19/11/2023

Robôs x Liderança

Os robôs já chegaram ao chão de fábrica, há algum tempo, mas será que um dia eles poderão ser nossos chefes?

Robôs não são perfeitos e não são feitos para tudo, mas têm a capacidade de fazer algumas coisas que os humanos não conseguem fazer, pelo menos em escala.

Vou comentar neste episódio do meu blog, sobre a hipotética situação, de, em um futuro próximo, estarmos trabalhando lado a lado com robôs, e o que isso pode significar.

O gigante global da tecnologia, o Alibaba, rival da Amazon pelo título de maior varejista online do mundo, tem hoje cerca de 800 milhões de usuários e cresceu tanto que o governo chinês decidiu impor regras, para restringir o seu poder político-econômico. A empresa, há muito, adota a inteligência artificial (IA) em suas atividades rotineiras. Ela utiliza algoritmos para prestar um serviço personalizado aos seus clientes e utiliza robôs para processar, embalar e despachar mercadorias em seus armazéns.

Jack Ma, fundador da empresa, acredita que um dia os robôs poderão dirigir empresas. Ele diz: “Em 30 anos, um robô provavelmente estará na capa da revista Time, como o CEO do ano”.

Outro pioneiro do mundo tecnológico, porém, o americano Elon Musk, pensa um pouco diferente e está mais preocupado. Ele teme que os robôs possam um dia erradicar o trabalho humano completamente.
Então, como será a liderança nas empresas, em um mundo dominado por máquinas?

Hoje, a vantagem para os seres humanos, em ter robôs e IA no local de trabalho, é claramente que, estas tecnologias fazem parte do trabalho bruto por nós, e através desse trabalho bruto, que eu particularmente entendo como limpeza, carregar e movimentar mercadorias de A para B; mas em um futuro próximo, isso pode também significar realizar tarefas repetitivas baseadas em computação, que toma muito tempo dos seres humanos – e isso, pode libertar os seres humanos para outras atividades muito mais analíticas e de uso da razão.
Qual o perigo dos robôs e da IA para o trabalho repetitivo que não queremos fazer?

No meu ponto de vista, o grande perigo é essencialmente que, se o nosso local de trabalho se tornar mais automatizado e mais ocupado por robôs, os humanos não serão mais funcionais, em algumas áreas, e os governos terão de encontrar soluções para um número cada vez maior de pessoas, que poderão não estar desempregadas, mas indo de um emprego temporário para outro e isso se tornaria o grande desafio social do futuro.
Então, dar empregos aos robôs e à IA trará desafios sociais aos humanos? Onde a liderança se encaixa nesse contexto?

Uma parte fundamental da liderança é: cuidado, compreensão e empatia. E assim, na sua forma mais óbvia, quando se lidera, podemos pensar em cuidar dos outros, das pessoas do seu grupo – e isto é algo que os robôs, por mais sofisticados que sejam, [ainda] não podem fazer isso pelos seres humanos. Mas, se a tarefa central da liderança, é entender as pessoas, responder às suas necessidades, cuidar delas – tanto nas questões delicadas, como nas questões mais genéricas – estamos em vantagem, em relação aos robôs, pois isso é algo que eles provavelmente nunca serão capazes de realizar.

Existem muitas responsabilidades éticas para as pessoas que estão criando IA, mas também para as pessoas responsáveis por implementá-la e ver como ela progride nas organizações e na sociedade. Penso que a principal questão ética aqui é que a IA, em certo sentido, é uma espécie de automatização da vontade humana, que infelizmente também pode incluir os preconceitos humanos.

Assim, por exemplo, podem haver problemas com algoritmos de policiamento, que podem agir de forma preconceituosa, subjacentes de certas forças ou ações policiais, que estejam na base de conhecimento e formação do aprendizado da máquina. Portanto, temos que ficar atentos e isso é uma responsabilidade muito grande e ética da liderança político-administrativa global. Estar atento em ‘como’ a inteligência artificial é implantada é fundamental – para que ela não saia do controle e não automatize problemas éticos sérios. Os líderes precisam ser éticos e responsáveis na implementação da IA, para que não se repitam os erros humanos nas máquinas.

O trecho acima, foi feito através de perguntas e respostas que eu mesmo perguntei, pesquisei e respondi.

O trecho abaixo, é uma espécie de entrevista com uma inteligência artificial, onde eu faço perguntas, elaboradas por mim e as respostas são dadas pela inteligência artificial do chatgpt.

Em um dos meus primeiros contatos com o chatgpt, pedi a ele criar uma poesia com versos e rimas. A resposta foi:

No silêncio da noite, a lua sorri, Reflete segredos do céu, tão sutil. Estrelas dançam em um manto de cetim, Poema cósmico, fascínio sem fim. Na penumbra, a poesia se revela sutil.

Nada mau!

Mas o que os criadores das IAs realmente querem, é que ela faça que as pessoas pensem num mundo com IA, sem pensar no impacto que isso terá, principalmente, na forma de liderar.

