23/03/2022

IoT & 5G


A Internet das Coisas (IoT) promete melhorar a maneira como vivemos e trabalhamos, possibilitando novas soluções – de casas inteligentes e sistemas de saúde a carros autônomos, fazendas inteligentes e fábricas da Indústria 4.0. Mas a mudança para a IoT é muito mais do que plataformas e dispositivos de tecnologia; depende de uma variedade de parceiros do setor colaborando em um ecossistema de IoT, com conectividade como a chave para fornecer as experiências ricas e integradas que os usuários esperam.

Com largura de banda enorme, velocidade incrível e baixa latência, o 5G é o catalisador que permitirá que as operadoras em todo o mundo cumpram a promessa da IoT. Empresas estão se capacitando e se comprometendo em capacitar operadoras, provedores de serviços, fabricantes de dispositivos e marcas de aparelhos para alavancar totalmente os recursos da IoT, promovendo a transformação digital inteligente via 5G, beneficiando assim, a sociedade como um todo.

O ecossistema de IoT e o 5G
A computação em nuvem, a inteligência artificial e a computação de borda ajudarão a lidar com os volumes de dados gerados pela IoT, pois o 5G aumenta a capacidade da rede e ajuda a construir a rede e o ecossistema da IoT, além de oferecer suporte a um grande número de dispositivos conectados.

O EY Reimagining Industry Futures Study 2021 revelou que a Ásia-Pacífico está à frente das Américas e da Europa em investimentos atuais e futuros em 5G, com 27% das organizações da Ásia-Pacífico sinalizando um interesse significativamente maior em 5G e IoT desde a pandemia de COVID-19, em comparação com 13% e 15% nas Américas e Europa, respectivamente.

Como o 5G é o principal impulsionador da adoção da IoT, a CMI, com seu grande portifólio de soluções, está apoiando a transição para o 5G com uma infraestrutura digital global com mais de 70 cabos internacionais, incluindo nove cabos submarinos de construção própria e investimentos e concessões em mais oito cabos terrestres, com uma capacidade total de rede de mais de 98 Terabits por segundo. Sua rede também inclui mais de 180 pontos de presença no exterior nos principais continentes, 340 data centers na China e quatro data centers próprios nos principais centros, como Londres, Frankfurt, Singapura e Hong Kong.

A CMI desenvolve e fornece serviços e soluções de dados internacionais que estabelecem as bases para o rápido crescimento da IoT nos principais mercados. Até o momento, já forneceu soluções de IoT para mais de 100 empresas em 20 países e regiões, principalmente na Ásia-Pacífico e também colabora com mais de 500 operadoras globais para promover a conectividade IoT por meio de um perfil SIM abrangente, plataforma de gerenciamento de conectividade e integração de plataforma eSIM, aprimorando os recursos de rede IoT em todo o mundo.

Plataforma IoT aberta para impulsionar a Inovação
Como próximo passo para enriquecer o ecossistema de IoT, a CMI está criando uma maneira para que os parceiros do setor criem soluções inteligentes que respondam às necessidades do mercado em conjunto. A empresa está inicialmente se concentrando no mercado de automação residencial com a introdução de sua plataforma de casa inteligente baseada em nuvem Ringa, primeiro na Europa e depois na Ásia-Pacífico.

O mercado doméstico inteligente da Ásia-Pacífico é um dos que mais cresce em todo o mundo. A crescente urbanização da região e o interesse na economia de energia impulsionam a tendência das casas inteligentes, enquanto as altas taxas de penetração de smartphones e internet permitirão ainda mais o crescimento da automação.

A Data Bridge Market Research mostrou, através de estudo e pesquisa, que o mercado de casas inteligentes está crescendo a um CAGR de 18,1% de 2020 a 2027 e deve atingir US$ 75.930,54 milhões até 2027. O foco em melhorar os estilos de vida e a popularidade dos dispositivos inteligentes são fatores importantes do constante crescimento do mercado.

Embora os consumidores de hoje conheçam as funcionalidades dos alto-falantes, luzes e travas inteligentes, muitas vezes é difícil, fazer com que esses sistemas funcionem juntos de maneira inteligente. As empresas de telecomunicações estão se posicionando para fornecer automação integrada que transformará experiências de vida inteligentes e encantará os consumidores no futuro.

O que é a Ringa?
Lançada em julho de 2021, a RINGA é uma plataforma de desenvolvimento doméstico inteligente que possibilita aos players do setor criar novos hardwares, softwares e soluções domésticas inteligentes e empacotá-los sob suas próprias marcas para clientes em todo o mundo. Casas inteligentes estão rapidamente se tornando um elemento essencial da vida digital moderna em todo o mundo. A RINGA ajuda a atender a essa crescente demanda com soluções de casa inteligente de ponta a ponta, permitindo que operadoras e provedores de serviços possam oferecer diferentes dispositivos inteligentes, de diferentes fabricantes, em uma única plataforma, elevando a experiência de casa inteligente.

A solução RINGA inclui uma plataforma de software como serviço (SaaS) baseada em nuvem, um conjunto de aplicativos de acesso móvel e vários módulos de comunicação IoT, juntamente com dispositivos inteligentes e soluções por voz. A RINGA está na plataforma aberta de IoT da CMI, uma solução PaaS que permite que o ecossistema de casa inteligente se reúna para fornecer às pessoas, acesso único a hardware de IoT inteligente e aplicativos padronizados de ponta a ponta com conectividade unificada.

Com a RINGA, é fácil conectar uma variedade de dispositivos inteligentes, eletrodomésticos inteligentes e serviços de operadoras para criar um sistema de automação residencial integrado que permite conectividade múltipla, como Wi-Fi, Zigbee, BLE, NB-IoT, 2/3/4/5G, eSIM ou mesmo SIM local das operadoras como soluções alternativas. O RINGA permite maior segurança e confiabilidade e uma vantagem muito interessante de preço.

À medida que a digitalização inteligente continua a transformar as indústrias em todo o mundo, a demanda por soluções integradas de IoT que sejam rápidas, escaláveis ​​e implantáveis ​​globalmente só aumenta, à medida que os consumidores adotam cada vez mais um estilo de vida digital e um futuro onde podemos nos conectar em todos os lugares.

Uma plataforma aberta de gerenciamento de IoT RINGA possui os seguintes recursos principais:

Várias opções de conectividade
Ter várias opções de conectividade em uma plataforma torna o sistema mais flexível. As operadoras podem oferecer uma gama mais ampla de dispositivos, sem serem limitadas por seus protocolos de comunicação, e selecionar tecnologias com base nos requisitos do usuário e do ambiente do projeto, possibilitando atender a diferentes grupos de clientes. A RINGA suporta as principais tecnologias de conectividade sem fio, incluindo LTE Cat 1 e IoT de banda estreita (NB-IoT), o sistema KNX-RF, Bluetooth LoRa, Sigfox, WiFi, Zigbee e outros. Isso evita a dependência do WiFi doméstico para aumentar a segurança e a confiabilidade. A CMI foi a primeira no mercado com roaming otimizado de IoT, 5G e NB-IoT. Ele permite a personalização do SIM e também suporta soluções multi-IMSI para simplificar a integração para implantação rápida; os usuários ou gerentes de dispositivos desfrutam de serviços de rede local para melhor cobertura.

Fácil personalização
Para enriquecer suas soluções e ofertas inteligentes, as operadoras preferem integrar seus dispositivos inteligentes de marca própria e gerenciar dispositivos multimarcas na mesma plataforma, suportando o acoplamento de plataformas de voz de terceiros com Amazon Alexa, Google Assistant e outros assistentes de voz do mercado. A RINGA pode ser amplamente personalizada, com base nos clientes-alvo, nos requisitos de aplicativos e no ambiente do mundo real, permitindo que o ecossistema de casa inteligente forneça aos consumidores acesso único a hardware de IoT inteligente e aplicativos padronizados de ponta a ponta com conectividade unificada. A plataforma RINGA ainda suporta aplicativos abertos de API e OEM/ODM, bem como localização na nuvem por um país individual ou operadora específica.

Modelo de cobrança exclusivo
O modelo simples de cobrança permite que as operadoras ofereçam serviços aos clientes com base em modelos de vendas e despesas operacionais de longo prazo, em vez de uma despesa de investimento único. Isso é possível porque a plataforma facilita o gerenciamento de cartões SIM e dispositivos IoT, fornecendo uma única plataforma de gerenciamento de conectividade (CMP) que suporta vários SIMs de rede central e a plataforma de gerenciamento doméstico inteligente RINGA. Uma das principais características da RINGA é a plataforma de serviço inteligente para desenvolvimento de produtos online e gerenciamento de operações. Os desenvolvedores podem criar dispositivos e gerenciar produtos, operações, big data e muito mais por meio de um único portal da web. Aproveitar essa plataforma de serviço ajuda os desenvolvedores a acelerar o desenvolvimento de produtos, executar diagnósticos e resolver possíveis problemas de manutenção e desafios operacionais.

Mercado de IoT
A CMI também oferece uma gama de dispositivos inteligentes que combinam inteligência artificial e tecnologias IoT. O portfólio de produtos RINGA incluindo iluminação inteligente, purificadores de ar, ventiladores de aquecimento/resfriamento, detectores de fumaça, sistemas de segurança, sensores de portas e janelas e dispositivos de saúde, bem como tomadas e interruptores inteligentes que podem ser usados ​​para controlar outras luzes e eletrodomésticos.

Soluções Verticais
As soluções de IoT têm o potencial de transformar serviços, aplicativos e recursos para diferentes setores e verticais, apresentando imensas perspectivas de crescimento para diferentes players do setor. A plataforma RINGA combina conectividade, personalização e recursos de implantação rápida e econômica para ajudar a mudar a maneira como as pessoas gerenciam suas casas. Integrando produtos e recursos de IoT com recursos de tecnologia de dados, informação e comunicação (DICT), possibilitando estender essas soluções para outros cenários, como hotéis, salas de aula, fábricas, e setores verticais, incluindo cidades inteligentes e logística.

17/03/2022

A promessa e os perigos da inteligência artificial

Em seu artigo de 1950, Computing Machinery and Intelligence, Alan Turing propôs o que ficou conhecido como o teste de Turing – um teste da capacidade de uma máquina de exibir um comportamento inteligente indistinguível do humano. Se um humano teclando, não puder dizer se está interagindo com uma máquina ou um humano, considera-se que a máquina passou no teste de Turing.

