26/06/2021

Conectados versus Desconectados


Na edição de agosto de 1921 da revista americana The Wireless Age, foram dedicadas 11 páginas a descrição de uma luta de boxe que ficou conhecida como “a batalha do século”. Era a disputa do título mundial dos pesos pesados que havia acontecido no mês anterior, na cidade de Jersey, em que o americano Jack Dempsey derrotou por nocaute, no quarto round, o desafiante francês Georges Carpentier.

Este evento arrecadou mais de um milhão de dólares com a venda de ingressos. Mas não foi esse o motivo pelo qual a The Wireless Age deu tanta atenção para o evento. O dia 2 de julho de 1921 também entrou para a história por ter sido a primeira vez que o número de ouvintes de um programa de rádio superou o número de pessoas presentes em um evento de grande porte. Noventa mil pessoas lotaram a arena da cidade de Jersey. Porém, pelas contas da revista, “uma multidão – não menor que 300 mil pessoas – tensas e ansiosas” acompanhou a luta a distância.

Isso foi possível graças, basicamente ao locutor do evento, J. Andrew White ter disponível uma linha telefônica, à mão, no local do evento e falar com um outro locutor, na estação transmissora, e era a voz deste que viajava pelas ondas de rádio.

Graças à Amateur Wireless Association, Dempsey vs. Carpentier, em julho de 1921, forneceu um ponto de inflexão na história da mídia. A revista estava plenamente ciente do poder daquele fato:

Um recorde (…) e o início de uma nova era. Enquanto os olhos do mundo todo aguardavam o lançamento da tradicional palavra impressa
para contar a história – o rádio contou-a pela voz! Instantaneamente, pelos ouvidos de um público ansioso, um evento internacional foi ‘ilustrado’em todos os seus emocionantes detalhes. (…) O apelo à imaginação não tem fronteiras. Previsões para o futuro agora serão o tema de uma especulação prazerosa, estimulante e praticamente infinita.”

Um século depois, pode-se dizer com segurança que mesmo a mais inventiva dessas especulações foi superada. Hoje, mais de 4 bilhões de pessoas têm acesso à internet, e mais de 7 bilhões estão conectadas umas às outras via telefone celular. A audiência de programas ao vivo de notícias e de esportes atinge constantemente a casa de centenas de milhões. Atualmente, mais da metade da população mundial está quase que permanentemente acessível por meio de alguma forma de conexão digital em tempo real. Esses são números para serem observados com espanto. No entanto, depois de pouco mais de duas décadas do presente século começamos a passar por outro momento histórico das comunicações: dessa vez relacionado não com números absolutos, mas com o tempo propriamente dito.

Em 1999, de acordo com uma pesquisa realizada com mais de 2 mil norte americanos entre 8 e 18 anos, conduzida pela Kaiser Family Foundation, os jovens nessa faixa etária usavam algum meio de comunicação por cerca de 6 horas e 20 minutos ao dia.

A pesquisa afirmava que, a vida de crianças e jovens estava próxima da “saturação” – isso significava que os pesquisadores que analisaram os resultados não conseguiam encontrar mais nenhum espaço livre para ser gasto com qualquer tipo de mídia. Parecia que a humanidade estava atingindo um patamar intransponível em termos da quantidade de informação que era possível consumir desde as primeiras horas do dia – uma conclusão fundamentada pelo aumento de apenas 2 minutos, em relação ao primeiro resultado, quando a pesquisa foi repetida com jovens da mesma faixa etária em 2004.

A fundação repetiu a pesquisa mais uma vez, em 2009, e para surpresa de todos descobriu que o tempo total de uso de mídias entre jovens de 8 a 18 anos agora havia aumentado em mais de vinte por cento, para quase 7 horas e 40 minutos diários. Se o uso de dispositivos portáteis fosse levado em conta, a exposição total chegava à marca de 10 horas e 45 minutos por dia.

Esse foi um resultado extremamente impressionante. Considerando que os jovens necessitam de 8 a 9 horas de sono por noite, os números de 2009 elevaram o tempo de uso de mídias para metade das horas em que estão acordados – isso sem incluir qualquer mídia utilizada para trabalhos na escola, em vez de lazer. A televisão ainda estava em primeiro lugar, como ocorreu durante meio século, com 3 horas e 40 minutos por dia. Mas, de longe, a novidade mais importante foi o uso de smartphones para o consumo tanto de mídias tradicionais como novas: para assistir a programas de televisão no ônibus, a caminho da escola, para enviar mensagens de texto e conferir o Facebook enquanto se ouvia música e checava e-mails.

Mais de uma década depois da última pesquisa, o consumo de mídia passou da saturação das horas de lazer a algo muito mais significativo: estamos em uma fase de completa integração à rotinas midiáticas em praticamente todas as nossas atividades.

Conforme concluiu um artigo semelhante, sobre os hábitos de consumo de mídias, publicado em novembro de 2010 pela POLIS de Londres, a maior parte dos jovens que vive no mundo desenvolvido não fica nunca sem acesso ás mídias e esse consumo se dá por principalmente por smartphones e tablets.

Um estoque pessoal e portátil de músicas, vídeos, jogos, aplicativos e serviços de redes sociais está sempre à mão. Os padrões de comportamento estão se transformando em um ritmo jamais visto, nem mesmo com o início das transmissões de rádio na década de 1920 e de televisão na década de 1950. Porém, o desenvolvimento mais importante de todos, a meu ver, está relacionado com um tipo diferente de padrão: não apenas com nossos hábitos, mas com o que consideramos nosso “estado de consciência” padrão.

Hoje, em nossos dias, pela primeira vez, é correto dizer que faz parte da rotina da maior parte das pessoas estar “conectado” a pelo menos uma forma personalizada de mídia. Enquanto que, há um século atrás, uma transmissão ao vivo de rádio era considerada quase um milagre, hoje é comum passar a maior parte do tempo em que estamos acordados conectados ao nosso próprio “link ao vivo” com o mundo. A questão mais óbvia que se segue a essa conclusão é de natureza pragmática:

O que vem depois disso?

Em curto prazo, a resposta mais óbvia seria mais uso de mídia, por mais tempo e em mais lugares. Entretanto, se quisermos prosperar em longo prazo, nesse novo mundo conectado, acredito que precisamos começar a pensar de outra forma sobre os diferentes tipos de tempo em nossa vida. Os momentos em que não estamos utilizando algum tipo de mídia digital não apenas deixaram de ser nosso estado padrão; eles são também algo que não conseguimos vivenciar sem que explicitamente nos planejemos para tal.

Se quisermos aproveitar o máximo tanto do mundo à nossa volta quanto uns dos outros, precisamos compreender que agora existem fundamentalmente duas formas distintas de se fazer parte deste mundo: os momentos em que estamos conectados e os momentos em que estamos desconectados.

Simplesmente depreciar um dos dois não serve para nada, pois cada um representa um conjunto diferente de possibilidades para o pensamento e a ação. Em vez disso, devemos aprender a nos perguntar – e ensinar nossos filhos a se perguntarem – quais aspectos de uma tarefa, e do viver, são melhor servidos por cada um. E precisamos encontrar formas de efetivamente consolidar ambos em nosso estilo de vida.

As maiores vantagens de estamos conectados podem ser facilmente enumeradas. Conectados, temos velocidade; podemos pesquisar e aplicar a maior parte da sabedoria reunida pela humanidade – bem como fofocas e palpites – em questão de minutos; estamos a apenas alguns segundos de distância do contato com milhares de pessoas. Possuímos poderes divinos e estamos nos especializando cada vez mais no uso deles. Pense no que pode ser obtido em apenas alguns minutos de navegação pela Wikipédia, ou numa busca no banco de livros de copy right livre digitalizados pelo Google. Essa pesquisa possui velocidade e amplitude muito além dos sonhos mais ousados que qualquer acadêmico teria, apenas meio século atrás, e agora ela não apenas existe, como também está ao alcance de praticamente qualquer cidadão moderno. Já estamos tão distantes da época da alfabetização não digital, quanto os leitores estavam da era pré-Gutenberg, quando possuir e ler livros era privilégio de uma elite.

Já, quando falamos de estar desconectados dessas mídias em tempo real, nossa originalidade e nosso rigor podem entrar em cena de uma forma diferente e bastante antiga: nossa capacidade de delegar, de tomar decisões, de agir por iniciativa própria; de pensar sem medo de copiar outra pessoa ou a sensação constante de ter uma plateia nos assistindo o tempo todo. Estamos então, sozinhos com nós mesmos, ou realmente presentes uns diante dos outros, de forma completamente distinta de qualquer momento em que estejamos conectados. Isso é igualmente verdade tanto no campo pessoal quanto no profissional.

Em fevereiro de 2011, em uma palestra na London School of Economics, a escritora Lionel Shriver, falou sobre o impacto das novas tecnologias nas formas de escrever e de pensar. Ela descreveu a experiência de escrever

com uma multidão dentro do seu estúdio

– ou seja, escrever diante das reações do público em tempo real, instantânea e amplamente visíveis – e a pressão que isso gera tanto no sentido de censurar a si mesmo quanto de tentar agradar aos outros.

“Descobri que eu precisava me proteger das opiniões alheias”,

ela comentou e ilustrou como era escrever uma coluna para um jornal com seu marido lendo o que ela estava escrevendo:

“Você não pode escrever isso”,

ele comentou em determinado momento,

“veja só como reagiram a isso pela internet da outra vez”.

É praticamente impossível dissociar esse desejo de protegermos a nós mesmos da ideia de saber, em primeiro lugar, o que é este “eu” que queremos proteger…

Os avanços que as tecnologias deste século já estão começando a promover nos pensamentos e nas ações coletivas são imensuráveis. No entanto, mais do que nunca, está claro que todos nós precisamos de momentos em nossa vida para ter nossas próprias ideias, sem distração, interrupção ou respostas imediatas, mesmo das pessoas com as quais mais nos importamos. Também está claro que, se não tivermos cuidado em administrar esse tempo, a tecnologia poderá tirá-lo de nós. Em uma era de constantes conexões em tempo real, a questão central de nosso exame de consciência está se deslocando de “Quem é você?” para “O que você está fazendo?”. Por mais que muitos de nós estejamos sedentos por estar conectados, se quisermos prosperar precisamos manter alguma parte de nós separada dessa constante vontade de exposição. Precisamos de outros tempos verbais além do presente – de outras qualidades de tempo – em nossa vida. Essa é uma questão que foi brilhantemente colocada pelo cientista da computação Jaron Lanier durante uma palestra na conferência na Southwest, em março de 2010, na qual ele pediu que o público não fizesse mais nada, além de ouvir, enquanto ele falava.

