27/07/2021

A web e o pior de nós mesmos


"A pornografia é a forma mais política de ficção, pois trata do modo como usamos e exploramos uns aos outros, da maneira mais impiedosa”.

Escrito por J. G. Ballard no prefácio de seu romance Crash, de 1973.

A pornografia tornou-se óbvia no uso da tecnologia, nas últimas décadas. Nenhuma descrição da vida, em uma era tecnológica, estaria completa sem levar em conta a sexualidade; e o ponto de partida dessa “lógica pervertida” é a quantidade extraordinária de material que pode ser encontrada na internet hoje em dia.

“Sexo” não é o termo mais buscado na
internet. Se você perguntar ao Google sobre “sexo”, ele irá oferecer algo em
torno de 2,2 bilhões de resultados: o suficiente para derrotar muitos outros termos, mas, o fator crítico aqui, não é a quantidade de material disponível, mas quão acessível ele está. Na internet estamos sempre a uma busca e um clique de distância da pornografia.

O que antes era um tabu – e exigia uma visita a um vendedor especializado, com restrição de acesso por idade – ganhou acesso livre a tudo. Se você quiser pornografia, pode ter de forma instantânea e anônima, livre de custos monetários e sentimentais. Neste
contexto, a pornografia é praticamente igual a qualquer outra coisa no mundo
virtual. É apenas mais um serviço. Como qualquer outro produto da indústria do entretenimento, a pornografia está mais barata, mais obscena e mais incapaz de melhorar sua qualidade – tornando ainda mais nebulosas as fronteiras entre consumo, participação, encenação e realidade.

Com a internet, você não está apenas a uma mera busca ou clique de distância da maioria das coisas que podemos imaginar; você também nunca está sozinho. Não importa o quão bizarro, inusitado, eclético ou até mesmo ilegal seja o seu gosto – em termos de sexo ou qualquer outra coisa – sempre existirão  outros com os mesmos gostos do outro lado, com conselhos, fóruns, sistemas de encontro e discretos protocolos de segurança, quando necessário.

Diga ao mundo o que você quer, e se houver alguém disposto a dar o que você deseja, é bem provável que a tecnologia irá conectá-los. Isso provavelmente o levará a alguns sites, que através de consulta aos classificados, pode-se encontrar tudo categorizado e filtrado de forma pragmática e evidente, deixando praticamente tudo o que é imaginável à sua disposição. Esses sites e redes sociais oferecem dicas de segurança pessoal, conselhos para evitar golpes e fraudes, informação aos pais sobre como obter programas de controle de acesso, e possuem uma elaborada política antiprostituição. Tirando isso, no entanto, você está simplesmente livre para ter o que quiser. Clique na categoria que mais se adequa ao seu gosto e você será direcionado para uma lista, em ordem cronológica, de pessoas e aquilo que estão dispostas a oferecer.

Uma pesquisa um pouco mais elaborada, mostra que alguns sites de relacionamentos e encontros ocasionais para sexo, chegam a recebe mais de mil novos anúncios por dia. Praticamente nenhum deles exige nada além de um clique e um e-mail.

Como qualquer outra coisa numa era de onipresença tecnológica, sexo digital não significa apenas olhar: significa buscar, se conectar e descobrir que você não está sozinho – ou que a
solidão não precisa mais ser um fardo se você tiver a internet; e significa, também, obter exatamente o que se quer, na hora em que se deseja. Você procura um relacionamento sem compromisso, sem chance de acabar com o seu casamento e com discrição garantida? Basta procurar e certamente encontrará alguém e até dicas para evitar que você seja descoberto.

A Internet nasceu com o nobre propósito de levar informação e conhecimento às pessoas – isso foi desvirtuado e assim como no mundo real, o mundo virtual expos o pior de nós mesmos como crimes, roubos, drogas, prostituição, pornografia e outros. As questões que isso desperta, no entanto, seguem caminhos distintos.

Com a questão da pornografia, há uma série de temáticas morais, além da violência sexual, abuso de vulneráveis, negociação de substâncias ilícitas; e o triplice fator de combinação digital: distância, anonimato e privacidade pode ser algo muito preocupante. Abuso sexual, tráfico de drogas e formas ilegais de pornografia são apenas um aspecto do lado sombrio das conexões digitais, portanto precisa haver tanto leis quanto fiscalização para impedi-las – algo que a internet por si só, não é capar de resolver.

A pornografia, quando explorada pela tela do computador, embrutece ainda mais a sensibilidade humana”.

Em texto publicado no jornal The New Atlantis, o filósofo britânico Roger Scruton descreveu este ato de “se esconder atrás da tela” como

um processo de alienação por meio do qual as pessoas aprendem (…) a
transformar suas vidas em brinquedos sobre os quais pensam possuir total controle”.

Scruton faz um alerta sobre como a nossa liberdade, ética e moral estão sendo afetadas quando nos excluímos do mundo das relações humanas reais, com seus riscos, conflitos e responsabilidades, para as relações do mundo virtual.

O conforto, o comodismo e a recompensa imediata (imediatismo) da era digital suprem nossos objetivos mais básicos, inclusive o sexo casual, onde nudez e promiscuidade tornaram-se comum em um serviço projetado perfeitamente para exibicionistas e voyeurs.

Especialistas chegaram a dizer que, no começo da Internet pública, que conforme ela se tornasse cada vez mais popular e madura, o sexo – que havia se espalhado como fogo descontrolado em uma paisagem digital virgem – perderia seu apelo, em grande parte devido à falta de potencial para a sofisticação. No que diz respeito a sites e serviços digitais, essa tese se provou verdadeira.

Estatísticas de monitoramento de tráfego de dados, mostram que sexo e pornografia são menos interessantes para o mundo do que Amazon, Wikipédia e dezenas de outros serviços, que vão de sites de busca até redes sociais. Todos, em posição muito mais privilegiada, entre os principais sites do mundo, do que qualquer serviço sexual ou de pornografia.

De forma similar, se você usar as análises do Google Trends para estimar o interesse global de buscas por sexo e pornografia, vai descobrir que esses termos superam muitas outras coisas, desde livros até música e filmes – mas, por outro lado, são derrotados pelas buscas de termos como “Google”, “Facebook”, “YouTube” e “Spotfy”, entre outros.

Isso ocorre, em parte, porque um grande volume de pornografia e conteúdo ilícito migrou dos canais principais da internet para redes privadas, grupos dentro de redes sociais e aplicativos de mensagem instantâneas, estando hoje, mais discretas, porém muito mais direcionados à aqueles que desejam consumir esse tipo de material/produto.

Um ponto importante, que não pode deixar de ser mencionado, são os e-mails. Checando minha caixa de spam e as muitas mensagens não solicitadas que chegam ao longo da semana, tudo é bastante típico: promessas de potência sexual, produtos eletrônicos com desconto, cartões de crédito, remédios para tudo que se possa imaginar, empréstimos, ofertas de relacionamentos sexuais e…
“um e-mail da mina esposa”. Minha conta de e-mail e de todas pessoas do mundo se tornou um receptáculo passivo de todo lixo e absurdo do mundo – e assim os spams jorram, para mim e para qualquer outra pessoa, em uma quantidade que responde por aproximadamente oitenta por cento de todo o tráfego de e-mails do mundo. Esse é exatamente o bombardeio prenunciado pelos profetas do apocalipse no início da era digital.

Em um vídeo do TED, o escritor científico Steve Johnson fez um esboço dos motivos pelos quais ele acredita que a internet se assemelha a uma cidade, em muitas aspectos.

construída por muitas pessoas, sobre a qual ninguém tem completo controle, intricadamente interconectada e ao mesmo tempo funcionando como diversas partes independentes”.

O esboço de Johnson oferece um exemplo de estrutura que serve para policiarmos nosso novo mundo de forma eficiente: um novo mundo que não pode ser controlado (ainda) nem por um poder central, nem por qualquer entidade educacional, e que para prosperar depende do bom funcionamento de diversas formas entrelaçadas de comunidade.

A polícia, na forma como conhecemos hoje – uma agência de defesa da lei,
paga pelo Estado, mas que age de acordo com os interesses públicos e em
harmonia com a população de uma forma geral –, surgiu nos séculos XVI e
XVII, diante dos desafios que a expansão das cidades representava para a lei, a saúde e o bem-estar públicos. Uma força policial legítima e eficaz deveria trabalhar junto às comunidades locais, e era formada em parte por integrantes dessa comunidade.

Como argumentado anteriormente, alguns dos maiores perigos do lado sombrio do comportamento humano na internet é o seu potencial para incentivar o abuso de minorias, ao mesmo tempo que provoca o embrutecimento da maioria. Isso
se aplica não apenas ao sexo e à sexualidade, mas a todos os comportamentos que visam reduzir, explorar e humilhar pessoas para obter algum tipo de prazer ou benefício. Para defender nós mesmos e nossa sociedade desses males, os melhores modelos digitais mimetizam o policiamento efetivo do espaço urbano, mesclando o éthos de uma comunidade cujos membros zelam uns pelos outros com critérios externos impostos de dentro.

Já nos idos de 2007, em resposta aos problemas de abuso e desonestidade que estavam prejudicando a experiência de muitos membros da
comunidade digital ao redor do mundo, o editor, blogueiro e principal responsável pelo movimento de software livre Tim O’Reilly propôs um “código de conduta para blogueiros”, dividido em sete pontos inspirados, de certa forma, em comparações com o espaço urbano, como as que foram feitas por Johnson. Os seis primeiros pontos do código tratavam da responsabilidade que blogueiros deveriam ter pelo conteúdo à disposição em seus sites, da questão do
anonimato, e de como combater potenciais fontes de abuso e ofensa. O sétimo ponto elaborado por O’Reilly, no entanto, era mais genérico, e é uma das sínteses mais perfeitas do que deve ser nosso comportamento virtual:

Nunca diga na internet aquilo que você não diria pessoalmente.”

O’Reilly estava oferecendo as bases de um princípio regulador da civilidade
nas interações digitais, e também para a civilidade em seu sentido etimológico
mais estrito: como se comportar corretamente como um cidadão, que tem que conviver em extrema proximidade com outros.

“Acredito que a civilidade é contagiosa, da mesma forma que a incivilidade. Se esta for tolerada, torna-se cada vez pior. Não existe apenas uma comunidade blogueira, assim como não existe apenas uma comunidade em uma cidade”.

A ideia de lidar com as pessoas como se elas estivessem pessoalmente diante de você é bastante poderosa. Uma forma de coisificação tão maligna quanto a pornografia é o chamado cyber-bullying, que pode ir de uma simples ofensa verbal até uma extensa perseguição através de sites e serviços, do trabalho e do lazer.