“Desde então, criar a inteligência que corresponda à inteligência humana tem sido o objetivo de milhares de pesquisadores, engenheiros e empreendedores”, escreveu Erik Brynjolfsson, – professor de Stanford e diretor do Stanford Digital Economy Lab, – em um artigo recente, entitulado The Turing trap (Armadilha de Turing): The Promise & Peril of Human-Like Artificial Intelligence.

“Os benefícios da inteligência artificial, semelhante à humana (HLAI – human-like artificial intelligence) incluem produtividade crescente e, talvez mais, uma melhor compreensão de nossas próprias mentes. Mas nem todos os tipos de IA são semelhantes aos humanos – na verdade, muitos dos sistemas mais poderosos são muito diferentes dos humanos – e um foco excessivo no desenvolvimento e implantação de HLAI pode nos levar a uma armadilha. … Por um lado, é um caminho para um desenvolvimento sem precedentes, e até uma melhor compreensão de nós mesmos. Por outro lado, se o HLAI levar as máquinas apenas a automatizar em vez de aumentar o trabalho humano, cria-se o risco de concentração de riqueza e poder. E com essa concentração, vem o perigo de ficar preso em um equilíbrio onde aqueles sem poder não têm como melhorar seus resultados, uma situação que chamo [Erik Brynjolfsson] de Armadilha de Turing.”

Na última década, poderosos sistemas de IA igualaram ou superaram os níveis humanos de desempenho em várias tarefas, como reconhecimento de imagem e fala, aplicativos de classificação de câncer de pele e detecção de câncer de mama e jogos complexos como Jeopardy e Go. Esses avanços da IA são geralmente chamados de soft IA, estreita ou especializada e são inspiradas, mas não com o objetivo de imitar, o cérebro humano. Eles geralmente se baseiam em aprendizado de máquina, ou seja, na análise de grandes quantidades de informações usando computadores poderosos e algoritmos sofisticados, cujos resultados exibem qualidades que associamos à inteligência humana.

O que se quer dizer com inteligência humana, – que é o tipo de inteligência que o HLAI pretende imitar? Em 1994, o Wall Street Journal publicou uma definição que refletia o consenso de 52 pesquisadores acadêmicos líderes em áreas associadas à inteligência:

“A inteligência é uma capacidade mental muito geral que, entre outras coisas, envolve a capacidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar abstratamente, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e aprender com a experiência. Não é meramente aprendizado de livros, uma habilidade acadêmica limitada ou ‘inteligência para fazer testes’. Em vez disso, reflete uma capacidade mais ampla e profunda de compreender o nosso entorno – ‘pegar’, ‘dar sentido’ às coisas ou ‘descobrir’ o que fazer”.

Esta é uma boa definição da inteligência que há muito é medida em testes de QI e que, no futuro próximo, não só os humanos as terão.

Ao contrário do HLAI, a IA aumentada visa complementar a capacidade dos trabalhadores. A maioria dos trabalhos envolve várias tarefas ou processos. Algumas dessas tarefas são de natureza mais rotineira, enquanto outras exigem julgamento, habilidades sociais e outras capacidades humanas. Quanto mais rotineira a tarefa, mais passível de automação. Mas só porque algumas das tarefas foram automatizadas, não significa que todo o trabalho tenda a desaparecer. Pelo contrário, automatizar as partes mais rotineiras de um trabalho muitas vezes leva ao aumento da produtividade e à maior demanda por trabalhadores, complementando suas habilidades com ferramentas e máquinas, permitindo que eles se concentrem nos aspectos do trabalho que mais precisam de sua atenção.

“Quando a IA aumenta as capacidades humanas, permitindo que as pessoas façam coisas que mais do que poderiam fazer antes, humanos e máquinas estão se complementando”, disse Brynjolfsson. “A complementaridade implica que as pessoas permaneçam indispensáveis para a criação de valor e mantenham o poder de barganha nos mercados de trabalho e na tomada de decisões políticas. Em contraste, quando a IA apenas replica e automatiza as capacidades humanas existentes, as máquinas se tornam melhores substitutas para o trabalho humano e os trabalhadores perdem poder de barganha econômico e político. Empreendedores e executivos que investem em máquinas com capacidades apenas de replicar as capacidades humanas para uma determinada tarefa e neste caso podem, muitas vezes, e estar trabalhando para substituir humanos nessas tarefas.”

O artigo observa que os riscos de um foco excessivo no HLAI são ampliados porque três grupos de pessoas – tecnólogos, empresários e formuladores de políticas – o consideram atraente.

Tecnólogos. “Os tecnólogos procuram replicar a inteligência humana há décadas para enfrentar o desafio recorrente do que os computadores não podem fazer.” A IA dominou o jogo de damas na década de 1950, o xadrez em 1996, Jeopardy em 2011 e Go em 2015. Mas, embora reconheça o apelo do desenvolvimento de sistemas de IA que replicam tarefas humanas, – como dirigir carros, subir escadas ou escrever poemas, – “A realidade paradoxal é que HLAI pode ser mais difícil e menos valioso do que sistemas que alcançam desempenho sobre-humano.”

“O futuro da inteligência artificial depende do design de computadores que possam pensar e explorar com tanta desenvoltura quanto os bebês”, escreveu o psicólogo da UC Berkeley, Aliston Gopney, em um ensaio do WSJ de 2019, The Ultimate Learning Machines. Os algoritmos de IA “precisam de enormes quantidades de dados, apenas alguns tipos de dados servem, e eles não são muito bons em generalizar a partir desses dados. Os bebês aprendem tipos de conhecimento muito mais gerais e poderosos do que as IAs, a partir de muito menos dados e muito mais confusos e complexos. Na verdade, os bebês humanos são os melhores aprendizes do universo. …

[eles] “podem aprender novas categorias com apenas um pequeno número de exemplos. Algumas fotos de livros de histórias podem ensiná-los não apenas sobre gatos e cachorros, mas também sobre onças, rinocerontes e unicórnios.”

No mesmo artigo em que apresentou o teste de Turing, ele mesmo escreveu que a chave para a inteligência humana era nossa capacidade de aprender e sugeriu que o projeto de uma máquina de aprendizado deveria imitar a mente de uma criança, não a de um adulto. Tal máquina de aprendizado deve se basear em processos semelhantes aos da evolução por seleção natural, incluindo o que os bebês herdaram em seu estado inicial ao nascer, a educação que receberam ao longo dos anos e quaisquer outras experiências que moldaram sua mente à de um adulto. Como nossos cérebros foram moldados por cerca de 300.000 anos de evolução do Homo Sapiens e pela evolução dos cérebros de nossos ancestrais ao longo de muitos milhões de anos, é difícil saber se algum dia seremos capazes de construir tal máquina de aprendizado.

Pessoas de negócio. Os empresários “muitas vezes descobrem que substituir o trabalho humano por maquinário é o fruto mais fácil da inovação, … trocar uma peça de maquinário para cada tarefa que um humano está realizando no momento”, disse Brynjolfsson. “Essa mentalidade reduz a necessidade de mudanças mais radicais nos processos de negócios.”

“Da mesma forma, como os custos trabalhistas são o maior item de linha no orçamento de quase todas as empresas, automatizar os trabalhos é uma estratégia popular para os gerentes.” Mas, embora cortar custos seja muitas vezes mais fácil do que expandir mercados, a maior parte do valor econômico vem de novos bens e serviços inovadores. Mais de 60% dos empregos de hoje ainda não haviam sido inventados em 1940. “Em suma, automatizar o trabalho acaba desbloqueando menos valor do que aumentá-lo para criar algo novo.”

Formuladores de políticas. “A primeira regra da política tributária é simples: você tende a receber menos do que tributa. Assim, um código tributário que trata a renda que usa o trabalho de forma menos favorável do que a renda derivada do capital favorecerá a automação em vez do aumento do trabalho”.

Os impostos dos EUA sobre a renda do trabalho são significativamente mais altos do que os impostos sobre a renda do capital. Embora as alíquotas mais altas sobre ambos os tipos de renda fossem as mesmas em 1986, mudanças sucessivas criaram uma grande disparidade. Em 2021, as taxas marginais mais altas sobre a renda do trabalho são de 37%, “enquanto os ganhos de capital longos têm uma variedade de regras favoráveis, incluindo uma taxa de imposto legal mais baixa de 20%, o adiamento de impostos até que os ganhos de capital sejam realizados e o ‘passo regra da base para cima que zera os ganhos de capital, eliminando os impostos associados, quando os ativos são herdados.”

“Cada vez mais americanos e, de fato, trabalhadores em todo o mundo, acreditam que, embora a tecnologia possa estar criando uma nova classe bilionária, não está funcionando para os trabalhadores”, escreveu Brynjolfsson em conclusão. “Quanto mais tecnologia é usada para substituir ao invés de aumentar o trabalho, pior a disparidade e maiores os ressentimentos que alimentam instintos e ações políticas. Mais fundamentalmente, o imperativo moral de tratar as pessoas como fins, e não apenas como meios, exige que todos compartilhem os ganhos da automação. A solução não é desacelerar a tecnologia, mas sim eliminar ou reverter o excesso de incentivos para automação em vez de aumentá-lo. … Ao redirecionar nossos esforços, podemos evitar a Armadilha de Turing e criar prosperidade para muitos, não apenas para poucos.”

06/03/2022

Inventando o trabalho do futuro

O livro The Work of the Future: Building Better Jobs in an Age of Intelligent Machines, de David Autor, David Mindell e Elisabeth Reynolds, foi publicado recentemente. Ele é baseado em estudos de vários anos do task force do MIT sobre o trabalho do futuro, que os próprios autores co-presidiram.

Essa Força-Tarefa foi encomendada pelo próprio presidente do MIT Rafael Reif em 2018 para abordar uma das questões mais críticas da economia digital, – uma economia, em que universidades de tecnologia, como o MIT têm desempenhado um papel importante na criação: à medida que as tecnologias emergentes aumentam o valor agregado de produção econômica e a riqueza das nações, eles também permitirão que as pessoas alcancem padrões de vida mais altos, melhores condições de trabalho, maior segurança econômica e melhor saúde e longevidade?

Liderada por Autor, Mindell e Reynolds, a força-tarefa envolveu mais de 20 membros do corpo docente de 12 departamentos do MIT, bem como mais de 20 estudantes de pós-graduação. Seu relatório final foi divulgado em novembro de 2020. Além disso, a Força-Tarefa publicou vários documentos, frutos deste trabalho e resumos de pesquisa.

