31/08/2021

Computação em nuvem, segurança cibernética e Governos

“Há uma necessidade urgente de melhorar a segurança e a resiliência dos sistemas e aplicativos de TI, sob a eminência dos crescentes ataques cibernéticos” – comentário do diretor do FBI, Christopher Wray. Esta declaração vai de encontro à publicação do NY Times no artigo – Antigamente, as ameaças vinham de que tinha poderes bélicos. Agora, elas vem de computadores. “O ritmo crescente dos ataquesà infraestrutura americana – de oleodutos, fábricas, hospitais e à própria Internet – tem revelado um conjunto de vulnerabilidades que não se pode mais ignorar.” Em maio, o presidente Biden emitiu a Ordem Executiva para Melhorar a Segurança Cibernética da Nação, um passo importante para garantir o funcionamento das infraestruturas digitais do Governo. As tecnologias baseadas na nuvem e os Provedores de Serviços em Nuvem (CSPs – Cloud Services Providers) podem desempenhar um papel importante na melhoria da segurança cibernética. Por anos, os CSPs vem investindo bilhões em segurança na nuvem, contrataram os melhores especialistas e desenvolvem uma série de novas ferramentas e métodos de controle. Os CIOs concordam que a segurança nas plataformas em nuvem é superior aos dos data centers on premises, um dos principais motivos pelos quais a previsão do IDC é de que “80% das empresas colocarão em prática mecanismos para migrar sua infraestrutura e aplicativos para a nuvem.” ... “A computação em nuvem impulsiona a inovação e a produtividade em toda a economia, assim como a rede elétrica fazia há um século – mas a 'nuvem' é mais capaz e dinâmica.” Esta é a principal mensagem do Secrets From Cloud Computing’s First Stage: An Action Agenda for Government and Industry, um relatório de Bill Whyman publicado pelo Information Technology & Innovation Foundation (ITIF). Acompanho a ascenção da computação em nuvem, praticamente, desde o começo e achei o relatório bastante instrutivo. Ele inclui uma introdução muito boa à computação em nuvem, seu impacto econômico e dinâmica de mercado e as áreas em que a nuvem se destaca. Mas, também aborda os principais desafios que a nuvem deve superar para atingir plenamente seus benefícios, bem como a necessidade de uma agenda política/administrativa para a computação em nuvem – uma área muito importante que não recebe tanto foco. “A segurança e a conformidade podem ser melhores na nuvem do que on premises, mas a automação e o gerenciamento são necessários para alcançar esses benefícios”, diz Whyman. “A primeira pergunta que muitos clientes fazem ao migrar para a nuvem é sobre segurança. A segurança na nuvem agora é tão boa, ou em muitos casos melhor, do que a o premises, como o CIO da CIA concluiu. … Os usuários mais preocupados com a segurança em todo o mundo, são os de agências de inteligência, ministérios de defesa e bancos; e todos agora, dependem da computação em nuvem.” A segurança continua sendo um desafio para todos, especialmente para pequenas e médias empresas, “mas, com as grandes organizações e Governos, demonstrando sua confiança na segurança da nuvem e movendo seus workloads para a nuvem, isso vai mudar”. A nuvem introduziu um novo e diferente modelo de segurança compartilhada entre o CSP e os clientes. O provedor de nuvem é responsável por proteger sua infraestrutura, enquanto os clientes são responsáveis por seus softwares, aplicativos e dados executados na nuvem, bem como por suas conexões de rede com a nuvem. “As violações de segurança na nuvem foram quase todas causadas por questões dos clientes, não dos CSPs”, disse a McKinsey em seu relatório. As empresas precisam se certificar de que a segurança de seus workloads de produção sejam implementados de maneira adequada. Diretrizes de conformidade, – como as oferecidas pelo NIST e DHS, – podem ajudar a identificar e corrigir vulnerabilidades de segurança. Os CSPs estão melhorando continuamente a segurança de suas plataformas, com avanços como zero trust architectures, software de monitoramento, criptografia, registro e ferramentas de configuração que oferecem aos clientes um ambiente seguro e previsível com segurança pré-testada. Esses recursos avançados aumentam a segurança das plataformas em nuvem, mas exigem habilidades dedicadas e bem treinadas para serem implementados de maneira adequada. “Muitas vulnerabilidades comuns são causadas por softwares mal configurados, que não acompanham as mudanças no ambiente de TI, ou os clientes simplesmente não usam os recursos de segurança disponíveis. Serviços que integram orientações prescritivas, práticas recomendadas e serviços de segurança em pacotes, mais fáceis de usar, ajudariam os clientes a tirar o máximo proveito da segurança em nuvem.” ... “A nuvem também está bem posicionada para fornecer ferramentas melhores que detectam e corrigem vulnerabilidades automaticamente; pois à medida que a indústria criava novas defesas, os adversários respondem com novas técnicas e ofensivas”, adiciona o relatório. “Este ‘salto de segurança’ criou dezenas de ferramentas que têm seus próprios formatos de dados, interfaces e ferramentas de gerenciamento. A integração entre essas diferentes ferramentas dará aos clientes uma visão mais completa da sua postura de segurança. A automação integrada à nuvem também deve assumir o monitoramento e gerenciamento contínuos. Isso pode tornar a segurança mais consistente, atualizada e mais fácil de usar.” Mas, embora sejam necessários, os avanços da tecnologia e as melhores práticas não são suficientes. A “crescente difusão e capacidades da nuvem estão atraindo o interesse de decisores políticos e administradores do governo”, escreve Whyman. Na seção final do relatório, Uma Agenda de Política para Computação em Nuvem, ele descreve várias etapas importantes que os governos devem tomar para apoiar o desenvolvimento e a adoção da segurança cibernética baseada na nuvem: 1. Missão crítica de modernização da nuvem federal. Embora algumas agências governamentais já tenham obtido benefícios da migração de alguns de seus workloads para a nuvem, muitas ainda dependem de sistemas legados mais antigos. Para acelerar a adoção, o relatório recomenda uma iniciativa de missão crítica para modernizar todos os workloads civis federais ao longo de uma década, visando pelo menos 10% dos workloads por ano e definindo metas de resultados específicas, como número alvo de workloads e economia de custos. As regras de aquisição também devem ser modernizadas para que novas tecnologias como a nuvem não sejam penalizadas. “Um conselho de implementação da modernização deve ser criado e o mesmo deve fornecer relatórios públicos de progresso, para estimular ações da TI federal, estadual e privada, bem como orientar o alinhamento com a grande comunidade federal de TI. Com base nessas aprendizagens, os legisladores também devem determinar que os Estados sigam essencialmente o mesmo plano.” 2. Estimular a adoção da nuvem pelo setor privado. O governo federal deve usar suas múltiplas alavancas de influência política para encorajar a adoção mais ampla pelo setor privado, incluindo:O discurso em palanque, – destacando o impacto da nuvem, seus benefícios e resultados concretos alcançados;Padrões e metas – que alavancam as operações de TI, bem como os gastos com tecnologia do governo federal; Parcerias de P&D – que apóiem o uso da nuvem em iniciativas de pesquisa pública em universidades, laboratórios e agências de pesquisa do governo; Pequenas e médias empresas, – incluindo recursos de nuvem e assistência técnica em iniciativas destinadas a pequenas e médias empresas, como a parceria do NIST; eAcordos comerciais internacionais, – garantir que a propriedade estrangeira e operação de nuvem sejam permitidas, bem como maior acesso ao mercado para provedores de nuvem estrangeiros. 3. Programas de colaboração entre Governo e setor de segurança cibernética. “A computação em nuvem melhora a segurança de TI, mas também cria novos. À medida que a nuvem cresce e se torna uma infraestrutura mais crítica, concentrada em um punhado de provedores, as preocupações do governo sobre segurança, resiliência e risco sistêmico aumentarão.” O governo federal precisa aprofundar seu relacionamento com os provedores de nuvem para coordenar melhor seu trabalho em segurança e resiliência na nuvem. O relatório propõe análises regulares do governo e do setor de dados de ataques cibernéticos, interrupções de serviço, eficácia de conformidade e planejamento conjunto de ações de proteção. Esses programas do setor governamental também devem ter como objetivo simplificar os requisitos legais e de conformidade e o aprimoramento contínuo das melhores práticas de segurança. 4. Fortalecer a governança de dados transfronteiriços. “Os governos estão cada vez mais interessados e assertivos na governança de dados, incluindo residência de dados (também chamada de localização de dados) e soberania de dados (acesso obrigatório aos dados por outro governo). … Dos 29 países pesquisados da OCDE, 11 têm algum tipo de regras de localização de dados que exigem que os dados sejam armazenados no país, assim como os principais países não pertencentes à OCDE, como China, Rússia e Indonésia. No entanto, não é economicamente viável para cada país ter sua própria nuvem. … Os governos não precisam localizar dados além de suas fronteiras físicas para proteger seus dados. A nuvem fornece controles granulares para que os governos possam isolar onde seus dados estão armazenados e quem tem acesso a eles, bem como aplicar e auditar os controles”. 5. Promover habilidades e inclusão por meio de parcerias de treinamento público-privados. “As novas tecnologias frequentemente criam e destroem empregos, mudando o padrão de empregabilidade. … A computação em nuvem apresenta uma oportunidade de treinar um conjunto amplo de pessoas com novas habilidades para que os benefícios do crescimento da tecnologia sejam compartilhados de forma mais ampla. Comunidades que não estão bem representadas em tecnologia precisam de maior acesso e participação. … O momento é propício para uma iniciativa nacional de parceria público-privada de treinamento em tecnologia, acompanhada por uma agenda política de compromissos de financiamento para treinamento, requalificação e inclusão de profissionais para a tecnologia das nuvens.”

A transformação da logística no setor de varejo

Contexto

Estou trabalhando em home office, desde o início da pandemia Covid-19. Neste meio tempo, muita coisa mudou; em especial, venho acompanhando o boom setor de logística, que deu um salto gigante para atender a demanda de compras e pedidos. Especialistas neste setor estão sendo constantemente assediados com ofertas de empregos e oportunidades.

