22/12/2020

A Covid-19 e a vida urbana

Em Por que as cidades mais ricas da América continuam ficando mais ricas, um artigo de 2017 no The Atlantic, o professor de estudos urbanos e autor Richard Florida escreveu:

As indústrias mais importantes e inovadoras e as pessoas mais talentosas, ambiciosas e ricas estão convergindo como nunca antes, para poucas cidades superstars – centros de conhecimento e tecnologia. Este pequeno grupo de lugares de elite, sempre avança, enquanto a maioria dos outros lugares, estagnou ou ficaram para trás … Eles não são apenas os lugares onde as pessoas mais ambiciosas e talentosas desejam estar – eles estão onde essas pessoas sentem que precisam estar.

Os setores de conhecimentos, há muito tempo se concentram nas cidades e nas áreas metropolitanas vizinhas, onde eles têm mais acesso a uma força de trabalho com formação superior e alta qualificação. Mas, – de Milão a Nova York, – áreas urbanas de alta densidade conectadas globalmente foram o marco zero para a disseminação da Covid-19. As cidades agora correm o risco de perder o status de superstars de que desfrutaram nas últimas décadas?

Em meados da década de 1990, alguns previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar e fazer compras em casa, manter contato com seus amigos por e-mail e ter acesso a notícias e entretenimento conectados. Mas, em vez de declinar, as megacidades continuaram a gerar os maiores níveis de inovação e bons empregos e, assim, atrair uma parcela desproporcional do talento mundial.

Por que as áreas urbanas se saíram bem nas últimas décadas?

Cerca de 25 anos atrás, o físico Geoffrey West, – Professor e Ex-Presidente do Instituto Santa Fé, – se interessou em saber se algumas das técnicas do mundo da física poderiam ser aplicadas ao estudo de sistemas biológicos e sociais complexos. Ele se perguntou se poderíamos aplicar métodos científicos empíricos, quantificáveis e preditivos para tentar entender melhor as cidades e outras organizações sociais altamente complexas.

O Dr. West e seus colaboradores analisaram uma vasta quantidade de dados sobre cidades ao redor do mundo para explorar as relações entre a população e uma ampla gama de infraestrutura e medidas socioeconômicas. Eles descobriram que na infraestrutura das cidades, – por exemplo, a largura das vias e estradas, as linhas elétricas, o consumo de energia, o número de postos de gasolina – influenciam numa escala sublinear, com um fator de 0,85 a decisão de morar ou não na cidade.

Isso significa que as cidades que possuem tais infraestrutura, desfrutam de um benefício de 15% em economias de escala, – se a população de uma cidade dobrar, sua infraestrutura só precisa aumentar por um fator de 1,85. Esse benefício de 15% foi verdadeiro para cidades de qualquer tamanho em todo o mundo, bem como para qualquer infraestrutura mensurável.

Os resultados foram diferentes para medidas socioeconômicas associadas a pessoas, por exemplo, salários, patentes, instituições educacionais, entretenimento, espaços culturais. Eles também escalam com a população, mas em vez de seguir um fator de escala sublinear de 0,85, os atributos socioeconômicos escalam exponencialmente, com um fator super linear de 1,15. Isso significa que, se você dobrar a população de uma cidade, haverá um aumento de aproximadamente 15% na produtividade, salários, entretenimento e instituições educacionais e assim por diante. A escala exponencial dessas medidas socioeconômicas positivas torna as cidades ainda mais atraentes para pessoas talentosas, o que, por sua vez, reforça seu apelo, levando a efeitos de rede e ao surgimento de cidades superstars.

No entanto, algumas coisas ruins acompanham essas cidades superstars. Coisas como um aumento sistemático do crime e doenças, como AIDS, gripe e assim por diante.”

Esses problemas se elevam nos mesmos 15% que as qualidades das cidades. O que nos leva à Covid-19.

“A pandemia Covid-19 cria tanta incerteza porque atinge o coração de nosso mundo urbano”, escreveu o economista de Harvard Edward Glaeser em um artigo recente, – Cities and Pandemics Have a Long History. O artigo de Glaeser conta um pouco dessa longa história:

  • em 430 aC, a praga de Atenas matou dezenas de milhares, incluindo seu proeminente líder Péricles, contribuindo para a derrota de Atenas na Guerra do Peloponeso, que marcou o eclipse da antiga civilização mediterrânea;
  • em 541 DC a praga de Justiniano atingiu Constantinopla, matando um quinto de sua população e encerrando a tentativa do imperador Justiniano de reconstruir a glória do Império Romano;
  • em 1347, a Peste Negra transmitida por pulgas matou 100-200 milhões de pessoas na Europa, Oriente Médio e Norte da África, com cidades sendo particularmente vulneráveis à propagação da doença; e
  • em 1918, a gripe espanhola infectou cerca de 500 milhões de pessoas, – cerca de um terço da população mundial na época, – e matou cerca de 50 milhões em todo o mundo.

“Somente no século passado as cidades deixaram de ser campos de matança”, disse Glaeser.

Por cem anos, as cidades, especialmente aquelas em economias mais avançadas, não sofreram uma grande pandemia. Covid-19 é como um lembrete bíblico de que, apesar de todos os avanços científicos, tecnológicos e médicos do século passado, nossas cidades cada vez mais populosas estão mais uma vez à mercê de uma pandemia.

Como a Covid-19 vai transformar a vida urbana?

As opiniões são muitas, mas ainda é muito cedo para dizer. Em Como será a vida em nossas cidades após a pandemia do coronavírus, a Foreign Policy pediu a 12 importantes especialistas em planejamento urbano, incluindo os professores Florida e Glaeser, suas previsões. E qui estão alguns de seus pontos chave.

Richard Florida continua otimista. “As previsões de morte de cidades sempre seguem choques como este. Mas a urbanização sempre foi uma força maior do que as doenças infecciosas … Alguns aspectos de nossas cidades e áreas metropolitanas serão remodelados … o desejo por arredores mais seguros e privados pode atrair alguns para os subúrbios e áreas rurais. Famílias com crianças e pessoas vulneráveis, em particular, podem trocar seus apartamentos na cidade por uma casa com quintal. Mas outras forças empurrarão as pessoas de volta aos grandes centros urbanos … As grandes cidades sobreviverão ao coronavírus”.

Edward Glaeser alerta para possíveis consequências econômicas. “Só nos Estados Unidos, 32 milhões de empregos estão no varejo, lazer e hospedagem. Eles estão na linha de frente da pandemia … Se as pandemias se tornarem o novo normal, dezenas de milhões de empregos nos serviços urbanos desaparecerão. A única chance de evitar o Armagedom do mercado de trabalho é investir bilhões de dólares de forma inteligente na infraestrutura de saúde anti pandêmica, para que este terrível surto possa permanecer uma aberração única.”

Rebecca Katz, professora de Georgetown, se pergunta se “Agora que tantos de nós criamos novas rotinas trabalhando remotamente por meio teleconferências, usando o Zoom, podemos começar a ver um êxodo da cidade para ambientes mais rurais”.

Talvez o declínio das cidades previsto por alguns na década de 1990 finalmente aconteça devido às nossas infraestruturas digitais significativamente mais avançadas.

Embora seja impossível prever qual será o novo normal, pode muito bem ser a urbanização reversa”, acrescenta Katz. “No entanto, também esperamos que os líderes municipais se destaquem na preparação e resposta às doenças. O que antes era uma área subfinanciada e com falta de pessoal dos departamentos de saúde se tornará mais robusta. Vamos desenvolver as melhores práticas para proteger a saúde da população nas cidades, o que ajudará a manter os ambientes urbanos atraentes.

Finalmente, o ex-vice prefeito de Nova York, Dan Doctoroff, apresenta um forte argumento para aproveitar esta oportunidade para construir cidades melhores. “As cidades voltarão mais fortes do que nunca depois da pandemia. Mas quando o fizerem, será impulsionado por um novo modelo de crescimento que enfatiza a inclusão, sustentabilidade e oportunidade econômica … Reanimar o crescimento da população urbana após a pandemia começará com a restauração da confiança na saúde pública urbana e na segurança de uma vida densa. Mas quando as pessoas retornam às cidades – como sempre fizeram no passado – devemos alavancar novas políticas e tecnologias para tornar a vida urbana mais acessível e sustentável para mais pessoas.

21/12/2020

O trabalho remoto é produtivo; mas...

E se o trabalho em casa continuasse … para sempre? Essa foi a pergunta do jornalista de ciência e tecnologia Clive Thompson em seu artigo na NY Times Magazine, de junho passado.

A crise do coronavírus forçou o mundo a reconsiderar quase todos os aspectos da vida, inclusive no trabalho. Algumas práticas, que agora parecem perda de tempo, são descartadas; outras parecem ser inesperadamente cruciais e impossíveis de se replicar online. Para os trabalhadores que estão se perguntando, se agora vão voltar para o escritório, a resposta mais honesta é esta: mesmo que voltem, o escritório pode nunca mais ser o mesmo.

Essa pesquisa descobriu que dos 56% das pessoas entrevistadas, empregadas antes da Covid-19, metade trabalhava em casa, – 35% passaram para trabalhar em casa, enquanto outros 15% já o faziam antes da Covid; 37% continuaram a se deslocar para o trabalho e 10% foram dispensados ou desligados de suas empresas. A pesquisa foi baseada em duas amostras distintas de dados – uma que coletou 25.000 respostas no início de abril e a segunda, que coletou outras 25.000 respostas no início de maio.

O artigo de Thompson cita a experiência da Accenture, que tem cerca de 500.000 funcionários em mais de 200 cidades em 120 países. Antes da pandemia, não mais do que 10% trabalhavam remotamente em um determinado dia da semana. Mas, em meados de março, quase todos foram convidados a trabalhar em casa. Os funcionários se adaptaram rapidamente, disse o CTO da Accenture. O volume das chamadas de vídeo aumentou seis vezes, enquanto o das chamadas de áudio triplicou. Apesar de ter que mudar das interações face a face para áudio e vídeo, a produtividade geral realmente aumentou conforme indicado por várias métricas.