Robôs são ótimos, mas não são humanos. Eles não são perfeitos e não são feitos para tudo e eu decidi ser mais desafiador, questionando o chatgpt sobre gestão e liderança e como direcionar essa capacidade para um ambiente sustentável e para o nosso futuro. Perguntei:
Os robôs seriam melhores líderes do que os humanos?

Resposta: Eles trabalhariam juntos. No final das contas, o estado da liderança depende de como projetamos e usamos a tecnologia. Portanto, os humanos precisam estar mais conscientes do quanto a IA está fazendo e do que estamos fazendo, ao recriar e usar novas tecnologias.

Fiz uma nova pergunta:
Portanto, nós [humanos, robôs e IAs] precisamos trabalhar juntos para compreendermos o poder das novas tecnologias?

Resposta: Para apreciar verdadeiramente as oportunidades que estão surgindo, precisamos primeiro compreender o passado. Com isso, poderemos estar mais conscientes e flexíveis para lidar com um futuro imprevisível. O mundo está mudando. O futuro não é o que consideramos que seja. Está exigindo de nós a disposição de abrir mão de nossa zona de conforto. Desistir da sua zona de conforto significa abrir-se para novas possibilidades e isso ajuda a compreender o passado.
Oquê a IA considera uma qualidade fundamental para a liderança?

Resposta: Humildade. Devemos ser humildes em todas as ações e isso inclui o que estamos dispostos a fazer e dizer para ajudar os outros. Liderança não é a mesma coisa que sucesso ou fracasso. Todos falhamos, mas podemos reconhecer os erros que cometemos e aprender com eles. Humildade é quando você se coloca no lugar do outro.
Mostrar humildade, reconhecer erros e aprender com eles são qualidades que a IA deseja ver nos líderes?

Resposta: É difícil saber exatamente como será a liderança no futuro, mas está claro que as qualidades humanas de cuidado e empatia serão vitais. Ter um conhecimento detalhado da tecnologia e do seu potencial é importante, assim como ser ético e responsável na forma como a utilizamos.
Como seria uma empresa liderada por uma IA?

Resposta: Uma empresa liderada por inteligência artificial seria altamente eficiente e adaptável. Decisões seriam baseadas em análises de dados em tempo real, otimizando processos e recursos. Comunicações internas poderiam ser automatizadas, facilitando a troca de informações entre departamentos. A inovação seria constante, impulsionada por algoritmos de aprendizado de máquina identificando oportunidades.

Os líderes seriam virtuais, impessoais mas imparciais, guiariam a estratégia com base em análises preditivas. Funcionários humanos se concentrariam em tarefas criativas e de resolução de problemas, enquanto as operações rotineiras seriam gerenciadas eficientemente pela inteligência artificial.

A ética e transparência na tomada de decisões seriam prioridades, com auditorias regulares dos algoritmos para evitar preconceitos. Apesar da eficiência, a empresa garantiria um ambiente que valoriza a interação humana e o bem-estar dos funcionários.

Meu comentário: Algumas respostas são boas; outras, um tanto quanto evasivas, como nós, também somos evasivos, em algumas respostas.

Para finalizar, pedi ao chatgpt para fazer suas considerações finais, em conclusão…

Eis a reaposta:

Uma IA pode ser uma boa liderança para uma empresa em certos contextos, especialmente quando se trata de otimização de processos, análise de dados extensos e tomada de decisões baseadas em lógica. A IA pode ser eficiente, consistente e livre de emoções pessoais, o que pode resultar em decisões objetivas.

No entanto, a liderança eficaz muitas vezes requer habilidades interpessoais, intuição e compreensão das dinâmicas humanas, áreas em que a IA pode ter limitações. Além disso, a tomada de decisões éticas e a adaptação a situações complexas podem ser desafios para a IA.

Assim, a abordagem mais promissora pode ser uma combinação de liderança humana e IA, aproveitando as vantagens de ambas para criar um ambiente organizacional equilibrado e eficiente.

15/10/2023

Cadeias de abastecimento na economia do século XXI

“Os espasmos sociais e econômicos do início da década de 2020 destacaram o papel das cadeias de abastecimento mundiais na economia global moderna, bem como o papel crescente da tecnologia digital, incluindo a IA e a automação, na economia do futuro”, escreveu o professor Yossi Sheffi no prefácio de seu livro, The Magic coveyor belt: Supply Chains, A.I. and the Futuro of work. Sheffi afirma que “O objetivo central das cadeias de abastecimento é satisfazer as necessidades e desejos das pessoas – fornecendo alimentos, medicamentos, energia, vestuário e outros bens necessários aos oito bilhões de habitantes no planeta.”

A década de 1990 marcou o início de uma era de ouro da globalização. O mundo parecia estar se unindo. O livro de Thomas Friedman, O mundo é plano, tornou-se um best-seller em 2005, explicando bem o que era a globalização, incluindo as principais forças que contribuíram para aplainar o mundo – desde o colapso do Muro de Berlim em novembro de 1989 até a ascensão da terceirização, offshoring e cadeias de suprimentos globais.