Em seu livro Alone Together [Sozinhos juntos], a psicóloga norte-americana e professora do MIT Sherry Turkle traça um quadro do grau em que a vida de alguns jovens é afetada por esses comportamentos. Um de seus entrevistados, um jovem estudante, contou que digitalizava fotos de revistas para montar perfis falsos, os quais usava para empreender discussões extremamente críticas sobre ele mesmo nas redes sociais. Depois, ele esperava para ver quem, entre os seus contatos, “tinha odiado seus comentários” – hipótese comum e muito possível de ser concretizada dentro da subcultura extremamente ansiosa e insultante em que os jovens vivem, na qual o ostracismo digital é uma espécie de morte social. A despersonalização, no caso deste estudante, se vale da exploração da liberdade e do irrealismo digitais para esvaziar de sentido os valores centrais de uma vida: identidade social, capacidade de se relacionar de modo gentil, oportunidades para expressão individual sincera e compartilhamento de experiências.

Costumo dizer às pessoas que, a tecnologia é uma benção ou uma maldição em nossas vidas. Tudo depende de como a usamos. Hoje
em dia, todos nós somos capazes de satisfazer a maior parte de nossos instintos mais primitivos, de acordo com a nossa vontade, dentro do reino digital – e a maior parte de nós o fará, em algum momento. Porém, ao mesmo tempo, também precisamos ser mais do que meros objetos uns para os outros;
precisamos encontrar espaços virtuais e reais que nos aceitem “em pessoa”,
como parte de um grupo ou comunidade do qual se esperava civilidade. O anonimato não é um mal implacável, da mesma forma que saber o nome de uma pessoa não é garantia de seu caráter. O que devemos combater, propriamente, é a espécie de narcisismo que enxerga todas as relações na internet – sejam elas anônimas, dentro de um ambiente virtual ou entre amigos, no Facebook – como algo que não serve para nada além da satisfação dos nossos próprios desejos. Isso é, acima de tudo, uma questão sobre a força e a integridade de nossas comunidades, e sobre a capacidade que elas têm de associar um policiamento eficaz com o respeito por valores comuns: sobre a capacidade de autorregulação, sem deixar de recorrer à autoridade quando necessário. Em ambos os casos, é preciso estabelecer diretrizes. Seja na internet ou pessoalmente, devemos ser tão humanos, quanto os outros nos permitem ser.

21/07/2021

A autoridade do motor de busca


Em 1998, dois estudantes da Universidade de Stanford publicaram um artigo intitulado “Anatomia de um sistema de busca on-line hipertextual em larga escala”. Por trás desse resumo, está o que pode ser considerada uma das ideias mais importantes da era digital: como trazer à tona um novo princípio de discernimento, em meio ao universo assustadoramente crescente de depósitos virtuais de informação.

Como, se perguntavam os autores, seria possível aliar uma mídia “desregulamentada”, onde “qualquer um pode publicar o que quiser”, a resultados de busca genuinamente satisfatórios, dizendo aos usuários não apenas onde encontrar a informação, mas indicando também quais delas têm maiores chances de ser precisas e úteis?

A resposta que eles encontraram – e a crença que tinham de que esta resposta não apenas existia, mas podia ser dimensionada para englobar bilhões de documentos publicados – contribuiria profundamente para mudar o mundo ao longo das décadas seguintes.

Os autores do estudo eram Sergei Brin e Larry Page, e o que eles propuseram foi um produto batizado de Google – uma brincadeira com o termo matemático “googol”, que representa o número um seguido por uma centena de zeros.

Ferramentas de busca na internet, existiam desde o início dos anos 1990. No entanto, Brin e Page perceberam que poucas pesquisas haviam sido feitas no sentido de melhorar a qualidade dos resultados que essas ferramentas ofereciam. A novidade mais significativa que eles apresentaram surgiu da percepção de que a própria metodologia acadêmica de pesquisa oferecia uma solução para o problema.

No meio acadêmico, sabe-se há muito tempo que o número de vezes que determinado trabalho é citado por outros, fornece um retrato de sua credibilidade em uma área específica. Um trabalho de pesquisa citado posteriormente em centenas de outros trabalhos pode ser considerado, de forma evidente, detentor de uma credibilidade maior do que um trabalho que jamais foi citado.

Traçando um paralelo, Brin e Page concluíram que o número de vezes que o link de uma página da internet era repetido em outras páginas, fornecia uma percepção útil de sua importância ou qualidade – e, de certa forma, era um tipo de avaliação que poderia ser conduzida de maneira automatizada por um algoritmo suficientemente sofisticado.

O algoritmo esboçado no artigo foi batizado de “PageRank” – e existe até hoje, no núcleo, do que talvez tenha se tornado o serviço digital mais influente do mundo. O PageRank cresceu de forma expressiva, em termos de sofisticação, desde seus primeiros dias, e sua fórmula exata é um segredo corporativo muito bem guardado. O princípio que o orienta, no entanto, permanece o mesmo. Uma observação extremamente precisa em larga escala fornece a chave da mais valiosa das qualidades – a qualidade, propriamente dita.

Em vez de exigir que seus criadores avaliem a qualidade dos recursos disponíveis na rede, um algoritmo como o PageRank observa automaticamente como todo o mundo está usando e construindo a internet. As variáveis-chave incluem o número de links que apontam para uma página, o número de visitantes que ela recebe, a frequência com que é atualizada e o tipo de conteúdo que oferece. Acima de tudo isso, estão dispostos sofisticados índices que incluem o tipo de visitantes que a página recebe, por quanto tempo e quão profundamente eles interagem nela, a relação de autoridade de todos os outros sites conectados a ela e se existe algum tipo de comportamento suspeito, que indique que alguém está tentando melhorar seu desempenho de modo artificial.

No mundo digital, o que significa o melhor?

A história da análise de estatísticas cada vez mais avançadas desenvolvidas pelo Google e por outras ferramentas de pesquisa e a corrida armamentista contra aqueles que tentam fraudar esses resultados seriam contos fascinantes por si só. Ainda mais significativa, no entanto, é a mudança de cultura que eles ilustram. No período de pouco mais de duas décadas, inovações no processamento de conjuntos de dados, cada vez maiores, alteraram nossa percepção quanto ao que significa autoridade, talvez de forma mais extensa do que em qualquer outro período na história – e com isso mexeram também com a maioria de nossas ideias sobre valor cultural e intelectual.

A palavra “autoridade” apareceu pela primeira vez na língua inglesa no início do século XIII, derivada do francês arcaico, com conotações especificamente literárias. Um “auctorite”, como se dizia na época, era um texto no qual se podia confiar – e que, portanto, podia ser utilizado como base para argumentos culturais e teológicos. Textos desse tipo, por excelência, vinham da Bíblia, seguida pelos mais venerados autores clássicos e religiosos. Esses textos continham sua própria garantia de veracidade, e a forma mais elevada de aplicação acadêmica envolvia esmiuçar seus significados e colocá-los em prática. O respeito à autoridade não era simplesmente uma questão de hábito; era a base de todo um sistema político e intelectual. Com o tempo, a palavra “autoridade” passou a ser usada também para se referir ao indivíduo que se dedica à leitura e pode ser considerado um especialista em determinado assunto ou a alguém que, devido à posição que ocupava – um lorde, um rei, etc – merecia a obediência dos demais. Em ambos os casos, uma espécie de fé está embutida no ato de deferência: acima de tudo, a fé na ideia de que aquela deferência era um bem social e cultural.

O Iluminismo, a democracia e a cultura de massa dissolveram, há muito tempo, esse comportamento. Apesar disso, um pequeno grau de fé na especialidade permanece como parte integrante de nossa vida cultural, com as figuras espelhadas do crítico e do criador ocupando seu centro. Do lado de fora do reino empírico do método científico (que tem sido radicalmente transformado pelo poder de enormes conjuntos de dados), há muito tempo toleramos – e até mesmo requisitamos – pessoas cuja função é nos aconselhar sobre o que devemos ou não devemos gostar; que almejam ao mesmo tempo representar e educar o gosto do público, batendo de frente com o cânone de um determinado campo do conhecimento. Mesmo a mais refinada das críticas foi sempre apenas mais um fator diante de muitos outros. Há muito tempo sabemos quais livros são os mais vendidos, quais filmes tiveram a maior audiência, quais obras de arte atingiram os preços mais altos e quem conseguiu o maior número de votos. Entretanto, o que não tínhamos até pouco mais de duas década atrás era um empirismo de escala e de aparência radicalmente novas, adaptadas à era digital. Hoje, temos na ponta dos dedos acesso instantâneo a um tipo de concurso popular de autoridade, muito mais sutil e onipresente do que qualquer lista de mais vendidos: aquele adaptado a praticamente qualquer forma de pesquisa que pode ser feita, formas essas em constante mutação. Não existe praticamente nenhuma palavra ou frase, de qualquer língua conhecida, para a qual uma ferramenta de busca moderna não exiba e classifique pelo menos um resultado.

Graças a serviços como a Amazon, não existe praticamente nenhum produto – seja cultural ou comercial – que não apareça com seus números de vendas convenientemente classificados, desde um até muitos milhões, e com as avaliações e opiniões de pessoas que já o compraram, disponíveis a apenas um clique. Até hoje nos valemos de opiniões críticas e do embate entre elas. Porém, quando todos nos tornamos capazes não só de ter nossas próprias opiniões, como também de publicá-las abertamente, meras proclamações individuais de conhecimento sobre um assunto começam a parecer frágeis como porcelana. Pense no que significa, exatamente, procurar alguma coisa na internet. É muito fácil aceitar que informações como a altura de uma montanha ou a população de um país possuem um valor empírico. Contudo, questões como

Picasso foi o maior artista do século XX?

estão passando a ser vistas sob uma
ótica parcialmente empírica com uma frequência cada vez maior. Basta perguntar à internet, e as respostas do mundo inteiro serão depositadas na sua frente, classificadas por relevância. A informação agregada está na ponta dos dedos: não na forma de uma resposta simples, mas sim uma resposta definitiva à pergunta implícita

quais são todas as coisas que já foram ditas sobre Picasso ser o maior artista do século XX – e quais delas possuem maior autoridade?”.

Esta é exatamente o tipo de avaliação que passamos a solicitar aos críticos; e não apenas a eles, mas aos detentores de todo tipo de conhecimento, de editores a jornalistas, passando por educadores, cientistas e formadores de opinião. Durante séculos, era impossível que qualquer indivíduo possuísse, consumisse ou pesquisasse de forma significativa sequer uma fração do conhecimento do mundo. Portanto, sempre tivemos que recorrer a outros para nos aconselhar e selecionar materiais – e para determinar o que merece ser alocado em posição de destaque nos campos de registro permanentes. Hoje, o processo de seleção não mais acontece antes que algo seja enviado ao mundo. Ao contrário, tornou-se uma operação constante e terceirizada. Praticamente toda e qualquer coisa está sob os olhares do mundo inteiro e é peneirada não pelos formadores de opinião, mas pelo gosto do público. Sem dúvida, este é o espírito central da maior parte dos modelos digitais de negócio.

Em vez de selecionar primeiro e publicar depois, publica-se primeiro e posteriormente reage-se às escolhas feitas pelo próprio público – enfatizando incessantemente as coisas que conseguem arrebatar alguma audiência e dedicando poucos esforços às demais. Se isso representa uma crise de valores e de autoridade, é também, sob diversas formas, uma crise extraordinariamente benéfica: a penetração em fortalezas antes assustadoras. Existem, no entanto, duas áreas que merecem atenção especial daqueles que buscam mais do que simplesmente navegar pelos novos rumos da cultura: a intelectual e a econômica.