“Em meio a um ecossistema tecnológico com produtividade crescente e uma economia gerando muitos empregos (pelo menos até a crise do COVID-19), encontramos um mercado de trabalho em que os frutos são distribuídas de forma desigual, tão desviados para o topo, que a maioria dos trabalhadores provaram apenas um pedacinho de uma vasta colheita.” foi a conclusão geral da Força-Tarefa. Mas o relatório, ainda argumentou que, com melhores políticas em vigor, mais pessoas poderiam desfrutar de boas carreiras, mesmo que as novas tecnologias transformassem a própria natureza do trabalho.

O resumo das principais descobertas da Força-Tarefa sobre as quais o livro se baseia, são esses:

A mudança tecnológica está simultaneamente substituindo o trabalho existente e criando novos trabalhos.

“Nenhuma evidência histórica ou contemporânea convincente sugere que os avanços tecnológicos estão nos levando a um futuro sem emprego. Pelo contrário, prevemos que nas próximas duas décadas, os países industrializados terão mais vagas de emprego do que trabalhadores para preenchê-las, e que a robótica e a automação desempenharão um papel cada vez mais crucial no fechamento dessas lacunas”.

O aumento da produtividade do trabalho não se traduziu em amplos aumentos de renda porque as instituições sociais e as políticas do mercado de trabalho caíram em desuso. Nos 30 anos entre 1948 e 1978, a produtividade dos EUA medida pela produção por hora aumentou 108%, uma taxa de crescimento anual de 2,4%, enquanto a remuneração média dos trabalhadores da produção aumentou 95%. Mas então veio a chamada grande divergência das últimas quatro décadas. Entre 1978 e 2016, a produtividade aumentou 66%, uma taxa de crescimento anual de 1,3%, enquanto a remuneração média aumentou apenas 9%. Enquanto os EUA testemunharam grandes inovações tecnológicas nas últimas décadas, a inovação política em nome dos trabalhadores ficou para trás.

Impactos importantes da mudança tecnológica estão se desdobrando gradualmente.

Tecnologias historicamente transformadoras, como eletricidade, Internet e agora IA, geralmente exigem investimentos complementares maciços ao longo de várias décadas para serem amplamente adotadas por empresas e indústrias em toda a economia.

“Esta escala de tempo de mudança oferece a oportunidade de elaborar políticas, desenvolver habilidades e fomentar investimentos para moldar construtivamente a trajetória de mudança em direção ao maior benefício social e econômico.”

Promover oportunidades e mobilidade econômica exige cultivar e atualizar as habilidades dos trabalhadores.

Os EUA devem investir nas instituições educacionais existentes, incluindo escolas primárias e secundárias e programas vocacionais e universitários, para ajudar os trabalhadores a permanecerem produtivos em nossa economia em rápida mudança. Além disso, os EUA devem criar programas inovadores de educação e desenvolvimento de habilidades ao longo da vida.

Os ganhos de produtividade devem se traduzir em empregos de melhor qualidade. Os EUA devem abordar o grande e crescente abismo entre o desejo dos empregadores por custos baixos, altos lucros e aumento da produtividade com a necessidade de os trabalhadores receberem remuneração razoável, tratamento justo e segurança econômica.

Investir em inovação impulsiona a criação de novos empregos, acelera o crescimento e enfrenta os crescentes desafios competitivos.

“Investimentos em inovação fazem crescer o bolo econômico, o que é crucial para enfrentar os desafios colocados por uma economia mundial globalizada e tecnologicamente acirrada.”

A inovação tecnológica no último século foi fortemente impulsionada por investimentos federais em P&D, que levaram a novas indústrias e ocupações e ofereceram novas oportunidades de brincos. Os investimentos federais em P&D como porcentagem do PIB atingiram o pico de 1,86% em 1964, mas caíram significativamente de pouco mais de 1% em 1990 para 0,66% em 2016.

Ao expandir essas descobertas, o livro explora as principais mudanças que ocorreram desde o lançamento do relatório da força-tarefa em 2020, especialmente o impacto da pandemia de Covid-19 no trabalho e nos negócios.

“Estamos vivendo um período de grande disrupção, mas não do tipo imaginado em 2018, quando a Força-Tarefa foi lançada”, observam os autores. “As fases finais de pesquisa e redação deste livro ocorreram durante os primeiros meses do COVID-19, em 2020, quando cidadãos de muitos países estavam em estado de bloqueio pandêmico. Nossas tecnologias têm sido fundamentais para nos adaptar a essas novas circunstâncias por meio de telepresença, serviços online, ensino remoto e telemedicina. Essas ferramentas para realizar o trabalho remotamente não se parecem com robôs, mas também são formas de automação, deslocando trabalhadores vulneráveis de empregos de serviços de baixa remuneração em setores como serviços de alimentação, limpeza e hospedagem. Enfrentamos uma das maiores crises no mercado de trabalho, decorrente da pandemia do COVID-19. Milhões estão desempregados. Mas os avanços tecnológicos não causaram essa crise.”

“Muito antes dessa ruptura, nossa pesquisa sobre o trabalho do futuro deixou claro, quantos em nosso país, não estão conseguindo prosperar em um mercado de trabalho que gera muitos empregos, mas pouca segurança econômica. Os efeitos da pandemia tornaram tudo ainda mais visceral e publicamente claro: apesar de sua designação oficial como “essencial”, a maioria dos trabalhadores mal pagos não pode efetivamente fazer seu trabalho por meio de plataformas de computação, pois precisam estar fisicamente presentes para que sua atividade aconteça. … Seja como for, os efeitos do COVID-19 na tecnologia e no trabalho durarão muito além da pandemia, embora esses efeitos possam parecer bastante diferentes do que se imaginava em 2018.”

Ao ler a seção final do livro, duas mensagens principais me fizeram refletir:

Primeiro, os avanços tecnológicos não estão nos levando a um futuro sem emprego. Mais de 60% dos empregos de hoje ainda não haviam sido inventados em 1940.

“Inventar novas maneiras de realizar o trabalho, novos modelos de negócios e indústrias inteiramente novas, impulsiona o aumento da produtividade e novos empregos. A inovação dá vida a novas ocupações, gera demandas por novas formas de especialização e cria oportunidades para um trabalho gratificante. Não se sabe como será o trabalho humano daqui a um século, mas a maioria dos empregos de amanhã será diferente dos de hoje e deve sua existência às inovações que brotam do progresso científico e tecnológico”.

Segundo, o trabalho do futuro está aí para ser inventado. O desafio à frente é avançar nas oportunidades do mercado de trabalho para atender, complementar e moldar as inovações tecnológicas.

“A história econômica do século XX mostra que um mercado de trabalho saudável pode servir de base para a prosperidade compartilhada. Instituições bem projetadas promovem oportunidades, reforçam a segurança econômica e estimulam a participação democrática. Os países altamente industrializados devem se comprometer a reconstruir essa base no século XXI. Eles precisam fortalecer e construir instituições, lançar novos investimentos e forjar políticas que garantam que o trabalho continue sendo um caminho central, recompensado, estimado e economicamente viável para a maioria dos adultos poderem prosperar.”

04/03/2022

É Possível estabelecer normas e responsabilidades do no Ciberespaço?

Em dezembro de 2021, o Council One Foreign Relations patrocinou um debate virtual com Joseph Nye, – ex-reitor da Kennedy School of Government de Harvard, – para discutir seu recente artigo de Relações Exteriores The End of Anarchy?: How to Build a New Digital Order. O professor Nye tem sido considerado um dos mais proeminentes pensadores estratégicos e cientistas políticos da América. Na década de 1970, ele presidiu o Grupo do Conselho de Segurança Nacional sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares e, na última década, trouxe sua experiência para o estudo de conflitos e dissuasão no ciberespaço.

A segurança cibernética é um aspecto cada vez mais importante da estratégia de segurança nacional dos EUA, incluindo o comércio global e a proteção das infraestruturas críticas. Em junho de 2021, o diretor do FBI, Christopher Wray, comparou o perigo de ataques de ransomware a empresas americanas por grupos criminosos russos aos ataques terroristas de 11 de setembro. E, em um editorial de julho, o NY Times disse que os ataques de ransomware surgiram como “uma ameaça potencial à segurança nacional”, dada “sua capacidade de perturbar seriamente as economias e violar empresas ou agências estrategicamente críticas”, instando os governos que “essa é uma guerra que precisa ser travada e vencida.”

Em uma conferência do MIT em fevereiro de 2019, perguntaram ao ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger se precisamos de acordos de controle de segurança cibernética com Rússia, China e outras nações; semelhantes aos acordos de controle de armas nucleares que ele passou tanto tempo negociando durante a Guerra Fria. O Dr. Kissinger respondeu que para que o controle de armas fosse eficaz, os dois lados precisavam compartilhar informações e concordar com as inspeções. Mas esses mecanismos são mais difíceis de aplicar no mundo digital, porque a transparência que era essencial para o controle de armas seria muito difícil de estabelecer para ameaças cibernéticas. Além disso, embora os controles de armas físicas sejam relativamente explicáveis e negociáveis, a variedade e a velocidade dos ataques cibernéticos tornam muito mais difícil de se desenvolver acordos e controles adequados.

“Ataques de ransomware, interferência em eleições, espionagem corporativa, ameaças às redes elétricas: com base nas manchetes atuais, parece haver pouca esperança de trazer ordem à anarquia do ciberespaço”, escreveu Nye em The End of Anarchy. “As implacáveis notícias ruins pintam um quadro de um mundo online sem governo que está se tornando mais perigoso a cada dia – com implicações sombrias não apenas para o próprio ciberespaço, mas também para economias, geopolítica, sociedades democráticas e questões básicas de guerra e paz.”

Os ataques cibernéticos são um novo tipo de conflito. Embora as defesas inadequadas do setor privado possam impactar significativamente a segurança nacional, os sistemas de TI são, em sua maioria, de propriedade privada e, ao contrário das armas convencionais ou nucleares, os militares não os controlam. Além de setores regulamentados, como finanças e assistência médica, cabe às empresas tomar decisões sobre seus investimentos e controles de segurança cibernética.