“O principal motivo para que peço que vocês parem de fazer tantas coisas ao mesmo tempo não é para que eu me sinta mais respeitado, mas para fazer vocês existirem. Se vocês escutarem primeiro, e escreverem somente mais tarde, o que for escrito terá tido tempo para passar pelo filtro dos seus cérebros, e vocês estarão presentes no que está sendo dito agora. É isso que faz vocês existirem” – argumentou Lanier.

Com este apelo, Lanier conseguiu, por cerca de uma hora e meia, captar a atenção das pessoas, promovendo a sua “desconexão do mundo online”. Isso deixa claro que, precisamos reservar momentos para estar desconectados, e isso não requer uma viagem para uma cabana afastada no topo de uma montanha, nem anunciar um longo afastamento da leitura de e-mails – apesar de significar que tirar férias dos dispositivos eletrônicos se tornou uma forma popular de indulgência para aqueles que podem arcar com as consequências. Pelo contrário, os momentos desconectados têm muito a acrescentar como parte de nossa rotina diária: a decisão de não enviar e-mails numa manhã, de desligar o telefone celular durante um encontro ou uma refeição, de dedicar alguns dias ou algumas horas para uma reflexão, sem aparelhos eletrônicos, ou simplesmente a decisão de encontrar uma pessoa ao vivo, em vez de trocar vinte e-mails com ela. Afirmo que não é fácil, mas estou tentando dedicar partes do meu dia à produtividade sem conexão: momentos em que todos os meus aparelhos digitais estão desligados ou fora do meu alcance imediato. Meus encontros pessoais tem se tornado muito mais interessantes e significativos quando estou desconectado.

No início dos anos 2000, as conferências de tecnologia pareciam reunir os participantes mais visionários, ostentando seus telefones celulares e laptops de última geração. Hoje, apesar de nenhum evento de tecnologia estar completo, sem uma transmissão paralela em uma rede social, também está se tornando comum aos palestrantes e mediadores, solicitarem algo simples que remonta ao passado:

“escutem primeiro, escrevam depois”.

Ser conservador, em algum aspecto midiático, é a palavra de ordem. Esses novos hábitos e sugestões não constituem um manifesto propriamente dito; mas são o começo de uma atitude que coloca a tecnologia digital em seu devido lugar. Definir um papel específico para ela em nossa vida, em vez de permitir que sua presença se torne uma condição inevitável e ininterrupta. Devido ao poder de comunicação avassalador das novas mídias, o tempo é mais do que nunca nosso bem mais precioso. Todas as tecnologias do mundo não podem criar uma partícula a mais dele – e sua experiência está ameaçada de se tornar o que o teórico político Fredric Jameson chamou de “presente perpétuo”, no qual a sociedade perde “a capacidade de reter o próprio passado”.

Para algumas pessoas, a saturação do presente é intensamente acompanhada de estresse, ansiedade e da sensação de perda do controle. Acredito que não perdemos nossa capacidade tanto de resistir quanto de nos adaptar a essas mudanças na forma como vivenciamos o tempo, seja como sociedade ou como indivíduos; acima de tudo, no entanto, todos os esforços de nossa parte devem começar por reconhecer que, sem a habilidade de dizer “não” quanto “sim” à tecnologia, corremos o risco de transformar esses milagres em armadilhas.

O tempo é a única coisa sobre a qual toda a tecnologia do mundo não pode invocar nem uma partícula a mais.

24/06/2021

O passado e o presente digital


A breve história das interações humanas com as tecnologias digitais é marcada por uma relação em constante evolução: em meio século, de uma ferramenta complexa, para às mãos de bilhões de pessoas.

Os primeiros computadores digitais, desenvolvidos na década de 1940, eram máquinas extremamente complexas, desenvolvidas e operadas por algumas das mentes mais brilhantes do planeta, como Alan Turing, cujo trabalho teórico e prático ajudou os britânicos a decodificar as mensagens cifradas dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

A geração de computadores que veio a seguir, os mainframes, surgiu no final da década de 1950. Presentes principalmente em instituições acadêmicas e militares, os mainframes ainda ocupavam salas inteiras e continuavam a ser um terreno reservado a especialistas – as informações inseridas eram formadas por comandos altamente abstratos, e as respostas não faziam sentido algum para quem não fosse versado em ciência da computação.

Tudo começou a mudar nos anos 1970, com o surgimento do microprocessador e a chegada dos primeiros computadores aos lares das pessoas. Thomas Watson, presidente da IBM, supostamente teria dito, em 1943:

Acredito que exista uma demanda mundial para talvez cinco computadores.

Tenha ele dito ou não a frase (a própria Wikipédia afirma que há “poucos indícios” de que isso seja verdade), quando o primeiro computador pessoal foi lançado, em 1971, ninguém esperava que o mercado doméstico para tais máquinas fosse muito além de alguns milhares de entusiastas. Os computadores, no entanto, mostraram-se uma atração muito mais poderosa do que esperavam até mesmo os acadêmicos mais ambiciosos. Ao fim da década de 1970, novas máquinas desenvolvidas por empresas como Apple, Commodore e Tandy estavam vendendo centenas de milhares de unidades. A revolução digital havia se tornado pública.

Mas isso era apenas o começo da ininterrupta expansão das interações entre os seres humanos e a tecnologia digital. Desde a década de 1970, nossas máquinas têm se tornado cada vez mais poderosas, mais interconectadas e mais fáceis de usar. As que possuímos hoje são centenas de milhares de vezes mais poderosas que a primeira geração doméstica, dez vezes mais baratas e extremamente mais fáceis de usar.
Mais importante do que a capacidade, no entanto, é a experiência que essas máquinas proporcionam. Nesse campo, a grande revolução está apenas começando. Isso porque o conceito de “computador pessoal” como sendo um desktop em casa ou um laptop na mochila está sendo gradualmente substituída.

Pra mim, tudo começou em 1983, com os primeiro videogame de massa, o Atari. Em 1985, comecei a estudar computação. Andava por aí com um disco flexível de 5″1/4 com a imensa capacidade de 1.2 Megabits, onde rodavamos jogos, compilavamos alguns códigos e tínhamos textos e outros. Um computador conectado era um terminal burro e nas escolas e empresas, havia sistemas de compartilhamento de tempo para uso de tais terminais.

Depois, todos passaram a ter poder de computação. No início dos anos 90, consegui levar um computador pessoal pra casa, para fazer o que quisésse, a hora que fosse.

Em 2021, temos o Windows Virtual Desktop, que parece dar prenúncio ao fim da era do PC. Percebo que, mesmo que nossas vidas se tornem cada vez mais centradas na tecnologia, menos pessoas realmente estão interessadas na tecnologia em si. Sim, elas adoram tecnologia, mas como usuários.

Hoje, para realizar qualquer trabalho com um computador, primeiro você tem que saber um pouco, sobre computadores, sistemas operacionais e alguns comandos. Mas vai por mim, hoje, isso tudo e muito “amigável”.

O Google tem o Chrome OS que a maioria de nós pode fazer tudo o que precisa em um computador, apenas com um navegador web.

A Microsoft, em vez disso, Caminha para o Windows desktop-como-serviço (DaaS) por meio do Microsoft Managed Desktop (MMD). Isso reúne o Windows 10 Enterprise, Office 365 e Enterprise Mobility + Security e o gerenciamento de sistemas baseados em nuvem no Microsoft 365 Enterprise. Na próxima etapa, o Windows Virtual Desktop, irá permitir que as empresas virtualizem aplicativos do Windows 7, do Windows 10, do Office 365 ProPlus e de outros aplicativos de terceiros em máquinas virtuais baseadas no Azure. Se tudo correr bem, você poderá se inscrever no Windows Virtual Desktop até o final do ano; e até 2025, o Windows como um sistema operacional de desktop real será um produto de nicho.

Isso parece lhe soar estranho? A Microsoft só quer que você “alugue” o Office 365 em vez de comprar o Office 2019.

Mas e os jogos? Sempre teremos o Windows desktop para jogos! Será?

O Google, com seu serviço de nuvem de jogos (Google Stadia), também está apostando que estamos prontos para mover nossos jogos para a nuvem. A Valve tem se saído muito bem há anos com a sua variação neste tema – o Steam.

Então, para onde tudo isso nos leva?

Eu acredito que o PC desktop irá desaparecer, na forma mais tradicional que conhecemos. A maioria de nós estará escrevendo documentos, preenchendo planilhas e fazendo o que fazemos hoje em nossos PCs por meio de aplicativos baseados em nuvem em terminais inteligentes que executam o Chrome OS ou o Windows Lite.

Para um PC “real”, suas escolhas serão Linux ou macOS.

Nenhuma das principais empresas do Linux – Canonical, Red Hat, SUSE – afirma que o Linux assumirá uma forma de sistema operacional virtual, em cloud etc, mas continuará da mesma forma que é agora: uma plataforma desktop para entusiastas e com muito potencial.

O macOS, da Apple, que também tem o Unix como raiz, não demonstra querer evoluir para um Sistema Operacional virtual. Mas as vendas de Macs representam uma porcentagem cada vez menor do lucro líquido da Apple.

Não é que os Macs não sejam ótimos. Eles são. Mas, como mencionei acima: as pessoas estão se tornando menos técnicas…

Haverá também pessoas que precisam do poder de processamento, que só pode vir de ter processadores rápidos, com armazenamento rápido, em seu desktop. Mas essas pessoas estão diminuindo – assim como o mundo dos PCs desktop.