– No campo intelectual, a preocupação é com o achatamento: o desaparecimento da noção de excelência, em meio a uma cápsula de amadorismo e de autopromoção. Escritores com Andrew Keen argumentam que – como deixa claro o subtítulo de seu livro O culto do
amador:

como blogs, Facebook, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores”,

sendo cultura neste caso algo divulgado e protegido por competentes detentores, trabalhando em harmonia com intelectuais e artistas. Falando sobre temas que vão desde a publicação de livros e revistas até música, cinema e discursos políticos, Keen defende a ideia de que a difusão das tecnologias digitais está corroendo a capacidade do excepcional e do significativo de provocarem impacto público ou tornarem-se tema de discussão. Em vez disso, transitamos à vontade da mesma forma tanto pelo banal quanto pelo profundo – permanecendo mais tempo naquele que for mais fácil de digerir.

O argumento de Keen é uma nova versão de antigas preocupações quanto à democratização, em sentido amplo. Ao substituir o filtro do especialista pela escolha da massa, ele diz, a internet deu poder à turba humana: sufocando vozes discordantes ou excepcionais e deslizando sobre uma maioria passiva, com argumentos de fácil digestão e recorrendo à cultura popular. Acompanhado dessa crítica cultural vem o argumento econômico, que é assustadoramente familiar para qualquer um que teve contato com alguma empresa de mídia tradicional na última década – talvez mais recente e poderosamente articulado no livro do escritor Robert Levine, Free Ride [Livre acesso]. Com um subtítulo esclarecedor

– “Como os parasitas digitais estão destruindo os negócios culturais, e como os negócios culturais podem reagir”–,

o livro se debruça sobre a estrutura das “indústrias culturais” modernas e os danos causados aos seus modelos de negócios pelas tecnologias digitais.

As empresas de mídia tradicionais não estão em apuros porque não estão dando o que seus clientes desejam, elas estão em apuros porque não conseguem receber dinheiro por isso”.

Pode ser difícil questionar a abordagem digital de conceitos como “aberto” e “gratuito”, comenta Levine,

mas o que eles significam, na prática, é o privilégio da infraestrutura, ao custo de tirar dos criadores qualquer possibilidade de controle sobre o que fazem – muito menos de sobreviver a partir disso”.

Poderíamos nos ater a minúcias e discutir as estatísticas detalhadas do colapso da mídia tradicional. Contudo, poucas pessoas discordariam do fato de que a emergência das mídias digitais provocou danos imensos tanto a muitos modelos de negócios já existentes quanto a alguns pressupostos culturais.

A verdadeira questão em jogo não é exatamente o que está entrando em cena, mas a relevância disso. É nesse ponto que a tese de Levine se encaixa perfeitamente à de Keen. Do ponto de vista dos dois, a tecnologia digital transferiu tanto a influência social quanto econômica daqueles empenhados em conceber obras culturais e intelectuais para aqueles que detêm a infraestrutura pela qual essas mídias e esses conceitos fluem incessantemente. Da mesma forma que a autoridade na internet tornou-se incrivelmente apartada do conhecimento específico, parece que a produção cultural está sendo apartada do talento. Esta é uma conclusão que soa profundamente perturbadora a qualquer um que se importe mais com qualidade do que com quantidade – e que aponta para um dos paradoxos mais embaraçosos do mundo digital: os caminhos pelos quais a diversidade e a abertura ajudaram a aumentar, em vez de reduzir, a influência de um número reduzido de agentes. Se antes o número de objetos competindo pela atenção do público estava na casa de milhares, agora ultrapassa os milhões.

O ambiente digital é rico em novas oportunidades para qualquer um que ocupe um nicho suficientemente bem-definido: a “cauda longa” dos interesses das minorias. Entretanto, talvez o impacto mais notável dessa mudança de escala não tenha sido a diversidade, mas o crescimento de uma minoria cada vez mais influente que ocupa o topo. Da mesma forma que empresas como a Amazon, o eBay, o AliExpress puderam, por meio da internet, conquistar um domínio global praticamente inimaginável na era prédigital, a guerra de culturas e ideias é mais do que nunca dominada pelos poucos que conseguiram arrebatar com êxito a atenção da massa.

Existe algo extremamente darwiniano nesse tipo de competição. Veja o caso
dos livros, por exemplo. Se você tem um livro físico em mãos, você tem um objeto que tem uma única finalidade: um objeto projetado exclusivamente para exibir palavras a seus leitores. Se, no entanto, você estiver lendo o mesmo livro, só que na versão digital, em seu computador, ele está ala, disponível a um programa de computador que combina pulsos elétricos para torna-lo visível e possível a leitura. As palavras que aparecem na tela do seu dispositivo notebook, tablet ou smartphone, então elas estarão ocupando o mesmo espaço físico não apenas que todos os outros livros eletrônicos em sua biblioteca, mas também o mesmo espaço que cada
música, filme, notícias, blogs e jogos você usa.

Faz parte da natureza da era digital que essas coisas cheguem a nós de forma cada vez mais paralela ao meio tradicional. É uma força desenhada a partir da nova autoridade, baseada na popularidade. Ao que parece, apenas os fortes sobrevivem.

Mas, Se o nosso comportamento digital se resumisse a isso, então o mundo de
hoje seria sem dúvida assustador para aqueles que esperam fazer mais do que
simplesmente ser levados pela corrente. De qualquer forma, acredito que argumentos como os de Keen e de Levine devem ser interpretados mais como alertas do que como fatos inexoráveis – e que, enquanto muitos modelos tradicionais de negócio podem ser arrasados, nossa percepção consolidada do que significa excelência, espírito crítico e lampejo de criatividade não irá desmoronar tão facilmente.

Algoritmos são capazes de quantificar o comportamento humano em uma
escala sobre-humana. Aí está a fonte de sua utilidade e seu poder. Porém, esse
distanciamento da dimensão humana é também um de seus maiores defeitos – e um dos principais motivos pelo qual, desde a criação do Facebook, em 2004, e do Twitter, em 2006, os dois serviços somados conseguiram reunir mais de 3
bilhões de usuários.

As críticas de Andrew Keen à cultura digital de forma geral, e de seu potencial para a condescendência, a apatia e o sufocamento da verdade e da
excelência, são alertas aos quais devemos prestar atenção, sem dúvida. Mas, classificá-los como o real estado das coisas me parece, ao mesmo tempo, uma perspectiva pessimista e passiva demais – e uma leitura equivocada do potencial individual que continua a existir mesmo durante as maiores aglomerações virtuais.

Quando se trata de autoridade, e da noção de excelência definida pela
observação crítica, mais do que por análises estatísticas, não podemos ajustar o relógio de volta a uma era pré-digital de formadores de opinião vigiando – e moldando – o gosto popular. Entretanto, somos cada vez mais capazes de olhar adiante e espalhar esse discernimento para além dos monólitos das ferramentas
de busca e da generalização; de compartilhar não apenas bobagens, mas evidências de que outros valores, além da euforia da massa, podem fazer sentido não apenas para uma maioria, mas também para uma minoria.

Para dar um exemplo, foi inaugurada em 2011 uma nova ferramenta chamada Unbound Books, que oferece uma plataforma para que escritores lancem suas ideias diretamente ao público leitor. Bastante parecido com o modelo de garantias do século XVIII, de assinaturas prévias à publicação, se os autores do Unbound Books conseguirem convencer um determinado número de leitores a contribuir com uma quantia para o projeto, eles podem continuar a escrever e, por fim, concluir o livro – editado cuidadosamente pela Unbound Books e enviado diretamente para seus leitores. É um exemplo modesto, mas, ainda assim, representa um voto de confiança na capacidade de que o público digital seja algo mais do que uma turba.

Nas palavras de Noam Chomsky, um admirador de longa data do modelo Unbound, “a significância pode ser bastante relevante” – principalmente se essas estratégias representarem a forma dos negócios que estão por surgir, e de modelos de negócios em que a lucratividade não for inimiga da qualidade. Em todos esses episódios de investimento em cultura e compartilhamento, as virtudes essenciais são confiança e respeito: os pilares de uma autoridade conquistada em uma época de igualdade. Mais de quatrocentos anos atrás, o Hotspur de Shakespeare já conhecia o valor da reputação, em uma era em que a palavra de um homem era a garantia do seu caráter. Ao longo dos séculos seguintes, escritores ousados ajudaram a construir culturas literárias de alta e de baixa qualidade da mesma forma, graças a um assíduo cortejo ao público.

Hoje, estamos repassando essa lição. O mundo está cheio de especialistas como nunca esteve antes. Mas tanto eles quanto seu público foram recentemente postos em igualdade de condições no desafio de promover a excelência propriamente dita: dependem da confiança um no outro e não podem confiar em qualquer noção de autoridade certificada por uma instituição ou um cargo mais do que naquela baseada no conhecimento profundo do campo em questão. Econômica e socialmente, é uma época de dificuldades para quem pretende se dedicar à cultura da forma como ela foi concebida. Entretanto, precisamos mais do que nunca ser capazes de distinguir – e aprender – os truques que nos permitirão fazer isso de forma conjunta.

05/07/2021

O custo do touch & play


Em 2019 tive a oportunidade de conhecer a região do Vale do Silício – Califórnia e ver as sedes de empresas que constantemente estão na tela do meu smartphone.

Hoje, quando olho para o Google, no meu navegador, consigo imaginar um lugar, pessoas, histórias que se sobrepõe à virtualidade dos dados. Consigo imaginar o edifício, pátios, cantinas, etc. e as pessoas que trabalham duro, executando seus projetos.

Alguns pontos são bem comuns para quem trabalha em grandes empresas de tecnologia, outros pontos, me dão a sensação de algo muito paternalista. Não vou fazer críticas… A baía de São Francisco, cercada por autoestradas e montanhas distantes corroboram para o positivismo. San Jose, Santa Clara, Palo Alto, Mountain View, Cupertino, Sunny Valley, San Mateo, São Francisco, respiram a tech cultura e um incansável modernismo que inspira as necessidades e os caprichos dos usuários, com elegâncias incessantemente ajustadas para se adaptar a qualquer coisa e a qualquer pessoa. Também existe uma lógica de negócios agressiva associada a tudo – todas as high Techs, são obstinadas por catalogação e análise de dados, e para a estratégia enormemente lucrativa de associar propaganda a termos, produtos e serviços.

Para mim, assim como para muitas outras pessoas, as high Techs do Vale do Silício, são empresas cujos valores estão voltados para a simplicidade, a eficiência e a consistência; e eu aproveito tudo isso da melhor forma possível; ainda assim, por trás da maravilhosa mecânica algorítmica, existem pessoas brilhantes, parciais e imperfeitas, assim como em qualquer outro lugar. Existem discussões e sentimentos controversos sobre projetos; problemas conhecidos e frustrações.

Acho que nem os funcionários mais geniais das high Techs levam em consideração a formidável obra da tecnologia que carregam em seus bolsos. Ao manusearmos algo tão complexo e compacto como um smartphone, é difícil imaginar as cadeias de fornecimento e de
manufatura que o trazem à luz:

  • A mineração de metais para os circuitos, baterias e processadores;
  • A destilação do petróleo para obtenção de plásticos de alta performance;
  • O trabalho braçal e a engenharia de programação;
  • O design, os protótipos e as patentes.