É difícil avaliar se o aumento no trabalho remoto vai durar. A vida em confinamento é muito mais difícil do que parece”, observa Thompson. “Muitos trabalhadores que vivem sozinhos estão vivenciando o isolamento de forma forçada como uma chatice emocional … Quase todos os pais com quem conversei cruzaram os dedos para que as escolas e creches reabrissem no outono – ponto em que o trabalho remoto pode se tornar uma opção, oposta àquela que foram forçados a suportar no início da Pandemia. Supondo que esse dia chegue, é possível que alguns optem por continuar trabalhando fora do escritório.

O trabalho remoto, também conhecido como teletrabalho, existe há décadas, mas decolou em meados da década de 1990 com o crescimento explosivo da Internet. Alguns até previram que a Internet levaria ao declínio das cidades, porque permitiria às pessoas trabalhar, manter contato com amigos e colegas e fazer compras em casa. Por que alguém escolheria morar em uma área metropolitana cara e lotada, se eles poderiam morar em um local mais acessível, menos estressante e potencialmente mais saudável?

A pesquisa conduzida antes da pandemia descobriu que o trabalho remoto oferece efeitos positivos significativos tanto para o funcionário quanto para o empregador... O que a Accenture descobriu não é, ao que parece, um acaso: a produção geralmente aumenta quando as pessoas trabalham remotamente.” O artigo ainda aponta dois estudos de caso de produtividade: um, focado no trabalho de casa (WFH - work from home) e o segundo no trabalho de qualquer lugar (WFA - work from anywhere). A pesquisa sobre trabalho remoto tem lidado amplamente com os programas da WFH, nos quais os funcionários geralmente vivem perto do escritório. Esses programas oferecem flexibilidade temporal aos trabalhadores, incluindo tempos de deslocamento reduzidos e melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Mas, quão eficaz é trabalhar em casa?

Pesquisadores de Stanford abordaram essa questão em um artigo de 2013 com base em um experimento de 9 meses conduzido com a CTrip, – a maior agência de viagens da China. A CTrip perguntou a quase 1.000 funcionários em seu call center em Xangai se eles estariam interessados ​​em trabalhar em casa quatro dias por semana, com o quinto dia no escritório como de costume. Cerca de metade dos funcionários se interessou, – principalmente aqueles que tinham filhos e deslocamentos longos para o trabalho, – e cerca de 250 qualificados em virtude de terem pelo menos seis meses de mandato, além de acesso à banda larga e um quarto privativo em que pudessem trabalhar em casa. CTrip então realizou um sorteio, e um grupo foi selecionado para o experimento, enquanto o restante continuou a trabalhar no escritório como um grupo de controle.

O trabalho em casa levou a um aumento de desempenho de 13%, dos quais cerca de 9% foi de trabalhar mais minutos por turno (menos pausas e dias de licença médica) e 4% de mais chamadas por minuto (atribuído a um ambiente de trabalho mais silencioso)... Esses trabalhadores também relataram maior satisfação no trabalho e menos rotatividade, mas sua taxa de promoção, condicionada ao desempenho, caiu. Devido ao sucesso do experimento, a CTrip implementou a opção WFH para toda a empresa e permitiu que os funcionários decidissem entre trabalhar em casa ou o escritório. Curiosamente, mais da metade deles optou por trabalhar à partir de casa, o que levou o modelo WFH quase dobrar, passando para 22% da força de trabalho”.

Como trabalhar em qualquer lugar (WFA) se compara a trabalhar em casa (WFH)? 

Um outro artigo avaliou a diferença de produtividade entre os programas WFH e WFA, com base nas experiências do US Patent and Trademark Office (USPTO), que em 2006, implantou um programa WFH de forma voluntária, com um grupo inicial de 500 examinadores de patentes, permitindo que os funcionários trabalhassem em casa até quatro dias por semana. Então, em 2012, o USPTO lançou um programa piloto WFA, agora permitindo que seus funcionários, trabalhassem em qualquer lugar. Os funcionários elegíveis para o piloto WFA deveriam já estar inscritos no WFH, e residir a mais de 50 milhas da sede do USPTO e também que concordassem em renunciar aos seus direitos de serem reembolsados ​​pelas viagens à sede, que eram limitadas a cinco por ano. No geral, o programa WFA levou a um aumento adicional na produção de trabalho de 4,4% em comparação com o programa WFH.

Trabalhar em casa também pode melhorar a forma como os funcionários se sentem em relação ao trabalho, disse Thompson, citando estudos e mostrando uma correlação positiva entre o teletrabalho e a satisfação no trabalho. “As pessoas tendem a valorizar a maior flexibilidade na definição de suas horas de trabalho, o tempo adicional com os membros da família, as distrações reduzidas.

Além de aumentar a produtividade e a satisfação no trabalho de seus funcionários, outra atração para os empregadores é a redução dos custos imobiliários. O USPTO estima que eles economizaram mais de US $38 milhões em espaço para escritórios. Além disso, as empresas têm acesso a um grupo maior de funcionários talentosos que podem não ter recursos para se mudar para cidades caras ou preferir não fazê-lo por motivos familiares ou outros. “E depois da pandemia – muitos não vão querer voltar”, acrescentou Thompson. “Muitos hesitarão com a ideia de elevadores lotados e escritório, onde as pessoas ficam amontoadas.”

Mas há um outro lado, como ouvi de muitos dos trabalhadores que entrevistei, que afirmam que, por mais que nossos escritórios possam ser ineficientes, disseminadores de doenças e outras coisas que atrapalham a produtividade, muitas pessoas querem voltar para eles, escreveu Thompson em conclusão. “Isso porque o trabalho no escritório é mais do que apenas produtividade direta. Ele também influencia a química da cultura do local de trabalho, que vem da interação de funcionários o dia todo, de maneiras inesperadas e até despretensiosas; e muitos funcionários temem que essa cultura esteja se desgastando ou no final de um ciclo”.

16/12/2020

Tendências 2030 – um período de Transformação

O Conselho Nacional de Inteligência é o centro do pensamento estratégico de médio e longo prazo na Comunidade de Inteligência dos EUA. A cada quatro anos, ele mostra um relatório de Tendências Globais com um horizonte de tempo previsível de aproximado de quinze anos, a fim de fornecer à Casa Branca e à comunidade de inteligência uma estrutura para avaliação de política estratégica de longo prazo. Seu último relatório – Global Trend 2030: Alternative Worlds (GT2030) – foi lançado em dezembro passado.

Este relatório pretende estimular a reflexão sobre as rápidas mudanças geopolíticas que caracterizam o mundo hoje e as possíveis trajetórias globais nos próximos anos”, afirma no Sumário Executivo. “Tal como acontece com os relatórios de tendências globais anteriores, Ele não busca prever o futuro mas, fornecer uma maneira de pensar sobre possíveis futuros e suas implicações.”

O GT2030 identificou quatro megatendências que devem moldar e transformar o mundo nas próximas décadas: a capacitação individual; a difusão do poder; padrões demográficos; e o nexo crescente entre alimentos, água, energia e mudanças climáticas. Essas mega tendências são reconhecidas e aceitáveis e estão bem bem presentes em nossas discussões do dia-a-dia.

Essas tendências podem levar a mundos radicalmente diferentes, dependendo de como elas interagem com o que o relatório chama cenários de virada de jogo, cada um dos quais levanta questões que não podem ser respondidas sobre direções distintas que as mega tendências podem seguir. O GT2030 explora em detalhes, seis dessas viradas de jogo:

  1. Uma economia global volátil e propensa a crises;
  2. Incapacidade dos governos de se adaptarem a um mundo em rápida mudança;
  3. O potencial para aumento de conflitos;
  4. Instabilidades regionais mais amplas;
  5. O impacto das novas tecnologias; e
  6. O futuro papel dos Estados Unidos.

Na parte final do relatório, a equipe GT2030 trabalhou com a McKinsey para analisar os vários cenários alternativos que podem ocorrer com base nas complexas interações entre as quatro mega tendências e as seis viradas de jogo. Eles usaram o Modelo de Estudos do Crescimento Global da McKinsey para modelar esses vários cenários e escolheram os quatro mais prováveis. Em seguida, desenvolveram uma visão fictícia e um enredo para cada um dos quatro mundos alternativos:

  1. A globalização se estagna e os conflitos inter estados aumentam;
  2. Cooperação mundial em uma série de questões lideradas pelos EUA e China;
  3. As desigualdades econômicas dominam, levando ao aumento das tensões sociais e conflitos globais; e
  4. Atores não estatais colaboram para enfrentar os desafios globais que levam a um mundo mais estável e socialmente coeso.

O relatório é bastante interessante. Fornece uma estrutura bem construída para refletir sobre como o mundo poderá ser nos próximos 15 a 20 anos. E, em particular, dá um bom suporte para pensar sobre a contínua revolução da tecnologia digital e seu impacto transformador nas economias e sociedades em todo o mundo. Estamos passando por um período de grandes mudanças, enquanto fazemos a transição da sociedade industrial dos últimos dois séculos para um novo tipo de sociedade baseada na informação.

Como será o nosso mundo nas próximas décadas?

O impacto das novas tecnologias é uma das seis viradas do jogo, que dá foco à seguinte questão: “Será que os avanços tecnológicos serão desenvolvidos a tempo de aumentar a produtividade econômica e resolver os problemas causados pelo crescimento da população mundial, pela rápida urbanização e pelas mudanças climáticas?”. Mas, na verdade, as mudanças tecnológicas desempenham um papel importante em cada uma das quatro mega tendências.

Empoderamento individual: o empoderamento individual será acelerado devido à redução da pobreza, o crescimento da classe média global, maior realização educacional, amplo uso de novas tecnologias de comunicação e manufatura; e avanços na área de saúde.