Análise

Em 2018, o MIT lançou a Força-Tarefa Trabalho do Futuro para compreender o impacto das máquinas, cada vez mais inteligentes, no futuro do trabalho e como aproveitar melhor essas oportunidades. A força-tarefa do MIT divulgou suas descobertas e fez recomendações em um relatório de novembro de 2020, – Construindo melhores empregos em uma era de máquinas inteligentes.

Além do relatório, a iniciativa do MIT também publicou uma série de documentos de trabalho e resumos de pesquisa sobre tópicos relacionados.

Eu gostaria de comentar um desses resumos, O Futuro do Trabalho em Logística, de Arshia Mehta e Frank Levy, que explorou a transformação do setor de varejo desde o advento do comércio eletrônico na década de 1990. O briefing é um estudo de caso muito interessante da evolução do setor de varejo nas últimas décadas.

“Vinte anos atrás, as redes de distribuição dos EUA foram construídas para entregar produtos a granel para lojas de varejo… Hoje, grandes partes das redes de distribuição são construídas para entregar itens individuais nas residências. A mudança foi impulsionada pela tecnologia, por meio do e-commerce, e recentemente reforçada pela pandemia Covid-19.”

O comércio eletrônico foi uma das primeiras aplicações da Internet. A Amazon e o eBay começaram a lidar com transações de comércio eletrônico em meados da década de 1990. As vendas online cresceram lentamente no início. Em 2001, as compras online representavam 1% de todas as vendas no varejo nos Estados Unidos, em parte porque a maioria dos usuários acessava a Internet por modens e telefones, e apenas 4% o faziam usando o acesso de banda larga. Naqueles primeiros dias, as compras online eram consideradas um luxo; somente para usuários de ponta da Internet.

Nas duas décadas seguintes, o acesso à Internet e o comércio eletrônico avançaram. Em 2010, os smartphones possibilitaram que mais da metade da população tivesse acesso à banda larga. As vendas de comércio eletrônico atingiram 6,4% de todas as vendas no varejo dos EUA, depois chegaram a 10,7% em 2015 e 15,8% na pré-pandemia de 2019. Em 2020, a pandemia fez com que as vendas online atingissem 21,3% de todas as vendas de varejo, – e um ano depois, atingiram incríveis 44% de crescimento anual.

Veja os números do e-commerce no Brasil.

A pesquisa examinou as mudanças nas redes de distribuição que eram necessárias para entregar o crescente volume de itens de pedidos online para residências individuais. Em particular, os autores analisaram as mudanças necessárias em dois componentes principais dos serviços de logística,Armazenamento, eTransporte rodoviário.

Ambos foram originalmente desenvolvidos para entregar pacotes a granel e grandes remessas para centros de distribuição e lojas de varejo, mas agora eles tinham que lidar com a entrega de um grande número de itens individuais para casas individuais. Além disso, a maior dependência da logística aumentou a demanda por serviços relacionados, incluindo programação mais eficiente, atualizações sobre o status da remessa e o manuseio da documentos da remessa.

“A alta demanda por armazenagem e transporte rodoviário também estimulou pesquisas sobre inovações para redução de custos, incluindo variedades de automação de armazém e o desenvolvimento de caminhões autônomos que podem rodar em rodovias interestaduais. Na prática, no entanto, essas inovações ainda não chegaram ao mercado ou estão sendo adotadas lentamente.”

Resumo

Armazenagem

A força de trabalho na indústria de armazenagem e logística cresceu de 438.000 em 2000 para 1,1 milhão em 2019. Esse crescimento da mão de obra se deve a uma série de fatores:A rápida expansão do comércio eletrônico;A mudança de pedido em massa para atendimento de item único;Os limites da tecnologia robótica atual;A rápida expansão do comércio eletrônico; eO ambiente pós-pandêmico incerto.

A produção por hora dos trabalhadores de centros logísticos não é maior em 2019 do que em 2000. A produção por hora aumentou cerca de 20% entre 2000 e 2014, mas depois diminuiu, deixando a produtividade ligeiramente mais baixa em 2019 do que em 2000.

As operações de warehouse envolvem uma combinação de tarefas físicas e de processamento de informações. As tarefas físicas incluem descarregar e armazenar os itens recebidos, separar os itens dos pedidos dos clientes, montar e embalar o pedido e carregar os itens embalados no caminhão que fará a entrega. As tarefas de processamento de informações incluem o controle de todos os itens recebidos, os locais onde foram armazenados, o recebimento e o cumprimento preciso dos pedidos individuais dos clientes e a manutenção de registros precisos de todas as atividades do centro logístico.

A maioria das primeiras melhorias de produtividade ocorreram devido a melhorias no processamento de informações, usando sistemas de gerenciamento de armazém, leitores, códigos de barras e etiquetas RFID para rastrear as chegadas de produtos, bem como os locais de armazenamento e remessas aos clientes.

O movimento automatizado de mercadorias evoluiu mais lentamente do que o movimento automatizado de informações. Muitas tarefas físicas fáceis para os humanos continuam difíceis para os computadores. Os armazéns têm demorado a adotar o necessário, – e caro, – equipamento de automação avançado porque requer a transformação do armazém de um prédio de armazenamento simples, em um centro de distribuição e atendimento de última geração, semelhante à que passaram as fábricas do setor automotivo há algumas décadas. Isso aumenta a possibilidade de que apenas as maiores empresas podem se dar ao luxo de desenvolver e implantar tecnologias avançadas de automação,

“um processo que pode estar aumentando as tendências atuais em direção a uma maior concentração de mercado entre algumas empresas.“

De 2014 a 2019, aumentos rápidos no e-commerce fizeram com que a contratação de depósitos crescesse mais de 10% ao ano, grande parte, em estruturas de depósitos mais antigos e não automatizados.

Muitos desses novos empregos, do boom logístico, não são para trabalhadores de baixa qualificação, que movem e embalam o material manualmente.

“Em 2018, eles ganhavam em média $ 12,64 por hora (incluindo aquelas pessoas que trabalhavam em armazéns da Amazon a $ 15,00 por hora).”

Conforme a automação do warehouse evolui, esses trabalhos entarão em risco.

Transporte

Entre 2000 e 2019, a produção da indústria de transporte rodoviário de carga geral aumentou cerca de 20%.

“Um quarto deste aumento, veio da contratação de mais motoristas: 1,62 milhão em 2000 em comparação com 1,75 milhão em 2019. Três quartos do aumento representaram um uso mais eficiente de caminhões.”

Entre 2000 e 2019, a produção por hora no transporte rodoviário de cargas cresceu 14,8%. A maior parte desse aumento de produtividade vem do uso de ferramentas e métodos digitais para melhorar a programação de entregas de longa distância. Isso inclui:Programação aprimorada para que um caminhão não faça a viagem de volta vazio;Corresponder melhor à demanda e ao fornecimento de espaço para caminhões;Mudança de rotas em situações de emergências;Processamento automático de documentos; e outros.

Um caminhão autônomo

Comercialmente viável para viajar em rodovias interestaduais, ele ainda está a pelo menos uma década de distância. No entanto, várias tecnologias digitais têm melhorado a produtividade e a segurança dos caminhões, incluindo dispositivos GPS, aplicativos de programação de rotas, smartphones e aplicativos de smartphone, proteção contra colisão aprimorada, avisos de saída de faixa e assim por diante.

“Se pensarmos no emprego logístico como um cabo de guerra entre os ganhos de empregos do e-commerce e as perdas de empregos da automação, até agora os ganhos de empregos estão na frente. …Em oito a dez anos, no entanto, a automação provavelmente será significativamente mais forte, reduzindo o número total de empregos e transferindo a mistura de empregos restantes, para técnicos, analistas e outras ocupações qualificadas.”

“O desafio é projetar políticas de mercado de trabalho que lidem com as transições da automação, melhor do que as políticas atuais lidaram com o colapso que ocorre quando os empregos caem repentinamente no mercado de trabalho, devido a entrada de uma nova tecnologia de automação. Ao projetar a política, este caso de automação começa com duas vantagens:

1) Onde as paralisações costumam ser repentinas, a automação, descrita neste resumo, está ocorrendo de forma relativamente lenta; e

2) Onde as paralisações são concentradas em comunidades específicas, os trabalhos de logística e transporte estão dispersos por todo o país.”

28/08/2021

O que a música pode nos ensinar sobre inovação



“as mentalidades dos músicos os tornam bons empreendedores”.

Panay é atualmente VP Sênior de Estratégia Global e Inovação na Berklee College of Music. Em 22 de junho, ele foi nomeado co-presidente da Recording Academy a partir de agosto de 2021. Hendrix é sócio e diretor de design global da IDEO.

“A mentalidade criativa é mais do que uma abordagem única para o empreendedorismo, mais do que aproveitar a improvisação do jazz ou praticar até que nossos dedos sangrem”, escrevem Panay e Hendricks.

“Como músicos, acreditamos que há algo instrutivo aqui para o nosso trabalho como empresários e líderes empresariais. Os músicos sabem como criar momentos que quebram padrões, preenchem lacunas, capturam nossa atenção e inspiram não apenas por causa das habilidades que desenvolveram em um teclado ou microfone, mas porque aprimoraram sua capacidade de ouvir.”

O livro é baseado em entrevistas com músicos, compositores e produtores que tiveram sucesso como artistas e empresários. Os autores entrevistaram vários músicos, incluindo Justin Timberlake, Pharrell Williams, Imogen Heap, T Bone Burnett e Desmond Child. Além disso, eles pesquisaram as carreiras de Björk, Dr. Dre, Jimmy Iovine, Gloria e Emilio Estefan e outros que tiveram um grande impacto na indústria da música como artistas criativos e líderes de negócios.