21/06/2021

O ‘start’ digital


Vivemos num tempo de milagres tão corriqueiros que se torna difícil enxergá-los.”

Os textos (acima e abaixo) foram escritos pelo teórico e especialista em tecnologia Kevin Kelly em seu blog, em agosto de 2011:

Tive de convencer a mim mesmo a acreditar no impossível com mais regularidade. (…) anos atrás, se eu fosse contratado para convencer pessoas sensatas e esclarecidas que dali a alguns anos as ruas do mundo todo estariam mapeadas por fotos de satélite e à disposição em nossos telefones portáteis – de graça – eu não teria conseguido convencer praticamente ninguém. Não saberia ilustrar as razões econômicas para que isso fosse oferecido “de graça” e ao mesmo tempo com um lucro fantástico aos idealizadores. Isso era completamente impossível de se explicar naquela época.

Os fatos impossíveis de nosso tempo estão apenas começando. Novas formas de colaboração e interação nos esperam, cujo esboço, talvez, possa ser percebido pelo fato de que os telefones conectados à internet estão cada vez mais presentes, carregados em nossos bolsos, e eles são mais poderosos do que a maioria dos computadores de dez anos atrás. Hoje, bilhões de pessoas têm acesso instantâneo a dados, antes, totalmente restritos a governos e universidades.

O ritmo com que essas mudanças ocorrem é sem precedentes. A televisão e o rádio foram inventados há cerca de um século; a prensa há mais de quinhentos anos. No entanto, em apenas duas décadas e meia, fomos do início da internet pública, à marca de mais de 4 bilhões de pessoas conectadas; e passaram-se apenas três décadas desde o lançamento do primeiro sistema comercial de telefonia celular, até a mais de 7 bilhões de usuários ativos.

Essa rede global inteligente já está a nos conectar, não apenas a outras pessoas, mas a objetos de nosso dia a dia – de carros e roupas a comidas e bebidas. Por meio de chips inteligentes e bancos de dados distribuídos, estamos diante de uma forma de conexão sem precedentes não apenas uns com os outros, mas com o mundo à nossa volta: suas ferramentas, seus espaços compartilhados, seus padrões de ação e reação; e junto com tudo isso chegam novas informações sobre o mundo, de diferentes formas: informações sobre onde estamos, o que estamos fazendo e do que gostamos.

O que devemos fazer com todas essas informações?

A pergunta mais importante a ser feita é:

O que os governos, corporações, ativistas, criminosos, policiais e criadores – já estão fazendo com elas?

Estamos passando a viver em uma nuvem de dados: redes inteligentes estão, não só nos conectando uns aos outros, mas a tudo.

Conhecimento e poder sempre andaram de mãos dadas. Hoje, entretanto, a informação e a infraestrutura pela qual ela flui não representam apenas poder, mas um novo tipo de força econômica e social. Em termos intelectuais, sociais e legislativos, estamos anos, se não décadas, atrasados em relação às questões do presente. Em termos de gerações, a divisão entre os “nativos digitais” e aqueles que nasceram antes dela pode parecer um abismo através do qual se torna difícil articular determinadas conclusões e valores.

Temos então que examinar o que isso pode significar para todos nós, não apenas existir, mas prosperar em uma era digital; “viver” e aproveitar ao máximo as crescentes possibilidades de nosso tempo. Explorar essas possibilidades é como explorar um novo mundo. Adentramos um espaço onde a natureza humana permanece a mesma, mas as estruturas que lhe dão forma nos são estranhas. O mundo digital atual não é apenas uma ideia ou um conjunto de ferramentas, da mesma forma que um dispositivo digital moderno não é apenas algo para nos entreter e nos agradar. Ao contrário – para um número cada vez maior de pessoas, ele é uma passagem para o lugar onde lazer e trabalho estão interligados: uma arena em que se concilia amizades, notícias, negócios, compras, pesquisas, política, jogos, finanças e muitas outras atividades. Então, no que diz respeito à questão de como prosperar neste novo mundo, devemos traçar duas Linhas de pensamento:

– Primeiro, como nós, no papel de indivíduos, podemos prosperar no mundo digital;

– Segundo, como a sociedade pode nos ajudar tanto a explorar nosso potencial neste mundo, quanto a nos relacionar com as pessoas de forma mais humana possível.

Esses dois contextos têm origem no mesmo ponto e isso me põe a explorar questões muito inquietantes da tecnologia:

1. o que significa poder dizer “não” ou “sim” frente as ferramentas à nossa disposição, e

2. como podemos aproveitar tudo isso da melhor forma, tanto usando a tecnologia quanto usar de minha própria decisão para não usá-la.

Os desafios que enfrentamos – cientes ou não – dia após dia: questões de identidade, privacidade, comunicação, atenção e o equilíbrio entre tudo isso. Se existe um ponto em comum entre esses itens, é a questão de como a experiência individual se encaixa nesta nova forma de coletividade do século XXI: como o que “eu” sou está relacionado ao que outras pessoas sabem sobre mim, o que eu compartilho com essas pessoas e o que pode permanecer pessoal e privado.

A natureza da tecnologia digital é tão diversificada quanto a própria natureza humana e pode representar diferentes papéis em nosso cotidiano: ela pode ser um facilitador, uma biblioteca, um amigo, pode ser sedutora, representar conforto, prisão, etc. Em última instância, no entanto, todas as telas mutantes são também espelhos, nos quais temos a oportunidade de enxergar nós mesmos e os outros como nunca antes foi possível. Ou, é claro, simplesmente, podemos desviar o olhar.

16/06/2021

Resiliência – uma questão biológica


Recentemente li o artigo sobre Padrões de Resiliência Universal nos Mercados de Trabalho – publicado no início deste ano na Nature Communications por membros do MIT Connection Science e do Max Planck Institute for Human Development. O artigo analisou a resiliência dos mercados de trabalho americano usando uma estrutura inspirada em ecossistemas biológicos.

Os princípios biológicos têm sido uma inspiração para o estudo de sistemas sociotécnicos, – isto é, sistemas que lidam não apenas com tecnologias e infraestruturas complexas, mas também com as questões ainda mais complexas associadas aos comportamentos humanos e organizacionais, como empresas, indústrias, economias e cidades. Por exemplo, um artigo de 2016 da Harvard Business Review, The Biology of Corporate Survival, aplicou os princípios da biologia evolutiva para analisar por que as empresas estão desaparecendo mais rápido do que nunca.

[O] estudo típico do trabalho urbano em equilíbrio, ofusca as respostas às rupturas fora do equilíbrio”, observa o artigo da Nature. “As cidades são os centros de inovação da economia dos Estados Unidos, mas as rupturas tecnológicas podem excluir os trabalhadores e inibir a classe média. Portanto, a política urbana deve promover empregos e habilidades que aumentem os salários dos trabalhadores, criem empregos e promovam a resiliência econômica.

No final da década de 1990, alguns previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar e fazer compras em casa, entrar em contato com seus amigos por e-mail e ter acesso a notícias e entretenimento online. Mas, em vez de declinar, os centros urbanos cresceram muito nos anos seguintes. As cidades continuaram a gerar os maiores níveis de inovação, crescimento econômico e bons empregos e, assim, atraindo uma parcela desproporcional do talento mundial.

A conectividade e o alcance universal e  da Internet levaram a efeitos de rede cada vez mais poderosos, o que deu origem a economias baseadas em empresas super stars e startups unicórnios. A dinâmica da rede também se aplicou às áreas urbanas, dando origem à cidades com super infraestruturas. Essas cidades, ao redor do mundo, criaram super demandas por empregos de alta qualificação nas últimas décadas e melhores ganhos aos trabalhadores com nível superior, proporcionando melhores níveis de qualidade de vida, que promovem melhores infraestruturas para as cidades, fechando um ciclo continuo e duradouro.

O talento se tornou o principal ativo da economia do conhecimento, tornando o capital altamente dependente dos trabalhadores altamente qualificados, capazes de navegar em ambientes de negócios cada vez mais complexos.

Mas, quão resilientes são esses mercados de trabalho urbanos?

Eles serão capazes de se adaptar a grandes interrupções como a Covid-19?

Eles são capazes de lidar com interrupções tecnológicas e um ambiente de trabalho em mudança?

Quais são as principais qualidades dos mercados de trabalho urbanos resilientes?

Os mercados de trabalho são sistemas heterogêneos nos quais habilidades, empregos, regiões geográficas e setores interagem. Conseqüentemente, modelos construídos com base em dados empíricos de habilidades podem capturar melhor a mobilidade do trabalhador e identificar melhor as fontes de adaptabilidade urbana por meio das interdependências das habilidades no local de trabalho. Estratégias análogas preveem resiliência a choques em sistemas ecológicos (por exemplo, alteração dos níveis de acidez ou temperatura) a partir da densidade de interdependências mutualísticas entre as espécies – independente da dinâmica populacional em equilíbrio.

Um ecossistema biológico é uma comunidade de organismos vivos que interagem uns com os outros e com o seu ambiente, como um sistema. Eles são controlados por fatores externos ao ecossistema, como clima e topografia, bem como por fatores internos, como os tipos de espécies presentes e a competição por recursos. Sendo sistemas dinâmicos, os ecossistemas estão sujeitos a perturbações periódicas.

Ecossistemas em ambientes semelhantes, mas com diferentes grupos de espécies, podem acabar se adaptando aos distúrbios de maneiras muito diferentes. Mutualismo, ou seja, a interação entre duas ou mais espécies onde cada uma se beneficia, – desempenha um papel importante na evolução de um ecossistema. A densidade das interdependências mutualísticas entre as espécies em um ecossistema é um bom preditor de sua resiliência a choques como mudanças nas condições climáticas, independentemente da dinâmica populacional em equilíbrio.

Quão forte é a analogia entre a resiliência do mercado de trabalho e a resiliência dos ecossistemas?

Usando uma estrutura teórica que se assemelha aos modelos matemáticos usados para estudar o mutualismo ecológico, eles analisaram a sobreposição de requisitos de qualificação em ocupações dentro de um mercado de trabalho urbano. Seu arcabouço teórico demonstrou que a resiliência econômica das cidades é universal e exclusivamente determinada pela conectividade dentro da rede de empregos de uma cidade.