Para as pessoas que olham para o smartphone como um objeto que existe apenas ali, como uma ferramenta de pesquisa, aplicativos e câmera, fica ainda mais difícil de entender.

Nossos hábitos de tratar aparelhos digitais como se fossem naturais ou inevitáveis, nos levam a situá-los além da história e do erro humano. No Google, na Amazon, na Apple, na Adobe, cada bit é fruto de trabalho humano tanto quanto uma calça jeans ou uma pilha Duracell. E por trás de suas existências, há contextos humanos, culturais e históricos.

Como o escritor Jaron Lanier ressaltou em seu livro Gadget – Você não é um aplicativo! mesmo algo aparentemente simples, como o armazenamento de dados, depende de formatos e dispositivos tecnológicos particulares. Um livro, um filme ou uma música salvos como um arquivo de computador não são um registro físico: sem o software e o hardware adequados para convertê-los em som e imagem, eles não servem para nada.

Ter acesso a essas tecnologias nunca foi tão fácil. Apesar disso, compreendê-las se torna cada vez mais difícil; um processo do qual os fabricantes estão cada vez mais cientes, decididos e até obstinados, explicitamente a encorajar a venda de dispositivos e serviços que funcionam assim “touch and play”, com pouca margem para os usuários personalizem suas próprias experiências ou que enxerguem além dos pixels na tela, para entender o que acontece lá dentro.

Vender conveniência e segurança fazem parte do encanto que esses dispositivos provocam. Abrir a caixa de um smartphone novo, ligar e usar diretamente, levou a perda de algumas formas de controle; que os usuários aceitam muito bem, como sendo preço a pagar – mas os usuários estão realmente cientes do preço que está sendo pago? A relação hardware, software e usuário de smartphone, não é clara e tão pouco difundida.

  • Intermináveis páginas não lidas de Contratos de Licença do Usuário Final listam os direitos que estamos repassando quando usamos a maioria dos serviços;
  • Contratos de compra especificam que muitos produtos digitais não pertencem de fato a seus compradores, mas estão apenas sendo cedidos;
  • Em ambos os casos, se o serviço ou o suporte apropriados forem revogados, tudo o que sobra é informação inútil e inerte.

Desvendar o significado desses contextos é um importante desafio, em última instância porque ele pode obstruir de modo significativo a rotina casual de utilização simples de produtos e serviços.

Vale lembrar, no entanto, que, a não ser que nos debrucemos atentamente sobre as intenções e limitações escondidas em nossas ferramentas, podemos esperar apenas pouquíssimas melhorias e cada vez mais abusos.

Como John Naughton, professor de compreensão pública da tecnologia da Open University, escreveu em um artigo, publicado no The Observer,

ao utilizar serviços ‘gratuitos’, é preciso aceitar que você (ou, mais especificamente, a sua identidade) é o produto”.

Não existe almoço grátis, nem mesmo na internet.

Entender os problemas e os potenciais das tecnologias é se tornar mais forte. Podemos estar vivendo em uma era na qual serviços e dispositivos parecem mais próximos de uma estrutura ecológica do que meramente mecânica – e isso pode fazer com que seus fabricantes exijam que os tratemos dessa forma – mas a única natureza que moldou essas tecnologias foi a nossa própria. Se não formos capazes de compreender as histórias e complexidades por trás desse cenário em constante mutação que é o mundo digital, jamais alcançaremos aqueles que o construíram – nem suas críticas, seus avisos, propagandas e alternativas.

É provável que você não consiga imaginar uma alternativa ao Facebook da noite para o dia, ou uma loja virtual capaz de superar a Amazon. Mas você pode aprender a usar cada um deles de uma forma um pouco melhor – e a prestar atenção naquilo que ninguém pode fazer por você.

26/06/2021

Humanos versus Máquinas


No início dos anos 2000 poucas pessoas poderiam imaginar que as mensagens de texto se tornariam o centro de uma cultura onipresente de uso da Internet via smartphones e tablets. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2018, cerca de 24,3 milhões de crianças e adolescentes, com idade entre 9 e 17 anos, são usuários de internet no Brasil, o que corresponde a cerca de 86% do total de pessoas dessa faixa etária no país.

Este percentual é mais alto do que a média da população em geral [conectada], que está em torno de 70%. Isso mostra que crianças e adolescentes são um público bastante conectado à rede”,

disse Fabio Senne, coordenador de projetos de pesquisas do Cetic.br. Segundo ele, há três anos o uso da internet por esse público era 79%.

Há um incremento constante no percentual de usuários. E isso tem a ver também com as faixas etárias. Quando se chega na faixa entre 15 e 17 anos, esse percentual é ainda maior que os 86%”.

Esses números são apenas do público adolescente/jovem do Brasil. E esse público faz uma pressão por conteúdos simples, direto e instantâneo, e as mensagens de texto são a ferramenta perfeita, já desenvolvida para uma era imersa em informação, visto que não existe forma de interação digital mais simples que suas meras letras e números.

Escrita, editada e reescrita no ritmo do remetente, a aparência final de uma mensagem de texto não deixa transparecer nada de seu
processo de produção: hesitações, deslizes, atos falhos ou distrações. É, ao mesmo tempo, instantânea e atemporal, necessitando de atenção, mas sem exigi-la. Requer praticamente o mínimo possível de todos os envolvidos.

importância das mensagens de texto evidencia um fato muitas vezes
menosprezado: de que as possibilidades teóricas da tecnologia são em último caso, menos importantes do que conveniência e controle. Se existe um sinal aqui, é o de que nossa necessidade crescente por conveniência envolve o risco de
sacrificarmos o controle de uma forma diferente: nossa capacidade de exigir
mais do que o mínimo possível tanto de nós mesmos quanto dos outros.

Na produção de cinema, Tudo pelo poder, dirigido por George Clooney, membros da equipe de uma campanha presidencial são constantemente interrompidos por mensagens de texto e e-mails – realidade dos nossos tempos – e que, cada vez mais, invade todos os setores da sociedade. Milhares de mensagens de texto, não respeitam qualquer divisão de tempo e espaço que se queira impor. Como no filme, podemos acabar descobrindo que estamos colocando as “necessidades instantâneas e imediatas” acima de nossas próprias.

Já comentei sobre a importância de entender os momentos conectados e os momentos não conectados, como duas importantes fontes de recursos para nossa vida. É algo fácil de ser dito, mas bastante difícil de pôr em prática. De qualquer forma, estabelecer diferentes tipos de tempo para diferentes modos de ser é fundamental em muitas circunstâncias: não apenas em termos de se desconectar de todas as mídias, mas em perceber as diferenças entre dois desafios distintos – A melhor forma de utilizar um sistema tecnológico e a melhor forma de aproveitar a própria vida.

Vamos falar sobre uma das palavras mais repetidas de nossa era: “multitarefa”. Nesse termo, está embutido um conjunto de pressupostos que fundamenta muitas vidas modernas – a crença de que uma das maiores conveniências da tecnologia é a capacidade de executar várias tarefas simultaneamente, e que por causa disso só estamos em nossa melhor e mais eficiente forma quando conseguimos unir diversas correntes de atividade em uma.

Em março de 2007, esse pressuposto foi tema de um artigo do New York
Times. Com o título “Diminua o ritmo, bravo indivíduo multitarefa, e não leia este artigo no engarrafamento”, que revela a essência do argumento, o texto oferece uma conclusão indiscutível, em forma de conselho, e foi assinado pelo cientista cognitivo David E. Meyer, diretor do Laboratório de Cérebro, Cognição e Ação da Universidade de Michigan. Quando se trata de qualquer operação não corriqueira,

executar diversas tarefas ao mesmo tempo irá desconcentrá-lo,
aumentando suas chances de erro. (…) Adiamentos e interrupções são um mau negócio quando se trata de nossa capacidade de processar informações”.

Na realidade, o artigo sugere que a própria ideia de ser multitarefa é uma espécie de mito – afirmação confirmada por diversas pesquisas feitas por psicólogos, neurocientistas e sociólogos tanto antes quanto depois da publicação do artigo. Ao contrário das máquinas, nós humanos não temos a capacidade de dividir nossa atenção de maneira eficaz por entre múltiplas tarefas complexas. Em vez disso, nos deslocamos rapidamente de uma para outra, de forma que não estamos exatamente executando as operações simultaneamente, mas constantemente dividindo nossa atenção em pequenas porções.

Quando se trata de mensagens de texto e e-mails, isso funciona muito bem pela maior parte do tempo. Porém, se é preciso alternar essas “porções” de atenção com qualquer coisa que exija um esforço mental contínuo, nosso desempenho cai muito e rapidamente.

Por exemplo: de acordo com uma pesquisa da Microsoft, os funcionários levam em média 15 minutos para retomar “tarefas mentais complexas” depois de responder a um e-mail ou a uma mensagem de texto. Assim que são interrompidos, eles tendem a se distrair respondendo a outras mensagens ou navegando na internet.

Já em 1998, a escritora americana Linda Stone cunhou o termo

atenção parcial contínua

para descrever a noção de acompanhar informações de diversas fontes, ao mesmo tempo, em nível superficial. Essa ideia de uma atenção rasa e oscilante é provavelmente a descrição mais precisa do que muitos de nós fazemos a maior parte do tempo, em vez de sermos multitarefa: executamos uma simples operação mental de deslocamento em meio a uma enorme gama de fontes de informações, a nenhuma das quais conseguimos dar a atenção individual que uma verdadeira “tarefa” requer.

Monitorar múltiplas fontes de informação pode ser extremamente rentável em determinadas circunstâncias: quando estamos buscando dados, acompanhando os desdobramentos de um evento, coordenando um grupo de pessoas ou simplesmente procurando de forma livre por inspiração ou diversão. É uma habilidade necessária para vidas saturadas de informação. Contudo, isso não é o mesmo que dedicar integralmente sua atenção a uma atividade complexa – ou permitir que você se envolva profundamente com o lugar onde está e com as pessoas que estão ali com você. Multitarefa não é algo que a nossa mente realize com facilidade. Você consegue focar no trânsito e digitar, ao mesmo tempo? Não tente isso por favor.

Quando estou me deslocado, de ônibus, trem ou táxi, vou checando meus e-mails, escrevendo mensagens de texto, twitando e ouvindo música, estou ao mesmo tempo presente e ausente ali. O mundo e as pessoas ao meu redor estão em segundo plano em relação ao que acontece na minha tela. Minha atenção está não só em outro lugar, mas fragmentada e distribuída por diversos espaços.