“A dissuasão deve ser parte das abordagens, mas a dissuasão cibernética parece ser diferente das formas mais tradicionais e familiares de dissuasão que Washington pratica há décadas. Um ataque nuclear é um evento singular, e o objetivo da dissuasão nuclear é evitar sua ocorrência. Em contraste, os ataques cibernéticos são numerosos e constantes, e dissuadi-los é mais como dissuadir o crime comum: o objetivo é mantê-lo dentro dos limites. As autoridades detêm o crime não apenas prendendo e punindo pessoas, mas também por meio do efeito educacional de leis e normas, patrulhando bairros e policiamento comunitário. Dissuadir o crime não requer a ameaça de uma nuvem de cogumelo atômico.”

Dadas essas realidades, “qualquer sugestão de que é possível criar regras de trânsito no ciberespaço tende a ser recebida com ceticismo: os atributos centrais do ciberespaço, tornam quase impossível impor quaisquer normas ou mesmo saber se elas estão sendo violados em primeiro lugar”, disse Nye. “Os Estados que declaram seu apoio às normas cibernéticas realizam simultaneamente operações cibernéticas em larga escala contra seus adversários.” Para os céticos, isso é uma evidência de que “estabelecer normas para o comportamento responsável do Estado no ciberespaço é um sonho impossível. No entanto, esse ceticismo revela um mal-entendido sobre como as normas funcionam e são fortalecidas ao longo do tempo”.

As normas sociais são os entendimentos não escritos e informais que governam o comportamento dos membros de um grupo ou cultura. Mesmo que não explicitamente codificadas em regras ou leis, as normas sociais fornecem ordem e previsibilidade.

É possível estabelecer normas para o comportamento responsável do Estado?

Sim, argumenta Nye. “As normas criam expectativas sobre o comportamento que tornam possível responsabilizar outros Estados. As normas também ajudam a legitimar as ações sociais e ajudam os estados a recrutar aliados quando decidem responder a uma violação. E as normas não aparecem de repente ou começam a funcionar da noite para o dia. A história mostra que as sociedades levam tempo para aprender como responder às grandes mudanças tecnológicas disruptivas e estabelecer regras que tornem o mundo mais seguro contra novos perigos.”

O artigo cita vários exemplos de normas de comportamento do Estado ao longo da história: depois de muitas décadas, a Europa e os EUA desenvolveram normas contra a escravidão no século XIX; em 1963, o Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares proibiu testes de armas nucleares na atmosfera, debaixo d’água e no espaço sideral; e em 1975, a Convenção de Armas Biológicas proibiu o desenvolvimento, produção e uso de armas biológicas.

“Embora a cibertecnologia apresente desafios únicos, as normas internacionais para reger seu uso parecem estar se desenvolvendo da maneira usual: lenta mas constantemente, ao longo de décadas. À medida que se firmarem, essas normas serão cada vez mais críticas para reduzir o risco que os avanços da cibertecnologia podem representar para a ordem internacional, especialmente se Washington e seus aliados e parceiros reforçarem essas normas com outros métodos de dissuasão. Embora alguns analistas argumentem que a dissuasão não funciona no ciberespaço, essa conclusão é simplista: funciona de maneiras diferentes do que no domínio nuclear.”

Por que os estados abraçariam tais normas de comportamento?

Nye cita várias razões: coordenação, prudência, custos de reputação e pressão dos pares.

Coordenação. “Expectativas comuns inscritas em leis, normas e princípios ajudam os estados a coordenar seus esforços.” Por exemplo, embora não ratificada universalmente, quase todos os estados tratam a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar como direito internacional consuetudinário para resolver disputas em águas internacionais. Os benefícios da cooperação no ciberespaço ficaram evidentes nas poucas ocasiões em que a ICANN, – o sistema de nomes de domínio da Internet, – foi hackeada. Embora os estados possam controlar o acesso à Internet dentro de seus limites, eles se abstiveram de colocar em risco a estabilidade básica da Internet global.

Prudência. “A prudência resulta do medo de criar consequências não intencionais em sistemas imprevisíveis.” Por exemplo, a crise dos mísseis cubanos de 1962, que levou o mundo à beira de uma guerra nuclear, foi um fator importante no Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares de 1963.

Custos de reputação. “Preocupações com danos à reputação e poder brando de um país também podem produzir contenção voluntária… e aumentar os custos de usar ou mesmo possuir uma arma que pode causar danos maciços.” Vimos isso com as condenações generalizadas dos regimes de Saddam Hussein do Iraque, Bashar a-Assad da Síria e Kim Jong-un da Coreia do Norte. “É difícil imaginar o surgimento de um tabu semelhante contra o uso de armas cibernéticas… Um tabu mais provável é aquele que proíbe o uso de armas cibernéticas contra alvos específicos, como hospitais ou sistemas de saúde”, semelhante aos tabus existentes contra o uso de armas convencionais em civis.

Pressão dos pares. “Depois de um certo período de gestação, algumas normas chegam a um ponto de inflexão, quando cascatas de aceitação se traduzem em uma crença generalizada e os líderes descobrem que pagariam um preço alto por rejeitá-la.” Nye cita a disseminação da preocupação com os direitos humanos universais após 1945, que, embora nem sempre bem-sucedidas, pressionaram Estados autoritários a reduzir suas violações de direitos humanos. Da mesma forma, nas últimas duas décadas, a pressão dos colegas levou ao aumento da aceitação da igualdade no casamento em todo o mundo.

O que deve ser feito quando ‘o cyberespaco’ de um país for atacado/invadido?

Acordos sobre ‘onde e como traçar linhas fronteiriças’ e o que fazer quando forem cruzadas, são difíceis de alcançar. “Ao invés de fazer uma pergunta sim ou não, os críticos argumentam que o foco (e qualquer advertência subsequente contra tais ações) deveria estar na quantidade de dano causado, não nas linhas precisas que foram cruzadas ou como as violações foram realizadas.”

“No ciberespaço, o ‘tamanho único’ não serve para todos”, escreveu Nye em conclusão. “Grupos de democracias podem estabelecer um padrão mais alto para si mesmos, concordando com normas relacionadas à privacidade, vigilância e liberdade de expressão e aplicando-as por meio de acordos comerciais especiais que dariam preferência àqueles que atendem aos padrões mais altos. A diplomacia entre as democracias sobre essas questões não será fácil, mas será uma parte importante da estratégia… Essa estratégia também deve incluir o desenvolvimento de normas com o objetivo de longo prazo para proteger ‘o velho teto de vidro’ da democracia, das novas pedras da era da Internet.”

02/03/2022

Novas realidades

Há algumas semanas, The Economist publicou The World Ahead 2022, sua 36ª análise anual das tendências econômicas, políticas, sociais e culturais que provavelmente moldarão 2022.

“Se 2021 foi o ano em que o mundo virou a maré contra a pandemia, 2022 será dominado pela necessidade de adaptação às novas realidades, tanto nas áreas remodeladas pela crise (o novo mundo do trabalho, o futuro das viagens) como as tendências se reafirmam (a ascensão da China, a aceleração das mudanças climáticas)”, escreveu o editor da edição, Tom Sandage.

Estas são as dez principais tendências do The World Ahead 2022:

1. Democracia x autocracia. “As eleições de meio de mandato da América e o congresso do Partido Comunista da China contrastarão vividamente seus sistemas políticos rivais.”

2. De pandemia a endemia. “Para as pessoas vacinadas no mundo desenvolvido, o vírus não será mais uma ameaça à vida. Mas ainda representará um perigo mortal no mundo em desenvolvimento.”

3. A inflação preocupa. “Interrupções na cadeia de suprimentos e um aumento na demanda de energia aumentaram os preços. Os bancos dizem que é temporário, mas nem todos acreditam neles.”

4. O futuro do trabalho. “Há um amplo consenso de que o futuro é ‘híbrido’ e que mais pessoas passarão mais dias trabalhando em casa.”

5. O novo techlash. “Os reguladores na América e na Europa tentam controlar os gigantes da tecnologia há anos, mas ainda não conseguiram afetar seu crescimento ou lucros”.

6. Criptos crescem. “Como todas as tecnologias disruptivas, as criptomoedas estão se adaptando, à medida que os reguladores ajustam as regras.”

7. Crise climática. “Incêndios florestais, ondas de calor e inundações continuam aumentando em frequência, uma impressionante falta de urgência prevalece entre os formuladores de políticas quando se trata de combater as mudanças climáticas.”

8. Problemas de viagens. “A atividade está aumentando à medida que as economias reabrem… Enquanto isso, metade das viagens de negócios se foi para sempre.”

9. Corridas espaciais. “2022 será o primeiro ano em que mais pessoas vão ao espaço como passageiros pagantes do que funcionários do governo, transportados por empresas rivais de turismo espacial.”

10. Os jogos políticos. “Os Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim e a Copa do Mundo de Futebol no Catar serão lembretes de como o esporte pode unir o mundo – mas… muitas vezes acabam sendo apenas jogos políticos”.

Vou comentar brevemente três dessas tendências.

O novo local de trabalho híbrido precisa de um planejamento cuidadoso

“Maior produtividade, trabalhadores mais felizes e saudáveis e emissões mais baixas de poluentes são apenas alguns dos benefícios da grande experiência de trabalhar em casa”, disse The Economist, observando que a grande maioria dos trabalhadores do conhecimento e a maioria dos empregadores são agora a favor de alguma versão de trabalho híbrido. Essa maior flexibilidade nos arranjos de trabalho pode se tornar um dos legados mais importantes e duradouros da crise do Covid.

Em abril de 2021, os economistas Jose Maria Barrero, Nicholas Bloom e Stephen J. Davis publicaram Why Working from Home Will Stick, uma pesquisa sobre arranjos de trabalho e preferências pessoais durante a pandemia; e das preferências dos trabalhadores e planos dos empregadores após o término da pandemia. A pesquisa descobriu que:45% dos que trabalhavam em março de 2021 o faziam em casa;
50% de todos os dias úteis de maio de 2020 a março de 2021 foram trabalhados de casa, cerca de 10 vezes a era pré-pandemia.
Após o Covid, – de 2022 em diante, quase 80% dos trabalhadores cujos empregos lhes permitiam trabalhar em casa, querem fazê-lo pelo menos um dia por semana;
Quase 40% preferem 1 a 3 dias por semana; e
cerca de 30% querem trabalhar em casa a semana toda.
Por outro lado, os empregadores esperam que 21% dos dias de trabalho sejam em casa.