Tal como acontece com os ecossistemas mutualísticos, os mercados de trabalho nas cidades que empregam trabalhadores em ocupações com requisitos de qualificação sobrepostos criam efeitos colaterais positivos que podem aumentar a resiliência do mercado de trabalho”, explica o artigo. “Por exemplo, se o emprego diminuir para alguma ocupação, então outras ocupações semelhantes poderiam apoiar os trabalhadores deslocados sem retreinamento dispendioso. Portanto, como na modelagem ecológica, a densidade de conexões entre ocupações dentro de uma cidade pode indicar maior resiliência econômica a choques, incluindo choques de desemprego, a automação de tarefas no local de trabalho ou outras interrupções importantes. Essencialmente, as cidades com mais conexões entre as ocupações serão mais resistentes aos choques trabalhistas.

Para validar o quadro teórico, os autores aplicaram seus modelos matemáticos para prever a resiliência do mercado de trabalho das cidades americanas após os choques de desemprego da Grande Recessão, e compararam suas previsões com o pico real das taxas de desemprego nas cidades americanas de dezembro de 2007 a junho de 2009 . Usando dados disponíveis publicamente do US Bureau of Labor Statistics, – incluindo o banco de dados O *Net de ocupações e habilidades, a Classificação Ocupacional Padrão e as Estatísticas de Desemprego da Área Local, – eles criaram um mapa de empregos detalhado para cada cidade que incluía o o número de empregos específicos, suas distribuições geográficas e o grau de sobreposição de habilidades entre os empregos na área.

Sua análise revelou que o tamanho e a diversidade desempenham um papel na resiliência das cidades. Mas, embora as cidades maiores geralmente apresentassem taxas de desemprego mais baixas, o emprego total de uma cidade em 2007, pouco antes do início da recessão, não era um bom indicador de sua taxa de desemprego de pico subsequente. Depois de controlar o tamanho e a diversidade, a análise confirmou empiricamente que as cidades dos EUA com maior conectividade de empregos experimentaram taxas de pico de desemprego mais baixas durante a Grande Recessão, conforme previsto pela estrutura teórica.

“Como sistemas interdependentes complexos, os mercados de trabalho urbanos são mais do que a soma de ocupações ou setores individuais”, conclui o artigo. As políticas que promovem a conectividade do trabalho não apenas promovem a resiliência econômica, mas também podem beneficiar os trabalhadores e aumentar os mercados de trabalho. As cidades que aumentaram a conectividade de empregos de 2010 a 2017 tiveram um aumento correspondente em seus salários totais. “Assim, os formuladores de políticas podem aumentar seu mercado de trabalho local por meio de investimentos direcionados nas empresas e setores que empregam trabalhadores em ocupações incorporadas, o que aumenta a conectividade geral de empregos da cidade”.

11/06/2021

Negócio Digital: Avanços e Obstáculos


Há algum tempo atrás, li este artigo da McKinsey, que é um breve relatório sobre como as empresas estão se saindo com as tecnologias e estratégias digitais para superar a crise covid. A pesquisa perguntou a 850 executivos sobre o progresso e os obstáculos de suas empresas para abraçar cinco grandes tendências digitais:

  • Big data e análises avançadas;
  • Engajamento digital de clientes;
  • Engajamento digital de funcionários e parceiros;
  • Automação, e
  • Inovação digital.

A adaptação à digitalização da economia e da sociedade em geral é sem dúvida a transformação mais desafiadora que todas as empresas estão enfrentando, por isso é bastante interessante ver o que a pesquisa da McKinsey descobriu.

Em resumo, os executivos sentem que suas empresas estão, na melhor das hipóteses, a cerca de um quarto do caminho em direção a seus objetivos de negócios digitais. Alinhamento organizacional e liderança são os fatores críticos para o sucesso ou fracasso de suas estratégias digitais. Mas, apesar dos desafios organizacionais e de liderança, eles estão otimistas de que suas empresas estão progredindo e adotando mais plenamente os recursos digitais.

O relatório observa que, embora todas as cinco tendências sejam importantes para os resultados financeiros, eles esperam que os compromissos digitais com o cliente forneçam os maiores retornos financeiros. Os dados indicam que um progresso considerável foi feito apenas no último ano na melhoria da consistência do marketing nos canais online e offline e no alcance dos clientes com ofertas e informações personalizadas.

Isso não é surpreende. Uma empresa pode se diferenciar dos concorrentes de duas maneiras principais: proporcionando uma experiência superior ao cliente ou oferecendo os preços mais baixos. Para as empresas que preferem o primeiro, os canais digitais provavelmente são a maneira mais econômica de chegar aos clientes. O crescimento explosivo dos dispositivos móveis proporcionaram um envolvimento direto com os clientes, estejam eles em casa, no trabalho ou fazendo compras em uma loja. Porém, esses clientes digitais podem ser inconstantes e difíceis de satisfazer. Alguns executivos também temem um impacto negativo devido à dificuldade de acompanhar suas rápidas mudanças de comportamento e altas expectativas.

As questões de engajamento do cliente pareciam se concentrar principalmente em marketing, ofertas e informações, com pouca menção ao atendimento ao cliente. Embora ofertas bem direcionadas sejam muito importantes, desde há muito tempo, percebe-se que um atendimento superior ao cliente é a chave para a retenção e fidelidade.

Produtos e serviços podem ser comoditizados, mas os clientes não gostam de sentir que estão sendo tratados como commodities.

Uma empresa que se preocupa com isso, tentará fazer com que cada um de seus clientes se sinta especial, não apenas entendendo e atendendo às suas necessidades exclusivas, mas também fornecendo um excelente atendimento e resolvendo rapidamente os problemas quando eles surgirem. Isso é realmente difícil, talvez porque requer funcionários bem treinados e capacitados, além de ferramentas e informações digitais corretas. E é também por isso que pode muito bem ser a maneira mais importante de uma empresa se destacar de seus concorrentes.

Big data e análises avançadas são outra tendência de negócios digitais que teve um progresso significativo no ano passado.

Notavelmente, os entrevistados relataram maior uso de dados para melhorar a tomada de decisões, processos de P&D, orçamentos e previsões. Além disso, os executivos dizem que suas empresas estão usando análises para crescer: as maiores ações relatam que concentram seus esforços de análise no aumento da receita ou na melhoria da qualidade do processo. Reduzir custos tende a ser classificado como uma prioridade de nível inferior.”

Mas, como é o caso de quase todas as inovações disruptivas, levará tempo para que as empresas aprendam como aproveitar melhor os avanços em big data para obter valor comercial.

A economia está, na melhor das hipóteses, estagnada e assim permaneceu durante o último grande aumento no tráfego da web. A taxa de crescimento da produtividade, cujo aumento constante da década de 1970 até a década de 2000 foi creditado a fases anteriores das revoluções do computador e da Internet, na verdade caiu. Esses fatores levam alguns economistas a questionar se o Big Data algum dia terá o impacto da primeira onda da Internet, quanto mais as revoluções industriais dos séculos anteriores.

O que acontece com a fama e as riquezas que nos foram prometidas para esta geração da informação? Nosso jovem prodígio já está nos decepcionando, apesar de seu enorme potencial. Na verdade, como alguns artigos recentes observaram, o big data parece já ter atingido o pico das expectativas infladas no chamado ciclo de hype para tecnologias disruptivas e agora está caindo. Será que vai continuar caindo? Ou será que, após um período de trabalho árduo e maturidade, acabará avançando para seguir seu caminho para uma vida longa de produtividade? Ao contrário de um novo produto de sucesso, as revoluções transformadoras – sejam tecnológicas, científicas ou de gestão – levam um tempo relativamente longo para acontecer. Estamos todos apenas começando a aprender sobre ciência de dados, a disciplina emergente que se concentra em extrair insights valiosos de todo esse big data.

A pesquisa da McKinsey observa que, ao contrário do progresso em big data e engajamento de clientes, as empresas têm sido significativamente mais lentas no aproveitamento de tecnologias digitais para engajar seus funcionários e parceiros externos. Mais uma vez, isso não é surpreendente. Por vários anos, muitos executivos têm defendido uma cultura de colaboração como uma das chaves para a mudança transformacional em suas empresas. Eles concordam que as plataformas e aplicativos de mídia social ainda estão tendo um grande impacto na maneira como as pessoas colaboram e geralmente se relacionam no local de trabalho e em seu ecossistema de parceiros.

No entanto, estudos após estudos continuam descobrindo que, apesar do sucesso generalizado das redes sociais públicas, muitas empresas têm demorado a abraçar a mídia social como parte integrante de seu local de trabalho. Esse é um problema específico para funcionários mais jovens que usam amplamente as tecnologias de mídia social em suas vidas pessoais, mas não podem fazê-lo adequadamente no trabalho. Parte do problema é que os benefícios de se conectar aos clientes são mais fáceis de medir e quantificar, enquanto aqueles que envolvem funcionários e parceiros são mais sociais e culturais por natureza. Mudanças sociais e culturais exigem uma forte liderança da alta administração.

Por exemplo, o CIO Social, um estudo da Forrester Research publicado há cerca de um ano, conclui que o número de empresas que estão realmente executando iniciativas sociais permanece surpreendentemente pequeno. As empresas estão investindo em plataformas sociais e tecnologias, mas, em geral, seus esforços permanecem desordenados e desarticulados. O relatório escreve que:

Embora a velocidade com que as ideias atravessam as redes sociais seja fenomenal, surpreendentemente poucas organizações conseguiram explorar totalmente o poder do compartilhamento aberto de conhecimento dentro e fora das paredes da empresa. Muitas empresas configuraram tecnologias sociais em suas organizações, mas poucas realmente fizeram as mudanças técnicas, culturais e de processo necessárias para colher todas as oportunidades e benefícios dessas ferramentas ou da vasta quantidade de dados que elas capturam.

