizar a maior flexibilidade na definição de suas horas de trabalho, o tempo adicional com os membros da família, as distrações reduzidas.

Além de aumentar a produtividade e a satisfação no trabalho de seus funcionários, outra atração para os empregadores é a redução dos custos imobiliários. O USPTO estima que eles economizaram mais de US $38 milhões em espaço para escritórios. Além disso, as empresas têm acesso a um grupo maior de funcionários talentosos que podem não ter recursos para se mudar para cidades caras ou preferir não fazê-lo por motivos familiares ou outros. “E depois da pandemia – muitos não vão querer voltar”, acrescentou Thompson. “Muitos hesitarão com a ideia de elevadores lotados e escritório, onde as pessoas ficam amontoadas.”

Mas há um outro lado, como ouvi de muitos dos trabalhadores que entrevistei, que afirmam que, por mais que nossos escritórios possam ser ineficientes, disseminadores de doenças e outras coisas que atrapalham a produtividade, muitas pessoas querem voltar para eles, escreveu Thompson em conclusão. “Isso porque o trabalho no escritório é mais do que apenas produtividade direta. Ele também influencia a química da cultura do local de trabalho, que vem da interação de funcionários o dia todo, de maneiras inesperadas e até despretensiosas; e muitos funcionários temem que essa cultura esteja se desgastando ou no final de um ciclo”.

16/12/2020

Tendências 2030 – um período de Transformação

O Conselho Nacional de Inteligência é o centro do pensamento estratégico de médio e longo prazo na Comunidade de Inteligência dos EUA. A cada quatro anos, ele mostra um relatório de Tendências Globais com um horizonte de tempo previsível de aproximado de quinze anos, a fim de fornecer à Casa Branca e à comunidade de inteligência uma estrutura para avaliação de política estratégica de longo prazo. Seu último relatório – Global Trend 2030: Alternative Worlds (GT2030) – foi lançado em dezembro passado.

Este relatório pretende estimular a reflexão sobre as rápidas mudanças geopolíticas que caracterizam o mundo hoje e as possíveis trajetórias globais nos próximos anos”, afirma no Sumário Executivo. “Tal como acontece com os relatórios de tendências globais anteriores, Ele não busca prever o futuro mas, fornecer uma maneira de pensar sobre possíveis futuros e suas implicações.”

O GT2030 identificou quatro megatendências que devem moldar e transformar o mundo nas próximas décadas: a capacitação individual; a difusão do poder; padrões demográficos; e o nexo crescente entre alimentos, água, energia e mudanças climáticas. Essas mega tendências são reconhecidas e aceitáveis e estão bem bem presentes em nossas discussões do dia-a-dia.

Essas tendências podem levar a mundos radicalmente diferentes, dependendo de como elas interagem com o que o relatório chama cenários de virada de jogo, cada um dos quais levanta questões que não podem ser respondidas sobre direções distintas que as mega tendências podem seguir. O GT2030 explora em detalhes, seis dessas viradas de jogo:

  1. Uma economia global volátil e propensa a crises;
  2. Incapacidade dos governos de se adaptarem a um mundo em rápida mudança;
  3. O potencial para aumento de conflitos;
  4. Instabilidades regionais mais amplas;
  5. O impacto das novas tecnologias; e
  6. O futuro papel dos Estados Unidos.

Na parte final do relatório, a equipe GT2030 trabalhou com a McKinsey para analisar os vários cenários alternativos que podem ocorrer com base nas complexas interações entre as quatro mega tendências e as seis viradas de jogo. Eles usaram o Modelo de Estudos do Crescimento Global da McKinsey para modelar esses vários cenários e escolheram os quatro mais prováveis. Em seguida, desenvolveram uma visão fictícia e um enredo para cada um dos quatro mundos alternativos:

  1. A globalização se estagna e os conflitos inter estados aumentam;
  2. Cooperação mundial em uma série de questões lideradas pelos EUA e China;
  3. As desigualdades econômicas dominam, levando ao aumento das tensões sociais e conflitos globais; e
  4. Atores não estatais colaboram para enfrentar os desafios globais que levam a um mundo mais estável e socialmente coeso.

O relatório é bastante interessante. Fornece uma estrutura bem construída para refletir sobre como o mundo poderá ser nos próximos 15 a 20 anos. E, em particular, dá um bom suporte para pensar sobre a contínua revolução da tecnologia digital e seu impacto transformador nas economias e sociedades em todo o mundo. Estamos passando por um período de grandes mudanças, enquanto fazemos a transição da sociedade industrial dos últimos dois séculos para um novo tipo de sociedade baseada na informação.