Mas, embora cada vez mais popular, esse novo local de trabalho híbrido provavelmente será “uma mistura confusa”, alerta The Economist. “Deixado desenvolver-se organicamente, é mais provável que exacerbe as desigualdades, do que as reduza… porque os trabalhadores têm preferências diferentes sobre o trabalho de escritório, e essas diferenças não são distribuídas aleatoriamente. Dada a escolha, mulheres, outras minorias e pais com filhos pequenos, passarão menos tempo no escritório”. Esses provavelmente pagarão um preço por tal escolha, perdendo aumentos salariais e promoções porque os empregadores valorizam a presença física. “Uma força de trabalho de dois níveis pode surgir, com um grupo ‘in’ altamente recompensado e um grupo ‘out’ menos recompensado.”

“Em todos os planos de reabertura e recuperação, a necessidade de abordar as desigualdades que se ampliaram durante a pandemia é frequentemente negligenciada. Os homens são quase duas vezes mais propensos do que as mulheres a dizer que trabalhar em casa afetou positivamente suas carreiras. As mulheres são mais propensas a dizer que se sentem esgotadas. … Qualquer empregador que queira ter um começo justo no mundo híbrido seria sábio em lidar primeiro com a recuperação do lado psicológico de se trabalhar em casa e no escritório.”

O Covid se tornará apenas mais uma doença

“As pandemias não morrem – elas desaparecem”, disse The Economist. “E é isso que a covid-19 provavelmente fará em 2022. É verdade que haverá surtos locais e sazonais, especialmente em países cronicamente subvacinados. Os epidemiologistas também precisarão estar atentos a novas variantes que possam ser capazes de superar a imunidade fornecida pelas vacinas. Mesmo assim, nos próximos anos, à medida que a covid se estabelecer como uma doença endêmica, como gripe ou resfriado comum, a vida na maior parte do mundo provavelmente voltará ao normal – pelo menos, o normal pós-pandemia”.

O artigo nos lembra que a rápida criação e licenciamento de vacinas e tratamentos ao Covid é um grande triunfo científico. A vacina contra a poliomielite levou 20 anos para ir desde seus primeiros testes na década de 1930 até o desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz por Jonas Salk em meados da década de 1950. O vírus Covid, SARS-Cov-2, foi identificado pela primeira vez no final de dezembro de 2019. Sua sequência genética foi publicada cerca de duas semanas depois, desencadeando uma colaboração sem precedentes entre a indústria farmacêutica global, equipes de pesquisa universitária e governos para desenvolver uma vacina. Em março de 2020, quatro vacinas candidatas foram identificadas e submetidas à avaliação humana e, no final de 2020, as primeiras vacinas receberam autorização de uso emergencial nos EUA e aprovação temporária no Reino Unido e em outros países. Até o final de dezembro de 2021, mais de 9 bilhões de vacinas foram administradas globalmente.

No entanto, ao lado desse sucesso impressionante, há um fracasso deprimente, diz The Economist. “Outra razão pela qual a covid causará menos danos no futuro é que já fez muito no passado. … The Economist rastreou o excesso de mortes durante a pandemia. Nossa estimativa em 22 de outubro era de um total global de 16,5 milhões de mortes (uma média entre 10,2 milhões a 19,2 milhões), o que foi 3,3 vezes maior que a contagem oficial.”

“A Covid ainda não acabou. Mas até 2023, não será mais uma doença com risco de vida para a maioria das pessoas no mundo desenvolvido”. As pessoas ainda morrerão de Covid porque são idosas, com problemas de saúde ou porque não estão vacinadas. “Isso ainda representará um perigo mortal para bilhões no mundo pobre. Mas o mesmo é, infelizmente, verdade para muitas outras condições. A Covid estará a caminho de se tornar apenas mais uma doença.”

O retorno à viagens será desigual

No geral, as viagens estão aumentando à medida que as economias reabrem. “Mais pessoas vão redescobrir os prazeres de entrar em um avião para fazer uma viagem de negócios, participar de um casamento de família ou tirar férias” Mas a recuperação será desigual. As viagens domésticas já se recuperam em países como EUA e China. Antes da pandemia, o número de viajantes transfronteiriços havia triplicado entre 1990 e 2019. Mas as viagens internacionais não devem se recuperar aos níveis pré-covid antes de 2023, mais provavelmente até 2024. As viagens regionais estão aumentando, mas ainda permanecerão em níveis baixos até que as vacinações sejam mais difundidas e regulamentadas, tornando os deslocamentos mais fáceis.

“As reservas de viagens à lazer aumentam sempre que os países suspendem as restrições às viagens ao exterior e, a menos que surja uma nova e mais perigosa mutação da covid-19, essa enorme demanda reprimida ajudará a encher os aviões novamente em rotas de curta distância. As empresas, no entanto, planejam gastar menos em viagens. Pesquisas sugerem que os orçamentos normalmente estão sendo cortados em 20-40%. Os prognosticos mais sombrios calculam que metade de todas as viagens de negócios podem desaparecer para sempre. Muitas reuniões e conferências permanecerão virtuais, ou pelo menos ocorrerão de forma híbrida, com muito menos pessoas participando pessoalmente. … Isso é bom para o planeta, mas ruim para os turistas cujas viagens são subsidiadas por viagens de negócios e que gastam muito.”

28/02/2022

Blockchain e os ativos do mundo real

O Blockchain apareceu pela primeira vez em 2008 como a arquitetura do bitcoin, a criptomoeda mais conhecida e amplamente difundida.

É uma arquitetura realmente brilhante. construída com base em pesquisas fundamentais de décadas em criptografia, dados distribuídos, teoria dos jogos e outras tecnologias avançadas. A visão original do blockchain limitava-se a permitir que os usuários de bitcoin realizassem transações diretamente entre si, sem a necessidade de uma instituição financeira ou agência governamental certificar a validade das transações. Mas, como a Internet e outras tecnologias transformadoras, o blockchain agora transcendeu seus objetivos originais.

Blockchains são um tipo de tecnologia de contabilidade distribuída (Distributed Ledger Technologies), que também inclui DLTs não blockchain. Na última década, um número crescente de pessoas, inclusive eu, passou a considerar blockchains e DLTs como os próximos passos na evolução da Internet. Em 2016, o Fórum Econômico Mundial (WEF) nomeou O Blockchain em sua lista anual das Dez principais tecnologias emergentes citando seu potencial para mudar fundamentalmente a maneira como os mercados e os governos funcionam.

“Assim como a Internet, o blockchain é uma infraestrutura global aberta sobre a qual outras tecnologias e aplicativos podem ser construídos”, disse o WEF. “E, como a Internet, permite que as pessoas ignorem os intermediários tradicionais em suas negociações, reduzindo ou mesmo eliminando os custos de transação.”

A Internet é uma plataforma de rede de uso geral que permitiu grandes inovações e valor econômico ao reduzir significativamente o custo das conexões e oferecer suporte a uma grande variedade de aplicativos. A principal razão para sua capacidade de oferecer suporte a tantos tipos diferentes de aplicações é que os fundamentos da Internet, sua camada TCP-IP, mantiveram sua missão básica de transporte de dados, ou seja, apenas mover bits. Ela não controla o significado dos bits ou o que eles estão tentando realizar.

As decisões de design que moldaram a Internet em meados da década de 1980 não otimizavam a segurança, a privacidade ou a capacidade de autenticar transações entre duas ou mais partes; isso fica sob responsabilidade das aplicações, executadas no topo da camada TCP/IP, e cada aplicação faz isso do seu jeito, e às vezes, não faz nada. Não é surpresa que, a falta de padrões de segurança, privacidade e integridade transacional, têm sido os maiores desafios enfrentados pela Internet em nossa economia digital.

O Blockchain promete nos ajudar a melhorar a segurança e a integridade da Internet desenvolvendo uma malha de middleware, acima da camada TCP/IP, adicionando serviços de segurança, privacidade e transação necessários, fornecendo implementações de software de código aberto desses serviços, de forma padronizada, permitindo que todas as plataformas e aplicativos suportem o blockchain.

Lembremos também que a Internet é uma ‘rede de redes’, um sistema global de redes interconectadas, todas usando os mesmos protocolos de comunicação TCP/IP. O uso da Internet decolou em meados da década de 1980, à partir do momento que houve um acordo sobre a padronização de uso dos protocolos TCP/IP, com implementações de código aberto dos protocolos que todos poderiam usar e o estabelecimento da Força-Tarefa de Engenharia da Internet (IETF) para supervisionar o uso e o padrão da evolução da Internet.

O Blockchain ainda não está nesta fase. Existem várias plataformas blockchain em amplo uso, como Ethereum e Hyperledger. Eles são todos baseados no design original de 2009, mas com algumas variações e interoperabilidade limitada. Vários grupos têm trabalhado em padrões de blockchain e interoperabilidade entre plataformas, incluindo ISO e IETF. Mas, embora os padrões e a interoperabilidade sejam necessários, eles não são suficientes. Para que o blockchain alcance um amplo sucesso comercial, é absolutamente necessário integrar soluções emergentes de blockchain e DLT com sistemas de TI legados que as instituições vêm desenvolvendo nas últimas décadas.

“A inovação da tecnologia blockchain leva a uma questão importante sobre como os sistemas digitais legados, operados por empresas, governos e instituições, serão afetados”, disse Bridging the Governance Gap, um white paper recente do WEF.

“Atualmente, as respostas para essa pergunta variam de um extremo (‘todos os sistemas legados serão substituídos’) para o outro (‘DLT é muito lento e não comprovado para realmente substituir qualquer sistema legado em funcionamento’). No entanto, a resposta final pode estar em algum lugar, no meio termo, onde a utilidade de sistemas legados eleitos, possam ser atualizados, pela integração DLT, e as soluções DLT permitam um crescimento na adoção corporativa.”

O white paper argumentou que duas tecnologias principais são necessárias para permitir a interoperabilidade entre blockchain/DLT e sistemas de TI legados:Contratos inteligentes: acordos autoexecutáveis embutidos em código digital, que são acionados com base em eventos predefinidos sem intervenção humana.
Oracles: middlewares seguros que conectam os mundo autônomos de blockchains e contratos inteligentes baseados em blockchain com o mundo externo, incluindo sistemas de TI legados.

“A razão principal e predominante para a interoperabilidade do legado DLT é permitir que contratos inteligentes (on-chain) usem um oracle para buscar informações de um sistema legado (off-chain), formatá-lo, validá-lo e armazená-lo no blockchain onde pode ser usado para acionar algum tipo de acordo”, acrescenta o white paper do WEF. “O caso de uso reverso também existe, em que informações on-chain ou algum tipo de comando de um contrato inteligente são enviados para um sistema externo que as usa para processamento adicional ou para atuar no mundo real.”