Um novo tipo de comportamento surge a partir dessa noção de atenção parcial. Ligados em nossos fones de ouvido, digitando, falando ou até mesmo filmando o que acontece ao nosso redor, interpretamos um papel no drama da vida digital: o do cidadão autossuficiente, protegido das entediantes restrições da realidade pelos sons, imagens e amigos ao alcance de nossas mãos. Consideramos esse comportamento de uma forma legítimo porque ele está integrado à lógica da vida moderna: é um isolamento necessário para equilibrar nossa ininterrupta disponibilidade. É essencial representar esse papel esporadicamente. Contudo, a forma como ele pode passar de um recolhimento temporário a um modo constante de ser, traz à tona muitas questões importantes. Que tipo de atenção merecemos daqueles à nossa volta, ou devemos a eles? E que tipo de atenção nós mesmos merecemos, ou precisamos, se somos capazes de ser “nós” no sentido mais profundo possível?

Esta é uma questão que envolve não apenas as ações que buscamos
executar de maneira simultânea, mas também que parcela de nossa vida estamos preparados para delegar às tecnologias digitais – e até que ponto estamos dispostos a terceirizar não apenas a comunicação, mas também um crescente número de aspectos que nos cercam.

A memória.

Em um dispositivo digital, “memória” é uma sequência binária que codifica uma informação. Limitada, mas incrivelmente vasta, a capacidade média da memória de um computador atual alcança muitos bilhões de bits digitais: suficiente para armazenar bibliotecas inteiras, milhões de imagens, semanas de filmes.

Esse tipo de armazenamento digital é, de certa forma, superior à memória humana. Memórias de computador oferecem um registro completo, confiável e objetivo do que quer que seja alocado nelas. Elas não perdem capacidade com o passar do tempo e não se enganam. Podem ser compartilhadas e replicadas quase que infinitamente, sem perda, ou ser completamente apagadas, se assim desejarmos. Podem ser totalmente indexadas e rapidamente vasculhadas.
Podem ser acessadas a distância e transmitidas para o outro lado do mundo em uma fração de segundo, e seus conteúdos podem ser rearranjados, aumentados e atualizados de maneira ilimitada. De números de telefone e fotografias a documentos e diários, mantemos uma quantidade cada vez maior de memórias importantes de nossa vida dentro de máquinas: de informação bruta a momentos entre amigos e família.

Já a memória humana, em termos de computação, é bastante pobre: e é em termos de computação, que cada vez mais classificamos muitos aspectos de nossa mente. De forma muito previsível, nós as julgamos ultrapassadas e até mesmo desnecessárias. Chamar nossa memória de “memória”, comparada a computação, corro o risco de provocar uma confusão fundamental em relação ao que memórias significam para mim enquanto ser humano – e aos aspectos do eu e da lembrança que não podem ser terceirizados nem mesmo pela mais sofisticada das máquinas. Para dar um exemplo, nem mesmo o mais completo banco de dados possui algo que todo ser humano neste planeta tem, indiscutivelmente: uma história. Somos produto de nossa natureza, mas também de experiências únicas que nos remodelaram ao longo de nossa vida. Ao mesmo tempo que podemos identificar as áreas do nosso cérebro responsáveis pelas memórias de curto e de longo prazo, não existe nenhum módulo de memória mecânica dentro de nós.

Apesar da grande esperança da ciência, a mente humana não pode ser compartimentada como uma máquina. Não há dúvida de que é impossível haver algo como a memória humana sem que haja também raciocínio, sentimento e individualidade. O que vivenciamos, fazemos e aprendemos se torna uma parte de nós. Internalizamos acontecimentos, pessoas e ideais; refletimos, mudamos de ideia e temos
lembranças equivocadas, mantendo nosso passado como uma forma contínua de nosso presente. Não podemos terceirizar nossas verdadeiras memórias, da mesma forma que não podemos terceirizar nossos sentimentos e crenças – nem podemos separá-los de “nós”.

O escritor Nicholas Carr escreveu em seu livro A geração superficial: o que a internet está fazendo com o nosso cérebro, de 2010:

O que dá à verdadeira memória sua riqueza e seu caráter, para não dizer seu mistério e sua fragilidade, é a contingência. Ela existe no tempo, mudando conforme o corpo muda. (…) Quando passamos a usar a internet em substituição à memória pessoal, evitando o processo interno de consolidação, corremos o risco de esvaziar nossa mente de suas riquezas”.

Cada computador e cada dispositivo podem ser únicos e possuir uma história única, mas não é a singularidade deles que faz com que sejam o que são. Na maioria das vezes, eles funcionam apesar de suas histórias, como qualquer pessoa familiarizada com os sintomas de uma redução no desempenho nos sistemas operacionais sabe. Para uma máquina, o passado é um fardo obstrutivo. Classificar informação de maneira organizada e manter o setor operacional limpo é o melhor a fazer. É uma ótima lição para o reino do trabalho e da produtividade – mas também exatamente o oposto do necessário para se desenvolver uma mente humana bem abastecida.

Quando observamos a natureza e a qualidade de nossas interações com as pessoas à nossa volta, vemos que – e-mail, mensagens de texto, atualizações de status, redes sociais – têm o poder de nos privar daquilo que significa prosperar como ser humano: histórias compartilhadas, profundidade de sentimentos, respeito pelas singularidades alheias.

Apesar das previsões pessimistas de críticos como Carr, isso não precisa ser a máxima verdade. Porque o que está em jogo aqui não são apenas diferentes modos de atenção e de memória, mas diferentes modos de pensar que se situam entre ambos: um campo no qual nós, humanos, mostramos uma notável capacidade para a adaptação e para assumirmos a devida responsabilidade pelo que se passa em nossa cabeça.

Vamos considerar agora o campo emergente de estudos conhecido na ciência da computação como “engenharia de memória”. Projetada para cuidar da enorme enxurrada de informação que deixamos para trás, sua proposta não é a agregação bruta, mas sim o desejo de humanizar esses dados – e convertê-los de material eletrônico inerte em algo mais esotérico, diferenciado e que possa ser percebido de forma mais profunda.

O programador Jonathan Wegener, ajudou a inventar um serviço que chama a atenção para coisas que ocorreram em nossos históricos digitais exatamente um ano atrás: batizado de PastPosts, ele usa o Facebook para nos “trazer de volta” a atividades que ocorreram há exatamente um ano pelas nossas contas. Funcionando sob o slogan

O que você fez neste mesmo dia um ano atrás no Facebook?”,

é uma ideia simples, mas que evidencia quão fácil pode ser dar forma à história de um indivíduo por meio de um registro eletrônico indiferente. Dados, no fim das contas, são inertes apenas se deixarmos que permaneçam assim.

Eu vejo as páginas dos meus amigos no Facebook, seus sites, até mesmo seus avatares nos video games, e não enxergo nada anti-humano neles, mas sim a constante reafirmação do individual. Terminar um relacionamento por meio de mensagem de texto pode ser uma atitude cruel e covarde, mas o anúncio do nascimento de um filho em uma rede social, seguido por centenas de desejos de coisas boas por parte de amigos e familiares, não diminui ninguém.

Da mesma forma, um avanço positivo é o surgimento, na internet, de aplicativos e conselhos que ajudam a manter o foco em uma única tarefa, com dispositivos que vão desde um programa capaz de suspender a conexão com a internet por um determinado tempo até processadores de texto do tipo “tema escuro”, que reduzem a tela a um fundo preto e às palavras que estão sendo digitadas.

Entretanto, talvez o estado mental mais difícil de ser desenvolvido na era digital, seja bem diferente tanto da rápida reflexividade da atenção parcial quanto da concentração absoluta da atenção pura: os devaneios amorfos associados ao impulso criativo e à paz interior.

Os tipos de pensamento que podem surgir em momentos “vazios” de nossa vida – em uma viagem de ônibus, durante o banho, olhando pela janela enquanto viramos a página de um livro – são impossíveis de ser reproduzidos não só por meio de um dedicado planejamento digital, também por sessões de desconexão cuidadosamente agendadas. São momentos que nos assaltam, na maior parte das vezes, quando estamos desligados do tempo. São idiossincráticos, individuais e fruto da sorte – uma espécie de liberdade, nas palavras do filósofo iluminista britânico John Locke em seu Ensaio acerca do entendimento humano,

quando as ideias flutuam em nossa mente, sem qualquer reflexão ou percepção do entendimento”.

– assumir o controle e entender a natureza de nossa atenção –, esta frase indica que devemos dar atenção especial a alguns pontos:

  • Todos os sistemas e estratégias necessitam de algum espaço para o excêntrico.
  • Para que os pensamentos sejam inteiramente nossos, precisamos nos libertar não apenas do mau uso de determinadas ferramentas, mas também de nossas exigências e estratégias mais refinadas.

Enquanto escrevo este post, percebo quanto isso está presente. Quando escrevo regularmente usando papel e caneta, opção que faço pouco ultimamente, as palavras fluem como se já existissem com meia frase de antecedência em relação à ponta da caneta.

A lentidão mecânica da escrita me ajuda a senti-las tanto como sons e objetos quanto ideias, proporcionando um prazer sinestésico e estético conforme se apresentam. Escrever em um caderno, ajuda a mesclar processos de escrita e divagação, normalmente de forma inesperada: sentenças e frases surgem de repente, e sou obrigado a pensar até na grafia correta, na acentuação, etc; e depois de momentos de devaneio.

Talvez seja esse também o motivo pelo qual eu também faça anotações nas margens dos livros de papel. Peguei um livro antigo, da época da faculdade. Seus textos, margens e bordas todos marcados com anotações das falas e observações dos mestres. Momentos em que minhas ideias entravam em foco completo, estão marcados por linhas de garranchos.

Essas ações – ler com uma caneta na mão, andar com um caderno na mochila – permitem que mente viaje. Que minhas ideias sejam parte de um processo requintado, mas ao mesmo tempo necessário, para transformar meu trabalho em algo que seja ao mesmo tempo rigoroso e propriedade exclusiva minha.

Minha escrita no computador, ao contrário, é marcada mais por releituras pela estruturação de parágrafos e argumentos: disciplinas essenciais, mas muito mais vulneráveis às tentações da atenção parcial e da navegação na internet.

Digitando em meu computador, fica fácil permitir que essas distrações
empurrem um ansioso arsenal de ideias para áreas distantes da minha atenção. Enquanto eu estiver editando, digitando, fazendo pesquisas e checando e-mails pouco importantes, posso permanecer em negação. Então, me afasto da tela e os assuntos com os quais preciso me preocupar de verdade começam a emergir.
Meus métodos pessoais de trabalho não são um modelo ou um ideal. Às
vezes eles não funcionam nem comigo, que dirá com outras pessoas. Mas eles sugerem, eu espero, algo que pode ser feito na prática para evitar que a lógica das ferramentas digitais se sobreponham à lógica do nosso pensamento: o modo como diferentes tipos e texturas de tempo podem nos ajudar a nos conhecermos melhor, em vez de nos restringir a um único comportamento. Os cadernos e as anotações do próprio autor: uma licença semilegível para deixar a atenção vagar.
Devemos ser capazes de nos adaptar às circunstâncias. Mas também
precisamos adaptar nossas circunstâncias a nós mesmos, fazendo um esforço para que elas se ajustem ao grande espectro de nossa observação, nossos pensamentos e nossas emoções. Isso inclui a capacidade de dividir nossa atenção; ou então de nos dedicarmos inteiramente a uma ideia, ou a uma pessoa em detrimento de todas as outras. Porém, é preciso que haja tempo e espaço para outras liberdades – e para que coloquemos em prática métodos de trabalho que não precisam de nenhuma justificativa além do fato de que funcionam para nós.