Como será o nosso mundo nas próximas décadas?

O impacto das novas tecnologias é uma das seis viradas do jogo, que dá foco à seguinte questão: “Será que os avanços tecnológicos serão desenvolvidos a tempo de aumentar a produtividade econômica e resolver os problemas causados pelo crescimento da população mundial, pela rápida urbanização e pelas mudanças climáticas?”. Mas, na verdade, as mudanças tecnológicas desempenham um papel importante em cada uma das quatro mega tendências.

Empoderamento individual: o empoderamento individual será acelerado devido à redução da pobreza, o crescimento da classe média global, maior realização educacional, amplo uso de novas tecnologias de comunicação e manufatura; e avanços na área de saúde.

Nos últimos dois séculos, a Revolução Industrial levou a grandes melhorias no padrão de vida em todo o mundo. De acordo com o economista Richard Steckel, de 1920 a 1998, o PIB per capita mundial aumentou 8,6 pontos percentuais, em diferentes regiões. O PIB per capita aumentou 3,3 vezes na África e na Índia e 5,5 na China. Mas nos países mais industrializados, cujas economias se beneficiaram fortemente dos avanços tecnológicos e científicos da Revolução Industrial, o PIB per capita cresceu a uma taxa muito mais rápida. Os países da Europa Ocidental registraram um aumento de mais de dez vezes, os EUA chegaram a crescer 21,7 e o Japão de 30,5.

Esses avanços levaram a um crescimento da classe média de mais ou menos um bilhão de pessoas, principalmente concentrada nos países industrializados. Ao mesmo tempo, mais de um bilhão de pessoas em economias menos desenvolvidas ainda vivem em extrema pobreza. Mas, graças ao empoderamento individual, a GT2030 acredita que EWTA pode ser a mega tendência mais importante, e que essa situação irá mudar rapidamente.

Um número significativo de pessoas tem saído de um nível bem abaixo do limiar da pobreza para um nível relativamente melhor devido ao amplo desenvolvimento econômico. Na ausência de uma recessão global, o número de pessoas que vivem em extrema pobreza está prestes a declinar, à medida que a renda continua a aumentar na maior parte do mundo. O número pode cair cerca de 50% até 2030, de acordo com alguns modelos… Na maioria dos cenários – exceto nos mais terríveis – avanços significativos na redução da pobreza extrema, serão alcançados até 2030...”

A maioria das classes médias em todo o mundo em desenvolvimento está destinada a se expandir substancialmente em termos de números absolutos e da porcentagem da população que pode reivindicar o status de classe média durante os próximos 15-20 anos. Mesmo os modelos mais conservadores veem um aumento no total global daqueles que vivem na classe média dos atuais 1 bilhão ou mais para mais de 2 bilhões de pessoas. Outros veem aumentos ainda mais substanciais como, por exemplo, a classe média global atingindo 3 bilhões de pessoas em 2030.”

As tecnologias digitais têm desempenhado um papel central neste empoderamento individual global. Desde meados dos anos 1990, a Internet tem gerado uma economia digital verdadeiramente global, que conecta pessoas e empresas em todo o mundo. Nos últimos cinco anos, nossos avanços tecnológicos contínuos estão trazendo os benefícios de capacitação da revolução digital para quase todas as pessoas no planeta. Três desses avanços se destacam em particular. 1) O crescimento explosivo de dispositivos móveis cada vez mais poderosos, baratos e inteligentes; 2) a ascensão da computação em nuvem, que está permitindo a distribuição econômica de serviços e aplicativos sofisticados para todos esses dispositivos; e 3) as onipresentes redes sem fio de banda larga conectando tudo isso. Juntos, esses avanços estão dando origem a uma plataforma baseada na Internet para inovações digitais inclusivas que está tirando as pessoas da pobreza extrema, bem como expandindo significativamente a classe média mundial.

Difusão de Poder: Não haverá poder hegemônico. O poder mudará para redes e coalizões em um mundo multipolar.

Existem dois aspectos principais nesta mega tendência. O poder econômico e político está mudando da América do Norte e da Europa Ocidental para as economias de crescimento mais rápido do Leste e do Sul. O poder nacional está sendo distribuído para países com PIB e populações crescentes, não apenas China, Índia e Brasil, mas também nos atores regionais como Colômbia, Indonésia, Nigéria, África do Sul e Turquia.