Nos últimos dois séculos, a Revolução Industrial levou a grandes melhorias no padrão de vida em todo o mundo. De acordo com o economista Richard Steckel, de 1920 a 1998, o PIB per capita mundial aumentou 8,6 pontos percentuais, em diferentes regiões. O PIB per capita aumentou 3,3 vezes na África e na Índia e 5,5 na China. Mas nos países mais industrializados, cujas economias se beneficiaram fortemente dos avanços tecnológicos e científicos da Revolução Industrial, o PIB per capita cresceu a uma taxa muito mais rápida. Os países da Europa Ocidental registraram um aumento de mais de dez vezes, os EUA chegaram a crescer 21,7 e o Japão de 30,5.

Esses avanços levaram a um crescimento da classe média de mais ou menos um bilhão de pessoas, principalmente concentrada nos países industrializados. Ao mesmo tempo, mais de um bilhão de pessoas em economias menos desenvolvidas ainda vivem em extrema pobreza. Mas, graças ao empoderamento individual, a GT2030 acredita que EWTA pode ser a mega tendência mais importante, e que essa situação irá mudar rapidamente.

Um número significativo de pessoas tem saído de um nível bem abaixo do limiar da pobreza para um nível relativamente melhor devido ao amplo desenvolvimento econômico. Na ausência de uma recessão global, o número de pessoas que vivem em extrema pobreza está prestes a declinar, à medida que a renda continua a aumentar na maior parte do mundo. O número pode cair cerca de 50% até 2030, de acordo com alguns modelos… Na maioria dos cenários – exceto nos mais terríveis – avanços significativos na redução da pobreza extrema, serão alcançados até 2030...”

A maioria das classes médias em todo o mundo em desenvolvimento está destinada a se expandir substancialmente em termos de números absolutos e da porcentagem da população que pode reivindicar o status de classe média durante os próximos 15-20 anos. Mesmo os modelos mais conservadores veem um aumento no total global daqueles que vivem na classe média dos atuais 1 bilhão ou mais para mais de 2 bilhões de pessoas. Outros veem aumentos ainda mais substanciais como, por exemplo, a classe média global atingindo 3 bilhões de pessoas em 2030.”

As tecnologias digitais têm desempenhado um papel central neste empoderamento individual global. Desde meados dos anos 1990, a Internet tem gerado uma economia digital verdadeiramente global, que conecta pessoas e empresas em todo o mundo. Nos últimos cinco anos, nossos avanços tecnológicos contínuos estão trazendo os benefícios de capacitação da revolução digital para quase todas as pessoas no planeta. Três desses avanços se destacam em particular. 1) O crescimento explosivo de dispositivos móveis cada vez mais poderosos, baratos e inteligentes; 2) a ascensão da computação em nuvem, que está permitindo a distribuição econômica de serviços e aplicativos sofisticados para todos esses dispositivos; e 3) as onipresentes redes sem fio de banda larga conectando tudo isso. Juntos, esses avanços estão dando origem a uma plataforma baseada na Internet para inovações digitais inclusivas que está tirando as pessoas da pobreza extrema, bem como expandindo significativamente a classe média mundial.

Difusão de Poder: Não haverá poder hegemônico. O poder mudará para redes e coalizões em um mundo multipolar.

Existem dois aspectos principais nesta mega tendência. O poder econômico e político está mudando da América do Norte e da Europa Ocidental para as economias de crescimento mais rápido do Leste e do Sul. O poder nacional está sendo distribuído para países com PIB e populações crescentes, não apenas China, Índia e Brasil, mas também nos atores regionais como Colômbia, Indonésia, Nigéria, África do Sul e Turquia.

A mudança no poder é apenas parte da história e pode ser ofuscada por uma mudança ainda mais fundamental na natureza do poder”, observa o relatório. “Em 2030, nenhum país – sejam os EUA, China ou qualquer outro grande país – será uma potência hegemônica. Ativado por tecnologias de comunicação, o poder quase certamente se deslocará mais para redes multifacetadas e amorfas compostas de atores estatais e não estatais que se formarão para influenciar as políticas globais em várias questões. A liderança dessas redes dependerá da posição, do enredamento, da habilidade diplomática e do comportamento construtivo. As redes irão restringir os formuladores de políticas porque vários participantes serão capazes de bloquear as ações dos formuladores de políticas em vários pontos.”

Os atores não estatais incluirão grandes cidades e regiões urbanas, empresas multinacionais, organizações não governamentais (ONGs), instituições acadêmicas e comunidades ad-hoc com poderes. A mídia social, big data e outras tecnologias avançadas permitirão que esses grupos colaborem uns com os outros, bem como com os governos locais, para enfrentar os desafios globais. Dadas as populações polarizadas e os governos nos Estados Unidos e em outros grandes países, esse modelo distribuído de governança pode muito bem emergir como a maneira mais razoável de fazer as coisas.

Padrões demográficos: o arco demográfico de instabilidade se estreitará. O crescimento econômico pode diminuir em países em envelhecimento. Sessenta por cento da população mundial viverá em áreas urbanizadas; a migração aumentará.

A tecnologia deve desempenhar um papel importante para ajudar a encontrar soluções acessíveis para os desafios colocados por uma população crescente e cada vez mais urbana, que deverá crescer de 7,1 para 8,3 bilhões de pessoas em 2030, sessenta por cento das quais viverão em cidades, em comparação com cinquenta por cento hoje.

Além disso, a idade média de quase todos os países está aumentando rapidamente, especialmente nas economias mais avançadas. Uma grande porcentagem de suas populações terá mais de 65 anos, o que representa grandes desafios para os programas de saúde e benefícios sociais. As inovações tecnológicas são necessárias para ajudar a fornecer serviços de saúde de alta qualidade a preços acessíveis para uma população que envelhece, bem como um ambiente adequado que lhes permita trabalhar por mais tempo e adiar a aposentadoria.

Alimentos, água e energia: a demanda por esses recursos crescerá substancialmente devido ao aumento da população global. O enfrentamento dos problemas relativos a uma commodity estará vinculado à oferta e à demanda das demais.

Com bilhões saindo da pobreza e ingressando na classe média, podemos esperar um aumento na demanda por recursos naturais, bem como por produtos e serviços de todos os tipos. Mas, atender a essas demandas e, esperançosamente, desencadear uma era de prosperidade só será possível em uma economia baseada em padrões de produção e consumo sustentáveis.

Uma classe média em expansão e o aumento das populações urbanas aumentarão as pressões sobre os recursos críticos – principalmente alimentos e água – mas novas tecnologias – como a agricultura vertical em edifícios altos que também reduzem os custos de transporte – podem ajudar a expandir os recursos necessários. A segurança alimentar e hídrica está sendo agravada pela mudança das condições climáticas fora das normas esperadas.”

Não estamos necessariamente caminhando para um mundo de escassez, mas os formuladores de políticas e seus parceiros do setor privado precisarão ser proativos para evitar a escassez no futuro. . . As questões serão se a gestão de recursos críticos se torna mais eficaz, até que ponto as tecnologias mitigam os desafios dos recursos e se melhores mecanismos de governança são empregados para evitar os piores resultados possíveis.”

Em sua página de abertura, o relatório Global Trends 2030 compara nossos tempos atuais com o alvorecer da Era Industrial. “Estamos vivendo um período de transformação semelhante, no qual a amplitude e o escopo dos possíveis desenvolvimentos – bons e ruins – são iguais, se não maiores, do que as consequências das revoluções políticas e econômicas do final do século XVIII.

Em seguida, resume nossos tempos atuais com as famosas linhas de abertura usadas por Charles Dickens ao escrever sobre o período do final do século 18 de “A Tale of Two Cities”:

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos... foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero... estávamos todos indo direto para o Céu, todos nós estávamos indo direto para o outro lado...

22/11/2020

O impacto contínuo e transformador da TI


Há alguns anos, o McKinsey Global Institute publicou Dez tendências de negócios focados em TI para a próxima década. O relatório é fruto de uma pesquisa profunda e muito bem trabalhada; porém sem muitas surpresas. Qualquer tecnologia que tenha um impacto transformador nos negócios na próxima década deve, pelo menos, estar ao alcance imediato (agora) dos usuários, pois as inovações disruptivas levam tempo para acontecer.

Muitas tendências refletem o crescente domínio da Internet como uma tecnologia capacitadora, bem como um modelo e metáfora para interações comerciais e sociais”, diz o relatório em sua introdução. “Vinte anos após a revolução da Internet, as empresas e os consumidores esperam que as informações estejam a uma pesquisa do Google, amigos e colegas estão sempre disponíveis em sites de redes sociais e bens e serviços (incluindo bens públicos, como educação e serviços governamentais) podem ser obtido instantaneamente de um serviço online em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora do dia.”

A matriz social, a Internet das coisas, o big data, as análises avançadas e a realização de qualquer coisa como um serviço, são as principais tendências do relatório. O SMAC – Social, Mobile, Analytics & Cloud, – se tornou o novo plástico, capturando o futuro da TI em uma palavra, ou melhor, em uma sigla. Quase todo mundo concorda que essas são tecnologias fundamentais, como a Internet há vinte anos, que todas as empresas deverão adotar.

No entanto, embora essas tecnologias estejam sendo amplamente discutidas, elas ainda estão nos estágios iniciais e até embrionários de implantação. Por exemplo, de acordo com um estudo da McKinsey, sobre a evolução da empresa em rede, mais de 80% das empresas pesquisadas usam tecnologias sociais, mas apenas 10% estão obtendo o valor de negócios esperado por estarem realmente em rede. E, embora a nuvem já esteja fornecendo muitos serviços ao consumidor, incluindo acesso a filmes, música e aplicativos móveis de todos os tipos, as empresas estão apenas começando a implantar e aprender como usá-la da melhor maneira, como foi discutido no MIT Sloan CIO Symposium. Seu potencial para impulsionar a inovação, ainda está no inicio.