O insight mais valioso da pesquisa da McKinsey é a descoberta de que:

Apesar da série de desafios técnicos na implementação digital, os entrevistados dizem que o sucesso (ou o fracasso) desses programas, em última análise, depende da organização e liderança, ao invés de considerações de tecnologia…

O relatório conclui com uma nota otimista: “Desafios à parte, os executivos continuam otimistas com os negócios digitais” e oferece conselhos em três áreas principais:

(1) “Encontrar os líderes digitais certos. A liderança é o fator mais decisivo para o sucesso ou fracasso de um programa digital…

(2) “Gerenciar expectativas. Tão importante quanto encontrar o líder certo é definir a agenda certa e manter uma visão ambiciosa sem se perder na superexuberância digital…

(3) “Priorizar o talento. Não é de surpreender que os entrevistados indiquem preocupação em encontrar o talento de que suas empresas precisam para realizar seus objetivos digitais. Habilidades técnicas, funcionais e de negócios são críticas para programas digitais…

01/06/2021

Reinventando Relacionamentos


Como a Web, a colaboração e a mídia social “transformarão ou reinventarão – como as organizações se relacionam com seus clientes, parceiros, funcionários e cidadãos por meio de experiências mais atraentes, após a pandemia”.

Era uma vez, novas tecnologias que foram implantadas pela primeira vez em grandes instituições – empresas, universidades e laboratórios de pesquisa – de onde eventualmente partiam para o resto do mundo. Isso virou história. Cinquenta anos atrás, por exemplo, a indústria de computadores consistia principalmente em mainframes e supercomputadores caros que apenas grandes instituições podiam comprar e operar.

Mas, isso se reverteu dramaticamente com o advento de tecnologias baratas, especialmente tecnologias digitais. Como resultado dos avanços incríveis em componentes digitais e computação pessoal nos últimos quarenta anos, muitas inovações estão surgindo pela primeira vez e a partir dos quais eventualmente chegarão até nós. Além da computação pessoal, vimos inovações direcionadas ao consumidor e ao usuário em celulares e smartphones, jogos, Linux e, talvez o mais importante, todos os tipos de inovações na Internet e na World Wide Web.

Muitos novos aplicativos interessantes estão sendo desenvolvidos, mas até pouco tempo, não estava claro quais seriam suas implicações, aplicações e impactos. Muitas pessoas afirmavam que, na nova economia, baseada na Internet, as startups nascidas para a Web tinham uma vantagem inerente sobre as empresas existentes, e que estás, teriam dificuldade em competir e, portanto, estavam fafadas à extinção.

Hoje, as empresas conseguem analisar com muito mais critério, o que está acontecendo no mercado e trabalhar para atender demandas em todo o mundo, elaborando melhores estratégias de e-business. Todos os tipos de negócios estão convencidos de que precisam ser digital para se beneficiarem do alcance universal e da conectividade da Internet, não apenas as startups, mas qualquer outro negócio. Hoje às empresas investem fortemente em reputação da marca, base de clientes e a infraestrutura de TI, criando combinações cada vez mais adequadas aos novos recursos oferecidos pela Internet.

As redes sociais estão entre as tecnologias mais importantes da atualidade. O número e a variedade de sites de redes sociais aumentam a cada dia. Como as ‘ponto com’ do final da década de 1990, alguns são muito inovadores e provavelmente terão sucesso, enquanto outros são mais difíceis de se avaliar e parecem construídos em modelos de negócios duvidosos.

Mais uma vez, precisamos descobrir a melhor forma de trazer essas inovações do consumidor para o mundo dos negócios. Quase todos concordam que todas as empresas podem se beneficiar com a adoção de inovações, mesmo que ainda não tenhamos descoberto como fazê-lo da maneira adequada.

Durante e após o cenário pandemico, as pessoas vão sair menos de casa, mas continuarão a consumir produtos e serviços do mundo todo, que possam chegar até elas, via Internet e para captar, engajar e converter clientes, será necessário se enquadrar em três categorias principais:

  • Relacionamentos externos com clientes e influências da marca;
  • Relacionamento interno com funcionários e parceiros; e
  • Relações sociais com cidadãos e comunidades.

Muitas empresas e agências governamentais já possuem uma variedade de aplicações em cada uma dessas categorias, mas ainda há muito a ser feito.

Ainda estamos aprendendo como traduzir melhor nossas novas tecnologias e aplicativos colaborativos em negócios e relacionamentos sociais mais eficazes. A questão não é a tecnologia. A questão principal é o capital organizacional, ou seja, as práticas de gestão e os ajustes culturais necessários para permitir que organizações implantem e aproveitem essas novas oportunidades.

Até meados da década de 1990, o rápido crescimento do uso de computadores nas empresas não se refletiu no aumento da produtividade do trabalho. Isso deu origem ao paradoxo da produtividade de Solow em referência à piada do economista ganhador do prêmio Nobel Robert Solow de 1987:

Você pode ver a era do computador em qualquer lugar, menos nas estatísticas de produtividade

Mas, no início da era da Internet, houve um aumento na produtividade, que os economistas geralmente atribuem aos avanços contínuos e ao amplo uso das tecnologias da informação. Como Erik Brynjolfsson do MIT explicou em um livro de sua co-autoria:

As empresas com os maiores retornos sobre seus investimentos em tecnologia fizeram mais do que apenas comprar tecnologia; eles investiram em capital organizacional para se tornarem organizações digitais. Estudos de produtividade revelam que as empresas que viram altos retornos em seus investimentos em tecnologia foram as mesmas que adotaram certas práticas de negócios que aumentam a produtividade.

As empresas tiveram que aprender que não era suficiente implantar a TI para automatizar os processos existentes. As organizações tiveram que repensar suas operações e redesenhar o fluxo de trabalho em suas empresas, o que finalmente começou a acontecer no início da década de 1990 com a adoção da reengenharia de processos de negócios e outras iniciativas. Desta época prá cá, muitas organizações reconectaram-se com eficácia a seus processos e fluxos de informações.

Desde 2020, em um cenário novo, por causa da pandemia, as empresas estão tendo que se adaptar e alavancar as tecnologias digitais para ajudar a lidar com as tarefas da organização, como o uso intensivo de pessoas e serviços amplamente distribuídos, ou seja, seus relacionamentos com clientes, funcionários, parceiros e cidadãos estão sendo colocados à prova neste momento. Esses relacionamentos de front-end não são tão bem compreendidos quanto os processos de back-end, nos quais fizemos um progresso significativo nos últimos anos. Essa é a maior questão.

Além disso, os objetivos são bastante diferentes. Qualidade e eficiência são as principais medidas que geralmente usamos para tarefas de back-end, mas não são suficientes quando há pessoas envolvidas. Além de eficiência e qualidade, um dos principais objetivos, agora, é o de estar baseado em relacionamento e alcançar resultados e experiências positivas para clientes, funcionários e todos os envolvidos.

Há muitos desafios pela frente, pois apesar de todas as tecnologias avançadas que temos agora, elas ainda não foram amplamente adotadas ou exploradas pelas empresas. Como geralmente é o caso com tecnologias disruptivas em estágio inicial, muitas instituições não sabem o que fazer com elas. Eles suspeitam que essas tecnologias podem ser boas para os consumidores, mas ainda não as decifraram para reverte-las para os negócios. Eles estão em processo de aprendizagem e desenvolvimento do capital organizacional necessário. Aproveitar os elementos de mídias sociais para reestruturar, religar e reinventar os negócios e as relações provavelmente será uma das áreas de inovação mais promissoras.

Seja qual for a área de atuação, mesmo as profissões de setores tradicionais estão passando por imensas transformações. Há vários segmentos promissores. A adoção de novas tecnologias fará com que surja a necessidade de uma força de trabalho que agregue à empresa muito mais que habilidades. Será necessário foco no relacionamento. Esta é a base de formação da indústria 4.0, que também exige novas características e habilidades de todos que desejam se destacar nesse mercado. Além de saber lidar com a vida competitiva e a busca constante por resultados, todos precisam conseguir se comunicar, se relacionar e inspirar pessoas, equipes e ter a capacidade de promover, quando necessário, uma mudança de mindset nos seus colaboradores. Tudo isso de maneira ágil e natural.

Mapeando a jornada do cliente


A inovação começa por observar o cliente e a forma como trabalhamos suas expectativas”,

Para mim, este é o norte da Transformação Digital, cujo objetivo é informar, engajar e alinhar pessoas para o foco no cliente.

• O que estamos tentando fazer para atender as expectativas do cliente?

• Estamos ganhando ou perdendo?

• Quais são os pontos fortes?

• O que estamos fazendo sobre eles?

As vezes durmo e acordo pensando essas coisas e como faço para conseguir isso com meus clientes. Não é em vão. Chego a algumas conclusões. Para conseguir isso, temos que envolver todos e isso significa ser transparente, prudente e estratégico.

Bom, então, se eu sei as respostas, por quê ainda durmo e acordo com esses pensamentos?

Porque as minhas aspirações não são as mesmas de todos os outros 10, 100, 1.000 ou 10.000 funcionários da empresa.

• O que estamos tentando alcançar e como estamos fazendo?

• Quais são as metas e métricas?

• Quais são os resultados esperados?

A transformação digital requer colaboração radical, o que é contrário à cultura. Na verdade é quase uma contra-cultura à maioria das empresas, que são pensadas e estruturadas para cada área atuar quase que como uma empresa independente. “Cada um no seu quadrado”

Como se quebram estes ciclos?

Geralmente opta-se por juntar pessoas dos setores de Negócios, Vendas, TI, Jurídico, Risco e do ecossistema administrativo e então lhes dão poderes e as transformam em uma equipe multifuncional e autodirigida. Pregam o gerenciamento, realizam reuniões diárias e com tempo e prática, os membros da equipe internalizam essas novas formas de mapeamento das suas jornadas internas, para transportar isso para a jornada do cliente e para compreender a situação real da empresa versus a situação real do cliente e isso tudo vai nos dar uma linha de como queremos trabalhar daquele instante em diante.

Maravilhoso, não acham?

Um grupo bem treinado, coeso e inteligente, pode começar a entender e a agir com foco para os seguintes resultados:

1. Construir um entendimento compartilhado (um consenso) com base nos dados, alinhando as partes interessadas internas sobre quais clientes, produtos, jornadas, metas e suposições que precisamos dar a este novo momento.