Nas últimas décadas, a criatividade e a inovação têm recebido cada vez mais atenção no mundo dos negócios. Por exemplo, a descoberta predominante de um Estudo Global de CEOs conduzido pela IBM em 2010 foi que a criatividade é o fator mais crucial para o sucesso futuro. O estudo da IBM entrevistou mais de 1.500 CEOs de 33 setores diferentes e 60 países, que disseram que a criatividade – ainda mais do que disciplina de gestão ou visão estratégica – era a qualidade de liderança necessária para navegar em um mundo cada vez mais volátil e complexo.

Mais recentemente, um relatório de 2018 da Deloitte aconselhou as empresas a implantar tecnologias de automação para liberar seus funcionários para que eles possam se concentrar na identificação e solução de problemas e oportunidades invisíveis. À medida que tarefas e processos de rotina são automatizados, as empresas serão capazes de capturar mais valor, alavancando as capacidades humanas únicas de sua força de trabalho, incluindo curiosidade, imaginação, intuição, inteligência emocional e criatividade.

Two Beats Ahead inclui capítulos sobre como ouvir, experimentar, colaborar, conectar e reinventar e aqui estão alguns breves comentários.

Ouvir:

“Um músico entende que ouvir o mundo, extraindo ideias e inspiração, é apenas a primeira parte da inovação, que também requer ouvir a si mesmo, em busca de pontos de ressonância entre o mundo e sua própria visão e valores”, observam os autores.

Mas, como qualquer habilidade, ouvir exige prática. Músicos de sucesso e inovadores de negócios aprenderam a ouvir o mundo ao seu redor, bem como a sua própria percepção interna do que funciona. Ambos envolvem estar presente e aberto ao inesperado.

“Para muitos compositores e criativos, bem como empresários, a questão de por onde começar pode parecer assustadora.”

Indivíduos criativos geralmente têm muitas ideias rolando em sua cabeça. Como saber quando chegar e tirar a ideia certa, aquela com um fio que você pode seguir? A cantora e compositora islandesa Björk, por exemplo, está profundamente comprometida com a ideia de ouvir o mundo natural ao seu redor e interpretar parte do que ouve.

“Ela falou em entrevistas sobre caminhar ao longo do cais em Reykjavik, ouvindo os ruídos do porto: as ondas batendo na costa, os gritos das gaivotas, as buzinas dos navios. Para Björk, isso é mais do que ruído de fundo; é música. … Com o tempo, Björk aprimorou seu hábito de ouvir um reflexo. Ela faz com que pareça fácil. Mas, assim como aprender a tocar um instrumento, leva anos de prática, leva anos para tornar a habilidade de ouvir sem esforço. Suas antenas estão sempre levantadas, como uma antena parabólica pegando ondas de galáxias distantes, separando o sinal do ruído.”

Isso me lembra algumas experiências pessoais. No início dos anos 2000, muita coisa estava começando a acontecer em torno da Internet, mas não estava claro para onde as coisas estavam indo e, quais seriam as implicações para o mundo dos negócios. Era difícil descobrir o verdadeiro valor comercial da Internet em meio a todo o entusiasmo que havia. Trabalhar no background da Internet era diferente de qualquer outro coisa que eu já tinha feito; mas logo ficou evidente que a estratégias viriam do mercado e não dos laboratórios de P&D.

Por fim, começamos a trabalhar com estratégias de demandas de e-business – ouvindo o mercado. Aprendemos que o principal valor da Internet para os clientes era a capacidade de estar em contato com seus clientes, funcionários, fornecedores e parceiros, independentemente do horário ou local. As empresas foram, portanto, capazes de se envolver em suas atividades de negócios principais de uma forma muito mais produtiva.

Experimentos:

Ao iniciar um projeto, seja escrevendo uma nova música ou lançando uma startup, os artistas e empreendedores devem confiar em sua capacidade de ver e aproveitar as oportunidades. No entanto, às vezes estamos todos errados. Como saber quando é hora de mudar de direção?

“De novo: a chave é permanecer aberto e continuar ouvindo. … Levar uma música da ideia à conclusão é um compromisso implacável de experimentar ideias – testá-las e prová-las ou descartá-las. … Ao contrário da experimentação atlética ou científica, a experimentação musical não começa com um plano de pesquisa e um método fixo. Quanto mais opções um artista tentar, maior será a probabilidade de ele descobrir uma ideia sobre a qual valha a pena construir.”

“A chave é continuar escrevendo”, disse Justin Timberlake em sua entrevista com Panay e Hendricks. “Eu tenho apenas uma regra no estúdio, e é esta: ouse. … Não há respostas erradas quando se trata de criar arte, porque cada ideia só vai te levar ao que é bom. E para você se conectar com outras pessoas, primeiro tem que ser bom para você. Quando uma música é lançada, é principalmente porque eu posso viver com ela. Se uma música minha tocar no rádio, posso dizer o que poderia ter feito melhor, que verso poderia ter cantado melhor. Não foi feito para ser perfeito, mas você tem que sentir que é ótimo, porque é isso que vai te dar confiança para levá-lo para o mundo.”

Um equivalente no mundo dos negócios de hoje é a agilidade. Uma cultura ágil é essencial para ajudar uma empresa a sobreviver e prosperar em um ambiente em constante mudança. Essa cultura deve incluir um foco implacável na inovação do mercado; espírito de experimentação e evolução contínua; respostas rápidas às necessidades de tecnologia, mercado e usuários; e uma estratégia e visão comuns compartilhadas.

Colaboração:

“Você já se viu envolvido em um projeto, sem saber exatamente para onde está indo ou como chegar lá, mas em boa companhia?”, Perguntam Panay e Hendricks. “É assim que uma colaboração deve ser. Você começa com uma ideia que é tão ambiciosa, tão nova ou tão diferente do que você fez antes que está perfeitamente ciente de que não pode ter sucesso por conta própria. Os conjuntos de habilidades e talentos de outras pessoas são necessários para realizá-lo. Há uma sensação de ‘tatear no escuro’, mas também há força nos números.”

Embora a indústria da música tenha abraçado a colaboração por muito tempo, os negócios só aconteceram nas últimas décadas. Na economia do século 20, o modelo de inovação predominante era fechado e proprietário. Mas, com o advento da economia digital baseada na Internet, nas últimas décadas, o modelo fechado de inovação começou a desmoronar. O tempo decorrido para levar uma invenção do laboratório para o mercado não era mais competitivo, especialmente contra uma nova geração de startups com um tempo significativamente menor para o mercado de novos produtos e serviços.

As empresas perceberam que existem consideravelmente mais recursos de inovação no mundo em geral do que poderiam criar por conta própria, não importa o tamanho e o poder da empresa. Eles tiveram que adotar um modelo de inovação baseado na colaboração aberta, uma transição que se mostrou difícil para muitas empresas.

Trabalhar com grupos diferentes, – dentro e fora da empresa, – para atingir objetivos comuns requer uma mudança na cultura da organização – e as transformações culturais são indiscutivelmente as mais difíceis de todas. Uma cultura de colaboração requer um certo grau de humildade, ou seja, uma aceitação das limitações da capacidadA colaboração significa confiar um no outro, usar fluência criativa para ser fluido nas funções e, assim, criar um todo que é maior do que a soma de suas partes”, foi como Panay e Hendricks capturaram bem a essência da colaboração em Two Beats Aheade de fazer as coisas sem ajuda, o que torna emocionalmente mais fácil estender a mão e trabalhar com eficácia com os outros.

“A colaboração significa confiar um no outro, usar fluência criativa para ser fluido nas funções e, assim, criar um todo que é maior do que a soma de suas partes”, foi como Panay e Hendricks capturaram bem a essência da colaboração em Two Beats Ahead.

O mundo em 2040

A missão do National Intelligence Council (NIC) é liderar a integração da inteligência e o pensamento estratégico de longo prazo para diversas áreas, incluindo a Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos, políticos e especialistas nos setores acadêmico e privado. A cada quatro anos, o NIC desenvolve um relatório que examina as principais tendências e incertezas que moldarão o mundo nas próximas duas décadas. O objetivo é fornecer uma estrutura para avaliação de políticas estratégicas de longo prazo. O relatório Tendências Globais 2040 – Um Mundo Mais Contestado (GT2040), o último relatório do NIC, foi publicado em março de 2021, algumas semanas após a posse do presidente Joe Biden; e aborda os seguintes principais temas:

“Durante o ano passado, a pandemia COVID-19 lembrou ao mundo sua fragilidade e demonstrou os riscos inerentes aos altos níveis de interdependência”,

observa o relatório em sua introdução, dado que temos vivido a mais significativa perturbação global desde a 2ª Guerra Mundial, o GT2040 mostra um quadro bastante preocupante sobre o que está por vir.

“Nos próximos anos e décadas, o mundo enfrentará desafios globais intensos, que vão desde doenças a mudanças climáticas e interrupções decorrentes de novas tecnologias e crises financeiras. Esses desafios irão testar repetidamente a resiliência e adaptabilidade das comunidades, estados e do sistema internacional, muitas vezes excedendo a capacidade dos sistemas e modelos existentes. Este desequilíbrio iminente entre os desafios existentes e futuros e a capacidade das instituições e sistemas de responder a estas questões, provavelmente aumentará e produzirá maior contestação em todos os níveis”.

Como observou um editorial do NY Times, “Especialistas que leram esses relatórios disseram que não se lembram de nenhum mais sombrio”.

Cinco temas principais aparecem no relatório, que sustentam sua avaliação:

1. Desafios globais compartilhados.

Mudanças climáticas, doenças, crises financeiras e interrupções tecnológicas tendem a se manifestar com mais frequência e intensidade em quase todas as regiões e países e produzirão “tensões generalizadas sobre os estados e sociedades, bem como choques que podem ser catastróficos“.

2. Aumento da fragmentação.

Nosso ambiente de informações hiperconectadas, maior urbanização e interdependência global significam que a maioria dos aspectos da vida diária estará mais conectada do que nunca. “Paradoxalmente, à medida que o mundo se torna mais conectado … essa mesma conectividade divide e fragmenta pessoas e países.”