Conectados versus Desconectados


Na edição de agosto de 1921 da revista americana The Wireless Age, foram dedicadas 11 páginas a descrição de uma luta de boxe que ficou conhecida como “a batalha do século”. Era a disputa do título mundial dos pesos pesados que havia acontecido no mês anterior, na cidade de Jersey, em que o americano Jack Dempsey derrotou por nocaute, no quarto round, o desafiante francês Georges Carpentier.

Este evento arrecadou mais de um milhão de dólares com a venda de ingressos. Mas não foi esse o motivo pelo qual a The Wireless Age deu tanta atenção para o evento. O dia 2 de julho de 1921 também entrou para a história por ter sido a primeira vez que o número de ouvintes de um programa de rádio superou o número de pessoas presentes em um evento de grande porte. Noventa mil pessoas lotaram a arena da cidade de Jersey. Porém, pelas contas da revista, “uma multidão – não menor que 300 mil pessoas – tensas e ansiosas” acompanhou a luta a distância.

Isso foi possível graças, basicamente ao locutor do evento, J. Andrew White ter disponível uma linha telefônica, à mão, no local do evento e falar com um outro locutor, na estação transmissora, e era a voz deste que viajava pelas ondas de rádio.

Graças à Amateur Wireless Association, Dempsey vs. Carpentier, em julho de 1921, forneceu um ponto de inflexão na história da mídia. A revista estava plenamente ciente do poder daquele fato:

Um recorde (…) e o início de uma nova era. Enquanto os olhos do mundo todo aguardavam o lançamento da tradicional palavra impressa
para contar a história – o rádio contou-a pela voz! Instantaneamente, pelos ouvidos de um público ansioso, um evento internacional foi ‘ilustrado’em todos os seus emocionantes detalhes. (…) O apelo à imaginação não tem fronteiras. Previsões para o futuro agora serão o tema de uma especulação prazerosa, estimulante e praticamente infinita.”

Um século depois, pode-se dizer com segurança que mesmo a mais inventiva dessas especulações foi superada. Hoje, mais de 4 bilhões de pessoas têm acesso à internet, e mais de 7 bilhões estão conectadas umas às outras via telefone celular. A audiência de programas ao vivo de notícias e de esportes atinge constantemente a casa de centenas de milhões. Atualmente, mais da metade da população mundial está quase que permanentemente acessível por meio de alguma forma de conexão digital em tempo real. Esses são números para serem observados com espanto. No entanto, depois de pouco mais de duas décadas do presente século começamos a passar por outro momento histórico das comunicações: dessa vez relacionado não com números absolutos, mas com o tempo propriamente dito.

Em 1999, de acordo com uma pesquisa realizada com mais de 2 mil norte americanos entre 8 e 18 anos, conduzida pela Kaiser Family Foundation, os jovens nessa faixa etária usavam algum meio de comunicação por cerca de 6 horas e 20 minutos ao dia.

A pesquisa afirmava que, a vida de crianças e jovens estava próxima da “saturação” – isso significava que os pesquisadores que analisaram os resultados não conseguiam encontrar mais nenhum espaço livre para ser gasto com qualquer tipo de mídia. Parecia que a humanidade estava atingindo um patamar intransponível em termos da quantidade de informação que era possível consumir desde as primeiras horas do dia – uma conclusão fundamentada pelo aumento de apenas 2 minutos, em relação ao primeiro resultado, quando a pesquisa foi repetida com jovens da mesma faixa etária em 2004.

A fundação repetiu a pesquisa mais uma vez, em 2009, e para surpresa de todos descobriu que o tempo total de uso de mídias entre jovens de 8 a 18 anos agora havia aumentado em mais de vinte por cento, para quase 7 horas e 40 minutos diários. Se o uso de dispositivos portáteis fosse levado em conta, a exposição total chegava à marca de 10 horas e 45 minutos por dia.

Esse foi um resultado extremamente impressionante. Considerando que os jovens necessitam de 8 a 9 horas de sono por noite, os números de 2009 elevaram o tempo de uso de mídias para metade das horas em que estão acordados – isso sem incluir qualquer mídia utilizada para trabalhos na escola, em vez de lazer. A televisão ainda estava em primeiro lugar, como ocorreu durante meio século, com 3 horas e 40 minutos por dia. Mas, de longe, a novidade mais importante foi o uso de smartphones para o consumo tanto de mídias tradicionais como novas: para assistir a programas de televisão no ônibus, a caminho da escola, para enviar mensagens de texto e conferir o Facebook enquanto se ouvia música e checava e-mails.

Mais de uma década depois da última pesquisa, o consumo de mídia passou da saturação das horas de lazer a algo muito mais significativo: estamos em uma fase de completa integração à rotinas midiáticas em praticamente todas as nossas atividades.

Conforme concluiu um artigo semelhante, sobre os hábitos de consumo de mídias, publicado em novembro de 2010 pela POLIS de Londres, a maior parte dos jovens que vive no mundo desenvolvido não fica nunca sem acesso ás mídias e esse consumo se dá por principalmente por smartphones e tablets.

Um estoque pessoal e portátil de músicas, vídeos, jogos, aplicativos e serviços de redes sociais está sempre à mão. Os padrões de comportamento estão se transformando em um ritmo jamais visto, nem mesmo com o início das transmissões de rádio na década de 1920 e de televisão na década de 1950. Porém, o desenvolvimento mais importante de todos, a meu ver, está relacionado com um tipo diferente de padrão: não apenas com nossos hábitos, mas com o que consideramos nosso “estado de consciência” padrão.

Hoje, em nossos dias, pela primeira vez, é correto dizer que faz parte da rotina da maior parte das pessoas estar “conectado” a pelo menos uma forma personalizada de mídia. Enquanto que, há um século atrás, uma transmissão ao vivo de rádio era considerada quase um milagre, hoje é comum passar a maior parte do tempo em que estamos acordados conectados ao nosso próprio “link ao vivo” com o mundo. A questão mais óbvia que se segue a essa conclusão é de natureza pragmática:

O que vem depois disso?

Em curto prazo, a resposta mais óbvia seria mais uso de mídia, por mais tempo e em mais lugares. Entretanto, se quisermos prosperar em longo prazo, nesse novo mundo conectado, acredito que precisamos começar a pensar de outra forma sobre os diferentes tipos de tempo em nossa vida. Os momentos em que não estamos utilizando algum tipo de mídia digital não apenas deixaram de ser nosso estado padrão; eles são também algo que não conseguimos vivenciar sem que explicitamente nos planejemos para tal.

Se quisermos aproveitar o máximo tanto do mundo à nossa volta quanto uns dos outros, precisamos compreender que agora existem fundamentalmente duas formas distintas de se fazer parte deste mundo: os momentos em que estamos conectados e os momentos em que estamos desconectados.

Simplesmente depreciar um dos dois não serve para nada, pois cada um representa um conjunto diferente de possibilidades para o pensamento e a ação. Em vez disso, devemos aprender a nos perguntar – e ensinar nossos filhos a se perguntarem – quais aspectos de uma tarefa, e do viver, são melhor servidos por cada um. E precisamos encontrar formas de efetivamente consolidar ambos em nosso estilo de vida.

As maiores vantagens de estamos conectados podem ser facilmente enumeradas. Conectados, temos velocidade; podemos pesquisar e aplicar a maior parte da sabedoria reunida pela humanidade – bem como fofocas e palpites – em questão de minutos; estamos a apenas alguns segundos de distância do contato com milhares de pessoas. Possuímos poderes divinos e estamos nos especializando cada vez mais no uso deles. Pense no que pode ser obtido em apenas alguns minutos de navegação pela Wikipédia, ou numa busca no banco de livros de copy right livre digitalizados pelo Google. Essa pesquisa possui velocidade e amplitude muito além dos sonhos mais ousados que qualquer acadêmico teria, apenas meio século atrás, e agora ela não apenas existe, como também está ao alcance de praticamente qualquer cidadão moderno. Já estamos tão distantes da época da alfabetização não digital, quanto os leitores estavam da era pré-Gutenberg, quando possuir e ler livros era privilégio de uma elite.

Já, quando falamos de estar desconectados dessas mídias em tempo real, nossa originalidade e nosso rigor podem entrar em cena de uma forma diferente e bastante antiga: nossa capacidade de delegar, de tomar decisões, de agir por iniciativa própria; de pensar sem medo de copiar outra pessoa ou a sensação constante de ter uma plateia nos assistindo o tempo todo. Estamos então, sozinhos com nós mesmos, ou realmente presentes uns diante dos outros, de forma completamente distinta de qualquer momento em que estejamos conectados. Isso é igualmente verdade tanto no campo pessoal quanto no profissional.

Em fevereiro de 2011, em uma palestra na London School of Economics, a escritora Lionel Shriver, falou sobre o impacto das novas tecnologias nas formas de escrever e de pensar. Ela descreveu a experiência de escrever

com uma multidão dentro do seu estúdio

– ou seja, escrever diante das reações do público em tempo real, instantânea e amplamente visíveis – e a pressão que isso gera tanto no sentido de censurar a si mesmo quanto de tentar agradar aos outros.

“Descobri que eu precisava me proteger das opiniões alheias”,

ela comentou e ilustrou como era escrever uma coluna para um jornal com seu marido lendo o que ela estava escrevendo:

“Você não pode escrever isso”,

ele comentou em determinado momento,

“veja só como reagiram a isso pela internet da outra vez”.

É praticamente impossível dissociar esse desejo de protegermos a nós mesmos da ideia de saber, em primeiro lugar, o que é este “eu” que queremos proteger…

Os avanços que as tecnologias deste século já estão começando a promover nos pensamentos e nas ações coletivas são imensuráveis. No entanto, mais do que nunca, está claro que todos nós precisamos de momentos em nossa vida para ter nossas próprias ideias, sem distração, interrupção ou respostas imediatas, mesmo das pessoas com as quais mais nos importamos. Também está claro que, se não tivermos cuidado em administrar esse tempo, a tecnologia poderá tirá-lo de nós. Em uma era de constantes conexões em tempo real, a questão central de nosso exame de consciência está se deslocando de “Quem é você?” para “O que você está fazendo?”. Por mais que muitos de nós estejamos sedentos por estar conectados, se quisermos prosperar precisamos manter alguma parte de nós separada dessa constante vontade de exposição. Precisamos de outros tempos verbais além do presente – de outras qualidades de tempo – em nossa vida. Essa é uma questão que foi brilhantemente colocada pelo cientista da computação Jaron Lanier durante uma palestra na conferência na Southwest, em março de 2010, na qual ele pediu que o público não fizesse mais nada, além de ouvir, enquanto ele falava.

“O principal motivo para que peço que vocês parem de fazer tantas coisas ao mesmo tempo não é para que eu me sinta mais respeitado, mas para fazer vocês existirem. Se vocês escutarem primeiro, e escreverem somente mais tarde, o que for escrito terá tido tempo para passar pelo filtro dos seus cérebros, e vocês estarão presentes no que está sendo dito agora. É isso que faz vocês existirem” – argumentou Lanier.