Dada sua ampla aceitação e implantação crescente, há poucas dúvidas de que até 2025 essas tendências de TI terão um impacto transformador em empresas e setores em todo o mundo. E embora não sejam tão conhecidas e possivelmente não sejam tão impactantes, as próximas tendências de TI provavelmente também serão amplamente adotadas na próxima década: automação de trabalho do conhecimento, experiências digitais / físicas integradas, “eu + grátis + facilidade de uso = e-volução do comércio”.

Porém, sobre as duas últimas tendências – os próximos três bilhões de cidadãos digitais e a transformação do governo, da saúde e da educação – parecem de natureza diferente. Embora também tenham um impacto sobre os negócios e as economias, provavelmente terão um impacto ainda mais forte na qualidade de vida de indivíduos, nações e sociedades em todo o mundo. Consequentemente, essas tendências são significativamente mais complexas e sua evolução são mais difíceis de se prever, porque são diretamente afetadas por fortes forças sociais.

A McKinsey estima que, na próxima década, até três bilhões de pessoas adicionais poderão se conectar à Internet com dispositivos móveis e redes sem fio e, assim, tornar-se parte da economia digital global. Além disso, mais de 1,8 bilhão de pessoas se tornarão consumidores até 2025, ou seja, ganharão o suficiente para comprar bens e serviços além de atender às suas necessidades básicas.

Este rápido aumento na conectividade pode ser um fator-chave no desenvolvimento de comunidades em regiões menos desenvolvidas”, observa o relatório. A Internet móvel ajudará a levar pagamentos móveis e serviços financeiros aos ‘sem banco’. A inclusão financeira é um dos motores mais importantes do crescimento econômico e do consumo. O mesmo ocorre com o crescimento do empreendedorismo local impulsionado pela expansão do acesso a serviços digitais. Empresas locais e globais desenvolverão produtos e serviços voltados especificamente para esses consumidores recém-chegados ao mundo digital.

Essa pode muito bem ser a tendência de TI mais importante de todas. Uma previsão feita em um relatório, pelo Conselho Nacional de Inteligência dos EUA, analisando as principais tendências até 2030, mostra que haverá uma mega tendência ao empoderamento individual; e, como resultado, um amplo desenvolvimento econômico e redução da pobreza extrema e que a porcentagem da população classificada como classe média, irá se expandir substancialmente em quase todos os países. “Mesmo os modelos mais conservadores veem um aumento no total global de pessoas que vivem na classe média dos atuais 1 bilhão ou mais para mais de 2 bilhões de pessoas. Outros veem aumentos ainda mais substanciais com, por exemplo, a classe média global atingindo 3 bilhões de pessoas em 2030.

A Internet móvel agora está trazendo os benefícios de capacitação da revolução digital para quase todas as pessoas no planeta e ajudando a melhorar seu padrão de vida. A promessa de até três bilhões de cidadãos digitais adicionais está transformando a Internet em uma plataforma para inovação verdadeiramente inclusiva e de desenvolvimento econômico.

Mas, junto com seus enormes benefícios, o empoderamento econômico generalizado vem com seu próprio conjunto de desafios. O estudo Global Trends 2030 lista a crescente demanda por alimentos, água e energia como mega tendências mundial. Com bilhões saindo da pobreza e ingressando na classe média e uma população global crescente, podemos esperar um aumento na demanda por esses recursos essenciais, bem como por produtos e serviços de todos os tipos. Grandes inovações tecnológicas e colaborações globais são necessárias para nos ajudar a evoluir para uma economia baseada em padrões de produção e consumo mais sustentáveis.

O que nos traz à última e igualmente desafiadora tendência de TI: a transformação do governo, da saúde e da educação. Os setores público e privado reagiram de maneira bem diferente às mudanças estruturais provocadas pela revolução da tecnologia digital. Nos últimos vinte anos, as empresas adotaram a TI para melhorar significativamente sua produtividade, reduzir custos e se adaptar melhor às condições de mercado em rápida mudança e ao aumento da concorrência. As empresas aprenderam como se tornar organizações digitais eficazes.

No entanto, esses benefícios têm sido menos aparentes no governo, na saúde e na educação”, observa o relatório da McKinsey. “Esses serviços vitais respondem por quase um terço do PIB global, mas ficaram para trás no crescimento da produtividade. Até recentemente, eles demoravam a adotar plataformas baseadas na Web, análises de big data e outras inovações de TI”. No entanto, acreditamos que o governo, a saúde e a educação podem entrar em uma nova era de crescimento da produtividade via TI. Na verdade, o poder e a acessibilidade crescentes da TI estão enfrentando uma pressão crescente para fornecer melhores serviços públicos e sociais a um custo menor, superando cada vez mais a profunda resistência à mudança.

Alinhar o governo às realidades econômicas do século 21 exigirá inovações pelo menos tão disruptivas e profundas quanto aquelas adotadas pelo setor privado. Os gastos do governo têm aumentado constantemente nas nações ricas no século passado. Um relatório do Economist sobre O Futuro do Estado inclui dados mostrando que o gasto médio do governo como porcentagem do PIB em treze países do mundo rico passou de 10% em 1870 para 28% em 1960 e 48% em 2009.

Os cidadãos desses países democráticos e ricos continuaram a exigir mais serviços de seus governantes eleitos. Eles querem educação, saúde, segurança, transporte melhorados e assim por diante. Tudo isso faz parte do processo de se tornar uma economia avançada e uma sociedade rica. À medida que o padrão de vida aumenta nas economias emergentes, seus cidadãos exigem mais e melhores serviços públicos.

Embora os setores público e privado sejam inerentemente diferentes, várias práticas que ajudaram a melhorar a produtividade e a reduzir custos nos negócios nos últimos 20 anos podem ser aplicadas ao governo. Porém, tornar o governo mais eficiente é absolutamente necessário, mas não suficiente. Também é necessário enfrentar os custos crescentes dos serviços sociais, especialmente dos cuidados de saúde.

Os sistemas de TI podem fornecer serviços de saúde com mais eficiência na escala necessária para dar suporte a uma população envelhecida e com vários problemas crônicos. “Controlar os gastos com saúde e melhorar os resultados para os pacientes são objetivos compartilhados por nações ao redor do mundo”, observa o relatório. “Muitas das abordagens usadas para TI, presentes neste relatório, já estão sendo aplicadas hoje, mas em proporções significativamente menores, que ainda levarão tempo para mostrar sua eficácia e reais benefícios.

É o caso da educação. Uma educação acessível e de qualidade é um requisito fundamental da economia do conhecimento do século XXI. Mas, “Na maioria dos lugares, as principais instituições educacionais estão estruturadas hoje como no século 19 e prestam seus serviços da mesma maneira”, observa McKinsey e, em seguida, adiciona uma nota de esperança: “Acreditamos que as tendências descritas neste relatório irão se combinam para forçar os educadores a repensar os modelos de aprendizagem e abraçar novas plataformas e modos de ensino.” Avanços recentes na aprendizagem online, ainda em fase experimental, podem com o tempo expandir significativamente o número de pessoas em todo o mundo com acesso a uma educação de qualidade a custos razoáveis.

É difícil prever como essas tendências de TI se desenvolverão na próxima década. Haverá sérios obstáculos a serem superados ao longo do caminho, como privacidade pessoal e cibersegurança. As empresas terão que se adaptar a novos modelos de negócios e estruturas organizacionais. Tecnologias sofisticadas e mercados em rápida mudança irão valorizar as habilidades e a criatividade em todos os níveis. Algumas das tendências levarão mais de uma década para serem totalmente implementadas, e algumas serão significativamente reformuladas ao longo do caminho. Mas, quando pudermos juntar tudo, tenho certeza de que a TI continuará a ter um impacto transformador nos negócios e na sociedade por muitos anos.

16/11/2020

O dinheiro digital

A Royal Society of Arts (RSA), – Sociedade Real para o Encorajamento das Artes, Manufaturas e Comércio, – foi fundada em 1754 para “encorajar empresas, a ampliar a ciência, refinar a arte, melhorar produtos e estender o comércio”. Hoje, ela se autodenomina “uma organização iluminista comprometida em encontrar soluções práticas inovadoras para os desafios sociais dos nossos dias”.

Em 2013, eles abriram um importante debate, chamado de painel de discussões Da exclusão digital à inovação inclusiva: o caso do dinheiro digital e publicaram um documento sobre este tema. Participaram do ato, além de outros, os professores do Imperial College, David Gann e Gerald George e o professor da University of Queensland, Mark Dodgson.

Neste debate, foi discutido o poder transformador do dinheiro digital e como as transações econômicas estão cada vez mais, mudando da esfera física, para a digital, democratizando os serviços financeiros em todo o mundo e ajudando bilhões de pessoas a ingressar na economia digital e melhorar seu padrão de vida.

Assim como as comunicações e a publicação foram transformadas pelas tecnologias digitais, o mesmo acontecerá com os serviços financeiros. O progresso do dinheiro digital inevitavelmente nos surpreenderá e se desenvolverá de maneiras inesperadas, mas acreditamos que esteja prestes a realizar uma transformação notável na economia global. Isso acabará com a divisão entre aqueles que podem e aqueles que não podem participar das transações econômicas formais. Pode dar início a uma nova era de inovação mais inclusiva, que envolve bilhões de pessoas em todo o mundo na construção de serviços que afetam seu futuro”.

O crescimento massivo de dispositivos móveis conectados à Internet é uma das principais forças que impulsionam a evolução em direção a um ecossistema de dinheiro digital global. Nos últimos vinte anos, a Internet tem sido uma plataforma incrível para inovação, permitindo que empresas startups, grandes instituições, governos, ONGs e todos os demais, desenvolvam e tragam para o mercado muitos novos produtos e serviços digitais. Isso levou à criação de todos os tipos de aplicações. Ele transformou nossas atividades diárias, incluindo a maneira como trabalhamos, fazemos compras, aprendemos, fazemos operações bancárias, ouvimos música, assistimos a filmes e lidamos com o governo.