3. Desequilíbrio.

“A escala dos desafios transnacionais e as implicações emergentes da fragmentação estão excedendo a capacidade dos sistemas e estruturas existentes. … O sistema internacional – incluindo as organizações, alianças, regras e normas – está mal configurado para lidar com os desafios globais crescentes que as populações enfrentam”.

4. Maior contestação.

Esse desequilíbrio maior levará ao aumento das tensões, divisões e competição entre sociedades, estados e a comunidade internacional. “No nível internacional, o ambiente geopolítico será mais competitivo – moldado pelo desafio da China aos Estados Unidos.”

5. Adaptação.

“As mudanças climáticas, por exemplo, forçarão quase todos os estados e sociedades a se adaptarem a um planeta mais quente.” Os países com populações envelhecidas enfrentam restrições ao crescimento econômico e terão que aumentar a automação e a imigração. A IA e outras tecnologias serão os principais caminhos para aumentar a produtividade.

Forças estruturais: definindo os parâmetros O GT2040 explora as forças estruturais que moldarão as próximas duas décadas em quatro áreas principais:

Demografia,
Meio ambiente,
Economia e
Tecnologia.

“Selecionamos essas áreas porque são fundamentais para moldar a dinâmica futura e têm um escopo relativamente universal, e porque podemos oferecer projeções com um grau razoável de confiança com base nos dados e evidências disponíveis”, observa o relatório.

Demografia. Esperam-se grandes mudanças demográficas nos próximos 20 anos. As economias desenvolvidas na Europa e no Leste Asiático envelhecerão mais rapidamente e enfrentarão a contração populacional, o que afetará seu crescimento econômico. Em contraste, os países em desenvolvimento da América Latina, do Sul da Ásia, do Oriente Médio e do Norte da África têm a oportunidade de se beneficiar de suas maiores populações em idade produtiva, mas apenas se combinadas com melhorias na infraestrutura e nas habilidades.

“As melhorias anteriores focavam no básico de saúde, educação e redução da pobreza, mas os próximos níveis de desenvolvimento são mais difíceis e enfrentarão os ventos contrários da pandemia COVID-19, crescimento econômico global potencialmente mais lento, envelhecimento da população e os efeitos do conflito e clima.“

Ambiente. Os efeitos físicos da mudança climática provavelmente se intensificarão nas próximas duas décadas.

“Tempestades, secas e inundações mais extremas; derretimento de geleiras e calotas polares; e o aumento do nível do mar acompanharão o aumento das temperaturas. O impacto cairá desproporcionalmente no mundo em desenvolvimento e nas regiões mais pobres e se cruzará com a degradação ambiental para criar novas vulnerabilidades e exacerbar os riscos existentes para a prosperidade econômica, alimentos, água, saúde e segurança energética.”

Economia. O aumento da dívida nacional, um ambiente comercial mais complexo e fragmentado, uma mudança no comércio e novas interrupções no emprego provavelmente moldarão as condições dentro e entre os estados.

“Muitos governos podem descobrir que reduziram a flexibilidade à medida que lidam com cargas de dívidas maiores, regras comerciais diversas e uma gama mais ampla de poderosos Estados e atores corporativos que exercem influência. … O crescimento da produtividade continua sendo uma variável chave; um aumento na taxa de crescimento poderia aliviar muitos desafios econômicos, de desenvolvimento humano e outros.”

Tecnologia. A tecnologia tem o potencial de ajudar a enfrentar as mudanças climáticas, a saúde pública e outras áreas desafiadoras, mas também pode eliminar empregos, especialmente para aqueles com menos educação e habilidades comercializáveis, levando ao aumento do desemprego e da desigualdade.

“Durante as próximas duas décadas, o ritmo e o alcance dos desenvolvimentos tecnológicos provavelmente aumentarão cada vez mais rápido, transformando uma gama de experiências e capacidades humanas, ao mesmo tempo que cria novas tensões e rupturas dentro e entre sociedades, indústrias e estados.”


As respostas humanas a esses desafios globais determinarão como o mundo evoluirá nas próximas duas décadas. Para entender melhor como esse futuro altamente incerto pode se desenrolar, o GT2040 explorou as respostas a três questões principais:Quão severos são os desafios globais que se aproximam?;
Como os atores estatais e não estatais se envolvem no mundo, incluindo o foco e o tipo de engajamento?; e
O que os estados priorizam para o futuro?

Essas perguntas ajudaram a identificar cinco cenários plausíveis e distintos de como o mundo poderia ser em 2040.

Vou concluir este post falando brevemente cada um desses mundos alternativos.

Renascimento das Democracias. Nesse cenário otimista, o mundo experimentará um ressurgimento de democracias abertas, lideradas pelos EUA e seus aliados.

“Os rápidos avanços tecnológicos promovidos por parcerias público-privadas nos Estados Unidos e outras sociedades democráticas transformam a economia global, aumentando a renda e melhorando a qualidade de vida de milhões em todo o mundo. A maré de crescimento econômico e conquistas tecnológicas permite respostas aos desafios globais, alivia as divisões sociais e renova a confiança do público nas instituições democráticas.”

Um mundo à deriva. Nesse cenário pessimista, a economia mundial está sem rumo, caótica e volátil. As regras internacionais são amplamente ignoradas por grandes potências como a China e seus parceiros regionais. Os países da OCDE sofrem, com um crescimento econômico lento, com divisões sociais cada vez maiores e com paralisia política. Muitos desafios globais, como mudança climática e instabilidade nos países em desenvolvimento, em grande parte não serão enfrentados.


“Os Estados Unidos e a China priorizaram o crescimento econômico e restauram uma relação comercial robusta, mas essa interdependência econômica existe ao lado da competição por influência política, modelos de governança, domínio tecnológico e vantagem estratégica. O risco de uma grande guerra é baixo, e a cooperação internacional e a inovação tecnológica tornam os problemas globais administráveis, no curto prazo para as economias avançadas, mas os desafios climáticos de longo prazo permanecem.”

Silos separados. O mundo se fragmenta em blocos econômicos e força, inclusive, os EUA, China, União Europeia, Rússia e algumas potências regionais, a focar em sua própria autossuficiência, resiliência e defesa.

“Os países em desenvolvimento vulneráveis, são apanhados em meio aos blocos/silos, com alguns, prestes a se tornarem Estados falidos. Os problemas globais, principalmente a mudança climática, são tratados de maneira irregular”.

Tragédia e mobilização. Nesse último cenário, os eventos climáticos e a degradação ambiental levaram a uma catástrofe global de alimentos. Uma coalizão global de países, organizações não governamentais (ONGs) e instituições multilaterais está tentando implementar mudanças de longo alcance para abordar a mudança climática, bem como o esgotamento de recursos e pobreza generalizada.

“Os países mais ricos mudam para ajudar os mais pobres a administrar a crise e, em seguida, fazem a transição para economias de baixo carbono por meio de amplos programas de ajuda e transferências de tecnologias avançadas de energia, reconhecendo a rapidez com que esses desafios globais se espalham além das fronteiras.”

E o relatório GT2040 é encerrado com essas palavras: “essa análise foi conduzida com humildade, sabendo que invariavelmente o futuro se desdobrará de maneiras que não havíamos previsto. O objetivo não é oferecer uma previsão específica do mundo em 2040; em vez disso, nossa intenção é ajudar os formuladores de políticas e os cidadãos a ver o que pode estar além do horizonte e a se preparar para uma série de futuros possíveis.”

21/08/2021

Negócios nas Nuvens – até 2030

Ao conversar ontem com um amigo, falamos de desenvolvimento de aplicativos e como uma empresa pode iniciar uma ‘jornada para a nuvem’ e os esforços para adotar e escalar negócios na nuvem, de forma vantajosa. Comentamos ainda que, algumas empresas podem ficam presas a uma mentalidade experimental e outras têm dificuldades em preparar um business case claro para justificar a escala do seu uso de nuvem.

Baseado nisso, fui ler um pouco e pesquisar sobre o que deve ser feito e encontrei esse excelente artigo/material da McKinsey que compartilho com vocês.

“Graças, em parte à nuvem, muitos negócios estão conseguindo cumprir suas metas, como conseguiu a Moderna entregar seu lote de sua vacinas (mRNA-1273) ao Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos para a fase um de testes, 42 dias após o sequenciamento inicial do vírus”,

reporta o artigo da McKinsey, – O prêmio de trilhões de dólares de Cloud está em disputa. Quando a pandemia de COVID-19 comecou,

“a empresa estava bem posicionada para projetar experimentos de pesquisas e aproveitar seu laboratório e seus processos de automatizados de fabricação e aprimoração de medicamentos”.

No ano passado, vários artigos apontaram que, em resposta à pandemia, a adoção da transformação digital por empresas e consumidores já atingira níveis sem precedentes.

“Mais empresas estão começando a ver os benefícios reais da nuvem, há muito anunciados como um catalisador para a inovação e a transformação digital, graças à sua capacidade de aumentar a velocidade de desenvolvimento e fornecer escala quase ilimitada”,

acrescenta o artigo da McKinsey: “Embora o sucesso da Moderna ilustre as oportunidades de negócios que a nuvem torna possível, ele apenas representa uma gota do potencial valor em jogo. Uma análise detalhada da otimização de custos da nuvem e casos de uso de negócios reais, prevê mais de US $ 1 trilhão em EBITDA [uma medida contábil do desempenho financeiro geral de uma empresa] nas empresas Fortune 500 até 2030. ”

Para quantificar o potencial de trilhões de dólares, das nuvens, até 2030, a McKinsey analisou o impacto dos gastos de TI em nuvem, em todo o mundo com base em pesquisas independentes de mais de 1.000 organizações. A pesquisa, avaliou mais de 700 casos de uso em 19 setores para ajudá-los a prever as receitas e o desempenho financeiro das empresas Fortune 500 até 2030.