A mudança no poder é apenas parte da história e pode ser ofuscada por uma mudança ainda mais fundamental na natureza do poder”, observa o relatório. “Em 2030, nenhum país – sejam os EUA, China ou qualquer outro grande país – será uma potência hegemônica. Ativado por tecnologias de comunicação, o poder quase certamente se deslocará mais para redes multifacetadas e amorfas compostas de atores estatais e não estatais que se formarão para influenciar as políticas globais em várias questões. A liderança dessas redes dependerá da posição, do enredamento, da habilidade diplomática e do comportamento construtivo. As redes irão restringir os formuladores de políticas porque vários participantes serão capazes de bloquear as ações dos formuladores de políticas em vários pontos.”

Os atores não estatais incluirão grandes cidades e regiões urbanas, empresas multinacionais, organizações não governamentais (ONGs), instituições acadêmicas e comunidades ad-hoc com poderes. A mídia social, big data e outras tecnologias avançadas permitirão que esses grupos colaborem uns com os outros, bem como com os governos locais, para enfrentar os desafios globais. Dadas as populações polarizadas e os governos nos Estados Unidos e em outros grandes países, esse modelo distribuído de governança pode muito bem emergir como a maneira mais razoável de fazer as coisas.

Padrões demográficos: o arco demográfico de instabilidade se estreitará. O crescimento econômico pode diminuir em países em envelhecimento. Sessenta por cento da população mundial viverá em áreas urbanizadas; a migração aumentará.

A tecnologia deve desempenhar um papel importante para ajudar a encontrar soluções acessíveis para os desafios colocados por uma população crescente e cada vez mais urbana, que deverá crescer de 7,1 para 8,3 bilhões de pessoas em 2030, sessenta por cento das quais viverão em cidades, em comparação com cinquenta por cento hoje.

Além disso, a idade média de quase todos os países está aumentando rapidamente, especialmente nas economias mais avançadas. Uma grande porcentagem de suas populações terá mais de 65 anos, o que representa grandes desafios para os programas de saúde e benefícios sociais. As inovações tecnológicas são necessárias para ajudar a fornecer serviços de saúde de alta qualidade a preços acessíveis para uma população que envelhece, bem como um ambiente adequado que lhes permita trabalhar por mais tempo e adiar a aposentadoria.

Alimentos, água e energia: a demanda por esses recursos crescerá substancialmente devido ao aumento da população global. O enfrentamento dos problemas relativos a uma commodity estará vinculado à oferta e à demanda das demais.

Com bilhões saindo da pobreza e ingressando na classe média, podemos esperar um aumento na demanda por recursos naturais, bem como por produtos e serviços de todos os tipos. Mas, atender a essas demandas e, esperançosamente, desencadear uma era de prosperidade só será possível em uma economia baseada em padrões de produção e consumo sustentáveis.

Uma classe média em expansão e o aumento das populações urbanas aumentarão as pressões sobre os recursos críticos – principalmente alimentos e água – mas novas tecnologias – como a agricultura vertical em edifícios altos que também reduzem os custos de transporte – podem ajudar a expandir os recursos necessários. A segurança alimentar e hídrica está sendo agravada pela mudança das condições climáticas fora das normas esperadas.”

Não estamos necessariamente caminhando para um mundo de escassez, mas os formuladores de políticas e seus parceiros do setor privado precisarão ser proativos para evitar a escassez no futuro. . . As questões serão se a gestão de recursos críticos se torna mais eficaz, até que ponto as tecnologias mitigam os desafios dos recursos e se melhores mecanismos de governança são empregados para evitar os piores resultados possíveis.”

Em sua página de abertura, o relatório Global Trends 2030 compara nossos tempos atuais com o alvorecer da Era Industrial. “Estamos vivendo um período de transformação semelhante, no qual a amplitude e o escopo dos possíveis desenvolvimentos – bons e ruins – são iguais, se não maiores, do que as consequências das revoluções políticas e econômicas do final do século XVIII.

Em seguida, resume nossos tempos atuais com as famosas linhas de abertura usadas por Charles Dickens ao escrever sobre o período do final do século 18 de “A Tale of Two Cities”:

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos... foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero... estávamos todos indo direto para o Céu, todos nós estávamos indo direto para o outro lado...

Além da Guerra de Preços: O Oceano Azul na Conectividade Brasileira

Introdução Lançado em 2005 por W. Chan Kim e Renée Mauborgne, A Estratégia do Oceano Azul revolucionou o pensamento estratégico...