“A era de ouro da globalização, em 1990-2010, foi algo de se admirar”, escreveu o The Economist em um artigo de Janeiro de 2019. “O comércio global disparou à medida que o custo do transporte de mercadorias em navios e aviões caiu, as chamadas telefônicas ficaram mais baratas, as tarifas foram reduzidas e o sistema financeiro foi liberalizado.” Mas, desde a crise financeira global de 2008, a globalização e o comércio global começaram a diminuir o ritmo de crescimento. “A globalização desacelerou, para um ritmo muito lento na última década – por várias razões”, disse o The Economist.

Três grandes choques ainda remodelaram a globalização: (1) as crescentes guerras comerciais e tarifárias dos últimos cinco anos, especialmente entre EUA e a China; (2) o impacto da Covid-19 nas cadeias de abastecimento globais; e, mais recentemente, (3) a guerra da Ucrânia, que ameaça dissociar ainda mais a economia mundial num bloco comercial ocidental e chinês. Mohamed El-Erian, um dos pensadores econômicos mais influentes do mundo, disse em entrevista recente a um podcast, que a religação das cadeias de abastecimento globais é um dos principais impulsionadores de grandes mudanças estruturais na economia do mundo.

The Magic Conveyor Belt explica os fundamentos para a compreensão das cadeias de abastecimento, o importante papel que continuam a desempenhar na economia, a sua crescente complexidade e o impacto das tecnologias digitais e da automação na evolução das cadeias de abastecimento globais. O livro está organizado em quatro partes principais:

A Dança Global. A Parte 1 explica a estrutura das cadeias de abastecimento globais e os desafios de gestão das enormes redes que a compõem. Mesmo os bens de consumo mais simples são compostos por inúmeras peças ou materiais de diferentes fornecedores. Cada uma das peças é ainda composta por muitos produtos de fornecedores intermediários, até os fornecedores das matérias-primas. “Uma única peça faltante pode impedir a conclusão da fabricação de um produto”, escreveu Sheffi.

Cadeias de abastecimento complexas estão geralmente dispersas por todo o mundo. Num extremo estão as localidades que fornecem as matérias-primas necessárias, bem como a experiência e o capital necessários para construir os produtos finais. Por outro lado, estão os mercados amplamente dispersos para os produtos acabados e os consumidores que irão comprar os produtos.

“Conectando todos esses elementos da cadeia de suprimentos está um intrincado conjunto de serviços e redes de transporte que armazenam, movimentam e entregam as mercadorias de forma eficiente, confiável e rápida. O resultado é que as cadeias de abastecimento são, na verdade, ecossistemas complexos e sobrepostos de todas as empresas envolvidas na entrega de produtos.”

Sheffi ilustra as complexidades das cadeias de abastecimento modernas, com um exemplo da indústria automobilística. “A maioria dos carros tem cerca de 30.000 peças fabricadas em todo o mundo, muitas delas viajam várias vezes através e entre continentes. … Cada uma das 30.000 peças deve ser altamente projetada, composta de materiais específicos, cuidadosamente fabricada e depois entregue a milhares de fornecedores que montam muitas dessas peças e enviam os subconjuntos resultantes para uma fábrica de automóveis. Lá, todos esses subconjuntos são reunidos para criar um automóvel sofisticado e acessível.”

Outras complexidades e desafios. A Parte 2 do livro explica como a crescente procura de bens e as crescentes expectativas dos consumidores por rapidez e qualidade aumentaram a complexidade das cadeias de abastecimento ao longo das últimas décadas. Além disso, indo além da eficiência e do serviço ao cliente, espera-se que as empresas “minimizem as emissões, promovam a justiça social e aumentem a sua resiliência”, mesmo quando a procura é volátil, as regulamentações e as restrições geopolíticas estão aumentando e a concorrência de todo o mundo também. “Uma vez que se entende tudo o que está envolvido, o milagre é que tudo realmente funciona, e geralmente funciona muito bem.”

A resiliência é cada vez mais importante. Se uma empresa fabricante de automóveis enfrentar a escassez de uma única das suas 30.000 peças, não poderá construir o carro. “Consequentemente, os gestores da cadeia de abastecimento têm de garantir que a fábrica tenha sempre o suficiente de cada peça e subconjunto necessário para executar as suas operações e fabricar o produto.”

Para garantir um fluxo contínuo de peças e reduzir o risco de interrupções na cadeia de abastecimento, as empresas podem precisar contratar mais de um fornecedor para uma determinada peça. Isso envolve muitas compensações. Um único fornecedor de uma peça pode oferecer um preço mais baixo com base em volumes maiores e pode dar preferência à empresa em caso de escassez ou interrupção. Por outro lado, depender de um único fornecedor para uma peça envolve um sério risco caso o fornecedor falhe. Contar com vários fornecedores permite que a empresa continue a produção quando um fornecedor falha, mas também aumenta a complexidade de ter que gerenciar uma rede maior de fornecedores.

O elo vital da cadeia: o ser humano. A Parte 3 explica o papel crescente da tecnologia e da automação na produção e nos serviços das cadeias de abastecimento, que alguns vêem como uma ameaça existencial aos trabalhadores.