Um artigo de pesquisa recente, Towards Blockchain-enabled Open Architectures for Scalable Digital Asset Platforms, de Denis Avrillionis e Thomas Hardjono, propôs uma estrutura muito interessante para interoperabilidade DLT-legada. As entradas em uma blockchain ou DLT devem ser vistas como a representação digital de um ativo do mundo real, seja digital ou físico, com o objetivo de proteger sua integridade ao longo do ciclo de vida do ativo. O documento apresenta o conceito de gêmeo digital para garantir o estado consistente entre um ativo do mundo real fora da cadeia e sua representação DLT na cadeia, bem como uma camada de software de mediação correspondente que fica entre os dois mundos, – o gêmeo digital recipiente.

O conceito de gêmeo digital tem sido usado por empresas de engenharia na última década para rastrear o estado de um objeto físico complexo, – como um motor a jato, um elevador, uma turbina eólica, um scanner de ressonância magnética – para antecipar possíveis problemas e agendar a manutenção preventiva antes que os problemas ocorram. O gêmeo digital de cada objeto é um modelo de computador altamente realista do objeto físico específico que está sendo rastreado. As enormes quantidades de dados operacionais coletados de sensores IoT incorporados ao objeto, – por exemplo, um motor a jato transmitindo dados enquanto o avião está em vôo, – possibilita que o modelo do objeto espelhe com precisão seu estado quase em tempo real.

“Um contêiner de gêmeo digital é utilizado para permitir a persistência de estado fora da cadeia e a rastreabilidade de estado na cadeia, onde o contêiner pode ser implantado no blockchain, bem como em servidores de aplicativos tradicionais”, observam Avrillionis e Hardjono. “O contêiner de gêmeo digital se torna a ponte entre as infraestruturas legadas e as infraestruturas de blockchain recém-emergentes, permitindo que os sistemas legados interoperem de forma consistente com os sistemas blockchain.”

“Acreditamos que um novo e mais amplo paradigma computacional é necessário para sustentar e abranger transações de ativos digitais baseadas em blockchain. Esse novo paradigma deve permitir que os ativos entrem e saiam de blockchains e sistemas legados sem problemas. Ele também deve permitir que dados fora da cadeia e outras informações de estado relacionadas a ativos em formato digital sejam acessíveis pelo contrato inteligente. Além disso, os cálculos que ocorrem em sistemas legados também devem ser possíveis em coordenação com contratos inteligentes.”

Por exemplo, se um aplicativo procura modificar o estado de um ativo, ele deve garantir que o ativo do mundo real, – como uma conta bancária, registro médico, certificado de propriedade imobiliária ou modelo de computador de um objeto físico, – e sea respectiva representação de gêmeos digitais no blockchain ou DLT, sejam totalmente sincronizados. “Essa sincronização contínua é realizada para evitar que mudanças na propriedade do ativo no blockchain sejam conduzidas sem uma mudança de estado correspondente no ativo do mundo real.”

O artigo põe em check estratégias de e-business legadas, principalmente, aquelas mais antigas, implementadas no começo da Internet e que evoluíram para sistemas complexos, que hoje permitem que empresas possam interagir com seus clientes, fornecedores, parceiros de negócios e funcionários de uma maneira muito mais produtiva e eficiente, simplesmente integrando seus aplicativos legados e bancos de dados com as tecnologias emergentes da Internet e da Web. O mundo dos negócios foi assim capaz de abraçar rapidamente a Internet, o que levou a uma série de grandes inovações nas décadas seguintes. Da mesma forma, os atuais esforços de interoperabilidade entre as tecnologias blockchain/DLT e a base agora muito maior de sistemas de TI legados, facilitarão a adoção comercial dessas tecnologias e levarão a grandes inovações futuras.

26/02/2022

Como está a revolução digital?

Na época da faculdade, tive contato com materiais acadêmicos de Carlota Perez e um dos mais expressivos, foi seu livro de 2002, Technological Revolutions and Financial Capital: The Dynamics of Bubbles and Golden Ages. Na época, vivíamos uma série de grandes mudanças – os atentados de 11 de setembro, o crescimento explosivo da Internet, o advento da economia digital, a bolha das pontocom e o estouro da bolha. Perez explicou muito bem aqueles tempos turbulentos, dentro da perspectiva histórica sobre a qual escreveu em seu livro.

Se você olhar para o panorama histórico, vai notar que as revoluções pelas quais o mundo já passou, baseiam-se em padrões, que servem como um guia para entender o passado e pensar o futuro. Desde o início da Revolução Industrial, tivemos 5 grandes revoluções tecnológicas, cada uma com duração aproximada de 40 a 60 anos.

Primeiro, foi a era das máquinas e fábricas, à partir de 1771. Seguiu-se então a era do motor a vapor, das ferrovias, do ferro e do carvão, a partir de 1829; depois veio o aço, a eletricidade e a engenharia, que chegaram em 1875; na sequência vieram o petróleo, os automóveis e produção em massa, em 1908, e a nossa atual era digital de tecnologia da informação e telecomunicações (TIC) começando em 1971.

As revoluções tecnológicas são motores de crescimento, que inauguram novos paradigmas de inovação, rejuvenescendo e transformando a economia e remodelando o comportamento social e a sociedade. Para entender melhor a dinâmica de uma revolução tecnológica, devemos dividi-la em dois períodos diferentes, cada um com duração de 20 a 30 anos.

O período de instalação é o momento da destruição criativa, quando novas tecnologias emergem do laboratório para o mercado, os empreendedores iniciam novas empresas para aplicar os novos modelos no mundo real, os Fundos de Investimentos incentivam a experimentação destes novos modelos de negócios e os novos empreendimentos, por sua vez, atraem o capital financeiro. Inevitavelmente, um frenesi especulativo ocorre, levando a uma bolha financeira, que eventualmente estoura.

Após o estouro, vem o período de implantação. Sua fase inicial é um momento de recomposição social. As tecnologias e os paradigmas econômicos, agora se tornam bem aceitos, passando a ser adotado como norma; novas infraestruturas e indústrias são mais bem definidas e mais estáveis; e o capital de produção impulsiona o crescimento e a expansão de longo prazo, espalhando e multiplicando os modelos de negócios bem-sucedidos. Com o tempo, a era tecnológica atinge sua fase de maturidade e começa a declinar e a próxima era começa a se enraizar.

Em um debate em 2017, Perez foi convidada a comentar sobre a diferença entre a revolução da era digital e as quatro revoluções anteriores, já que já se passaram mais de 45 anos desde o advento das revoluções das TICs e 15 anos desde o estouro da bolha das pontocom, – os períodos revolutivos mais longos, segundo suas teorias.

“Provavelmente essa é também a transformação mais profunda da vida cotidiana das pessoas e a que foi mais longe globalmente”, disse Perez. “Além disso, dada a nossa vida útil mais longa, a geração mais velha levou mais tempo para entregar o poder – neste caso, para os nativos digitais mais jovens. Mesmo depois de 40 anos, a revolução da informação e das comunicações está longe de estar completa e também não conseguiu mudar totalmente nosso modo de vida, como as revoluções tecnológicas anteriores haviam feito.” Além disso, tivemos duas grandes bolhas das quais nos recuperar – a bolha pontocom no final da década de 1990 e a bolha imobiliária de meados da década de 2000, que levou à crise financeira global de 2008 e inda não terminamos de nos recuperar da queda dessas duas bolhas recentes.

Em um artigo de 2016, Capitalism, Technology, and a Green Golden Age, Perez observou que encerrar uma crise, historicamente, envolve uma mudança de paradigma na direção da economia e da sociedade como um todo. Ela argumentou que “uma mudança radical na política é agora necessária para inclinar o campo de jogo para o crescimento e inovação verdes, como a nova direção para nossa era, e que tais políticas podem trazer de volta o crescimento e os empregos e reduzir a desigualdade”.

“O que foi especialmente notável em Revoluções Tecnológicas e Capital Financeiro de Carlota Perez foi o seu timing: foi no meio do inverno frio de 2002 que a Bolha pontocom estourou, e Perez estava lá argumentando que a revolução da TI e a Internet não eram de fato ideias mortas, mas uma transição natural, de uma fase para outra”, escreveu Ben Thompson em The Death and Birth of Technological Revolutions, o primeiro de dois artigos sobre o trabalho de Perez em seu excelente boletim informativo Stratechery.

O artigo de Thompson começa com uma explicação muito boa do trabalho de Perez, a quem ele admira. No entanto, ao contrário de Perez, ele argumenta que a transição para a fase de implantação da era das TICs já começou; e conclui que estamos firmemente na fase de sinergia, com a economia e a sociedade sendo reorganizadas em torno do novo paradigma da economia digital e aqui está um resumo dos três argumentos-chave que Thompson dá como evidência para sua conclusão:

1. Dispersão tecnológica. As tecnologias, infraestruturas e aplicativos digitais continuaram a avançar desde que a bolha das pontocom estourou há duas décadas.

“[Hoje] mais de quatro bilhões de pessoas têm acesso à Internet e, graças à natureza global da web, aqueles em países em desenvolvimento podem consumir e criar nas mesmas plataformas que os mais abastados.”

Além disso, mais de 7 bilhões de pessoas em todo o mundo estão usando telefones celulares.

Chegamos ao ápice do paradigma tecnológico atual: Mobile + Cloud. Em um artigo de 2020, The End of the Beginning, Thompson escreveu que a era da tecnologia digital é melhor compreendida como uma transformação de várias décadas ao longo de três fases tecnológicas distintas:A fase inicial do mainframe de processamento em lote,
A fase interativa desktop/PC, e
A fase final móvel + nuvem contínua em todos os lugares.

“O que é notável é que o ambiente atual parece ser o ponto final lógico de todas essas mudanças: do processamento em lotes à computação contínua, de um terminal em uma sala, a um telefone sempre conectado em sua bolso, de uma unidade de fita a data centers espalhados por todo o mundo.”

2. Capital Financeiro e Capital de Produção. “Um dos princípios mais importantes no modelo de Perez é a diferença entre Capital Financeiro e Capital de Produção e os papéis que eles desempenham no período de instalação versus o período de implantação”, escreveu Thomspon no segundo artigo sobre seu trabalho.

“O capital financeiro é fundamental no período de instalação de uma revolução tecnológica. Por ser móvel e buscar retorno, flui para novas tecnologias que estão surgindo; no caso da era atual, isso significou chips, depois softwares e depois serviços. O capital financeiro também é altamente especulativo e provoca um frenesi que leva a uma bolha, que foi exatamente o que aconteceu na era pontocom.”