A pesquisa analisou a adoção da nuvem em três dimensões: rejuvenescer, inovar e pioneiro. Ela estimou os direcionadores específicos nas duas primeiras dimensões e as oportunidades de crescimento prováveis para a terceira.

Vou resumir as principais informações do artigo.

Rejuvenescer

“O rejuvenescimento descreve uma ruptura com as abordagens tradicionais do legado, usando a nuvem para reduzir custos e riscos em TI e operações.”

Rejuvenescer é responsável por US $ 340 a US $ 430 bilhões do potencial estimado para 2030. Seus principais motivadores de valor são a otimização de custos de TI, maior resiliência e operações.

Otimização de custos de TI. Os provedores de serviços em nuvem (CSPs) fornecem acesso a recursos que boa parte das empresas nunca poderia desenvolver por conta própria. Os CSPs obtêm economias em escala, executando seus ativos de TI em utilizações muito maiores. Como as empresas pagam pelo uso da nuvem com base nos ativos que consomem, elas devem se certificar de que seus aplicativos existentes sejam executados com eficiência na nuvem, caso contrário, seus custos podem realmente aumentar.

As empresas que corrigiram os aplicativos existentes e criaram novos, aproveitando os atributos nativos da nuvem, estão percebendo grandes melhorias de eficiência. Elas não apenas reduziram seus gastos gerais com infraestrutura de TI, mas também aumentaram sua produtividade de desenvolvimento por meio do uso de recursos ágeis, fluxos de trabalho de autoatendimento e ferramentas de automação. O uso eficaz da nuvem pode reduzir os custos de infraestrutura em 29% e melhorar a produtividade do desenvolvimento e manutenção de aplicativos em 38%.

“Desenvolvedores gastam consideravelmente menos tempo em infraestrutura e suporte de produção e mais em requisitos de negócios e desenvolvimento, quando mudam para a nuvem pública. … Como resultado, aumentaram a participação dos aplicativos na Fortune 500, que estão na nuvem, de 10% para 60% com rendimentos e benefícios de US $ 56 bilhões em desenvolvimento e manutenção de aplicativos e US $ 12 bilhões em gastos com infraestrutura”.

Resiliência aprimorada. A McKinsey estima que, em 2030, as empresas perderão cerca de US $ 650 bilhões devido ao tempo de inatividade de sistema e violações de segurança cibernética. Os CSPs podem melhorar a integridade das suas plataformas de nuvem por meio de processos e controles de segurança que podem identificar, detectar e investigar automaticamente ameaças avançadas, identidades comprometidas e ações mal-intencionadas. Arquiteturas mais resilientes podem reduzir o tempo de inatividade de aplicativos na nuvem em 57% e o custo de violações em 26%.

Operações. A nuvem pode ajudar a reduzir as tarefas manuais, acelerando a implementação de soluções padronizadas e automatizadas, como contabilidade baseada em análises e gerenciamento de RH. “As organizações que mudam para a nuvem pública liberam valor adicional ao reaproveitar e requalificar sua força de trabalho para se concentrar em tarefas de maior valor, como o desenvolvimento de produtos e serviços que atendam às demandas dos clientes.”

Inovar

A parte inovadora da nuvem, é aquela que ajuda a acelerar a implantação de tecnologias emergentes como IA, IoT e automação em escala. Isso permite que as empresas se concentrem no crescimento de seus negócios e na otimização dos custos de suas operações. Essa inovação é responsável por US $ 360 a US $ 770 bilhões do potencial estimado para 2030. Seus principais impulsionadores de valor são: o crescimento a partir de casos de uso, desenvolvimento acelerado de produtos e escalonamento rápido.

Crescimento de casos de uso. A experimentação de mercado é uma marca registrada das empresas mais inovadoras em nossa economia cada vez mais digital. Mas aprender como fazer isso de forma eficaz ainda é um trabalho em andamento. A nuvem permite que as empresas experimentem aplicativos e modelos de negócios de forma rápida, econômica e em escala, fornecendo acesso sob demanda a capacidade computacional e de armazenamento quase ilimitada.

“Os executivos que adotam a nuvem evitam grandes desembolsos de capital inicial quando lançam ou expandem negócios. Novos aplicativos em nuvem tendem a se basear em conjuntos de dados grandes e complexos em constante evolução a um custo muito menor e maior velocidade.”

Desenvolvimento de produto acelerado. “As empresas adotaram a nuvem para aumentar a agilidade de seu modelo operacional, o que acelera a implementação de casos de uso enquanto reduz o investimento em P&D.” Além disso, os CSPs fornecem às organizações abordagens inovadoras para o desenvolvimento de software e ferramentas e recursos inovadores, como contêineres, microsserviços, práticas de DevOps, integração e entrega contínuas e arquiteturas sem servidor. “Isso aprimora o desenvolvimento do produto desde o início e acelera drasticamente o projeto, a construção e o ramp-up, ajudando as empresas a reduzir drasticamente o tempo de lançamento no mercado.”

Escala rápida. “A infraestrutura e a presença global de provedores de nuvem podem ser aproveitadas para dimensionar produtos quase que instantaneamente para um conjunto mais amplo de segmentos de clientes, regiões geográficas e canais. Além disso, as organizações podem obter acesso à elasticidade instantânea sob demanda na capacidade de computação e armazenamento – elementos críticos no lançamento e construção de novos negócios.”

Pioneira

A dimensão final, ‘pioneira’, permite que as empresas estendam o valor da nuvem além das duas dimensões anteriores, uma vez que tenham atingido um certo nível de maturidade. Nesse estágio, as empresas podem aproveitar a nuvem para experimentar tecnologias novas e emergentes, como recursos avançados de IA, blockchain, realidade aumentada e virtual e impressão 3D. Dado o estágio inicial dessas tecnologias, é muito cedo para quantificar seu impacto potencial com qualquer precisão razoável.

Adoção de tecnologias emergentes. Este nível avançado de maturidade da nuvem pode ajudar as empresas a atrair e reter os melhores talentos para trabalhar em tecnologias emergentes. Junto com modelos operacionais ágeis, as empresas podem então formar equipes swat para desenvolver provas de conceito para o uso de tecnologias avançadas, ajudando-as a compreender o valor potencial das tecnologias transformadoras que ainda não alcançaram a adoção em massa.

Por fim, o artigo da McKinsey recomenda que as empresas adotem quatro ações principais à medida que começam as melhorias de desempenho baseadas na nuvem:

1. Defina uma aspiração de negócios ambiciosa e urgente. “Os líderes de negócios e de TI devem articular de forma clara e urgente uma ambição de alto valor – uma viagem à lua quando trabalham em projetos para nuvem.”

2. Persiga um caso econômico obstinado. “Um caso de negócios para a nuvem deve ser baseado em uma compreensão clara da economia da nuvem em economia de custos (rejuvenescer) e aceleração de negócios (inovar). Deve ser ajustado aos riscos de transformação e priorizado por domínio de negócios, e deve incluir as alocações de recursos necessárias e o sequenciamento de tarefas.”

3. Adote formas de trabalho ágeis e nativas da nuvem. “O escopo da mudança necessária para aproveitar a nuvem exige que as empresas tenham experiência real: líderes, funcionários e parceiros com profunda experiência em nuvem e transformações na nuvem; praticantes especializados; e um amplo ecossistema. Além disso, os esforços de nuvem bem-sucedidos são possíveis apenas quando as organizações transformam suas operações.”

4. Crie uma plataforma de nuvem padronizada e automatizada. “Invista na criação de uma plataforma de nuvem padronizada e automatizada que melhore a produtividade e ofereça uma ótima experiência de autoatendimento para desenvolvedores, que estão entre os principais consumidores da nuvem”.

02/08/2021

Banco Central & Moedas Digitais

O Bitcoin foi criado em outubro de 2008, com o lançamento do A Peer-to-Peer Electronic Cash System, e deu origem também ao design da arquitetura que introduziu o blockchain. Uma década depois, o The Economist publicou uma avaliação do Bitcoin que concluiu que “o Bitcoin e outras criptomoedas são inúteis”.

“O Bitcoin, a primeira e ainda a mais popular criptomoeda, começou como um projeto tecno-anarquista para criar uma versão online do dinheiro, uma forma de as pessoas fazerem transações sem a possibilidade de interferência de governos ou bancos”, e ainda argumentou:

“Uma década depois, quase não é usado para o fim a que se destina. Os usuários devem lutar com softwares complicados e desistir de todas as proteções do consumidor a que estão acostumados. Poucos o aceitam. A segurança é fraca. Outras criptomoedas são usadas ainda menos.”

Mas, na edição de 8 de maio o The Economist mudou sua avaliação das moedas digitais, quando avaliou as iniciativas do banco central (CBDCs), – ou seja, e-dollars, e-yuans ou e-euros, – que chamou de “As moedas digitais que importam.”

“O Bitcoin deixou de ser uma obsessão anarquistas para se tornar uma classe de ativos de US$ 1 trilhão, que muitos gestores de fundos insistem que vale o investimento, a qualquer carteira equilibrada. …No entanto, como nosso relatório explica, a interrupção menos notada na fronteira entre tecnologia e finanças, pode acabar sendo a mais revolucionária: a criação de moedas digitais governamentais, que normalmente visam permitir que as pessoas depositem fundos diretamente em um banco central, contornando credores convencionais. Esses govcoins são uma nova encarnação do dinheiro. Eles prometem fazer as finanças funcionarem melhor, mas também transferir o poder dos indivíduos para o estado, alterar a geopolítica e mudar a forma como o capital é alocado. Eles devem ser tratados com otimismo e humildade.”