Para ficar online na década de 1990, era necessário um computador pessoal e uma conta em um provedor de serviços. As transações de comércio eletrônico exigiam um cartão de crédito ou conta bancária. Portanto, embora a Internet fosse realmente capacitadora para aqueles com os meios para usá-la, ela levou a uma enorme divisão digital em todo o mundo.

O alcance global e a conectividade com as quais ficamos tão entusiasmados na fase inicial da Internet não eram, na realidade, tão inclusivos. À medida que nossa economia estava se tornando cada vez mais digital, novas desigualdades surgiram, porque muitas pessoas ao redor do mundo não podiam pagar um PC ou uma conta na Internet e não tinham uma conta bancária ou cartão de crédito. Foi desconcertante ver uma revolução digital global que deixou de fora a maioria da população mundial.

Porém, esse quadro começou a mudar nos últimos anos. Os avanços contínuos da tecnologia, agora estão nos permitindo levar os benefícios de capacitação da revolução digital para quase todas as pessoas no planeta. Os telefones celulares e o acesso à Internet passaram de um luxo a uma necessidade que quase todo mundo pode pagar. Estamos fazendo a transição da economia conectada de PCs, navegadores e servidores da web para nossa economia cada vez mais hiper conectada de dispositivos móveis onipresentes, poderosos e baratos, aplicativos baseados em nuvem e redes de banda larga sem fio.

Um estudo recente da McKinsey examinou os 12 principais avanços tecnológicos disruptivos que transformarão a vida, os negócios e a economia global nos próximos anos. A Internet móvel apareceu no topo da lista: “Equipada com dispositivos e aplicativos de computação móvel habilitados para Internet para quase todas as tarefas, as pessoas cada vez mais realizam suas rotinas diárias usando novas maneiras de compreender, perceber e interagir com o mundo. . . No entanto, todo o potencial da Internet móvel ainda está para ser realizado; ao longo da próxima década, esta tecnologia pode alimentar transformações e interrupções significativas, não apenas devido ao seu potencial de trazer de dois a três bilhões de pessoas a mais para o mundo conectado, mas principalmente, de mover economias em desenvolvimento”.

A Internet móvel está agora inaugurando a próxima fase importante na evolução do dinheiro e dos pagamentos. O dinheiro está continuando sua transformação através dos séculos, de ser incorporado em moedas de ouro e prata, para nada mais do que informação nas carteiras digitais de nossos dispositivos móveis, bem como em nossas contas digitais em algum lugar na nuvem. E, uma vez que quase todas as pessoas no mundo, ricos e pobres, agora têm acesso a dispositivos móveis, este capítulo importante na história do dinheiro traz consigo o potencial de inclusão universal que não existia no passado. O dinheiro digital móvel está chegando, – com o tempo, – a todos os indivíduos em todos os cantos do mundo.

A Internet móvel também está prestes a se tornar uma plataforma para inovações digitais inclusivas, das quais o dinheiro digital e os muitos serviços que surgirão em torno dele são os principais exemplos. A inovação inclusiva é um conceito relativamente novo. Seu objetivo é desenvolver produtos e serviços que quase todos podem pagar, mesmo aqueles que estão na base da pirâmide, ou seja, os grupos socioeconômicos mais pobres em todo o mundo. .

Mas, por si só, a Internet móvel não pode conduzir a transição para um ecossistema de dinheiro digital inclusivo. Se examinarmos a revolução da Internet há 1/4 de século, o que foi verdadeiramente transformador não foi apenas a capacidade de se comunicar e acessar o conteúdo, mas também a capacidade de conduzir transações econômicas de todos os tipos. E para fazer isso, é necessário que nossas plataformas digitais suportem alguns serviços essenciais, em particular a capacidade de estabelecer nossa identidade de maneira única e lidar com pagamentos eletrônicos com segurança.

O acesso a esses serviços digitais não foi um problema, para aqueles de nós, que já tinham identidades únicas no mundo físico, – por exemplo, uma certidão de nascimento, carteira de motorista, conta bancária, passaporte, – que poderíamos usar para estabelecer nossa identidade no mundo digital. No entanto, como agora buscamos tornar essas plataformas digitais verdadeiramente inclusivas, muitas das pessoas que se pretende alcançar não possuem identidades únicas. A inclusão digital age assim como uma função de força para capacitar cada indivíduo no planeta, finalmente dando a cada um algo tão básico quanto sua identidade única, um pré-requisito absoluto para a inclusão econômica e social.

O professor Gerald George e Rajiv Gandhi, falaram sobre a iniciativa da Unique ID (UID) da Índia. O projeto UID visa emitir para cada residente na Índia um número único de 12 dígitos, que será armazenado em um banco de dados centralizado e será vinculado a dados demográficos básicos e biométricos. Entre outros benefícios, o projeto permitirá que os residentes menos favorecidos da Índia se beneficiem dos muitos serviços fornecidos pelo governo e pelo setor privado, incluindo serviços digitais, que agora poderão acessar por meio de seus dispositivos móveis.

Todas essas mudanças são de escala histórica. Embora todas as discussões abertas no painel e no documento da RSA sejam reais e estejam em andamento, sua evolução levará tempo. A maioria dessas mudanças massivas começa lentamente, pois precisamos superar muitos obstáculos técnicos, de mercado e políticos. Mas, em algum momento, uma massa crítica ou ponto de inflexão será alcançado e o progresso será significativamente acelerado. Como escrito nos parágrafos finais do documento RSA:

O potencial do dinheiro digital é extraordinário. Pode ser uma das tecnologias mais transformadoras de todos os tempos. Para bilhões em todo o mundo, carteiras digitais contendo identidades digitais, dinheiro e contas são uma passagem para a inclusão na economia global. Além disso, o surgimento dessa plataforma para inovação inclusiva dará origem a uma infinidade de aplicativos e serviços, muitos dos quais mal podemos imaginar hoje. As inovações que o dinheiro digital irá induzir aumentarão as oportunidades de empreendedorismo gerador de riqueza e o fornecimento de inovações altamente localizadas, aumentando assim os padrões e a qualidade de vida.” 

14/11/2020

“Techlash” – uma ameaça ao crescimento e ao progresso

Há alguns meses, a Information Technology and Innovation Foundation (ITIF) publicou um guia do formulador de políticas para o “Techlash” – o que é e por que é uma ameaça ao crescimento e ao progresso. “A tecnologia da informação (TI) resolve problemas e facilita nossas vidas, permitindo-nos fazer mais com menos?”, Questiona o relatório do ITIF. “Ou isso introduz complexidade adicional em nossas vidas, nos isola uns dos outros, ameaça a privacidade, destrói empregos e gera uma série de outros danos?”

Não faz muito tempo que as tecnologias digitais e a Big Tech eram amplamente vistas como catalisadores de mudanças positivas: a Internet se tornou uma plataforma global para inovação colaborativa; a mídia social foi uma força libertadora, ajudando levantes democráticos como a Primavera Árabe; e o smartphone estava transformando a vida de pessoas em todo o mundo.

Mas, a década de 2010 viu o surgimento do que veio a ser chamado de techlash. O Oxford English Dictionary (OED) define techlash como “uma reação negativa forte e generalizada ao crescente poder e influência de grandes empresas de tecnologia, especialmente aquelas sediadas no Vale do Silício”. O termo parece ter se originado em um artigo de novembro de 2013 no The Economist, que dizia que as elites da tecnologia estão se tornando alguns dos capitalistas mais implacáveis, e “se juntarão a banqueiros e petroleiros na demonologia pública“. Em 2018, techlash foi uma das oito palavras selecionadas como palavras do ano, para ser adicionadas ao OED.

O relatório do ITIF foi publicado no final de 2019, alguns meses antes do advento da Covid-19. Dado que as tecnologias digitais, – a Internet em particular, – mantiveram as economias e sociedades em movimento durante o maior choque que o mundo já experimentou desde a Segunda Guerra Mundial, talvez o techlash agora desapareça e as tecnologias digitais e Big Tech sejam mais uma vez vistas sob uma luz positiva. Mas não é provável que seja o caso, porque, como o relatório mostra, o medo e a oposição à tecnologia não são novidades.

“As pessoas há muito se opõem às novas tecnologias, temendo que não sejam seguras, destruam a moral, prejudiquem empregos, prejudiquem crianças e levem a uma série de outros supostos males.”

Durante a Revolução Industrial, houve pânicos periódicos sobre o impacto da automação nos empregos, voltando aos chamados Luddites, – trabalhadores têxteis que na década de 1810 destruíram as novas máquinas que ameaçavam seus empregos. E, embora o automóvel tenha sido saudado no início do século 20 por fornecer transporte seguro e rápido, também foi vilão de grandes problemas ao longo das décadas, incluindo a segurança, – os EUA tiveram mais de 36.000 mortes no trânsito em 2018, – sem contar a poluição e congestionamento.

O que deu origem ao techlash? O relatório cita várias razões. Em primeiro lugar, a lua de mel acabou. Agora consideramos os avanços que antes pareciam mágicos, por exemplo, a Internet e a Web em meados da década de 1990; motores de busca e e-commerce alguns anos depois; smartphones, streaming de música e vídeo na década de 2000; e assim por diante.

E, mesmo quando a TI era amplamente vista como uma força positiva, livros e artigos começaram a aparecer contrariando o exagero e as afirmações utópicas a que a TI costumava ser propensa, – como IT Doesn’t Matter de Nicholas Carr, que argumentou que as empresas superestimaram o valor estratégico de TI, que estava diminuindo como fonte de diferenciação competitiva porque era cada vez mais onipresente e comoditizada; e Alone Together, de Sherry Turkle, que alertou que a tecnologia estava tendo um impacto cada vez mais negativo em nossas interações sociais.