“O capital de produção, por outro lado, é colhido de negócios lucrativos que reinvestem seus ganhos para melhorar seus produtos e expandir seus mercados durante o período de implantação. Isso claramente vem acontecendo com as maiores empresas de tecnologia: um dos melhores investimentos que alguém poderia ter feito na última década teria sido ações da Apple, Microsoft, Google, Amazon e Facebook, não porque precisassem de capital de investidores, mas porque estavam gerando retornos excepcionais ao reinvestir seus próprios lucros.”

Então, o quê virá?

Ainda estamos esperando o período de implantação da revolução das TICs, caracterizada por uma inovação verde a caminho de uma era de ouro verde, como afirma Perez; ou já entramos no período de implantação caracterizado pelo capital de produção e investimentos, como argumenta Thompson?

Resposta: ainda não sabemos muito bem. O tempo vai dizer. Como Ben Thompson escreveu em conclusão:

“Uma coisa é ver que o futuro está chegando; outra coisa totalmente diferente é saber o seu tempo. Sobre isso, Perez e eu certamente podemos concordar.”

23/02/2022

Medindo a economia digital

A professora de Cambridge, Diane Coyle, no workshop anual do Stanford Digital Economy Lab, fez uma interessante apresentação sobre O que não sabemos sobre como medir a economia digital? A professora Coyle, é também pesquisadora associada do Centro de Excelência em Estatísticas Econômicas do Reino Unido. Em 2017, ela recebeu o Prêmio Índigo sobre como medir a atividade econômica na economia digital por seu ensaio Fazendo o futuro valer, em coautoria com Benjamin Mitra-Kahn.

“O PIB captura apenas transações de mercado ao preço de troca, e não os ganhos de bem-estar, externalidades, meio ambiente, distribuição de riqueza ou inovação que ocorrem em uma economia”, escreveram os autores. “Por isso, desde sua criação na década de 1940, tem sido criticado por sua incapacidade de capturar o bem-estar econômico. Agora, as mudanças na economia, sendo reestruturadas pela tecnologia digital e pagando o preço do crescimento insustentável, tornam a necessidade de uma nova estrutura de medição mais urgente do que nunca. O PIB nunca foi uma medida ideal de bem-estar econômico.”

O Produto Interno Bruto (PIB) tornou-se a medida internacional aceita de economias na década de 1940. Embora seja uma boa medida para a economia industrial do século 20, o PIB é uma medida falha para a economia do século 21. Foi adequado quando a economia era dominada pela produção de bens físicos, mas o PIB não captura adequadamente a crescente parcela de serviços e outros ativos intangíveis que agora caracterizam economias avançadas. Tampouco reflete atividade econômica importante além da produção, como renda, consumo e padrões de vida.

Em 2008, uma Comissão de Medição de Desempenho Econômico e Progresso Social liderada pelos economistas ganhadores do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz e Amartya Sen foi convocada para analisar os limites do PIB como um indicador de desempenho e progresso econômico.

“O que medimos afeta o que fazemos; e se nossas medições forem falhas, as decisões podem ser distorcidas.” disse seu relatório.

A Comissão recomendou complementar as medidas clássicas do PIB e da produção econômica com medidas adicionais que capturassem o bem-estar das pessoas e a sustentabilidade de longo prazo para ajudar a refletir a evolução da economia no futuro.

Outro conjunto de preocupações surgiu nas últimas duas décadas. Como se mede o valor das quantidades crescentes de bens de informação gratuitos disponíveis na Internet, incluindo artigos da Wikipédia, mapas do Google, interações no Facebook, aplicativos para smartphones e vídeos do You Tube?

Em uma palestra de 2012, Why it Matters that the GDP Ignores Free Goods, o professor de Stanford Erik Brynjolfsson observou que, apesar de gastar mais tempo consumindo e desenvolvendo bens digitais do que nunca, as estatísticas oficiais do governo não incluem seu valor.

“Obviamente, há alguns grandes problemas de medição na maneira como mantemos nossas estatísticas, e isso é um problema real porque, como diz o ditado, você não pode gerenciar o que não mede”, disse ele.

O problema é que o custo marginal de entrega de produtos digitais pela Internet é bem próximo de zero. Enquanto em alguns casos seu modelo econômico é baseado na publicidade, em muitos casos os usuários contribuem com seu tempo e desenvolvem conteúdo digital à toa. As informações on-line podem ser atualizadas a cada minuto do dia e acessíveis em quase qualquer lugar do mundo, mas seu preço geralmente é radicalmente menor do que o de sua contraparte física – se houver um preço.

“A tecnologia digital está criando novos bens e serviços diretamente e está levando à inovação do modelo de negócios em toda a economia (serviços de streaming de música, plataformas de acomodação, serviços da manufatura, produção voluntária de bens digitais, como software de código aberto e muito mais), escreveram Coyle e Mitra-Kanh em seu ensaio. “Os governos democráticos modernos em economias digitais não precisam de uma estatística projetada para medir a capacidade produtiva física em tempos de guerra.”

Os autores recomendam um plano de duas etapas para reformar as medidas econômicas.

Alterações simples ao PIB

O primeiro estágio envolve três mudanças relativamente diretas no PIB no curto prazo: contabilizar adequadamente os intangíveis; remover investimentos financeiros improdutivos; e ajustes para distribuição de renda.

Ativos intangíveis. Os ativos tangíveis são principalmente físicos, – como veículos, terrenos, plantas, equipamentos e móveis; eles também incluem ativos financeiros com um valor concreto, como ações, títulos, contas a receber e dinheiro. Os ativos intangíveis não são físicos nem possuem valor financeiro concreto. Eles incluem patentes, direitos autorais, marcas registradas, boa vontade, valor da marca, capital humano, P&D, software e dados. Apesar de não terem existência física, os intangíveis possuem um valor monetário, pois representam uma receita potencial, mas esse valor deve ser estabelecido com base em princípios contábeis. E, ao contrário dos ativos tangíveis, os intangíveis são difíceis de avaliar e segurar.

O valor dos ativos intangíveis aumentou significativamente nas últimas décadas. De acordo com um relatório de 2019 do Ponemon Institute, em 1975, o valor total do S&P 500 era de US$ 715 bilhões, dos quais 17% eram intangíveis. Em 1985, de um valor total de US$ 1,5 trilhão, 32% eram intangíveis. Em 1995, as porcentagens mudaram, com os intangíveis agora sendo 68% de US$ 4,6 trilhões. Os valores intangíveis continuaram a subir para 80% de US$ 11,6 trilhões em 2005; e para 84% de US$ 25 trilhões em 2018.

Finanças produtivas e improdutivas. Tradicionalmente, o dinheiro é economizado em bancos que, por sua vez, investem o dinheiro na chamada economia real. No entanto, enquanto os poupadores ainda colocam seu dinheiro em instituições financeiras, essas instituições têm criado cada vez mais ativos financeiros, como títulos, hipotecas, derivativos e empréstimos interbancários.

“Isso é um problema para medir o desempenho econômico, pois os lucros que os bancos obtêm … são contados como parte do PIB – mas não são investimentos em capital produtivo, mas em capital financeiro.” Transações financeiras dessa natureza “devem ser revertidas, pois é difícil ver a atividade das instituições financeiras entre si como produtiva”.

Sociedades desiguais. O crescimento econômico geralmente é relatado em medidas como PIB total e PIB per capita, – calculados pela divisão do PIB de um país por suas populações -, que obscurecem o desempenho da economia em diferentes segmentos da população.

“É necessário um foco na distribuição. As agências estatísticas poderiam facilmente tornar o PIB per capita médio o número padrão comunicado à imprensa e regulares. O uso do valor mediano removeria rapidamente os vieses de relatar o crescimento econômico em países com distribuição desigual de renda.”

“As rendas medianas e médias divergiram significativamente em alguns países desenvolvidos, como os EUA.” como mostra este gráfico, o PIB por domicílio – uma medida da renda média total por domicílio – aumentou cerca de 55% entre 1985 e 2016, enquanto a renda média por domicílio aumentou apenas 20% no mesmo período, refletindo a tendência para uma maior desigualdade.

Uma nova estrutura de longo prazo

A segunda etapa da recomendação propõe uma estrutura alternativa para medir a economia que substitui o PIB por um painel de ativos que mede “o acesso à gama de ativos econômicos que as pessoas precisam para levar uma vida significativa como a concebem”. Tal estrutura requer a medição de seis tipos de ativos econômicos:

Capital Físico e Produzido. Isso inclui a infraestrutura, por exemplo, de transporte, redes de energia, redes de comunicações, bem como a outros bens públicos e novas tecnologias.

Capital humano. “As medidas de capital humano olham para as qualificações educacionais – uma medida bastante grosseira de habilidades e atributos relevantes – e usam os ganhos de mercado para avaliar o capital humano representado por um determinado nível de qualificação, como ponto de partida para contabilizar as habilidades das pessoas e acesso a treinamentos.”

Capital natural. Isso inclui os recursos renováveis fornecidos pela natureza, e demarcados por direitos de propriedade ou comuns, bem como medições de outros componentes, como externalidades.

Propriedade Intelectual e Dados. “Há pouca coleta de dados sobre dados ou sobre o valor total da propriedade intelectual, embora as empresas gastem grandes somas nesses investimentos.”

Capital Social e Institucional. Isso inclui o grau de confiança que afeta os custos de transação da troca econômica e a provisão viável de bens públicos.

Ativos Financeiros Líquidos. Isso inclui os passivos contingentes do governo de promessas futuras, como pensões e pagamentos de passivos financeiros públicos.

“O PIB concentrou as economias ocidentais do pós-guerra (e além) na maximização da produção de bens e serviços a partir do uso atual de recursos”, escrevem os autores em conclusão. “O futuro tem peso estatístico zero. O PIB ignorou os indivíduos e a geografia. Muitos grupos da sociedade e lugares têm sido invisíveis nos debates políticos.”

“A alternativa de longo prazo que propomos, motivada pela gama de ativos necessários para maximizar as capacidades dos indivíduos para levar a vida que gostariam de levar, teria contado uma história diferente sobre o passado recente. Teria pintado um quadro ainda mais dividido do que o atual: grandes melhorias, no balanço, para pessoas com diplomas e acesso a novos serviços digitais, morando em áreas bem servidas por infraestruturas; e a deterioração geral, para aqueles que deixaram a escola com poucas qualificações, não tendo acesso à banda larga rápida ou mesmo trens rápidos e vivendo em áreas próximas a locais poluídos e com poucos espaços verdes. Apesar de todos os benefícios das novas tecnologias, atuais e futuras, não haveria complacência com a economia”.