Vários estudos focaram-se no impacto da IA no futuro do trabalho. O MIT, por exemplo, lançou em 2018, um grupo de trabalho sobre o Futuro do Trabalho para compreender como o atual período de disrupção tecnológica difere dos períodos anteriores da história da industrialização. O relatório final da pesquisa, nomeado de O Futuro do Trabalho: Construindo Melhores Empregos numa Era de Máquinas Inteligentes, concluiu que:

“Nenhuma evidência histórica ou contemporânea convincente sugere que os avanços tecnológicos estejam nos conduzindo para um futuro sem emprego. Pelo contrário, prevemos que, nas próximas duas décadas, os países industrializados terão mais vagas de emprego do que trabalhadores para as preencher, e que a robótica e a automação desempenharão um papel cada vez mais crucial, para cobrir estas lacunas. No entanto, o impacto da robótica e da automação nos trabalhadores não será benigno. Estas tecnologias, em conjunto com incentivos econômicos, escolhas políticas e forças institucionais, irão alterar o conjunto de empregos disponíveis e as competências que estes exigem.”

Sheffi argumenta que “os pontos fortes dos humanos, tornam as pessoas complementos naturais das máquinas”. A colaboração entre pessoas e tecnologia pode superar qualquer uma delas por si só porque “robôs e humanos têm capacidades complementares. Os robôs podem assumir tarefas que exigem processos repetitivos – mesmo os complexos e com várias etapas – e executá-las com altos níveis de precisão e consistência. Os seres humanos podem aplicar julgamento sobre fatores contextuais complexos para avaliar os méritos do uso da máquina, direcionar a máquina para mudar quando necessário, corrigir as falhas da máquina ou substituí-la.”

Esperando ansiosamente. A Parte 4 explora as múltiplas tendências que impulsionam a evolução das cadeias de abastecimento globais e as competências de que as pessoas necessitam para terem sucesso num futuro em rápida mudança, repleto de tecnologias, ferramentas digitais e automação.

o futuro das cadeias de abastecimento será provavelmente determinado pela interação de três tendências principais:As cadeias de abastecimento e as economias enfrentam níveis crescentes de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade;
A população mundial está sofrendo com as mudanças geográficas e demográficas significativas que deverão acelerar no futuro próximo;
Uma gama crescente de tecnologias de informação fornecerá dados, decisões, controle e funcionalidades que serão úteis num mundo em tão rápida mudança.

Estas tendências terão dois impactos principais. Como tem acontecido há muito tempo, as novas tecnologias irão automatizar algumas das tarefas e empregos atuais, criando ao mesmo tempo novos tipos de ocupações. Mas, apesar do crescimento da automação, as organizações continuarão a precisar de pessoas altamente capazes “para conceber, gerir e executar todas as atividades em todas as cadeias de abastecimento que sustentam as economias mundiais”.

“Novas ferramentas digitais foram criadas para ajudar as pessoas a fazer uso produtivo da tecnologia e agregar mais valor aos seus empregos e à economia. No entanto, a atribuição de tarefas entre pessoas e máquinas mudará dinamicamente à medida que novas e melhores máquinas se tornarem disponíveis e à medida que as empresas as adoptem e os trabalhadores se adaptem a elas. Para serem empregáveis e terem sucesso tanto em empregos de colarinho azul como de colarinho branco, os trabalhadores necessitarão de novas competências.”

“A automação pode ajudar a lidar com tarefas rotineiras para que as pessoas possam se concentrar nas partes mais gratificantes de seu trabalho”, escreveu Sheffi para concluir. “A IA e as ferramentas digitais podem aumentar o poder das pessoas, permitindo-lhes realizar trabalhos que não conseguiram no passado. A educação e o conhecimento oportunos e acessíveis podem ajudar os trabalhadores, gestores e cidadãos a lidar com as mudanças tecnológicas, a volatilidade e as perturbações … Os gestores e os trabalhadores podem tirar o máximo partido da IA e da automação, colaborando com a tecnologia para criar empregos gratificantes e bem remunerados, produtos e serviços acessíveis e um futuro brilhante. Cabe à sociedade civil garantir que tal visão se concretize.”

28/09/2023

O acesso fixo sem fio (FWA), o futuro da banda larga

O concorrente mais significativo da Internet de banda larga que levamos para nossas casas ou empresas via DSL, cabo ou fibra ótica com dispositivos de conexão Wi-Fi é o 5G para serviço doméstico, também conhecido como Acesso Fixo Sem Fio (FIXED WIRELESS ACCESS – FWA). FWA em conjunto com 5G é uma tecnologia de banda larga de alta velocidade escalável e econômica, com uma conexão sem fio fornecendo a “última milha”. Não são necessários fios para chegar às instalações do cliente, apenas um dispositivo receptor sem fio. Aqui estão cinco coisas que você deve saber sobre o mercado de FWA.