“Mas o combustível para o incêndio do techlash veio, pelo menos em parte, de eventos reais, incluindo, entre outros, as revelações que a Rússia usou plataformas de mídia social para interferir nas eleições dos EUA de 2016, Cambridge Analytica fez uso indevido de dados do Facebook para fins políticos e o Google foi investigado por violações antitruste”, disse o relatório. Mais de 37% dos entrevistados em uma pesquisa recente do Pew Research Center disseram que os humanos não serão melhores, em um futuro cada vez mais baseado em IA, aumento da vigilância, crimes cibernéticos, guerra cibernética e controle sobre as pessoas.

O relatório argumenta que “Para prosperar e ser competitivo na próxima fase da economia digital, os países devem resistir ao techlash e promover a aceitação da tecnologia … Em vez de techlash, precisamos de ‘realismo tecnológico’ – um reconhecimento pragmático de que as tecnologias de hoje, impulsionadas em particular por TI, são como praticamente todas as tecnologias anteriores: Eles são uma força fundamental para o progresso humano, mas podem, em alguns casos, representar desafios reais que merecem respostas inteligentes e eficazes.” No entanto, “ceder às paixões techlash desaceleraria o crescimento econômico e salarial, reduziria a competitividade nacional e limitaria o progresso em uma série de prioridades sociais críticas, incluindo educação, habitabilidade da comunidade, proteção ambiental e saúde humana”.

O relatório examina 22 das questões techlash mais prevalentes. E aqui está um breve resumo de cinco dessas questões, juntamente com os contra-argumentos do relatório contra cada uma.

1. As empresas de tecnologia estão destruindo a privacidade do consumidor.

A crítica mais generalizada à Internet e às empresas de tecnologia é que elas deram origem ao chamado capitalismo de vigilância que está corroendo a privacidade online de vítimas involuntárias. Mas, na verdade, os usuários on-line “estão bem cientes de que estão fornecendo dados em troca de serviços e obtêm um valor enorme do fato de que esses serviços são muitas vezes gratuitos … Um projeto de lei de privacidade equilibrado e focado pode resolver a maioria dessas preocupações“.

2. As plataformas online estão explorando os consumidores.

Os ativistas frequentemente argumentam que os consumidores não estão recebendo uma compensação adequada por seus dados, que valem mais do que os bens e serviços que recebem em troca. Isso é o equivalente a “querer uma televisão sem anúncios ou assinaturas. Mas as empresas não podem fornecer bens ou serviços sem gerar receita. Isso pode ocorrer por meio de pagamentos diretos de clientes ou por meio de pagamentos indiretos de anunciantes e patrocinadores.”

3. A mídia social facilita a desinformação.

Tecnologias de mídia de massa, – por exemplo panfletos, jornais, rádio, televisão, – há muito tempo são objeto de manipulação e propaganda. Mas, o problema se tornou mais agudo à medida que os modelos de negócios baseados em anúncios prosperam, alimentando a raiva e a polarização com sofisticados algoritmos de IA. “O governo, a indústria, a mídia de notícias e o público têm papéis a desempenhar na resolução do problema … tornando a publicidade mais transparente, melhorando a aplicação de anúncios impróprios, restringindo o conteúdo do anúncio e aumentando os requisitos para confirmar a identidade dos anunciantes.”

4. A AI é inerentemente tendenciosa.

Dado que os algoritmos de IA são treinados usando a vasta quantidade de dados coletados ao longo dos anos, se os dados incluírem preconceitos raciais, de gênero ou outros preconceitos anteriores, as previsões desses algoritmos de IA refletirão esses preconceitos. Isso é particularmente sério em áreas como o policiamento preventivo e no uso de IA pelos tribunais e departamentos de correção para auxiliar nas decisões de fiança, sentença e liberdade condicional. “Para reduzir o potencial do viés algorítmico de causar danos, os reguladores devem garantir que as empresas que usam IA cumpram as leis existentes em áreas que já são regulamentadas para evitar o viés.”

5. A TI está destruindo empregos.

O medo de que as máquinas deixem humanos sem trabalho não é recente. Mas os temores aumentaram compreensivelmente nos últimos anos, à medida que as máquinas estão cada vez mais inteligentes e sendo aplicadas a atividades que exigem inteligência e capacidades cognitivas jamais vistas, sendo de domínio exclusivo dos humanos, até o momento. A Covid-19 provavelmente agravará esse problema à medida que as empresas aceleram sua adoção de TI e de automação. “Embora por centenas de anos a tecnologia tenha eliminado empregos (por exemplo, fabricantes de carroças), ela também criou novos empregos (por exemplo, mecânicos de automóveis) e aumentou os padrões de vida, o que resultou em mais demanda por trabalhadores fazendo as mesmas tarefas (construindo casas, educando pessoas, vendendo mercadorias, etc.)”

Não voltaremos à era utópica e ingênua da TI como salvadora”, conclui o relatório do ITIF. “Devemos, em vez disso, examinar criticamente o impacto da nova tecnologia para ajudar a maximizar seu valor e limitar os danos … sucumbir ao techlash provavelmente reduzirá o bem-estar individual e social. Os formuladores de políticas devem resistir ao techlash e abraçar o “realismo tecnológico” pragmático – reconhecer a tecnologia é uma força fundamental para o progresso humano que também pode representar desafios reais, que merecem respostas inteligentes, cuidadosamente consideradas e eficazes.

08/11/2020

Planejamento é indispensável

Enquanto os cientistas correm para desenvolver uma cura para o Corona vírus, as empresas estão tentando avaliar o impacto dele em suas próprias operações”, escreveu o professor do MIT Yossi Sheffi em seu artigo de 18 de fevereiro no Wall Street Journal.

Assim como os cientistas estão enfrentando um inimigo desconhecido, os executivos também estão trabalhando as Vegas, sem saber se no dia seguinte terão matéria prima para trabalhar, porque o Corona vírus pode causar interrupções na cadeia de suprimentos.

Sheffi é Diretor do Centro de Transporte e Logística do MIT. Ele escreveu sobre a necessidade de resiliência nas empresas e em suas cadeias de suprimentos, – nos livros The Power of Resilience e The Resilient Enterprise, – para que possam reagir melhor frente a grandes eventos inesperados.

Embora aprender com precedentes históricos seja bom, as interrupções recentes na cadeia de suprimentos – o surto de SARS em 2003 na Ásia, o desastre nuclear de Fukushima em 2011 ou as enchentes na Tailândia em 2011 – todos estes eventos foram muito diferentes da pandemia atual. Esses eventos foram muito mais localizados, duraram relativamente pouco tempo e impactaram principalmente a oferta, não a demanda. O impacto da Covid-19 é muito maior, afetando a demanda do consumidor, bem como as cadeias de suprimentos em todo o mundo, e provavelmente durará um pouco mais.

As cadeias de abastecimento de hoje são globais e mais complexas do que eram em 2003”, com fábricas em todo o mundo afetadas por bloqueios e quarentenas. A Apple, por exemplo, trabalha com fornecedores em 43 países.

Em um artigo mais recente sobre como gerenciar o que ele chamou de Recuperação no estilo “enxugar gelo”, Sheffi escreveu que “A pressão para reabrir as economias do mundo está se intensificando. No entanto, reaberturas apressadas provavelmente estimularão ondas de infecções recorrentes em um local após o outro, seguido por mais fechamentos e mais quarentenas. A recuperação econômica global após o desligamento imposto pela pandemia, portanto, não é provável que seja em forma de ‘V’, em forma de ‘U’, em forma de ‘L’ ou em forma de ‘W’.”

Em vez disso, conforme o número de infecções, internações e mortes aumentam e diminuem, ciclos caóticos de renascimento e recaída econômicos afetarão as empresas e suas cadeias de suprimentos. As empresas enfrentam um jogo de “enxugar gelo” global, à medida que o vírus COVID-19 aparece ou desaparece nas cidades, estados e países que hospedam as extensas cadeias de suprimentos das quais as empresas dependem.”

Como as empresas devem gerenciar suas cadeias de suprimentos em um ambiente tão incerto e devastador?

Abordagens convencionais – por exemplo, previsão de demanda, planejamento de produção, – dependem de dados históricos, e não há tais dados neste evento massivo e único.

Dadas essas restrições”, diz Sheffi, “as palavras do General Dwight Eisenhower soam verdadeiras: Planos são inúteis, mas planejamento é indispensável.

O planejamento em tempos tão incertos deve se concentrar na capacidade de reagir de forma rápida às circunstâncias que mudam rapidamente. Fazer isso de forma eficaz exige que a empresa tenha mapeado completamente sua cadeia de suprimentos, incluindo as localizações físicas das fábricas e depósitos de seus fornecedores, para que possa identificar rapidamente quais de seus produtos podem ser afetados por uma paralisação em qualquer um dos locais dos fornecedores. Esse mapeamento não pode ser feito em tempo real. Em vez disso, deveria ter sido feito como parte do planejamento de resiliência da empresa, – especialmente para empresas grandes e complexas que normalmente têm milhares de fornecedores em todo o mundo.

Em seu artigo do WSJ, Sheffi recomenda que, dadas as muitas incógnitas que acompanham as principais interrupções da cadeia de suprimentos, as empresas devem adotar várias etapas just-in-case, incluindo:

  1. Criar um centro de gerenciamento de emergência com regras claras de tomada de decisão;
  2. Estabelecer prioridades para produtos que devam ser produzidos e quais clientes devem ser atendidos primeiro, se a capacidade for significativamente reduzida;
  3. Determinar quais fornecedores fazem peças críticas, rastrear seus estoques e estabelecer fontes alternativas;
  4. A curto prazo, planejar operações que irão maximizar o fluxo de caixa em vez de lucros;
  5. Manter comunicação próxima com autoridades locais e nacionais, bem como com colegas e parceiros.