Com este apelo, Lanier conseguiu, por cerca de uma hora e meia, captar a atenção das pessoas, promovendo a sua “desconexão do mundo online”. Isso deixa claro que, precisamos reservar momentos para estar desconectados, e isso não requer uma viagem para uma cabana afastada no topo de uma montanha, nem anunciar um longo afastamento da leitura de e-mails – apesar de significar que tirar férias dos dispositivos eletrônicos se tornou uma forma popular de indulgência para aqueles que podem arcar com as consequências. Pelo contrário, os momentos desconectados têm muito a acrescentar como parte de nossa rotina diária: a decisão de não enviar e-mails numa manhã, de desligar o telefone celular durante um encontro ou uma refeição, de dedicar alguns dias ou algumas horas para uma reflexão, sem aparelhos eletrônicos, ou simplesmente a decisão de encontrar uma pessoa ao vivo, em vez de trocar vinte e-mails com ela. Afirmo que não é fácil, mas estou tentando dedicar partes do meu dia à produtividade sem conexão: momentos em que todos os meus aparelhos digitais estão desligados ou fora do meu alcance imediato. Meus encontros pessoais tem se tornado muito mais interessantes e significativos quando estou desconectado.

No início dos anos 2000, as conferências de tecnologia pareciam reunir os participantes mais visionários, ostentando seus telefones celulares e laptops de última geração. Hoje, apesar de nenhum evento de tecnologia estar completo, sem uma transmissão paralela em uma rede social, também está se tornando comum aos palestrantes e mediadores, solicitarem algo simples que remonta ao passado:

“escutem primeiro, escrevam depois”.

Ser conservador, em algum aspecto midiático, é a palavra de ordem. Esses novos hábitos e sugestões não constituem um manifesto propriamente dito; mas são o começo de uma atitude que coloca a tecnologia digital em seu devido lugar. Definir um papel específico para ela em nossa vida, em vez de permitir que sua presença se torne uma condição inevitável e ininterrupta. Devido ao poder de comunicação avassalador das novas mídias, o tempo é mais do que nunca nosso bem mais precioso. Todas as tecnologias do mundo não podem criar uma partícula a mais dele – e sua experiência está ameaçada de se tornar o que o teórico político Fredric Jameson chamou de “presente perpétuo”, no qual a sociedade perde “a capacidade de reter o próprio passado”.

Para algumas pessoas, a saturação do presente é intensamente acompanhada de estresse, ansiedade e da sensação de perda do controle. Acredito que não perdemos nossa capacidade tanto de resistir quanto de nos adaptar a essas mudanças na forma como vivenciamos o tempo, seja como sociedade ou como indivíduos; acima de tudo, no entanto, todos os esforços de nossa parte devem começar por reconhecer que, sem a habilidade de dizer “não” quanto “sim” à tecnologia, corremos o risco de transformar esses milagres em armadilhas.

O tempo é a única coisa sobre a qual toda a tecnologia do mundo não pode invocar nem uma partícula a mais.

24/06/2021

O passado e o presente digital


A breve história das interações humanas com as tecnologias digitais é marcada por uma relação em constante evolução: em meio século, de uma ferramenta complexa, para às mãos de bilhões de pessoas.

Os primeiros computadores digitais, desenvolvidos na década de 1940, eram máquinas extremamente complexas, desenvolvidas e operadas por algumas das mentes mais brilhantes do planeta, como Alan Turing, cujo trabalho teórico e prático ajudou os britânicos a decodificar as mensagens cifradas dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

A geração de computadores que veio a seguir, os mainframes, surgiu no final da década de 1950. Presentes principalmente em instituições acadêmicas e militares, os mainframes ainda ocupavam salas inteiras e continuavam a ser um terreno reservado a especialistas – as informações inseridas eram formadas por comandos altamente abstratos, e as respostas não faziam sentido algum para quem não fosse versado em ciência da computação.

Tudo começou a mudar nos anos 1970, com o surgimento do microprocessador e a chegada dos primeiros computadores aos lares das pessoas. Thomas Watson, presidente da IBM, supostamente teria dito, em 1943:

Acredito que exista uma demanda mundial para talvez cinco computadores.

Tenha ele dito ou não a frase (a própria Wikipédia afirma que há “poucos indícios” de que isso seja verdade), quando o primeiro computador pessoal foi lançado, em 1971, ninguém esperava que o mercado doméstico para tais máquinas fosse muito além de alguns milhares de entusiastas. Os computadores, no entanto, mostraram-se uma atração muito mais poderosa do que esperavam até mesmo os acadêmicos mais ambiciosos. Ao fim da década de 1970, novas máquinas desenvolvidas por empresas como Apple, Commodore e Tandy estavam vendendo centenas de milhares de unidades. A revolução digital havia se tornado pública.

Mas isso era apenas o começo da ininterrupta expansão das interações entre os seres humanos e a tecnologia digital. Desde a década de 1970, nossas máquinas têm se tornado cada vez mais poderosas, mais interconectadas e mais fáceis de usar. As que possuímos hoje são centenas de milhares de vezes mais poderosas que a primeira geração doméstica, dez vezes mais baratas e extremamente mais fáceis de usar.
Mais importante do que a capacidade, no entanto, é a experiência que essas máquinas proporcionam. Nesse campo, a grande revolução está apenas começando. Isso porque o conceito de “computador pessoal” como sendo um desktop em casa ou um laptop na mochila está sendo gradualmente substituída.

Pra mim, tudo começou em 1983, com os primeiro videogame de massa, o Atari. Em 1985, comecei a estudar computação. Andava por aí com um disco flexível de 5″1/4 com a imensa capacidade de 1.2 Megabits, onde rodavamos jogos, compilavamos alguns códigos e tínhamos textos e outros. Um computador conectado era um terminal burro e nas escolas e empresas, havia sistemas de compartilhamento de tempo para uso de tais terminais.

Depois, todos passaram a ter poder de computação. No início dos anos 90, consegui levar um computador pessoal pra casa, para fazer o que quisésse, a hora que fosse.

Em 2021, temos o Windows Virtual Desktop, que parece dar prenúncio ao fim da era do PC. Percebo que, mesmo que nossas vidas se tornem cada vez mais centradas na tecnologia, menos pessoas realmente estão interessadas na tecnologia em si. Sim, elas adoram tecnologia, mas como usuários.

Hoje, para realizar qualquer trabalho com um computador, primeiro você tem que saber um pouco, sobre computadores, sistemas operacionais e alguns comandos. Mas vai por mim, hoje, isso tudo e muito “amigável”.

O Google tem o Chrome OS que a maioria de nós pode fazer tudo o que precisa em um computador, apenas com um navegador web.

A Microsoft, em vez disso, Caminha para o Windows desktop-como-serviço (DaaS) por meio do Microsoft Managed Desktop (MMD). Isso reúne o Windows 10 Enterprise, Office 365 e Enterprise Mobility + Security e o gerenciamento de sistemas baseados em nuvem no Microsoft 365 Enterprise. Na próxima etapa, o Windows Virtual Desktop, irá permitir que as empresas virtualizem aplicativos do Windows 7, do Windows 10, do Office 365 ProPlus e de outros aplicativos de terceiros em máquinas virtuais baseadas no Azure. Se tudo correr bem, você poderá se inscrever no Windows Virtual Desktop até o final do ano; e até 2025, o Windows como um sistema operacional de desktop real será um produto de nicho.

Isso parece lhe soar estranho? A Microsoft só quer que você “alugue” o Office 365 em vez de comprar o Office 2019.

Mas e os jogos? Sempre teremos o Windows desktop para jogos! Será?

O Google, com seu serviço de nuvem de jogos (Google Stadia), também está apostando que estamos prontos para mover nossos jogos para a nuvem. A Valve tem se saído muito bem há anos com a sua variação neste tema – o Steam.

Então, para onde tudo isso nos leva?

Eu acredito que o PC desktop irá desaparecer, na forma mais tradicional que conhecemos. A maioria de nós estará escrevendo documentos, preenchendo planilhas e fazendo o que fazemos hoje em nossos PCs por meio de aplicativos baseados em nuvem em terminais inteligentes que executam o Chrome OS ou o Windows Lite.

Para um PC “real”, suas escolhas serão Linux ou macOS.

Nenhuma das principais empresas do Linux – Canonical, Red Hat, SUSE – afirma que o Linux assumirá uma forma de sistema operacional virtual, em cloud etc, mas continuará da mesma forma que é agora: uma plataforma desktop para entusiastas e com muito potencial.

O macOS, da Apple, que também tem o Unix como raiz, não demonstra querer evoluir para um Sistema Operacional virtual. Mas as vendas de Macs representam uma porcentagem cada vez menor do lucro líquido da Apple.

Não é que os Macs não sejam ótimos. Eles são. Mas, como mencionei acima: as pessoas estão se tornando menos técnicas…

Haverá também pessoas que precisam do poder de processamento, que só pode vir de ter processadores rápidos, com armazenamento rápido, em seu desktop. Mas essas pessoas estão diminuindo – assim como o mundo dos PCs desktop.

21/06/2021

O ‘start’ digital


Vivemos num tempo de milagres tão corriqueiros que se torna difícil enxergá-los.”

Os textos (acima e abaixo) foram escritos pelo teórico e especialista em tecnologia Kevin Kelly em seu blog, em agosto de 2011:

Tive de convencer a mim mesmo a acreditar no impossível com mais regularidade. (…) anos atrás, se eu fosse contratado para convencer pessoas sensatas e esclarecidas que dali a alguns anos as ruas do mundo todo estariam mapeadas por fotos de satélite e à disposição em nossos telefones portáteis – de graça – eu não teria conseguido convencer praticamente ninguém. Não saberia ilustrar as razões econômicas para que isso fosse oferecido “de graça” e ao mesmo tempo com um lucro fantástico aos idealizadores. Isso era completamente impossível de se explicar naquela época.

Os fatos impossíveis de nosso tempo estão apenas começando. Novas formas de colaboração e interação nos esperam, cujo esboço, talvez, possa ser percebido pelo fato de que os telefones conectados à internet estão cada vez mais presentes, carregados em nossos bolsos, e eles são mais poderosos do que a maioria dos computadores de dez anos atrás. Hoje, bilhões de pessoas têm acesso instantâneo a dados, antes, totalmente restritos a governos e universidades.

O ritmo com que essas mudanças ocorrem é sem precedentes. A televisão e o rádio foram inventados há cerca de um século; a prensa há mais de quinhentos anos. No entanto, em apenas duas décadas e meia, fomos do início da internet pública, à marca de mais de 4 bilhões de pessoas conectadas; e passaram-se apenas três décadas desde o lançamento do primeiro sistema comercial de telefonia celular, até a mais de 7 bilhões de usuários ativos.

Essa rede global inteligente já está a nos conectar, não apenas a outras pessoas, mas a objetos de nosso dia a dia – de carros e roupas a comidas e bebidas. Por meio de chips inteligentes e bancos de dados distribuídos, estamos diante de uma forma de conexão sem precedentes não apenas uns com os outros, mas com o mundo à nossa volta: suas ferramentas, seus espaços compartilhados, seus padrões de ação e reação; e junto com tudo isso chegam novas informações sobre o mundo, de diferentes formas: informações sobre onde estamos, o que estamos fazendo e do que gostamos.