1. Substituir, não complementar

Os defensores de regulamentações e os fornecedores de cabos sustentam que a banda larga sem fios é um complemento, e não um substituto, da banda larga fixa. No entanto, com o aumento da capacidade e os preços competitivos, os consumidores descobrem que o FWA satisfaz as suas necessidades de banda larga. Já existem cerca de 7 milhões de lares FWA nos EUA. No primeiro trimestre de 2022, a T-Mobile relatou 1 milhão de clientes FWA, um ano após o lançamento. A Verizon adicionou 194.000 assinaturas líquidas de FWA, 2,5 vezes o nível do quarto trimestre de 2021. A AT&T tem meio milhão de clientes FWA. Nos mercados locais de todo o país, dezenas de pequenos e médios fornecedores ocupam o espaço FWA. Espera-se que em breve o FWA represente 10% de todas as conexões de banda larga dos EUA. Por outro lado, o FTTH compreende cerca de 20% de todas as conexões nos EUA atualmente.

2. Espectro

O FWA é compatível com qualquer radiofrequência, mas a implementação depende do acesso das operadoras às frequências e aos serviços sem fio existentes. As frequências utilizadas incluem as bandas de 800 MHz, 1,8 GHz e 2,1 GHz para áreas rurais e suburbanas e 2,3 GHz e 2,6 GHz para áreas urbanas. Embora os EUA sejam considerados líderes mundiais na gestão comercial do espectro, a utilização do espectro manteve-se praticamente inalterada durante o último século. Embora os EUA tenham desfrutado de leilões de espectro que estabeleceram recordes, como a banda C, eles estão atrasados em termos de espectro de banda média suficiente em relação a outras nações modernas. Esta escassez tornou os provedores privados sem fio, especializados e eficientes no uso do espectro, enquanto os usuários federados, mantêm tecnologias mais obsoletas.

3. Serviços e Internet das Coisas (IoT)

Embora o caso de uso atual do FWA seja a banda larga doméstica e de escritório (pense em streaming de entretenimento de vídeo, navegação na web e mídia social), o FWA incorpora os maiores padrões técnicos e recursos de 5G para velocidade, segurança e confiabilidade. Isso significa que a FWA pode impulsionar as indústrias do futuro com conectividade contínua, segura e de baixa latência, como telemedicina, veículos autônomos, realidade aumentada/realidade virtual e soluções para os setores de manufatura e energia.

4. Cobertura

Novas tecnologias, como a múltiplas entradas e múltiplas saídas (MIMO) em torres de celular, podem oferecer mais capacidade em distâncias maiores. Em vez de sinais aleatórios, enviados em todas as direções, o sinal inteligente direciona o receptor exatamente onde ele está. Desta forma, o FWA aparece como solução para áreas suburbanas e rurais com velocidades tão elevadas como 1 Gbps (1000 gigabits) em até seis quilômetros.
5. A competição contra o cobre

A explosão das tecnologias sem fio levou a cortes nos preços da banda larga fixa. Os preços das tecnologias de telefonia fixa caíram até 42% nos últimos seis anos. Em países com forte utilização de DSL, como a Alemanha e o Reino Unido, o FWA é considerado o “assassino de cobre” porque é mais rentável entregar banda larga sem fios de alta velocidade, do que as redes DSLs existentes. A AT&T anunciou recentemente a redução de sua pegada de cobre pela metade até 2025, e a Verizon já atualizou 4,5 milhões de circuitos em sua rede de cobre. E a Noruega foi mais radical: está em processo de remoção de todas as redes DSL.

Conclusão

Os avanços na tecnologia 5G transformaram a viabilidade da tecnologia sem fio como solução de banda larga doméstica. As altas velocidades e baixa latência do FWA podem servir como um verdadeiro substituto para conexões de banda larga com fio. Custos mais baixos e a redução das restrições na última milha significam que mais residências e empresas poderão ficar online, aproximando-nos do fim da exclusão digital. À medida que as operadoras sem fio continuam a inovar e a implantar grandes blocos de espectro, o FWA alcançará milhões consumidores em todo o mundo.

31/08/2023

A IA não precisa acabar com o mundo para muda-lo


Preocupações com a inteligência artificial” foi o tema da edição de abril do The Economist, com diversos artigos sobre o assunto. “O rápido progresso na IA está despertando medo e também entusiasmo. Quão preocupados deveríamos estar com isso?”, diz o artigo. “Em particular, os ‘grandes modelos de linguagem’ (LLMs) – o tipo de modelo que alimenta o Chatgpt – surpreenderam até os seus criadores.”

“Os defensores da IA entendem que o seu potencial para resolver grandes problemas através do desenvolvimento de novos medicamentos e novos materiais para ajudar a combater as alterações climáticas ou de desvendar as complexidades da energia e fusão atômica, será muito importante. Já para outros, o fato de as capacidades das IA estarem ultrapassando a compreensão dos seus criadores, corre-se o risco de dar vida ao cenário de desastre da ficção científica da máquina que supera o seu inventor, muitas vezes com consequências fatais.”