Alguns pontos do relatório:Mais de 50 governos estão explorando moedas digitais. Em outubro de 2020, o Banco Central das Bahamas emitiu o dólar da areia digital, o primeiro CBDC implantado no país. O dólar de areia tem o mesmo valor e proteção ao consumidor que o dólar tradicional das Bahamas, para o qual pode ser convertido instantaneamente. As Bahamas também introduziram o cartão pré-pago, Sand Dollar, em colaboração com a Mastercard, que pode ser usado para pagar mercadorias e serviços em qualquer lugar onde o Mastercard seja aceito.A China tem um grande projeto piloto de e-yuan em andamento. Mais de 500.000 indivíduos receberam 200 yuans (US$ 30) do governo, que podem usar para pagar bens e serviços usando uma carteira digital de e-yuans oferecida por seis bancos comerciais. Legalmente, os e-yuans são tão reais quanto o dinheiro vivo tradicional.Algumas semanas atrás, o US Digital Dollar Project anunciou que lançará pelo menos cinco programas nos próximos 12 meses para explorar os usos e designs de um dólar eletrônico dos EUA.O Banco Central Europeu está trabalhando no conceito de euro digital através da realização de experiências práticas e do envolvimento com as partes interessadas e o público em geral.Em abril, o Banco da Inglaterra anunciou a criação de uma força-tarefa para coordenar a exploração de um potencial CBDC do Reino Unido.O Brasil também já sinaliza que deverá ter moeda digital emitida pelo Banco Central

Por que governos e bancos centrais planejam emitir moedas digitais?

A principal motivação é a promessa de um sistema financeiro mais eficiente. De acordo com The Economist, as despesas operacionais do setor financeiro global chegam a mais de US$ 350 por ano para cada pessoa do planeta. As moedas eletrônicas do governo poderiam fornecer um hub central de pagamento mais barato, que tornaria o financiamento mais acessível, especialmente para 1,7 bilhão de pessoas em todo o mundo que não têm conta bancária. As moedas eletrônicas permitiriam pagamentos diretos a todos os cidadãos que recebem fundos do governo, como previdência social, seguro-desemprego, ajuda financeira para famílias de baixa renda ou alívio econômico durante uma crise como a Covid-19.

Outra motivação importante é “o medo de perder o controle” para bitcoin, ether e outras moedas virtuais, bem como para moedas digitais privadas como Ripple’s XRP ou Facebook’s Diem, anteriormente conhecido como Libra.

“Redes privadas não supervisionadas podem se tornar um Velho Oeste de fraudes e abusos de privacidade. Para usuários comuns, o apelo de um meio de pagamento universal gratuito, seguro, instantâneo e universal é óbvio. … A dura verdade é que as autoridades monetárias há muito se sentem desconfortáveis com as fraquezas dos bancos. Isso inclui a parcela de pessoas sem banco, mesmo nos países ricos, os altos custos dos métodos de pagamento e o custo excessivo das transações internacionais (que correm as remessas para os países mais pobres). O apelo de um sistema mais barato e contínuo acelerou projetos de pagamento mais rápidos em todo o mundo.”

O surgimento de CBDCs poderia ameaçar o sistema bancário tradicional?

Os bancos privados fornecem serviços financeiros a indivíduos e empresas através da coleta de depósitos, mantendo na reserva uma fração desses depósitos e emprestando o restante. Na América, cerca de 90% do dinheiro está em depósitos de bancos privados.

“Em outras economias, a participação é maior: 91% na área do euro, 93% no Japão e 97% na Grã-Bretanha.”

A ideia de um banco central fornecer um aplicativo de carteira e dinheiro digital diretamente aos cidadãos é porque ele representa uma força verdadeiramente disruptiva – motivo pelo qual os bancos centrais estão adotando uma abordagem cautelosa. Se os cidadãos puderem converter depósitos bancários em CBDCs com um simples furto, isso pode acabar desintermediando os sistemas bancários, atraindo uma grande parte dos depósitos correntes. Os bancos seriam forçados a encontrar outras fontes de financiamento para seus empréstimos, ou outras instituições teriam que fazer os empréstimos que alimentam a criação de empresas, o mercado imobiliário e o crescimento econômico.

Além disso, em vez de proteger as instituições financeiras sendo o credor de último recurso, as contas do banco central podem na verdade levar a corridas a bancos privados. A confiança no sistema financeiro é sustentada pelas expectativas das pessoas de que sempre podem transferir seus ativos em dinheiro, – a forma mais segura de dinheiro. Em uma crise, muitos podem optar por transferir seu dinheiro para a segurança do dinheiro eletrônico em uma conta no banco central.

Devemos nos preocupar com o potencial uso indevido de CBDCs por um governo para controlar seus cidadãos?

Pense, por exemplo, em multas eletrônicas instantâneas para punir cidadãos por comportamentos reprovados pelo Estado.

“O dinheiro não é rastreável, mas o dinheiro digital deixa um rastro”, observa The Economist. “Dinheiro exclusivamente digital pode ser programado, restringindo seu uso. Isso tem implicações benignas: os beneficios podem ser mais bem direcionado ou os gastos podem ser mais bem controlados e eficazes. Mas também há problemas: o dinheiro digital pode ser programado para impedir que seja usado para pagar abortos ou comprar livros no exterior.”

“No entanto, deve haver maneiras de minimizar cada um desses problemas. A melhor defesa contra a disseminação prejudicial da influência do estado sobre as decisões de empréstimo é manter vivo o atual sistema de reservas fracionárias. Isso pode significar restringir o escopo dos cbdcs e gerenciá-los à distância do banco central – talvez por meio de terceiros. Eles não devem pagar juros e o valor de seus saldos talvez deva ser limitado. Os CBDCs podem empoderar os autoritários, mas em países democráticos geralmente há separação adequada de poderes dentro do governo para impedir isso.”

“Os governos e as empresas financeiras precisam se preparar para uma mudança de longo prazo, na forma como o dinheiro funciona, tão importante quanto o salto para moedas metálicas ou cartões de pagamento”, conclui o The Economist. “Isso significa fortalecer as leis de privacidade, reformar a forma como os bancos centrais são administrados e preparar os bancos de varejo para um papel mais periférico. Moedas digitais estatais são o próximo grande experimento em finanças e prometem ter muito mais consequências do que o humilde caixa eletrônico.”

O debate pelo digital

Argumentar sobre a tecnologia e sobre tudo que está ligado a ela, as percepções, os valores culturais, políticos e éticos implícitos nos ajuda a direcionar o olhar para a natureza de nossas experiências, mais do que para os bits do software e os componentes eletrônicos do hardware. Devemos aproveitar essas experiências da melhor forma possível – dando espaço a ela em nossa vida, mas também controle. Isso significa encontrar um equilíbrio entre nossos hábitos e açōes – e acreditar que é possível estabelecer diferentes formas de ser e de pensar, em resposta à pressão por estarmos constantemente conectados.

Devemos, também, procurar entender um pouco da história das ferramentas e dos serviços digitais que utilizamos e olhá-los de maneira crítica, da mesma forma como olhamos outras criações humanas. Precisamos aprender não apenas a compartilhar, mas a compartilhar bem – e a fazer parte de comunidades digitais de forma íntegra, que estimule os outros a também ser íntegros. E devemos nos esforçar para encontrar formas para sermos nós mesmos; para nos valermos das riquezas culturais tanto do presente quanto do passado, e para fugir da pressão exercida pelo senso comum e pelas reações coletivas.

As ferramentas digitais que usamos, fazem com que as coisas pareçam fáceis e livres de consequências. Somos mais livres do que nunca para usar e abusar de outros, ou pelo menos de suas sombras digitais; para espalhar preconceitos e mentiras; para agirmos como autômatos em todos os campos. Esse tipo de liberdade possui seus encantos; apesar disso, não é o único futuro possível que está sendo construído na internet, ou incorporado à arquitetura fundamental de uma era digital. Para cada problema, para cada abuso, o mundo possui um sistema inédito de compartilhamento de informações e de ações coletivas, aberto e igualitário. E ainda não houve país nem organização capaz de controlá-la, da mesma forma que nenhum serviço ou tendência – não importa quão poderosos sejam – nada ainda foi capaz de colonizar integralmente nossas experiências digitais.

Preservar e debater o futuro da vida digital é tarefa para todos nós, principalmente para aqueles que cobram novas formas de relacionamento entre governos, cidadãos, corporações e associações. As questões em jogo são imensas e estão abertas. E, em alguns lugares, o número dessas questões já é espantosamente grande. Apesar disso, a maior parte das boas oportunidades está apenas começando a surgir. Embora possam servir aos desejos e propósitos de grupos privilegiados, as tecnologias digitais também têm se mostrado um extraordinário mecanismo de mudança para aqueles menos favorecidos: a oportunidade de participar da comunidade de um país, das trocas comerciais e dos enormes reinos da cultura, da inovação e das ideias, pela primeira vez.

Compreender e regulamentar esse terreno é um desafio comparável aos maiores já empreendidos na história humana; um em que bilhões de pessoas estão envolvidos e, cada vez mais, integrados. Nessa questão, como em quase tudo, nossos maiores problemas e as respostas aos problemas habitam o mesmo local: as comunidades virtuais, repletas de experiências e orientações. Nesse contexto, nossas identidades digitais podem ser extremamente vulneráveis, pois estamos sempre a um clique de distância de algo ou alguém – mas se soubermos o que procurar e o que pedir, temos muitas chances de sermos bem sucedidos neste novo mundo.


Por fim, existe a questão relacionada à nossa própria natureza – e aonde
nossa inédita capacidade para autosatisfação e distração pode nos levar. A tecnologia pode ser uma fonte de prazer e um caminho em direção à ação no mundo, mas também possui o potencial para desequilibrar a vida dos indivíduos e das sociedades em torno dela. Para fazer parte desse mundo de modo produtivo, precisamos distinguir entre liberdade digital, e os desafios normalmente incipientes que a vida nos lança. Um não pode ser substituído pelo outro, nem nos ensinar a lidar com ele de forma completa. Entretanto, acredito que podemos aprender bastante sobre como domesticar algumas áreas de nosso mundo, e a nos conectarmos aos cidadãos de hoje e do futuro.