2. Rascunhar mapas da jornada do cliente, começando com a perspectiva da empresa e ir mapeando as jornadas do cliente, selecionado processos internos e tecnologia. Entrevistam-se equipes, analisam-se cenários, estruturas e desempenhos. Então pode-se chegar às seguintes conclusões:

• É preciso Velocidade para o atendimento ao cliente;

• Número de pontos de contato (para medir a fricção do cliente), ou saber quanto desgaste é criado para se obter a satisfação do cliente e o número de funcionários envolvidos, % da necessidade de retrabalho.

Em suma, estaremos cavando um túnel para ir direto ao cliente ou para nos afastar cada vez mais dele?

3. Mapa final da jornada do cliente: é muito importante ouvir as histórias dos clientes para entender melhor como é fazer negócios conosco. Isso chama-se pesquisa etnográfica porque literalmente percorre a jornada da vida do cliente com a empresa. O objetivo é entender as ‘tarefas a serem realizadas’ e o contexto do cliente, enquanto se cria uma navegação por sua jornada.

Esse trabalho pode ser complementado com uma análise competitiva, olhando não apenas para outras empresas do setor, mas também para empresas de outros setores e indústrias. Desta forma pode-se chegar a respostas que vão sitetizar os pontos fracos, possíveis causas e oportunidades de melhoria. E o mais importante: um mapa validado pelo cliente e totalmente baseado em fatos.

4. Vivenciar a perspectiva do cliente: nesta fase, busca-se entender quão bom ou quão doloroso pode ser fazer negócios conosco. Compreender as oportunidades de melhoria e o possível impacto para ambos os lados. Com todas essas informações em mãos, deve-se chegar a um consenso com a direção da empresa e obter deles um aval, bem como os recursos para reinventar a empresa, o mais rápido possível.

Isso faz sentido?

Bem, se chegar nesta fase e não seguir em frente, será como nadar, nadar e morrer na praia. Esta é uma fase importante da jornada de transformação. Se conseguirmos desenvolver coletivamente uma profunda empatia por nossos clientes; experimentar e entender o que eles valorizam e o que oferecemos, bem como, compreender as lacunas e pontos problemáticos da empresa, podemos começar a entender o tamanho da nossa recompensa ao conseguir transformar a cultura tradicional para uma cultura de transformação digital.

Lembre-se: a cultura digital requerer tudo muito mais interativo – com feedbacks e ideias compartilhadas. Não deve haver apresentação unilateral – e sim, vários apresentadores e várias perspectivas. Deve-se usar recursos visuais e multimídia simples e atraentes – tudo baseado em evidências vivenciadas na empresa.

O futuro?

O futuro é uma folha em branco a ser escrita e tudo é possível. Dificuldades podem se tornar oportunidades. Porém algumas perguntas precisam ser devidamente respondidas:

• Quais benefícios pretende-se obter?

• Que tipo de cultura é necessária para que sejam eficazes?

• Quais são as personas mais importantes?

• Quais são as jornadas mais importantes?

• Quais os pontos problemáticos mais críticos?

O cliente tem muito a revelar e ele deve ser estimulado a fazer isso. Ser o centro da estratégia. Empresas de todos os portes estão buscando adequar-se a esta realidade. Nem as marcas mais valiosas do mercado nascem sabendo todas as respostas para essas questões, mas todos podem e devem voltar seus esforços para a satisfação dos clientes e reestruturar seus processos sob a ótica de quem consome os produtos e serviços da empresa, por meio do uso das informações e tendências comportamentais.

27/05/2021

O que podemos esperar da inovação nesta nova década?


Em 16 de janeiro de 2021, o The Economist fez esta pergunta, título do post, em sua edição.

A década de 2010 foi péssima para a inovação”, observa o artigo.

O crescimento da produtividade foi fraco e as invenções mais populares, o smartphone e a mídia social, não pareceram ajudar muito… Tecnologias promissoras pararam, incluindo carros autônomos, fazendo com que os evangelistas do Vale do Silício parecessem ingênuos… Hoje está surgindo uma aurora de otimismo tecnológico”, acrescenta o artigo.

Embora parte desse otimismo possa ser exagerado, nos anos vinte do século 20, foram realmente, uma década de crescimento econômico e prosperidade generalizada, enquanto os países se recuperavam da devastação do Mundo da época, pela Guerra Mundial e a pandemia de gripe espanhola, avanços tecnológicos como eletrificação, eletrodomésticos, produção em massa de carros e o advento da aviação comercial transformavam o comércio e as relações pelo mundo.. 

“há uma possibilidade realista de uma nova era de inovação que pode elevar os padrões de vida, especialmente se os governos ajudarem as novas tecnologias a florescer”.

Seguindo por fatos históricos, então, após a Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, os governos das principais potencias expandiram significativamente seu apoio à P&D nos setores público e privado, tornando os Estados Unidos o líder em ciência, engenharia, medicina e outras disciplinas. O projeto para P&D na América do pós-guerra foi traçado pelo conselheiro científico Vannevar Bush, que em seu relatório de 1945, Science The Endless Frontier citou:

Novos conhecimentos podem ser obtidos apenas por meio de pesquisa científica”.

Conduzidas por universidades e laboratórios, a P&D ajudou no desenvolvimento de novos produtos pelo setor privado e de armas novas e aprimoradas pelo setor de defesa.

Uma das conquistas mais importantes do governo dos EUA foi a ARPANET, a infraestrutura digital lançada no final dos anos 1960 para aumentar a resiliência do país, que acabou se tornando a Internet. Sabe-se que nunca foi necessário testar a capacidade da Internet de manter os EUA funcionando após um ataque militar, mas 50 anos após o seu lançamento, a pandemia Covid-19 testou a capacidade da Internet de fortalecer a resiliência, quando sob ataque de uma ameaça global, – e ela passou com louvor.

Podemos, finalmente, esperar uma década de crescimento da produtividade?

Depois de crescer a uma taxa média anual de 2,8% entre 1947 e 1973, a produtividade dos EUA diminuiu significativamente, exceto pelo aumento de produtividade impulsionado pela Internet entre 1996 e 2004. Em particular, a produtividade cresceu a uma taxa anual média de 1,4% entre 2007 e 2019. No entanto, o The Economist cita três razões principais pelas quais essa grande estagnação pode estar finalmente terminando.

1. O primeiro é a enxurrada de descobertas recentes com potencial transformador, começando com a velocidade com que as vacinas Covid-19 foram produzidas.

Os humanos estão cada vez mais capazes de submeter a biologia à sua vontade, seja para tratar doenças, editar genes ou cultivar carne em um laboratório”.

A inteligência artificial também está vendo grandes avanços após décadas de promessas e exageros. A IA agora está sendo aplicada à visão, reconhecimento de fala, tradução de linguagem e outros recursos que não há muito tempo pareciam virtualmente impossíveis, mas agora estão se aproximando ou ultrapassando os níveis humanos de desempenho.  “Eventualmente, a biologia sintética, a inteligência artificial e a robótica poderiam superar como quase tudo é feito.

2. Outro motivo de otimismo é a rápida adoção de novas tecnologias.

Vimos dois anos de transformação digital em dois meses, … em um mundo de tudo remoto”,

enquanto as empresas se adaptavam para permanecer abertas para os negócios, disse o CEO da Microsoft, Satya Nadella, em abril de 2020. Durante anos, as empresas encontraram todos os tipos de razões para não abraçar a telemedicina, aprendizagem online, trabalho de casa, reuniões virtuais e outras aplicações digitais. Mas a pandemia agora acelerou as transformações tecnológicas que as instituições foram forçadas a fazer para ajudá-las a enfrentar a crise.

3. A terceira fonte de otimismo é o boom de investimentos em tecnologia. 

No segundo e terceiro trimestres de 2020, o setor privado não residencial da América gastou mais em computadores, software P&D do que em edifícios e equipamentos industriais pela primeira vez em mais de uma década.”

E, talvez o mais importante, depois de só diminuir nos últimos 40 anos, os gastos do governo em P&D começaram a aumentar nos Estados Unidos e nos 24 países da OCDE.

Os governos do mundo rico gastam atualmente, em média, pouco mais de 0,5% do PIB em P&D; alguns décimos a mais de um ponto percentual poderiam fazer uma grande diferença”,

observou um segundo artigo do The Economist sobre o caso de mais gastos do estado em P&D.

Em 2018, porém, o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis, os números de 24 países da OCDE mostraram que os gastos do governo com P&D aumentaram saudáveis 3% em termos reais, após um período particularmente magro após a crise financeira.

De acordo com uma força-tarefa de 2019 sobre segurança nacional, o investimento dos EUA em P&D como porcentagem do PIB atingiu o pico de 1,86% em 1964, mas caiu de pouco mais de 1% em 1990 para 0,66% em 2016.

O governo Biden prometeu aumentar  seus orçamentos de P&D. Parte do motivo é a expectativa de que o aumento nos gastos com P&D impulsionará o crescimento econômico. Mas a competição com a China é outra ameaça. A China está fechando rapidamente a lacuna tecnológica dos EUA e investindo recursos significativos em tecnologias de ponta. Em 2030, a China pode muito bem ser o maior gastador mundial em P&D. Embora provavelmente não corresponda às capacidades dos EUA em todos os aspectos, espera-se que a China seja uma potência líder em tecnologias de ponta, incluindo IA, robótica, energia limpa, armazenamento de energia e redes celulares 5G.

Mas, contudo, não é certo que o aumento dos investimentos em P&D levem à maior produtividade e ao crescimento econômico.

Existem vozes que moderariam isso”, avisa The Economist.

O economista da Northwestern University, Robert Gordon, é uma das vozes mais proeminentes sobre o tema. Gordon argumenta que o rápido crescimento e aumento da renda per capita que experimentamos de 1870 a 1970 foi um episódio único na história da humanidade. A inovação está estagnada e pode muito bem haver pouca produtividade e crescimento econômico pelo resto deste século. 