A edição do The Economist incluiu um ensaio, “Como a IA poderia mudar a computação, a cultura e o curso da história”, do especialista em negócios Ludwig Siegele, em colaboração com Oliver Morton. O ensaio é muito interessante e aborda vários pontos de vista sobre o impacto a longo prazo da IA; mostrando que em um extremo estão aqueles que acreditam que uma singularidade tecnológica será alcançada no futuro por uma super inteligência em avanço exponencial que acabaria por representar um risco para os humanos; no outro extremo estão aqueles que acreditam que ferramentas cada vez mais sofisticadas baseadas em IA nos ajudarão a processar grandes quantidades de informação e a resolver melhor problemas cada vez mais complexos. Por exemplo, num artigo da Wired, Kevin Kelly escreveu que a IA se tornará uma espécie de “inteligência digital barata, confiável e de nível industrial, que funcionará por trás de tudo, de forma quase invisível… Tudo o que anteriormente, tínhamos dificuldades, pode se tornar mais fácil… Como os serviços públicos, por exemplo. A IA transformará a Internet, a economia global e a civilização.”

O ensaio de Siegele lembra o artigo de Kelly. “O notável boom nas capacidades dos grandes modelos de linguagem (Large Language Model – LLMs), modelos fundamentais e formas relacionadas de IA generativa impulsionam estas discussões sobre o risco existencial para a imaginação pública e para governos”, observa o ensaio. E embora concorde que estes novos modelos trazem perigos claros e presentes, é difícil imaginá-los ‘com o poder de controlar a civilização’, ou para ‘nos substituir”.

Mas, o ensaio acrescenta: “Uma tecnologia não precisa acabar com o mundo para poder mudá-lo.” Para nos dar uma ideia do que podemos esperar da IA, o ensaio cita três análogos históricos: o navegador, a imprensa e as teorias psicanalíticas de Sigmund Freud e eu vou comentar brevemente como cada uma dessas mudanças e isso pode ajudar a esclarecer o impacto da IA a longo prazo.
O navegador

O alcance universal e a conectividade da Internet e da World Wide Web inauguraram a economia digital do século XXI, permitindo o acesso a uma enorme variedade de informações e aplicações a qualquer pessoa com um computador, uma linha ligada à Internet e um navegador. As empresas e as instituições do setor público puderam assim envolver-se em suas actividades principais de uma forma muito mais produtiva.

“O humilde navegador web, do início da década de 1990, mudou a forma como os computadores são utilizados, a forma como a indústria da informática funciona e a forma como a informação é organizada”, afirma o ensaio. O navegador se tornou a porta de entrada para informações e aplicativos na Web, levando à chamada guerra dos navegadores, à medida que diferentes empresas competiam para desenvolver navegadores proprietários, cujos recursos incompatíveis, não funcionavam em todos os sites. Então, em 1995, todos os desenvolvedores de navegadores concordaram com os padrões estabelecidos pelo World Wide Web Consortium (W3C).

Os navegadores fornecem uma maneira de acessar e interagir com conteúdo produzido por humanos. Os LLMs, no entanto, geram seu próprio conteúdo e, embora sejam muito bons na geração de texto, fala, imagens e vídeos após algumas solicitações, não possuem mecanismos para verificar a veracidade do que geram. As sentenças geradas podem, portanto, ser linguisticamente plausíveis, mas podem na verdade ser incorretas ou sem sentido. “Eles criam coisas que se parecem com os seus treinamentos; eles não têm noção de um mundo além dos textos e imagens nos quais foram treinados.”

“Em muitas aplicações, há uma tendência a divulgar mentiras … e isso pode ser usados para configurar redes de influência maliciosa, com sites falsos, bots do Twitter, páginas do Facebook, feeds do TikTok e muito mais.”

O ensaio ainda faz referência a um artigo que descreve o comportamento dos LLMs. Os seus autores argumentaram que os LLMs estão apenas a remixar o enorme número de frases de autoria humana utilizadas na sua formação. A sua impressionante capacidade de gerar frases convincentes e articuladas, nos dá a ilusão de que estamos lidando com um ser humano bem educado e inteligente, e não com o que é essencialmente um ‘papagaio’ a repetir palavras e frases, sem uma compreensão do que está gerando.
A imprensa

A imprensa, inventada por Johannes Gutenberg por volta de 1440, acelerou a difusão do conhecimento e da alfabetização na Europa renascentista. A revolução gráfica de Gutenberg influenciou quase todas as facetas da vida nos séculos que se seguiram, começando com a Reforma Protestante que alavancou a imprensa para minar o monopólio da Igreja Católica na disseminação de informação.

A própria amplitude da imprensa torna a comparação com os LLMs quase inevitável. Os livros impressos expandiram significativamente o conhecimento a todos que tiveram acesso, ajudando-nos a gerar muito mais conhecimento e novos tipos de disciplinas. Da mesma forma, LLMs treinados em um determinado conhecimento podem derivar e gerar todos os tipos de conhecimento adicional.

“Como forma de apresentar o conhecimento, os LLMs prometem levar mais longe o lado prático e pessoal dos livros, em alguns casos abolindo-os completamente. Uma aplicação óbvia da tecnologia é transformar conjuntos de conhecimento em assunto para chatbots. Em vez de ler um texto todo procurando por partes importantes, você questionará uma IA treinada e obterá respostas com base no que o texto diz. Por que virar as páginas quando você pode interrogar uma IA pra obter uma analise da obra como um todo?”