Esperar o melhor enquanto se prepara para o pior pode não parecer uma boa abordagem empresarial para a crise. Mas, devido à falta de conhecimento, é a estratégia mais prudente para gerenciar riscos.

Agora, falando sobre o impacto da pandemia, a longo prazo, nas cadeias de abastecimento.

A longo prazo, a pandemia irá acelerar as tendências existentes, – por exemplo, a taxa e o ritmo da transformação digital, adoção de IA, robótica e automação; como um artigo recente da The Economist apontou, a transformação das cadeias de suprimentos globais é outra tendência importante que será acelerada rapidamente pela Covid-19.

Não há dúvida de que as empresas estão com pressa em suas cadeias de suprimentos”, disse The Economist. “De janeiro a maio, a interrupção da cadeia de suprimentos foi mencionada quase 30.000 vezes nas declarações de lucros das 2.000 maiores empresas do mundo, contra 23.000 no mesmo período do ano passado. As menções à eficiência diminuíram de 8.100 para 6.700”.

No entanto, o artigo acrescentou que as empresas estão se mostrando bastante resistentes à pandemia. Apesar do impacto do vírus em suas instalações de produção, “a espinha dorsal dos negócios têm, na maior parte, se mantido muito bem … Isso não quer dizer que os negócios estejam crescendo. Mas é a demanda, não a oferta, que está faltando. Se a espinha dorsal não funcionar, será por falta de tarefa, não por falta de força”.

A pandemia provavelmente acelerará uma série de esforços contínuos na cadeia de suprimentos, incluindo produção mais próxima ao consumidor, base de fornecedores diversificada e capacidade de produção diversificada e estoques.

Cadeias de suprimentos extensas serão substituídas por cadeias nacionais e regionais, especialmente para suprimentos essenciais como as dos setores médico e farmacêutico, e para produções complexas, onde as montagens precisam cruzar fronteiras geográficas. O The Economist cita o exemplo das cadeias de suprimentos automotivas, das quais 59% já são inter-regionais. Nos últimos três anos, a participação da China nas peças automotivas importadas pelos EUA caiu 2,2%, enquanto a participação proveniente de outras partes da América do Norte aumentou 2,8%.

Com o tempo, é bem possível que empresas em economias desenvolvidas tentem estabelecer novos clusters de produção nacional e regional, contando com tecnologia e automação em vez de arbitragem de custos de trabalho. A Zara, varejista de roupas espanhola, é um exemplo de empresa que estabeleceu uma base de fornecedores regionais diversificada, não apenas para ajudar a evitar as interrupções, mas também para ajudá-los a reagir mais rapidamente às mudanças de gosto da moda. As diferentes linhas de roupas da Zara chegam às lojas de forma independente, em vez de fazer parte de uma cadeia de suprimentos altamente integrada.

Outra maneira de reduzir as interrupções é mantendo uma fabricação sobressalente ou paralela.

Embora as empresas possam se orgulhar de sua manufatura enxuta, as fábricas do mundo normalmente não funcionam a 100%: em todo o mundo, a proporção da capacidade de produção que as empresas usam está estagnada ou caindo, nas últimas duas décadas.

Há estoque disponível.

É amplamente aceito que as cadeias de suprimentos modernas consomem implacavelmente a resiliência, mas isso não é totalmente verdade. Os investidores punem empresas que acumulam ações, mas eles também olham com desconfiança para empresas que trabalham exageradamente próximas ao seu limite”.

É difícil prever o impacto a longo prazo da pandemia sobre a eficiência-resiliência, enquanto ainda estamos no meio da tempestade. Haverá uma mudança significativa no equilíbrio em direção à resiliência? Ou uma empresa que investe em resiliência acabará em desvantagem competitiva se outros em seu setor sobreviverem sem fazer tais provisões? O tempo dirá.

02/11/2020

O novo normal digital

A mudança foi radicalmente transformadora e muito difícil de adoção por grandes empresas. Ao longo dos anos, as grandes empresas acumularam ativos valiosos e organizações extensas. Já ocupados com o gerenciamento de suas operações, elas olharam para a mudança mais como uma ameaça do que uma oportunidade, – mas, neste caso, do cenário pandêmico, não houve outra escolha.

Uma crise séria é uma oportunidade para se concentrar nas ações necessárias para sobreviver em um ambiente em rápida mudança. Se um gestor ou empresário nunca se deparar e atravessar uma crise seria em sua carreira, ele nunca vai estar preparado para um real desafio.

Quando as empresas entraram na crise da Covid-19 – sem dúvida o maior impacto que o mundo já experimentou, desde a Segunda Guerra Mundial – as empresas buscaram acelerar sua jornada em direção ao que, quase todos concordam, que será um futuro cada vez mais digital.

A crise do COVID-19 fornece um vislumbre repentino de um mundo futuro, no qual o digital se torna o centro para cada interação, forçando organizações e indivíduos a subirem mais na curva de adoção de tecnologias, quase da noite para o dia”, disse o artigo da McKinsey, Estratégia Digital em um tempo de crise.

Um mundo no qual os canais digitais se tornam o principal (e, em alguns casos, o único) modelo de engajamento do cliente e processos automatizados se tornam o principal impulsionador da produtividade – e a base de cadeias de suprimentos flexíveis, transparentes e estáveis. Um mundo no qual formas ágeis de trabalhar são um pré-requisito para atender às mudanças aparentemente diárias no comportamento do cliente.

Nesse mundo futuro, as empresas devem aprender mais rápido do que nunca, que uma crise é um “mandato para ser ousado”, observa o artigo, e recomenda que as empresas concentrem seus esforços em algumas dessas ações ousadas:

Ofertas digitais atraentes

“… a maioria das organizações está procurando substitutos virtuais para suas ofertas físicas, ou pelo menos novas maneiras de torná-las acessíveis com o mínimo de contato físico.” mas isso é mais fácil dizer do que fazer. Os produtos e serviços físicos evoluíram e foram aperfeiçoados ao longo de muitos e muitos anos. Uma recriação digital direta de uma oferta física geralmente resultará em uma experiência do usuário muito inferior. Em vez disso, a oferta deve ser reinventada para o mundo digital. O design thinking pode desempenhar um papel importante em tal reinvenção.

Uma abordagem centrada no design é focada antes de tudo na experiência do usuário. O bom design visa tornar nossas interações com produtos e instituições complexas – por exemplo, uma empresa, um provedor de saúde, uma sala de aula, uma função governamental – tão atraentes e intuitivas quanto possível. Isso é o que as empresas precisam fazer agora ao trazerem suas ofertas físicas para o mundo digital.

Novos modelos operacionais e de negócios

Embora os resultados variem significativamente de acordo com a indústria, alguns temas comuns sugerem as próximas mudanças normais nas estruturas de custo e modelos operacionais daqui para frente

O artigo cita três dessas novas mudanças normais em particular:

  1. Força de trabalho remota e automação;
  2. Transparência e flexibilidade da cadeia de suprimentos; e
  3. Segurança de dados.

As transformações de negócios mais bem-sucedidas são aquelas que alavancam os principais ativos de uma empresa e os trazem para o futuro integrando os principais ativos com as novas tecnologias e modelos de mercado. Por exemplo, um fator importante na rápida adoção comercial da Internet em meados da década de 1990 foi a relativa facilidade com que as empresas integraram seus principais sistemas back-end com um front-end da web, para que qualquer cliente com um PC e um navegador agora pudesse acessar suas transações legadas e aplicativos de banco de dados a qualquer hora, de qualquer lugar. Da mesma forma, a maneira mais pragmática de as empresas entrarem na curva de aprendizado de IA é aprimorando seus processos de negócios existentes com recursos de IA, transformando assim seus processos legados em processos conectados inteligentes.

Aprendendo no ritmo da crise

“Em situações de extrema incerteza, as equipes de liderança precisam aprender rapidamente o que está e o que não está funcionando e por quê … A ação ousada e a capacidade de aprender estão altamente relacionadas.”

O artigo da McKinsey recomenda várias áreas-chave que devem ajudar as empresas a aumentar o ritmo de aprendizado durante a crise.

Adoção de novas tecnologias e modelos de trabalho. A crise do COVID-19 “tornou a experimentação uma necessidade e uma expectativa”. A mudança abrupta de operações e interações físicas para virtuais é uma excelente oportunidade para aumentar o ritmo do mundo real de aprender a melhor implantar novas tecnologias digitais.

Além disso, a mudança para operações virtuais exige que as empresas mudem os modelos de trabalho aos quais os funcionários, clientes e parceiros de negócios se acostumaram, começando com como melhorar a experiência geral do usuário digital.

Escalabilidade rápida

Escalar o que você aprende é sempre um obstáculo em uma transformação digital.” Em tempos normais, as empresas podem não ter pressa em traduzir o que aprenderam em soluções digitais confiáveis, escaláveis e prontas para a produção. Mas, queiram ou não, a crise está forçando as empresas a fazerem a transição de seus pilotos experimentais para operações em escala real em tempo recorde. Isso é muito desafiador, mas também é uma oportunidade de aprendizado em tempo real com uma base de usuários mais indulgente e grata.

Efeitos sistêmicos. A rápida transição do físico para o virtual requer a mudança de vários modelos operacionais e de negócios simultaneamente, tornando muito importante avaliar como todos eles interagem e potencialmente interferem uns com os outros.

O artigo cita o exemplo de provedores de saúde, que estão enfrentando “uma maior demanda por serviços (incluindo saúde mental e outras apresentações não COVID-19) ao mesmo tempo que seus canais tradicionais são restritos, tudo no contexto de leis de privacidade estritas . Isso fez com que muitos provedores testassem e adotassem rapidamente protocolos de Tele saúde que muitas vezes não existiam em muitos consultórios médicos antes, e navegassem na conformidade com a privacidade, bem como na receptividade do paciente ao envolvimento nesses novos canais. ”

Algo semelhante está ocorrendo no ensino à distância, e-shopping, trabalho em casa, e-reuniões, videoconferências e outras atividades físicas que agora foram forçadas a se tornarem virtuais.