Todos esses argumentos e crenças estão calcados em uma perspectiva
humanista – da forma como acredito que todas as questões concernentes a como prosperar devem estar. Somos a única medida de nosso próprio sucesso, e essa medida não pode ser estabelecida de modo definitivo. Há mais de dois mil anos, Aristóteles usou o termo eudaimonia para descrever a prosperidade e o engrandecimento humanos. Diferentemente de sucesso material ou prazer físico, eudaimonia significa viver no sentido mais humanamente possível. Do ponto de vista etimológico, é composta pela combinação das palavras “bom” e “espírito guardião”, e implica um estado semelhante a ser observado por uma entidade divina. Para determinar a natureza da eudaimonia, Aristóteles recorreu a outro conceito, relacionado: areté, que significa virtude ou excelência. Ser o melhor ser humano possível significava atingir a excelência nas formas mais nobres de realização humana. E estas, segundo Aristóteles, eram os campos da virtude e da razão: faculdades exclusivas dos seres humanos, entre todos os seres vivos. Uma vida de contemplação virtuosa, hoje, pode estar longe de parecer uma resposta satisfatória – ou viável – para a maioria das pessoas, no que tange à questão da prosperidade. Contudo, parece óbvio, ao olharmos para a situação atual e futura da tecnologia, que nossas realizações e potenciais mais notáveis ainda residam no campo mental e que qualquer forma de excelência esteja intimamente ligada tanto à nossa razão quanto à nossa virtude.

Afirmar que somos a única medida de nosso próprio sucesso pode ser posto de outra forma: que somos a única medida do sucesso uns dos outros. Assim como palavras, nossas identidades possuem pouco significado fora de contexto. Nós nos inventamos e reinventamos constantemente. Hoje em dia, esse processo significa representar um personagem completamente novo em meio à coletividade mutante do mundo digital. A razão – um dos atributos que Aristóteles afirmou ser exclusivo da humanidade – é hoje propriedade também de nossas ferramentas: máquinas cada vez mais complexas, construídas por nós, e que estão ajudando a nos reconstruir. Entretanto, esse processo não precisa nos diminuir. Pelo contrário, devemos tentar ir cada vez mais fundo no questionamento sobre o que nos faz humanos, em última instância, e o que nos une uns aos outros. Como o escritor norte-americano Brian Christian – que se baseia fortemente em Aristóteles – escreveu em seu livro The Most Human Human [O humano mais humano], publicado em 2011,
 “se existe uma coisa pela qual a humanidade é culpada, há bastante tempo – desde a Antiguidade, pelo menos –, é por uma espécie de altivez, uma espécie de superioridade”.

Essa superioridade está presente, acima de tudo, no campo intelectual: a percepção da singularidade de nossa mente e de seu indiscutível status privilegiado no universo. Hoje, somos desafiados de forma sem precedentes. Somos desafiados pela lógica instantânea e pelas capacidades infinitas de nossas máquinas; pela presença digital de muitos bilhões de seres humanos; por bilhões de vezes essa quantidade de dados; e pelo que isso provoca em nosso senso de altivez e de autoridade. Ao mesmo tempo, estamos diante também de oportunidades inéditas, tanto para a ação quanto para a reflexão. Lições duradouras de como viver uma vida equilibrada, e sem nenhum iPad à vista. Prosperar significa enfrentar esses desafios. Será que estamos prontos? Nem todos, e não o tempo todo. Hoje, em uma era de conexões e interconexões que se espalham de modo inédito, tanto as recompensas quanto o preço pelas derrotas são mais altos do que jamais foram. Entretanto, acima de tudo, é preciso começar – ligar, carregar, sintonizar – e descobrir, juntos, o que podemos nos tornar.

01/08/2021

A política e o meio digital


O que os movimentos do Tea Party, o Pirate Party, o anticopyright, os eventos da Primavera Árabe e os protestos globais do tipo Occupy e vem pra rua têm em comum?

Resposta: existem poucas semelhanças ideológicas entre eles. Porém, todos representam uma nova forma de política que surgiu ao longo das últimas décadas: uma política baseada na disseminação viral de ideais e ideologias, que na formas de ações políticas guiadas, foram além das operações partidárias tradicionais. Para participar, tudo o que o indivíduo precisou fazer foi: sentir-se motivado pelas bases ideológicas, aceitar os critérios digitais e convencionais para organizar as ações e lançar-se sob a bandeira do movimento. Esses movimentos, basicamente tinham líderes, mas não existiam hierarquia de comando. Costuma ser mais claro entender o que o movimento odeia e do que se opõe, do que as propostas de mudança que apresenta ao mundo. E, a menos que as autoridades estejam dispostos a pará-los, aplicando a força bruta – como foi o caso em algumas partes do Oriente Médio –, as consequências podem ser transformadoras e até mesmo revolucionárias.

Em uma metáfora do escritor e filósofo britânico Ren Reynolds, essas tendências políticas são como ondas em um rio – ao passo que a substância que lhes permite existir, o curso d’água, é a nova política de uma era digitalmente interconectada. Conforme estamos cada vez mais conectados digitalmente, passamos a abordar a política de novas formas.

Filiações a partidos oficiais e assembleias de votação fracassaram significativamente nas democracias mais desenvolvidas ao longo dos últimos cinquenta anos. Na maioria das pesquisas, a confiança declarada nos políticos está próxima dos níveis mais baixos de todos os tempos, no mundo todo, enquanto os tradicionais responsáveis pelo debate político – jornais impressos e canais de televisão – estão apenas um pouco melhor que isso, no que tange ao gosto e ao interesse públicos. Dê uma olhada nas manchetes dos jornais, e você vai entender.

Ações e protestos organizados em vários países possuem cobertura tanto da mídia tradicional quanto das novas mídias, transmitidos simultaneamente para o mundo. Prega-se imaginar uma alternativa sociopolítica e econômica que ofereça maiores possibilidades de igualdade. Isso denota uma sinceridade muitas vezes desprezada; apesar disso, a paixão e o volume de conversas, debates e experiências práticas, oferecem uma opção muito mais séria em comparação à escassez de intervenções populares, positivas, no que diz respeito à maior parte das questões do cenário político.

Por combinar velhas técnicas com as novas tecnologias, por tentar direcionar o planeta para um caminho mais democrático, apesar de algumas vezes mais perigoso, esses tipos diferentes de experiência foram fundamentalmente alteradas pelas novidades tecnológicas. Para os cidadãos do século XXI, capazes tanto de ter acesso quanto de participar de grupos de muitos milhares e até mesmo milhões de pessoas, fazer “política” não é propriamente uma seleção de atos discretos em meio à série de altos e baixos da vida. Se estamos ou não cientes de nossa participação, é algo bem distante da questão: a ignorância tem sua carga política, da mesma forma que o ativismo. Da mesma forma que diversas operações, desde a cobrança de impostos de uma cidade até eleições e dados pessoais, migram continuamente para as redes digitais globais, a relevância política tanto da ação quanto da inércia também cresce em ritmo constante.

Desde a abertura da internet para uso comercial e a criação da rede, em 1989, as mídias digitais foram aos poucos deixando de, simplesmente, informar sobre a política de nosso tempo, para ajudar a criá-la, de forma efetiva. Hoje em dia, desde a política dos protestos globais ao impacto do Wikileaks e do coletivo global de hackers Anonymous, as antigas balanças de poder estão deixando as mãos das minorias que historicamente monopolizaram o conhecimento e as ferramentas organizacionais, com impressionante velocidade. Contudo, a sedutora ideia de que o acesso à internet pode ser automaticamente equiparado à liberdade democrática não faz jus à complexidade da situação. Para citar apenas a exceção mais óbvia, a China apresenta ao mesmo tempo a maior população da internet – mais de 700 milhões de usuários, em 2020 – e o mais sofisticado regime de monitoramento, censura e espionagem da rede. As ferramentas digitais podem colaborar com muitas liberdades, mas suas histórias estão longe de ser simples, e muito distantes da possibilidade de culminar em revolução ou em reformas profundas.

Entre tudo isso, talvez o maior perigo não seja a apatia, mas a inocência: a
incapacidade de perceber claramente os potenciais e os obstáculos das ferramentas ao nosso dispor. Veja, por exemplo, a privacidade e a segurança online. O simples fato de que cada um de nós está deixando hoje uma série de pegadas digitais que serão visíveis por toda a eternidade implica importantes questões legais e éticas – cuja abordagem está bastante atrasada na maioria dos países.

O que deveria significar e o que realmente significa ‘privacidade on-line’ – e que parcela de controle deveríamos ser capazes de exercer sobre informações de todos os tipos, depois que as entregamos ao mundo?

Muitos legisladores, assim como cidadãos comuns, não possuem bases suficientes para elaborar uma resposta. A noção de que temos “direitos” dentro do espaço virtual, como consumidores e como cidadãos, ainda é tratada precariamente pela lei, atrasada até mesmo diante das formas mais conhecidas de criminalidade; e aplicar modelos legislativos já existentes aos espaços transnacionais criados pela internet é extremamente perigoso, sobretudo quando se trata da propriedade e da segurança de bens cuja realidade física se resume a simples partículas em uma nuvem de dados eletrônica. Qualquer legislação abrangente demandará muitos anos – ou até mesmo décadas – para ficar pronta. Nesse meio-tempo, a responsabilidade por negociar as bases pelas quais informações pessoais podem ser mantidas de forma segura, em quantidades cada vez maiores, recai inevitavelmente sobre usuários comuns e interesses corporativos. Além disso, precisamos levar em conta os critérios pelos quais nossas ações mais amplas nos espaços digitais, desde mensagens enviadas em redes sociais até e-mails e uploads, serão julgadas e consideradas legais. A única coisa que está clara é quão politicamente reais essas questões se tornaram:

  • Constantemente, atos de vandalismo são previamente organizados através de mensagens no Facebook, levando pânico e terror em comunidades.
  • Boatos sobre ondas de violência deixam as pessoas com receio de sair de casa.