19/02/2022

Novas formas de compreender o comportamento humano

“Costuma-se dizer que nenhuma pessoa é uma ilha e é preciso uma aldeia para criar uma criança*, mas a psicologia carece de evidências científicas para quantificar e caracterizar esses aforismos”, escreveu o professor do MIT Alex (Sandy) Pentland em Contextualizing Human Psychology, – um artigo publicado na edição de agosto de 2020 da Technology, Mind and Behavior, uma revista da American Psychological Association. “Como resultado, o foco experimental geralmente está em traços e comportamentos individuais mais facilmente quantificáveis”.

“Na última década, no entanto, os dados digitais de interações online, telefones celulares e cartões de crédito nos permitiram quantificar com precisão o comportamento social em larga escala em um nível muito minucioso de detalhes. A trilha de migalhas de dados que deixamos para trás, em nossas interações digitais, enquanto nos movemos pelo mundo estão permitindo novas maneiras de entender o comportamento humano, dando origem à disciplina emergente da ciência social computacional. “[Estas] novas ferramentas podem ajudar a relacionar traços individuais ao contexto social e, assim, explicar melhor os resultados da vida e as características sociais”.

O artigo ilustra os avanços e desafios das previsões baseadas em dados discutindo um experimento de colaboração em massa de 2017. O experimento pediu a cada uma das 160 equipes acadêmicas, prever seis resultados comportamentais de vida, – como a média de notas de uma criança e se uma família seria despejada de sua casa. Foram analisados dados de mais de 4.200 crianças em risco de Famílias Frágeis. Esses dados foram coletados por meio de entrevistas, ao longo de mais de 15 anos, bem como outras avaliações, incluindo educação infantil e as pontuações das crianças em uma variedade de testes padrão. Informações adicionais foram fornecidas sobre os pais, incluindo históricos médicos, de emprego e de encarceramento, religião e práticas de cuidados infantis. Quase 13.000 medições foram feitas para cada criança e sua família.

As equipes acadêmicas competiram usando os dados para prever os resultados comportamentais de vida dessas crianças usando qualquer modelo de sua escolha. As equipes foram julgadas pela precisão de suas previsões, cujos valores reais estavam disponíveis apenas para os organizadores do desafio. A equipe de pesquisa do MIT de Pentland foi um dos grupos acadêmicos que participaram do experimento. Essa equipe conquistou o primeiro lugar ao produzir as previsões mais precisas em três das categorias e o segundo lugar em uma quarta categoria.

“Apesar do rico conjunto de dados e dos métodos estatísticos de última geração, no entanto, nossas melhores previsões para esses resultados de vida não foram muito precisas e, na verdade, foram apenas um pouco melhores do que as de uma referência simples”, escreveu Pentland. “A conclusão desconfortável é que não se pode prever os resultados da vida das crianças a partir de nenhum dos testes padrão ou métodos de entrevista aplicados às crianças ou suas famílias.”

Embora não tenham um bom desempenho na previsão de resultados de vida individual, os modelos foram capazes de identificar propriedades agregadas, por exemplo, o efeito da educação sobre os rendimentos e diferenças raciais no desempenho escolar. Como se vê, “pode-se prever pelo menos alguns resultados de vida a partir de dados sobre o bairro em que as crianças e suas famílias vivem”.

“Muitas das análises de dados em larga escala usando as ferramentas da ciência social computacional fornecem evidências de que, ao procurar entender como os traços de comportamento afetam os resultados da vida, é melhor conceber os humanos como uma espécie que está em busca contínua de novas oportunidades. ideias e que as redes sociais ao redor servem como um recurso importante, e talvez o maior, para encontrar oportunidades”, escreveu Pentland. “Os seres humanos são como todas as outras espécies sociais: nossas vidas consistem em um equilíbrio entre os hábitos que nos permitem ganhar a vida explorando nosso ambiente e explorando para encontrar novas oportunidades. Na literatura animal, isso é conhecido como comportamento de forrageamento”.

O que explica esses princípios comportamentais universais?

A resposta provavelmente está na biologia evolutiva. A sobrevivência é claramente um imperativo evolutivo chave. E sobreviver em um ambiente em mudança requer uma combinação de aprendizado social e novas ideias. Os seres humanos evoluíram assim com o impulso de aprender uns com os outros. Mas, ao mesmo tempo, mutações e inovações irão variar entre os diferentes grupos, com a seleção natural favorecendo os grupos humanos mais capazes de se adaptar às mudanças nas condições explorando seu ambiente.

“Uma interpretação dos resultados da Família Frágil que é consistente com esses resultados semelhantes na literatura de ciências sociais computacionais é que o aprendizado social muito precoce estabelece o padrão de forrageamento das crianças. É útil pensar nesse tipo de ‘programação social’ em relação ao pensamento rápido e lento, como proposto pelo psicólogo Daniel Kahneman.”

Na década de 1970, a visão predominante entre os cientistas sociais era que as pessoas eram geralmente racionais e controlavam a maneira como pensam e tomam decisões. Mas, o trabalho pioneiro do professor emérito de Princeton Daniel Kahneman e seu colaborador de longa data Amos Tversky, – que morreu em 1996, – desafiou essas suposições. Em seu best-seller de 2011 Pensando, Rápido e Devagar, Kahneman explicou a pesquisa que eles conduziram e que levaram ao nosso entendimento atual de julgamento e tomada de decisões, – pelo qual ele recebeu o Prêmio Nobel de Economia de 2002.

A tese central do livro é que nossa mente é composta por dois sistemas de pensamento muito diferentes, o Sistema 1 e o Sistema 2. O Sistema 1 é a parte intuitiva, rápida e emocional de nossa mente. Os pensamentos chegam automática e rapidamente ao Sistema 1 sem que façamos nada para que eles aconteçam. O Sistema 2 é a parte mais lenta, lógica e racional da mente. É onde avaliamos e escolhemos entre várias opções, porque apenas o Sistema 2 pode pensar em várias coisas ao mesmo tempo e mudar sua atenção entre elas. O Sistema 1 normalmente funciona desenvolvendo uma história coerente com base nas observações e fatos à sua disposição. Isso nos ajuda a lidar eficientemente com as inúmeras situações simples que encontramos na vida cotidiana.

A pesquisa mostrou que o intuitivo Sistema 1 é realmente mais influente em nossas decisões, escolhas e julgamentos do que geralmente percebemos. O Sistema 1 é moldado tanto pela biologia evolutiva quanto pelo contexto social. Nascemos com a capacidade de aprender e nos adaptar à nossa tribo – uma espécie de impressão social. É por isso que os bebês aprendem rapidamente a reconhecer gatos e outros animais a partir de relativamente poucos exemplos, enquanto são necessárias grandes quantidades de dados para treinar de maneira semelhante um algoritmo de aprendizado de máquina. Enquanto o impacto do contexto social enfraquece à medida que envelhecemos e o Sistema 2 se desenvolve, o Sistema 1 continua a desempenhar um papel importante ao longo de nossa vida.

“A ciência social computacional sugere que a mente rápida é o repositório de normas culturais, uma espécie de mente tribal construída em grande parte inconscientemente pela integração de observações sobre como outras pessoas se comportam com restrições e tendências biológicas”, escreveu Pentland. “Em contraste, o pensamento lento é construído com base em crenças adquiridas pelo raciocínio individual e observações que parecem interessantes – fatos e comportamentos que um dia podem ser úteis. Como o pensamento lento é baseado em regras e reflexivo, ele fornece uma maneira segura de conjecturar novas ideias e normas sem evidências diretas. A linguagem e o pensamento lento estão fortemente acoplados e, portanto, histórias memoráveis podem atuar como uma espécie de ‘realidade virtual’ social que nos permite aprender fatos e comportamentos úteis sem ter que observá-los diretamente.”

“No exemplo das Famílias Frágeis, parece que a experiência muito precoce define a estrutura básica para as normas e hábitos de raciocínio rápido das crianças. Características como a tendência de explorar versus esconder, perseverar versus desistir e assumir a agência pessoal parecem ser estabelecidas muito cedo, pela observação e interação com outras crianças e adultos. As faculdades de pensamento lento amadurecem em cima dessa base e têm apenas uma capacidade limitada de modificá-la. Os hábitos são difíceis de quebrar, mesmo quando obviamente causam danos e mudar os hábitos de forrageamento social é ainda mais difícil porque as desvantagens de um repertório falho de raciocínio rápido geralmente são bastante sutis e difíceis de focar.”

“O que a ciência social computacional sugere é que o modelo de ‘indivíduo racional’ se refere principalmente à nossa mente de pensamento lento e é uma descrição pobre de como as pessoas incorporam novas ações e hábitos em seu comportamento diário de pensamento rápido. O principal fracasso não é a limitação da racionalidade; é que a mente de pensamento rápido não maximiza as necessidades do indivíduo. Em vez disso, nossa mente de pensamento rápido, que é responsável pela maioria de nossos comportamentos cotidianos, está ligada à cultura, maximizando de acordo com as normas sociais, benefícios do grupo e restrições biológicas, muitas vezes contra os interesses do indivíduo”.

“A ideia de que o pensamento rápido é principalmente ligado à cultura, em vez de ser impulsionado pelo pensamento e reflexão individuais, significa que o pensamento rápido é coletivamente racional e não individualmente racional. Os seres humanos se envolvem continuamente em comportamento exploratório para encontrar novos comportamentos adaptativos e a maioria desses novos comportamentos vem da imitação de outras pessoas. Como ilustram as Famílias Frágeis, a diversidade e estudos semelhantes, parece ser a amplitude do comportamento exploratório de uma pessoa, e não seus traços cognitivos individuais, que geralmente dominam os resultados da vida e a evolução das características sociais”.

* É preciso uma aldeia para se educar uma criança. Ė um provérbio africano, que faz referência a que nenhuma pessoa aprende e se desenvolve somente a partir dos valores da sua família nuclear, mas também em acordo com toda a comunidade em que vive e se relaciona.

Além da Guerra de Preços: O Oceano Azul na Conectividade Brasileira

Introdução Lançado em 2005 por W. Chan Kim e Renée Mauborgne, A Estratégia do Oceano Azul revolucionou o pensamento estratégico...