Mudar do motor de combustão interna para motores elétricos para mover veículos é impressionante e necessário, mas não é o mesmo que passar do cavalo para o carro”, observa The Economist.

Outra preocupação é que os investimentos em P&D estão gerando retornos decrescentes. Em um artigo recente, As ideias estão ficando mais difíceis de encontrar?, economistas de Stanford e do MIT mostraram que, em uma ampla gama de setores, os esforços de pesquisa estão aumentando substancialmente, enquanto a produtividade da pesquisa está diminuindo drasticamente. Com base na análise empírica, o artigo descobriu que agora são necessários mais tempo e dinheiro do pesquisador para obter a mesma melhoria nos resultados de antes. No caso da Lei de Moore, a produtividade está diminuindo a uma taxa de cerca de 6,8% ao ano. O número de pesquisadores necessários para dobrar a densidade do chip hoje é 18 vezes maior do que o exigido no início dos anos 1970. Para os rendimentos agrícolas, o esforço de pesquisa aumentou por um fator de dois entre 1970 e 2007, enquanto a produtividade diminuiu por um fator de 4 no mesmo período, a uma taxa anual de 3,7%.

Além disso, enfatizar a P&D apoiada pelo governo ignora a natureza mutante da inovação na economia digital. Os avanços da inovação não se baseiam mais apenas na ciência e na tecnologia provenientes dos laboratórios de P&D, como foi o caso da maior parte da economia industrial do século XX. Cada vez mais, temos visto um novo tipo de inovação voltada para o mercado, cujo objetivo é criar experiências de usuário atraentes e intuitivas, novos modelos de negócios, plataformas altamente escaláveis e estratégias atraentes baseadas no mercado.

“O que importa para a economia não são as descobertas científicas ou as inovações na vanguarda da tecnologia, mas as pessoas e empresas de tecnologia que fazem uso generalizado – não artigos em periódicos de laboratório, mas coisas que melhoram amplamente o dia a dia e geram atividade econômica ao fazê-lo”, acrescenta o The Economist.

E não existe uma linha de produção simples que, alimentada por novos conhecimentos científicos, produza essa mudança tecnológica.

Embora o setor privado acabe por determinar quais inovações têm sucesso ou fracassam, os governos também têm um papel importante a desempenhar. Eles devem arcar com os riscos em mais projetos. O estado pode oferecer mais e melhores subsídios para P&D, como prêmios para a solução de problemas. O estado também tem uma grande influência sobre a rapidez com que as inovações se difundem pela economia … Se os governos enfrentarem o desafio, então um crescimento mais rápido e padrões de vida mais elevados estarão ao seu alcance, permitindo-lhes desafiar os pessimistas. A década de 2020 começou com um grito de dor, mas, com as políticas certas, a década ainda poderia rugir.

23/05/2021

O salto tecnológico da informação


A tecnologia da informação e a Internet se combinaram para transformar os hábitos de criação, busca e disseminação de informações dos seres humanos, nos permitindo uma capacidade aprimorada de criar e compartilhar informações sofisticadas; e mesmo isso, não nos levou a um mundo em que o conhecimento e a experiência são facilmente acessíveis e compreendidos de maneira direta por todos.

Concordam?

Não há dúvidas de que a Internet permite fácil acesso a grandes quantidades de conteúdo através de sites, redes sociais e publicação online que geraram mais conteúdo do que podemos acompanhar ou processar.

Enquanto nós, usuários leigos realizam pesquisas básicas online – em medicina, direito, arquitetura, contabilidade e outros – os frutos dessas consultas tendem a ser coleções de documentos ou páginas da web potencialmente relevantes, mas tecnicamente complexas, em vez de respostas a problemas ou aconselhamentos que realmente precisamos.

Uma enciclopédia online, por exemplo, pode orientar, mas geralmente não aconselha ou instrui aos usuários, quais os próximos passos a serem tomados.  Além disso, não é fácil para a maioria dos usuários saber quando os recursos online em áreas complexas são oficiais e confiáveis. Essa análise leva alguns céticos a concluir que a Web e as mídias sociais têm um efeito prejudicial na sociedade, criando montanhas de informações, sem que possam interpretar e aplicar essas informações de maneira confiável em circunstâncias específicas. Esta conclusão, no entanto, assume erroneamente, que já fizemos a transição completa da sociedade industrial baseada na informação impressa para o que chamamos de sociedade da Internet baseada na tecnologia (e “tecnologia” aqui é em grande parte “tecnologia da informação”). Em vez disso, podemos ainda argumentar, que ainda estamos em uma longa fase de transição entre essas duas eras e que a ‘sobrecarga de informação’ é uma das muitas consequências infelizes, mas temporárias, deste estado provisório.

Aceitamos que, durante esta fase de transição, os profissionais tradicionais que trabalham em instituições convencionais, ainda serão necessários, como a principal interface entre o leigo e os especialistas do conhecimento aos quais eles podem agora ter acesso, mas ainda não os meios para interpretar.  No entanto, uma vez que tenhamos progredido totalmente para a sociedade da Internet baseada na tecnologia, a quantidade e a complexidade dos materiais serão ocultadas dos usuários, as próprias novas tecnologias ajudarão em sua interpretação e, assim, os profissionais tradicionais não serão mais a interface dominante entre os leigos e os conhecimentos práticos de que precisam para aplicar às suas circunstâncias e problemas particulares. Nossa capacidade de usar tecnologia de computador para capturar, armazenar, recuperar e reproduzir dados ultrapassa amplamente nossa capacidade de usar tecnologia para ajudar a analisar, refinar e tornar mais gerenciável a massa de dados que o processamento de dados tem gerado.

Somos ótimos em obter informações, mas não tão bons em extrair as informações que desejamos. A defasagem ou o atraso entre o obter e extrair, chamaram de “processamento de dados” e “processamento de conhecimento”. E seguimos para argumentar que não teríamos progredido para uma sociedade da Internet baseada em tecnologia madura até que o atraso fosse eliminado e o processamento do conhecimento se tornasse igual à tarefa de nos libertar dos dilemas de gerenciamento de informações deixados por seu ancestral, o processamento de dados.

Em outras palavras, as tecnologias dos anos 1990 permitiram a sobrecarga de conteúdo e de informações para a qual ainda não havíam inventado tecnologias.

Assim, as fontes de informações técnicas profissionais, em rápido crescimento eram como um jato d’água de informações, explodindo contra os usuários; e, longe de eliminar a necessidade de aconselhamento especializado, parecíamos exigir mais profissionais do que nunca.

No entanto, foi possível ver as falhas e começar a atuar nelas; e agora estamos refinando nossas técnicas no campo do processamento do conhecimento e desenvolvendo gradualmente sistemas que nos ajudarão a analisar e gerenciar os vastos corpos de informação que criamos para nós mesmos. Esses próprios sistemas nos ajudarão a localizar tudo, inclusive, o material relevante para nossos propósitos específicos como usuários. Só precisamos refletir sobre as capacidades dos recursos de pesquisa como o Google, o sucesso das iniciativas de ciência de dados e o surgimento de uma nova onda de sistemas de inteligência artificial, como o Watson, então podemos perceber que a defasagem de tecnologia agora, está diminuindo constantemente. A previsão, então, ‘é que os avanços no processamento do conhecimento serão impressionantes nos próximos anos, facilitando este período de transição’ para o que agora chamamos de ‘sociedade da Internet baseada na tecnologia’, provará ser, bastante preciso.

Em relação às profissões, com essas tecnologias em vigor, a quantidade, complexidade e mutabilidade dos materiais de origem torna-se um desafio menor para os usuários, porque os sistemas apontam com muito mais precisão os materiais relevantes para eles. Mais do que isso, nossos sistemas cada vez mais capazes, poderão resolver problemas e oferecer conselhos, ao invés de simplesmente apresentar documentos potencialmente relevantes. Mais ambiciosos ainda, os sistemas anteciparão nossas necessidades e oferecerão orientação e advertência, mesmo antes de sabermos que um problema ou oportunidade surgiu. Assim como nossa demanda por orientação especializada de seres humanos experientes mudou ao longo do tempo, a subestrutura de informação mudou:

  • Da oralidade para o script;
  • Do script para a impressão;
  • Da impressão para o próximo, devemos esperar uma mudança adicional à medida que avançamos em um mundo que é sustentado pelo poder de processamento e capacidades de comunicação que são muito maiores do que no passado.

As profissões, hoje, são baseadas no conhecimento, de modo que se o meio dominante pelo qual armazenamos e comunicamos conhecimento mudar radicalmente, então não é radical supor que a maneira como armazenamos e comunicamos conhecimento profissional será similarmente transformado. Não se trata apenas de nossas profissões atuais não explorarem novas tecnologias e, portanto, perderem a oportunidade de ser mais eficientes.

A mudança na subestrutura da informação é mais fundamental do que isso. Ela determina como organizamos e disponibilizamos nosso conhecimento coletivo e experiências na sociedade. Esperamos, à medida que passamos de uma sociedade industrial baseada na impressão para uma sociedade da Internet baseada na tecnologia, que as mudanças nas formas em que compartilhamos conhecimento serão tão abrangentes como quando passamos da era da escrita para a era de impressão. Esta não é uma mudança que está esperando que políticos ou profissionais a iniciem. Já vimos o poder das redes sociais. Não devemos supor que quase 3 bilhões de pessoas conectadas entre si estarão menos motivadas a promover mudanças na forma como a experiência é compartilhada quando se tornar evidente para elas que os meios para melhorar de forma abrangente sua qualidade de vida e padrão de vida já está disponível. Quando fica claro para as pessoas que, por exemplo, melhor saúde, educação e proteção legal podem ser garantidos por meio do serviço online, então esses sistemas provavelmente serão adotados, estejam ou não os legisladores e profissionais liberais apoiando ativamente.