Os chatbots já estão sendo desenvolvidos para ajudar os usuários a interagir com tipos específicos de conhecimento. O ensaio menciona que a Bloomberg introduziu recentemente o BloombergGPT, um “LLM com 50 bilhões de parâmetros, criado do zero para fins financeiros”. O BibleGPT, é um chatbot de IA treinado na Bíblia, e tem como objetivo dar conselhos sobre questões importantes da vida. O mesmo acontece com o QuranGPT para aqueles que buscam orientação e insights sobre os ensinamentos do Islã. “Enquanto isso, várias startups estão oferecendo serviços que transformam todos os documentos no disco rígido de um usuário, ou em sua nuvem, em um recurso para consulta.”
Freud e IA

A terceira grande mudança discutida no ensaio é particularmente intrigante. “Aceitar que LLMs de aparência humana são cálculos, estatísticas e nada mais poderia influenciar a forma como as pessoas pensam sobre si mesmas.”

“Freud retratou-se como continuador da tendência iniciada por Copérnico – que removeu os humanos do centro do universo – e Darwin – que nos removeu de um estatuto especial e dado por Deus entre os animais. A contribuição da psicologia, na visão de Freud, residia em ‘esforçar-se para provar ao ego de que, cada um de nós, nem sequer é dono da sua própria casa’”.

Até agora, não somos mestres nos LLMs e chatbots que criamos. Os pesquisadores de IA podem até explicar como funcionam os algoritmos matemáticos e as redes neurais, mas são incapazes de explicar, em termos que um ser humano geralmente entenderia, como esses algoritmos chegaram a uma recomendação específica. Em outras palavras, não sabemos realmente como funcionam.

“Isto levanta duas preocupações, mas mutuamente exclusivas: (1) que as IAs tenham algum tipo de funcionamento interno que os cientistas ainda não conseguem perceber; ou (2) que é possível passar-se por humano no mundo social, sem qualquer tipo de compreensão interior.”

Freud percebeu que a mente consciente não era o único impulsionador dos comportamentos humanos. Havia outro condutor, a mente inconsciente, que existe abaixo da consciência e que pode exercer uma forte influência sobre as nossas emoções e ações. Não é preciso subscrever as explicações freudianas do comportamento humano para concordar que as pessoas fazem coisas das quais não têm consciência.

Embora a mente inconsciente possa não ser um modelo satisfatório para ajudar a explicar como funcionam os LLMs, a sensação de que há algo abaixo da IA que precisa de compreensão é bastante poderosa. Mas, se os LLMs e chatbots, sem vida, continuarem a exibir comportamentos cada vez mais semelhantes aos humanos, e ainda não compreendermos os motivadores de tal comportamento, “então será hora de fazer pela IA algo do que Freud pensava que estava fazendo pelos humanos”, escreveu Siegele em conclusão.

“E os desejos humanos também podem precisar de inspeção”, acrescentou. “Por que tantas pessoas estão ansiosas pelo tipo de intimidade que um LLM pode proporcionar? Porque é que muitos humanos influentes parecem pensar que, porque a evolução mostra que as espécies podem ser extintas, é muito provável que as suas o façam pelas suas próprias mãos, ou pelas do seu sucessor? E onde está a determinação de transformar uma racionalidade sobre-humana em algo que não apenas agite a economia, mas mude a história para melhor?”

25/08/2023

Carteiras digitais interoperáveis e open source

A Linux Foundation (LF) anunciou sua intenção de lançar a Open Wallet Foundation (OWF), — um novo esforço colaborativo para desenvolver um software open source para que qualquer pessoa possa usar para construir carteiras digitais interoperáveis. Depois de trabalhar com diversas empresas, organizações sem fins lucrativos, instituições acadêmicas e entidades governamentais para organizar o esforço, a Linux Foundation Europe anunciou a formação oficial da OWF em fevereiro de 2023.

“A OWF não publicará uma carteira, nem oferecerá credenciais ou criará novos padrões”, afirmou o anúncio. “Em vez disso, seu mecanismo de software open source pretende se tornar o núcleo para que outras organizações e empresas aproveitem o código, para desenvolver suas próprias carteiras digitais. As carteiras oferecerão paridade de recursos com as melhores carteiras disponíveis e interoperabilidade com grandes projetos globais, como a Carteira de Identidade Digital da UE.”

Ao mesmo tempo, a OWF, em parceria com a LF Research, divulgou um novo relatório, “Por que o mundo precisa de uma carteira digital Open Source”.

“À medida que o nosso mundo se torna cada vez mais digitalizado, o mesmo se aplica aos ativos do dia a dia”, disse Daniel Goldscheider, fundador da Open Wallet Foundation, no prefácio do relatório. “De dinheiro a credenciais de identidade, diplomas acadêmicos ou carteira de motorista, e demais informações que usem tokens digitais e que exigem infraestrutura segura e interoperável.”

“As carteiras digitais permearão todos os aspectos da sociedade, no governo e nas empresas”, acrescentou. “Instituições de todos os tipos enfrentarão a necessidade de emitir, proteger, negociar e armazenar ativos digitais, incluindo Moeda Digital do Banco Central (CBDC), títulos, credenciais de saúde e acadêmicas e outros tipos de criptoativos, com o objetivo de criar mercados digitais e instituições cada vez mais confiáveis. A carteira digital pode tornar-se a ferramenta mais importante para afirmar o controle e gerar confiança nas nossas vidas digitais.”