O que devemos fazer com todas essas informações?

A pergunta mais importante a ser feita é:

O que os governos, corporações, ativistas, criminosos, policiais e criadores – já estão fazendo com elas?

Estamos passando a viver em uma nuvem de dados: redes inteligentes estão, não só nos conectando uns aos outros, mas a tudo.

Conhecimento e poder sempre andaram de mãos dadas. Hoje, entretanto, a informação e a infraestrutura pela qual ela flui não representam apenas poder, mas um novo tipo de força econômica e social. Em termos intelectuais, sociais e legislativos, estamos anos, se não décadas, atrasados em relação às questões do presente. Em termos de gerações, a divisão entre os “nativos digitais” e aqueles que nasceram antes dela pode parecer um abismo através do qual se torna difícil articular determinadas conclusões e valores.

Temos então que examinar o que isso pode significar para todos nós, não apenas existir, mas prosperar em uma era digital; “viver” e aproveitar ao máximo as crescentes possibilidades de nosso tempo. Explorar essas possibilidades é como explorar um novo mundo. Adentramos um espaço onde a natureza humana permanece a mesma, mas as estruturas que lhe dão forma nos são estranhas. O mundo digital atual não é apenas uma ideia ou um conjunto de ferramentas, da mesma forma que um dispositivo digital moderno não é apenas algo para nos entreter e nos agradar. Ao contrário – para um número cada vez maior de pessoas, ele é uma passagem para o lugar onde lazer e trabalho estão interligados: uma arena em que se concilia amizades, notícias, negócios, compras, pesquisas, política, jogos, finanças e muitas outras atividades. Então, no que diz respeito à questão de como prosperar neste novo mundo, devemos traçar duas Linhas de pensamento:

– Primeiro, como nós, no papel de indivíduos, podemos prosperar no mundo digital;

– Segundo, como a sociedade pode nos ajudar tanto a explorar nosso potencial neste mundo, quanto a nos relacionar com as pessoas de forma mais humana possível.

Esses dois contextos têm origem no mesmo ponto e isso me põe a explorar questões muito inquietantes da tecnologia:

1. o que significa poder dizer “não” ou “sim” frente as ferramentas à nossa disposição, e

2. como podemos aproveitar tudo isso da melhor forma, tanto usando a tecnologia quanto usar de minha própria decisão para não usá-la.

Os desafios que enfrentamos – cientes ou não – dia após dia: questões de identidade, privacidade, comunicação, atenção e o equilíbrio entre tudo isso. Se existe um ponto em comum entre esses itens, é a questão de como a experiência individual se encaixa nesta nova forma de coletividade do século XXI: como o que “eu” sou está relacionado ao que outras pessoas sabem sobre mim, o que eu compartilho com essas pessoas e o que pode permanecer pessoal e privado.

A natureza da tecnologia digital é tão diversificada quanto a própria natureza humana e pode representar diferentes papéis em nosso cotidiano: ela pode ser um facilitador, uma biblioteca, um amigo, pode ser sedutora, representar conforto, prisão, etc. Em última instância, no entanto, todas as telas mutantes são também espelhos, nos quais temos a oportunidade de enxergar nós mesmos e os outros como nunca antes foi possível. Ou, é claro, simplesmente, podemos desviar o olhar.

16/06/2021

Resiliência – uma questão biológica


Recentemente li o artigo sobre Padrões de Resiliência Universal nos Mercados de Trabalho – publicado no início deste ano na Nature Communications por membros do MIT Connection Science e do Max Planck Institute for Human Development. O artigo analisou a resiliência dos mercados de trabalho americano usando uma estrutura inspirada em ecossistemas biológicos.

Os princípios biológicos têm sido uma inspiração para o estudo de sistemas sociotécnicos, – isto é, sistemas que lidam não apenas com tecnologias e infraestruturas complexas, mas também com as questões ainda mais complexas associadas aos comportamentos humanos e organizacionais, como empresas, indústrias, economias e cidades. Por exemplo, um artigo de 2016 da Harvard Business Review, The Biology of Corporate Survival, aplicou os princípios da biologia evolutiva para analisar por que as empresas estão desaparecendo mais rápido do que nunca.

[O] estudo típico do trabalho urbano em equilíbrio, ofusca as respostas às rupturas fora do equilíbrio”, observa o artigo da Nature. “As cidades são os centros de inovação da economia dos Estados Unidos, mas as rupturas tecnológicas podem excluir os trabalhadores e inibir a classe média. Portanto, a política urbana deve promover empregos e habilidades que aumentem os salários dos trabalhadores, criem empregos e promovam a resiliência econômica.

No final da década de 1990, alguns previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar e fazer compras em casa, entrar em contato com seus amigos por e-mail e ter acesso a notícias e entretenimento online. Mas, em vez de declinar, os centros urbanos cresceram muito nos anos seguintes. As cidades continuaram a gerar os maiores níveis de inovação, crescimento econômico e bons empregos e, assim, atraindo uma parcela desproporcional do talento mundial.

A conectividade e o alcance universal e  da Internet levaram a efeitos de rede cada vez mais poderosos, o que deu origem a economias baseadas em empresas super stars e startups unicórnios. A dinâmica da rede também se aplicou às áreas urbanas, dando origem à cidades com super infraestruturas. Essas cidades, ao redor do mundo, criaram super demandas por empregos de alta qualificação nas últimas décadas e melhores ganhos aos trabalhadores com nível superior, proporcionando melhores níveis de qualidade de vida, que promovem melhores infraestruturas para as cidades, fechando um ciclo continuo e duradouro.

O talento se tornou o principal ativo da economia do conhecimento, tornando o capital altamente dependente dos trabalhadores altamente qualificados, capazes de navegar em ambientes de negócios cada vez mais complexos.

Mas, quão resilientes são esses mercados de trabalho urbanos?

Eles serão capazes de se adaptar a grandes interrupções como a Covid-19?

Eles são capazes de lidar com interrupções tecnológicas e um ambiente de trabalho em mudança?

Quais são as principais qualidades dos mercados de trabalho urbanos resilientes?

Os mercados de trabalho são sistemas heterogêneos nos quais habilidades, empregos, regiões geográficas e setores interagem. Conseqüentemente, modelos construídos com base em dados empíricos de habilidades podem capturar melhor a mobilidade do trabalhador e identificar melhor as fontes de adaptabilidade urbana por meio das interdependências das habilidades no local de trabalho. Estratégias análogas preveem resiliência a choques em sistemas ecológicos (por exemplo, alteração dos níveis de acidez ou temperatura) a partir da densidade de interdependências mutualísticas entre as espécies – independente da dinâmica populacional em equilíbrio.

Um ecossistema biológico é uma comunidade de organismos vivos que interagem uns com os outros e com o seu ambiente, como um sistema. Eles são controlados por fatores externos ao ecossistema, como clima e topografia, bem como por fatores internos, como os tipos de espécies presentes e a competição por recursos. Sendo sistemas dinâmicos, os ecossistemas estão sujeitos a perturbações periódicas.

Ecossistemas em ambientes semelhantes, mas com diferentes grupos de espécies, podem acabar se adaptando aos distúrbios de maneiras muito diferentes. Mutualismo, ou seja, a interação entre duas ou mais espécies onde cada uma se beneficia, – desempenha um papel importante na evolução de um ecossistema. A densidade das interdependências mutualísticas entre as espécies em um ecossistema é um bom preditor de sua resiliência a choques como mudanças nas condições climáticas, independentemente da dinâmica populacional em equilíbrio.

Quão forte é a analogia entre a resiliência do mercado de trabalho e a resiliência dos ecossistemas?

Usando uma estrutura teórica que se assemelha aos modelos matemáticos usados para estudar o mutualismo ecológico, eles analisaram a sobreposição de requisitos de qualificação em ocupações dentro de um mercado de trabalho urbano. Seu arcabouço teórico demonstrou que a resiliência econômica das cidades é universal e exclusivamente determinada pela conectividade dentro da rede de empregos de uma cidade.

Tal como acontece com os ecossistemas mutualísticos, os mercados de trabalho nas cidades que empregam trabalhadores em ocupações com requisitos de qualificação sobrepostos criam efeitos colaterais positivos que podem aumentar a resiliência do mercado de trabalho”, explica o artigo. “Por exemplo, se o emprego diminuir para alguma ocupação, então outras ocupações semelhantes poderiam apoiar os trabalhadores deslocados sem retreinamento dispendioso. Portanto, como na modelagem ecológica, a densidade de conexões entre ocupações dentro de uma cidade pode indicar maior resiliência econômica a choques, incluindo choques de desemprego, a automação de tarefas no local de trabalho ou outras interrupções importantes. Essencialmente, as cidades com mais conexões entre as ocupações serão mais resistentes aos choques trabalhistas.

Para validar o quadro teórico, os autores aplicaram seus modelos matemáticos para prever a resiliência do mercado de trabalho das cidades americanas após os choques de desemprego da Grande Recessão, e compararam suas previsões com o pico real das taxas de desemprego nas cidades americanas de dezembro de 2007 a junho de 2009 . Usando dados disponíveis publicamente do US Bureau of Labor Statistics, – incluindo o banco de dados O *Net de ocupações e habilidades, a Classificação Ocupacional Padrão e as Estatísticas de Desemprego da Área Local, – eles criaram um mapa de empregos detalhado para cada cidade que incluía o o número de empregos específicos, suas distribuições geográficas e o grau de sobreposição de habilidades entre os empregos na área.

Sua análise revelou que o tamanho e a diversidade desempenham um papel na resiliência das cidades. Mas, embora as cidades maiores geralmente apresentassem taxas de desemprego mais baixas, o emprego total de uma cidade em 2007, pouco antes do início da recessão, não era um bom indicador de sua taxa de desemprego de pico subsequente. Depois de controlar o tamanho e a diversidade, a análise confirmou empiricamente que as cidades dos EUA com maior conectividade de empregos experimentaram taxas de pico de desemprego mais baixas durante a Grande Recessão, conforme previsto pela estrutura teórica.

“Como sistemas interdependentes complexos, os mercados de trabalho urbanos são mais do que a soma de ocupações ou setores individuais”, conclui o artigo. As políticas que promovem a conectividade do trabalho não apenas promovem a resiliência econômica, mas também podem beneficiar os trabalhadores e aumentar os mercados de trabalho. As cidades que aumentaram a conectividade de empregos de 2010 a 2017 tiveram um aumento correspondente em seus salários totais. “Assim, os formuladores de políticas podem aumentar seu mercado de trabalho local por meio de investimentos direcionados nas empresas e setores que empregam trabalhadores em ocupações incorporadas, o que aumenta a conectividade geral de empregos da cidade”.

Além da Guerra de Preços: O Oceano Azul na Conectividade Brasileira

Introdução Lançado em 2005 por W. Chan Kim e Renée Mauborgne, A Estratégia do Oceano Azul revolucionou o pensamento estratégico...