Está claro que precisamos evoluir rapidamente no que diz respeito ao debate político na internet – e igualmente no que diz respeito a determinar que questões são verdadeiramente importantes. Como o escritor Evgeny Morozov observa em seu livro The Net Delusion [A ilusão da rede].

os visionários da tecnologia, com os quais contamos para nos guiar em direção a um futuro digital melhor, podem acabar resolvendo com perfeição o problema errado. (…) Como o único martelo que esses visionários possuem é a internet, não surpreende que qualquer problema político ou social seja representado como um prego virtual”.

A questão colocada por Morozov é muito importante: se existe alguma esperança, ela está no exame da tecnologia não isoladamente, mas sim como parte das esferas sociais e culturais específicas nas quais ela opera. Quando se trata do impacto direto das novas tecnologias na política em si, primeiro devemos perguntar o que são, exatamente, os novos modos de ação política concebidos pelas redes digitais – e que modos tradicionais estão sendo facilitados em um novo grau, ou se tornando cada vez mais irrelevantes.

Aqui surgem três fatores cruciais:

1. a capacidade dos indivíduos em perceber o que está acontecendo em torno deles e no que eles acreditam;

2. a facilidade com que essas impressões podem ser compartilhadas e transmitidas;

3. e a consequente facilidade em organizar rapidamente formas massivas de ação, que podem elas
mesmas ser percebidas e comunicadas.

Esse foi, essencialmente, o padrão de atividade que definiu os primeiros protestos da Primavera Árabe na Tunísia e no Egito – um padrão caracterizado não tanto pelo caráter moral irrepreensível, mas pelo ineditismo e pela eficácia em regiões há muito tempo controladas de forma extremamente rígida. Contudo, mesmo que essas novas tecnologias e tendências favoreçam os cidadãos, em detrimento das autoridades centrais, como podemos apontar os “pregos virtuais”, para usar o termo de Morozov, que representam um simples pensamento positivo, e onde os aparatos governamentais e os esforços individuais podem ser melhor empregados?

Um dos mais importantes pensadores globais nesse campo é o acadêmico
norte-americano Tim Wu. A história tradicional da mídia, observa Wu em seu livro The Master Switch [O disjuntor], lançado em 2010: no começo do século XX, o surgimento do rádio alimentou, nos Estados Unidos e por todo o mundo, a esperança de que essa tecnologia iria nos levar a uma era de participação democrática sem precedentes. Porém, o que de fato ocorreu entre as décadas de 1920 e 1930 foi a transformação do rádio, de uma “mídia amplamente difundida”, em um “grande negócio, dominado por um cartel”: um encerramento econômico de possibilidades, que contribui mais do que qualquer programa de governo para restringir a liberdade de expressão possível nesta mídia em ascensão.

No que diz respeito à internet, Wu defende que ocorre algo diferente do que aconteceu com a mídia impressa, com a televisão e o rádio. A natureza peculiar da internet – cuja “prioridade era o desenvolvimento humano mais do que o sistema em si” – denota que o que foi criado era “uma rede descentralizada, e que assim permaneceria”. Contudo, “comando e controle políticos da internet” não são impossíveis – são apenas muito mais difíceis de executar do que em outras mídias.

O Big Brother [Grande Irmão] está observando você – e sua conta no Facebook? Regimes autoritários, se estiverem cientes de suas ações, podem sem dúvida reunir força suficiente para rechaçar a maior parte dos protestos virtuais, ou das oportunidades para que eles surjam. Da mesma forma, leis malconcebidas ou práticas maliciosas de grandes empresas podem desvirtuar a maior parte dos pontos positivos que a internet apresenta hoje; ou encaminhar consumidores que buscam segurança e conveniência diretamente para as mãos de censores e monopólios. Tudo depende de o quanto nós – e aqueles que elegemos, ou a quem pagamos pelo privilégio do acesso digital – estamos alertas para tais possibilidades.

“A internet”, conclui Wu, não é simplesmente o fantasma que costumamos imaginar, mas sim uma entidade física concreta, que pode ser dobrada ou quebrada. Apesar de ter sido projetada para conectar todos os usuários entre si em um mesmo nível, ela sempre foi dependente de um número limitado de conexões físicas, seja por meio de cabos ou de ondas, e de interruptores, operados por um número limitado de empresas.

Quanto mais cedo tomamos conhecimento das reais consequências desse fato, melhor. As estruturas abertas que sustentam a cultura digital frequentemente interagem de forma não muito fácil com sistemas políticos e comerciais preexistentes – e os melhores resultados, tanto para os indivíduos como para o mundo, só poderão surgir a partir de uma negociação em que todos os agentes
estejam dispostos a aparar suas arestas com o mesmo grau de força e de
sabedoria. Apesar de mais significativos em termos globais, pode ser que os frutos desse processo sejam colhidos em maior parte, não pelos mais ricos ou pela elite dominante, mas por aqueles povos e nações que, historicamente, não estiveram à frente em termos de desenvolvimento. Como os exemplos do Oriente Médio e do norte da África nos mostram, a maior parte da aplicação mais apaixonada das possibilidades desta era digital veio daqueles que não foram seus pioneiros, mas que souberam aproveitar melhor as oportunidades oferecida por este salto tecnológico.

Veja o caso da Índia: um país onde não existe serviço de seguridade social, como em alguns outros países. Apenas 33 milhões de pessoas (de um total de 1,2 bilhão) pagam imposto de renda, e apenas 60 milhões possuem passaporte. Como a revista The New Yorker destacou,

centenas de milhões de indianos são
praticamente invisíveis para o Estado (…), de forma que não conseguem abrir
contas bancárias nem comprar chips de telefone celular, e não podem usufruir dos serviços públicos que lhes são devidos”.

Isso é uma realidade que o governo indiano vem tentando mudar por meio de uma iniciativa digital de grandes proporções, que visa atribuir a cada indivíduo no país um número único, de 12 dígitos, selecionado aleatoriamente, associado a dados biométricos: uma fotografia e impressões digitais e oculares. No comando dessa iniciativa está Nandan Nilekani: fundador da empresa indiana de software Infosys, que hoje vale aproximadamente 30 bilhões de dólares. A iniciativa de Nilekani mostrou-se controversa, do ponto de vista da privacidade. No entanto, seu sistema começado a processar os dados de 400 mil pessoas por dia, em centros de cadastramento espalhados por todo o país, com projetos para aumentar esse fluxo para mais de um milhão de pessoas por dia em três anos. Por meio desse processo, Nilekani está contribuindo para criar a infraestrutura de uma forma inteiramente nova de relacionamento entre o Estado e centenas de milhões de indianos – baseada não em milagres revolucionários, mas sim no princípio básico contido no ato de oferecer uma identidade, e na responsabilidade social que surge a partir disso.

Observando as formas pelas quais as tecnologias digitais estão começando a ser utilizadas ao redor dos países em desenvolvimento, é possível perceber que o projeto de Nilekani se ajusta a um padrão reproduzido de muitas e variadas formas: iniciativas simples e de larga escala, com baixos requisitos técnicos, e que ajudam a criar maneiras completamente inéditas de participação e de acesso para muitos milhares de pessoas. Sistemas bancários baseados em contas de telefone celular estão se tornando cada vez mais corriqueiros nas Américas do Sul e Central, assim como formas de pagamento de impostos e até mesmo de votação por meio de celulares. A agricultura e a negociação de produtos estão sendo radicalmente alteradas pela simples eficiência que o acesso a preços e a informações sobre o mercado, via telefone celular, oferece. Para dar apenas um exemplo, a telefonia celular em Bangladesh – país onde até o ano de 1999 não havia nenhum serviço desse tipo – alcançou, em 2010, a marca de cem por cento de penetração “digital”, o que significa que praticamente nenhum habitante do país vive sem acesso à comunicação móvel, seja por meio de familiares, amigos ou da comunidade. Enquanto isso, na África, existem hoje mais de 600 milhões de usuários de telefonia celular: número superior ao dos Estados Unidos e da Europa. A tecnologia digital é ágil e ajustada a seus objetivos em sua combinação de poder e flexibilidade, e em sua facilidade de integração até mesmo às condições e necessidades de vida mais básicas. Isso é o exato oposto do luxo, da autoindulgência e da alienação comumente associados ao impacto político das novas tecnologias no mundo desenvolvido: um fenômeno cuja política está fundamentada nas camadas mais baixas da sociedade, e não imposta pelas elites, o que representa o aspecto mais positivo de tudo. Com a tecnologia ocupando um papel cada vez mais central no rompimento de noções estabelecidas quanto ao que é ou não “político”, não há nada de ingênuo em acreditar que novas formas de participação e integração política possam surgir em paralelo a novas formas de conexão e identidade. Além disso, as estruturas abertas que sustentam boa parte dessa tecnologia representam um legado moderno e único, que devemos construir e passar para as gerações
seguintes. Assim como a arena política tradicional, os espaços digitais nos quais essas novas formas de contrato político e social estão sendo forjadas são indiscutivelmente sujeitos aos abalos provocados por conflitos, negociações e concessões.

Para prosperarmos juntos, precisamos estar preparados para lutar por nossas liberdades dentro desses espaços: liberdade de expressão e protesto, acesso igual e irrestrito, privacidade individual e direito à propriedade de informação. Em todas essas áreas existe uma necessidade urgente por legislação e regulamentação apropriadas. Contudo, no fim das contas, as forças que estão moldando nosso futuro político são ao mesmo tempo fluidas e altamente desenvolvidas: distribuídas de forma inédita por comunidades, movimentos e interesses interligados. Soluções parciais e centralizadas não vão nos proteger nem nos dar segurança.

Novas negociações terão de ser empreendidas, e novas formas de inclusão, mais abrangentes, terão de ser exploradas: mas isso só irá ocorrer se todos os lados forem capazes de reunir sabedoria, ambição e confiança suficientes na capacidade coletiva de ação.

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