19/05/2021

A natureza intrigante dos tokens não fungíveis


blockchain surgiu pela primeira vez em 2008 como o livro razão digital para transações bitcoin. A utilidade original do blockchain era limitada a permitir transações bitcoin ponto a ponto, sem a necessidade de um banco ou agência governamental para certificar a validade das transações. Mas, como a Internet, a eletricidade e outras tecnologias transformadoras, o blockchain logo transcendeu seus objetivos originais. Ao longo dos anos, as tecnologias de blockchain evoluíram por duas linhas principais:

1) Foco no blockchain como a plataforma subjacente para bitcoin, bem como em uma ampla variedade de criptoassets, como tokens digitais e criptomoedas.

2) Foco no uso de blockchain no mundo dos negócios, uma espécie de Internet 2.0. O campo da criptomoeda é baseado principalmente em blockchains públicos sem permissão, aos quais qualquer um pode participar e exigir algum tipo de sistema de prova de trabalho ou prova de aposta.

O campo de negócios, – melhor caracterizado pelo Hyperledger, – é baseado em redes de blockchain privadas ou públicas para suportar transações entre instituições que não precisam se conhecer nem confiar umas nas outras.

Sempre trabalhei com Internet e e-business, tenho me concentrado no campo dos negócios de infraestrutura de TI, mas aos poucos venho estudando e aprendendo mais sobre blockchain por dois motivos principais:

1) As tecnologias de blockchain podem nos ajudar a aumentar a segurança das transações e dados da Internet, desenvolvendo uma camada com os serviços padrão necessários e suas implementações de código aberto para comunicação segura, armazenamento e acesso a dados; e

2) As tecnologias de blockchain podem melhorar significativamente a eficiência, resiliência e gerenciamento de cadeias de suprimentos, serviços financeiros e outras aplicações globais complexas envolvendo várias instituições em vários países.

Não dei muita atenção ao bitcoin ou a outros criptoassets, no começo. Fiz alguns pequenos investimentos, a título de curiosidade. Mas recentemente, fiquei bastante intrigado com os tokens infungíveis (Non Fungibles Tokens). Entendo que os NFTs são mais uma evidência de que, assim como a Internet das Coisas (IoT), vivemos cada vez mais em um mundo híbrido físico-digital.

Bitcoin e criptomoedas em geral são fungíveis, ou seja, são todos equivalentes e intercambiáveis entre si. O mesmo ocorre com as moedas fiduciárias, por exemplo, $, £, €, ¥, ₩. Mas, além de commodities como petróleo bruto, soja ou ouro, a maioria dos itens do mundo físico é infungível. Eles não são intercambiáveis porque cada um tem características únicas que os distinguem uns dos outros, por exemplo, um carro, uma casa ou uma pintura.

Os NFTs baseados em blockchain foram desenvolvidos para representar as propriedades de um item digital exclusivo, como uma obra de arte específica ou itens colecionáveis como Cryptokitties.

Para se tornar um NFT, um token criptográfico exclusivo é cunhado ou criado, mapeado para o arquivo digital associado ao NFT e registrado em um blockchain, junto com informações adicionais como propriedade atual, taxas de licenciamento comercial, acordos legais e outros atributos semelhantes a aqueles que geralmente associamos a um ativo físico infungível.

Os NFTs foram criados pela primeira vez em meados da década de 2010, mas recentemente se tornaram bastante proeminentes por causa dos altos preços que alguns NFTs comandaram em leilão. Algumas semanas atrás, por exemplo, o CEO do Twitter Jack Dorsey leiloou por quase US $ 3 milhões um NFT de seu primeiro tweet público, enviado em 21 de março de 2006 e que simplesmente dizia “apenas configurando meu twitter”.

Mas, o que chamou a atenção de todos foi o recente leilão de $ 69,3 milhões no Christies of Everydays: the First 5000 Days, uma obra de arte digital criada por Mike Winkelmann, também conhecido como Beeple, – tornando-se a terceira obra mais cara vendida em leilão por um vivo artista, atrás dos de Jeff Koons e David Hockney. Um mês antes, outra peça de Winkelmann, Crossroad, foi vendida por US $ 6,6 milhões.

Por que alguém pagaria US $ 69,3 milhões para ter um arquivo digital que qualquer pessoa pode ver online? Os NFTs são uma forma de possuir ativos valiosos, como arte digital e itens colecionáveis inéditos, uma farsa ou ambos? Estamos vendo o tipo de preços inflacionados que geralmente acompanham qualquer coisa nova e inovadora, como a mania das tulipas holandesas no século 17 ou a bolha pontocom dos anos 90? Os NFTs sobreviverão ao inevitável estouro de sua bolha?

O artista digital Mike Winkelmann ofereceu respostas a essas perguntas em uma interessante entrevista recente em podcast com a jornalista de tecnologia Kara Swisher. “Muito simplesmente … um token não fungível é apenas, em sua essência, uma prova de propriedade”, disse ele. “É apenas provar que você possui algo, e isso pode ser anexado a qualquer coisa. Ele meio que aponta para um arquivo digital e diz, isto é o que você possui.” Ele explicou que possuir um ativo digital é algo semelhante a possuir uma gravação master. Muitas pessoas podem ter o mp3 e ouvir a gravação. “Todo mundo está ouvindo exatamente a mesma coisa. Mas uma pessoa possui a gravação principal dele. E essa pessoa pode provar, ok, eu o possuo. E se você tem uma cópia do mp3, você não acha que é o proprietário. Você não vai convencer ninguém de que é o proprietário, só porque tem acesso a ele.

Winkelmann acrescentou que, na Internet, exercer a propriedade sobre um ativo digital geralmente implica restringir o acesso atrás de um acesso pago. Mas, com a prova de propriedade baseada em NFT, você tem a opção de compartilhar um ativo que possui com um grande público. Fotos da Mona Lisa, por exemplo, estão amplamente disponíveis online. Se você for ao Louvre, poderá ver a pintura física real, tirar uma foto dela e compartilhá-la na Internet. Mas ninguém pensaria que você é o dono da Mona Lisa, ou que torná-la amplamente disponível por meio de fotos diminuiu seu valor. Na verdade, observa Winkelmann, quanto mais algo é amplamente compartilhado, mais valioso provavelmente se tornará.

Swisher perguntou a Winkelmann se ele estava preocupado que os NFTs acabassem sendo uma espécie de esquema de pirâmide.

Não acho que seja um esquema de pirâmide, porque acho que é apenas uma espécie de compra da propriedade de obras de arte”, respondeu ele. “É tipo, se você acha que a obra de arte vai ser mais valiosa a longo prazo, então, compre. Se você não acha isso, não compre. É isso. É extremamente especulativo. E todo o mercado de NFT é extremamente especulativo agora. Isso é para pessoas que procuram correr alguns riscos, porque muitas dessas coisas irão absolutamente para zero. Se você apenas olhar para a arte historicamente, as coisas de primeira linha vão muito bem com o tempo. Mas a maior parte vai para zero. É assim que é. E acredito que os NFTs não serão diferentes. E eu acredito que isso já está absolutamente em uma bolha.

Algumas semanas após o leilão de Christies de The First 5000 Days, o escritor e colunista do NY Times Kevin Roose decidiu realizar um experimento NFT. Ele escreveu uma coluna sobre NFTs intitulada Buy This Column on the Blockchain!. Ele então transformou seu arquivo digital original da coluna em um NFT e o colocou em leilão para ver o que aconteceria, um processo que ele descreveu na coluna. O produto líquido da venda seria doado ao NY Times Neediest Cases Fund.

Roose explicou que “Como acontece com todas as vendas NFT, você receberá o próprio token – um colecionador digital exclusivo que corresponde a uma imagem desta coluna no formato PNG.” Mas ele acrescentou explicitamente que “Nossos advogados querem que eu observe que o NFT não inclui os direitos autorais do artigo ou quaisquer direitos de reprodução ou distribuição“. Os direitos autorais e outros direitos legais do artigo continuam sendo propriedade do NY Times.

O comprador de um NFT possui apenas o arquivo digital específico para o qual o NFT está mapeado e não tem direitos de copyright ou qualquer outra propriedade intelectual associada ao trabalho representado no arquivo; esses direitos são geralmente detidos pelos criadores da obra ou seus empregadores. Se você comprar uma primeira edição autografada de um livro, por exemplo, você possui apenas aquele exemplar específico do livro, que pode ser valioso se o autor assinar poucas cópias; mas o autor ou editor ainda possui os direitos autorais da obra. Da mesma forma, se você comprar uma litografia numerada, você possui apenas aquela litografia específica, enquanto o artista ou galeria continua a possuir os direitos autorais. Geralmente, os usuários de NFTs presumem que os tribunais reconhecerão a mesma propriedade e direitos legais em ativos digitais que há muito reconheceram em ativos físicos.

A maior vantagem de todas, é claro, é possuir um pedaço da história”, observou Roose. “Este é o primeiro artigo nos quase 170 anos de história do The Times a ser distribuído como um NFT, e se essa tecnologia se provar tão transformadora quanto seus fãs prevêem, possuí-la pode ser equivalente a possuir a primeira transmissão de TV da NBC ou da AOL primeiro endereço de e-mail.” No dia seguinte, Roose escreveu que, após um leilão acalorado que rendeu mais de 30 lances, a coluna foi vendida por US $ 560.000.

Mas, e a pergunta que não quer calar: os NFTs são uma farsa, uma bolha que eventualmente estourará ou algo não apenas intrigante, mas consequente? De acordo com Roose, “ao possibilitar que artistas e músicos – e, sim, jornalistas – transformem trabalhos individuais em itens digitais colecionáveis únicos, os NFTs podem corroer o domínio econômico dos intermediários de mídia social e dar mais poder de retorno para as pessoas que estão produzindo coisas criativas e interessantes.”

A proliferação de NFTs provavelmente não será a revolução de mudança mundial que seus proponentes afirmam”, escreveu o repórter do NY Times Shira Ovide em um artigo relacionado.

E provavelmente também não é uma bolha totalmente absurda. Tal como acontece com outras tecnologias emergentes, existe uma boa ideia em algum lugar se desacelerarmos e resistirmos ao hype. … É promissor permitir que os criadores confiem menos nos intermediários, incluindo empresas de mídia social, negociantes de arte e empresas de streaming de música. Algum desse trabalho? Não sei. Fuja correndo de qualquer um que tenha uma resposta definitiva.”

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