Simplifique e concentre-se

Dadas as enormes complexidades e desafios dessa virtualização forçada, as organizações devem aproveitar as vantagens dos métodos ágeis para ajudá-las a simplificar, focar e evitar a sobrecarga. Para fazer isso, eles precisam coletar e avaliar rapidamente dados em tempo real sobre clientes e mercados para ajudar a determinar o que está funcionando, o que não está, por que e como corrigir ou mudar o curso.

Muitas vezes, nos assuntos humanos, as maiores lições emergem dos tempos de crise mais devastadores”, conclui o artigo. “Acreditamos que as empresas que puderem atender e superar simultaneamente as demandas críticas e do dia a dia de sua resposta à crise poderão obter percepções exclusivas e respostas para ajudar a garantir que seu futuro digital seja mais robusto com o COVID- 19 do que quando nele entrou. ”

27/10/2020

A urgente necessidade de fortalecer a resiliência

Após a Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, os EUA empreenderam uma série de medidas para fortalecer a resiliência interna. Isso incluiu uma significativa expansão do apoio governamental à pesquisa científica em universidades e laboratórios, levando a inovações de produtos do setor privado e melhores armas da indústria de defesa, o que contribuiu para tornar os Estados Unidos a nação mais próspera e segura do mundo.

Outra medida importante foi a expansão das oportunidades educacionais, como o GI Bill, que ofereceu aos 16 milhões de veteranos da Segunda Guerra Mundial pagamentos de mensalidades e despesas de subsistência para frequentar o ensino médio, faculdade ou escolas técnicas/vocacionais. Em 1956, mais de 2,2 milhões tinham usado o GI Bill para frequentar a faculdade ou universidade, e 5,8 milhões o haviam usado para algum tipo de programa de treinamento profissional.

Na década de 1950, o governo promulgou a Lei Nacional de Rodovias Interestaduais e de Defesa, que levou à construção de mais de 77.000 quilômetros do Sistema de Rodovias Interestaduais a um preço total estimado em mais de $ 500 bilhões – a maior obra pública na América. A lei tinha um duplo propósito: facilitar o crescimento econômico do país, bem como apoiar a defesa do país durante uma guerra convencional ou nuclear, se necessário.

E, por último, mas não menos importante, no final dos anos 1960, o governo lançou a ARPANET, a infraestrutura digital que mais tarde se tornou a Internet. A ARPANET foi apoiada pelo Departamento de Defesa para aumentar significativamente a resiliência do país após um ataque nuclear, permitindo que os computadores se comuniquem entre si usando uma rede digital flexível de comutação de pacotes. Esse foco do pós-guerra, na resiliência, diminuiu significativamente nas últimas décadas.

Dos anos 1930 aos 1970 – um período que abrangeu a Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial e o auge da Guerra Fria – os interesses das empresas e da sociedade estiveram intimamente alinhados. A economia keynesiana, batizada em homenagem ao economista britânico John Maynard Keynes, era o modelo econômico padrão durante esse período. Era um modelo pragmático e de capitalismo misto, baseado em uma economia predominantemente do setor privado, mas com um papel apropriado para o governo, como o New Deal e os programas de governo mencionados.

A economia keynesiana começou a cair em desuso com a ascensão da Escola de Economia de Chicago na década de 1970, que defendia uma confiança quase universal nos mercados, um papel circunscrito para o governo e um modelo de negócios baseado na maximização do valor para o acionista como o objetivo primordial de  uma empresa. Essas opiniões influenciaram os funcionários do governo nas décadas seguintes, especialmente o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan, que disse a famosa frase: “O governo não é a solução para o nosso problema, o governo é o problema”.

Nas décadas seguintes, houve uma diminuição significativa no apoio governamental à P&D e à educação. Uma força-tarefa recente sobre Inovação e Segurança Nacional observou que “Washington não conseguiu manter níveis adequados de apoio público e financiamento para ciência básica. O investimento federal em P&D como porcentagem do PIB atingiu o pico de 1,86% em 1964, mas caiu de um pouco mais de 1% em 1990 para 0,66% em 2016 ”.

As iniciativas educacionais dos governos federal e estadual também foram significativamente reduzidas, apesar de a educação ser mais importante do que nunca. Um relatório recente sobre a liderança dos EUA no século 21 mostra que a expansão do ensino médio público e das universidades estaduais na primeira metade do século 20 foi um ingrediente crítico para os EUA se tornarem a economia mais bem-sucedida do mundo. 

“A falta de oportunidades educacionais acessíveis que estejam clara e transparentemente ligadas às novas demandas do mercado de trabalho é um obstáculo significativo para melhorar os resultados do trabalho para os americanos”, disse o relatório.

Mas não foi apenas o governo que reduziu seu foco na resiliência. Os negócios também, conforme explicado em The High Price of Efficiency, um artigo da Harvard Business Review de 2019, escrito por Roger Martin, professor emérito e ex-reitor da Rotman School of Management da Universidade de Toronto. 

“Por que não queremos que os gerentes se empenhem em um uso cada vez mais eficiente dos recursos?”, perguntou Martin.  Claro que nós fazemos.  Mas, um foco excessivo na eficiência pode produzir consequências surpreendentemente negativas.  Para contrabalançar esses potenciais efeitos negativos, as empresas devem prestar a mesma atenção à resiliência, – “a capacidade de se recuperar das dificuldades – de voltar à forma após um choque … Os sistemas resilientes são tipicamente caracterizados pelas próprias características – diversidade e redundância, ou  folga – essa eficiência busca destruir. ”

A eficiência é fundamental para a vantagem competitiva, maiores lucros da empresa e menores preços ao consumidor.  No entanto, um foco implacável na eficiência também pode levar a problemas sérios, incluindo os riscos de falhas catastróficas, que Martin ilustra com um exemplo da agricultura, – as monoculturas.

Na agricultura, uma monocultura se refere à prática de cultivar uma única linha de uma safra de alto rendimento ou criar uma raça de gado especializada de rápido crescimento. As monoculturas são amplamente utilizadas na agricultura industrial para aumentar a escala e a eficiência de suas operações.  No entanto, a monocultura contínua pode levar ao acúmulo de pragas e doenças. Se uma doença para a qual eles não têm resistência atacar, ela pode exterminar rapidamente uma população inteira de plantações ou rebanhos. Algo semelhante pode acontecer a uma empresa ou economia muito dependente de alguns produtos, setores, processos ou modelos de negócios.

Os sistemas biológicos têm sido uma inspiração no estudo de sistemas complexos. Alta resiliência em face de um ambiente incerto e mutante é a essência da biologia evolutiva e da seleção natural. Da mesma forma, a resiliência dos negócios é fundamental para uma empresa resistir a grandes interrupções e sobreviver a um futuro imprevisível e turbulento.

Uma das prioridades pós-pandêmicas mais críticas deve ser restaurar e fortalecer a resiliência da nação e do mundo. Como será esse mundo? Algumas das mudanças potenciais, as incógnitas desconhecidas, são quase impossíveis de prever.  Mas outros são mais fáceis de prever porque são essencialmente uma aceleração das tendências existentes.

  1. Infraestruturas digitais. Felizmente, nunca tivemos que testar a capacidade da Internet de manter os EUA em funcionamento após um ataque ou invasão militar.  Mas, quem teria pensado que 50 anos após o lançamento da ARPANET, seria uma pandemia global que agora está testando a capacidade da Internet de cumprir seu objetivo original de manter nações e economias durante o maior choque que o mundo já experimentou desde a Segunda Guerra Mundial. Podemos esperar aceleração da implantação da banda larga de ultra-alta velocidade, 5G, IoT e acesso quase universal à Internet, bem como melhorias críticas para a segurança cibernética e privacidade de dados.
  2. Aplicativos online. Durante anos, muitos encontraram todos os tipos de motivos para não adotar a telemedicina, o aprendizado online, o trabalho de casa, reuniões virtuais e outros tipos de recursos e atividades eletrônicas.  Mas, a necessidade é a mãe da invenção.  Estamos descobrindo que esses recursos eletrônicos não apenas funcionam muito bem, mas também oferecem uma série de benefícios importantes, como não esperar por uma consulta médica em uma sala cheia de pessoas doentes ou não ter que viajar para participar de um 45  reunião minuto.  Nos próximos anos, podemos esperar uma série de inovações em sistemas e aplicações eletrônicas online, especialmente uma experiência superior do usuário.
  3. Digitalização e adoção de IA. Um estudo da McKinsey de 2019 descobriu que 1/4 de século na era digital, mesmo as economias mais avançadas do mundo – os EUA, a Europa e a China – alcançaram apenas cerca de 20% de seu potencial digital.  Outro relatório recente da McKinsey sobre o estado da adoção da IA descobriu que, embora a IA esteja se tornando mais popular, “ainda há muito trabalho para dimensionar o impacto, gerenciar riscos e retreinar a força de trabalho” em mais de 95% das empresas.  Podemos esperar que a taxa e o ritmo de digitalização e adoção de IA aumentem significativamente.
  4. Automação e o futuro do trabalho. Finalmente, podemos esperar que a pandemia terá um grande impacto no futuro do trabalho, à medida que as instituições dos setores público e privado aceleram sua adoção de tecnologias e automação.  Estudos recentes sobre o futuro do trabalho, como o Trabalho do Futuro em andamento do MIT, terão que ser revisitados junto com suas recomendações de políticas.  É esperado também que o vínculo empregatício entre instituições e indivíduos – sejam empresas e funcionários ou governos e cidadãos – também seja revisitado e significativamente melhorado, incluindo saúde, educação e outros programas críticos de trabalho e de segurança social.

Além da Guerra de Preços: O Oceano Azul na Conectividade Brasileira

Introdução Lançado em 2005 por W. Chan Kim e Renée Mauborgne, A Estratégia do Oceano Azul revolucionou o pensamento estratégico...