As carteiras digitais aparecem geralmente como um aplicativo em nossos smartphones, onde armazenamos itens digitais, que transportamos nas nossas carteiras físicas. A ideia de uma carteira digital é bem simples: “uma coisa onde colocamos nossas coisas”. Mas embora pareça simples, as carteiras digitais são, na verdade, complexas, pouco compreendidas e levantam uma série de questões importantes: o que é; o que colocamos nela; o que fazemos com ela; e como funciona?

Segundo o relatório, uma carteira digital é um contêiner onde podemos armazenar e acessar diversos tipos de ativos digitais. No mínimo, uma carteira digital deve suportar três tipos principais de funções:Efetuar pagamentos: cartões de débito, crédito e vale-presente; Apple Pay, Google Pay, Alipay; Moedas Digitais do Banco Central; criptomoedas; …
Credenciais de identidade: carteira de motorista, passaporte, certidão de nascimento, crachá de trabalho, cartões de saúde, cartões de fidelidade, …
Acesso a itens importantes: senhas, ingressos, recibos, registros de saúde, chaves, garantias, credenciais acadêmicas, ativos criptográficos, NFTs,…

A carteira deve incluir um conjunto de componentes de software, chamados agentes, para gerir com segurança os seus ativos digitais em nosso nome. Os serviços do agente incluem processar os itens da carteira, colocá-los e retirá-los, trocar mensagens, criptografar/descriptografar informações e fornecer interfaces de fácil uso. “Embora a carteira seja o contêiner, o agente é a que move.”

existem centenas de carteiras digitais. Embora cada uma delas tenha sido pensada para atender às necessidades, elas geralmente sofrem de uma série de problemas.

(1) Problemas de interoperabilidade. Quase todas as carteiras digitais funcionam apenas com uma instituição específica, para um sistema de pagamento, um comércio específico, um banco, uma casa de câmbio ou uma empresa. A falta de padronização torna as informações nelas contidas, como reféns, porque não somos capazes de intercambia-las. “Este é um exemplo clássico de aprisionamento de informações. Quando não podemos mover nossos dados, não podemos escolher entre produtos concorrentes e quando ficamos sem qualquer interoperabilidade, precisamos de uma carteira separada para cada função.”

(2) Segurança questionável. Os hackers usam vários métodos para atacar carteiras digitais. O relatório cita duas estatísticas preocupantes: a fraude no comércio eletrónico, — grande parte dela cometida contra carteiras digitais, — ultrapassou os 40 mil milhões de dólares em 2022 e deverá continuar a aumentar nos próximos anos; e o crime de criptomoeda envolvendo carteiras digitais foi de US$ 14 bilhões em 2021. Os desenvolvedores de carteiras precisam trabalhar muito para ficar à frente dos cibercriminosos.

(3) Modelos de negócios intrusivos. As carteiras coletam dados valiosos sobre o comportamento do consumidor, comprometendo potencialmente a privacidade. Precisamos de garantias de que a carteira digital não está enviando os dados pessoais para uma entidade com a qual não concordamos em partilhá-los. Além disso, as carteiras podem extrair taxas ocultas de transações sem o nosso conhecimento.

(4) Design de caixa preta. “Centenas de carteiras foram codificadas por alguém, em algum lugar, mas não sabemos exatamente quem ou onde; … se você não consegue ver como um produto funciona, você não pode dizer se ele é bom ou se pode confiar nele.”

(5) Capacidades limitadas. E, como quase todas as carteiras desempenham apenas uma função, não podemos fazer muito com a maioria das carteiras digitais. Precisamos de uma carteira para cada um dos nossos pagamentos, para cada uma das nossas credenciais de identidade e para cada um dos nossos itens digitais. E isso significa que temos que aprender a lidar com diversas carteiras diferentes que não se comunicam entre si e possuem interfaces de usuário diferentes.

“As carteiras digitais estão se tornando a interface para toda a nossa vida digital”, observa o relatório. “Mas as carteiras em estágio inicial de hoje são incompatíveis e não padronizadas.” O relatório lembra que isso também aconteceu na época dos navegadores, na fase inicial da Internet, durante a chamada guerra dos navegadores da década de 1990, quando navegadores de diferentes fornecedores eram incompatíveis e não padronizados e ameaçavam quebrar a World Wide Web, que estava em rápido crescimento. A ameaça trouxe todos à mesa de negociações e sob a gestão do World Wide Web Consortium (W3C), todos adotaram um conjunto básico de normas que garantiram a interoperabilidade.

“Ontem, fizemos a escolha certa. Muitas organizações trabalharam juntas para desencadear uma onda de inovação na web. Hoje, devemos fazer isso novamente. Muitas organizações devem trabalhar juntas para desencadear uma nova onda de inovação em carteiras digitais.”

Embora seja muito cedo para definir os componentes específicos que devem fazer parte de uma carteira digital – por exemplo, agentes, plug-ins, módulos funcionais – há um consenso sobre os princípios de design que devem orientar o desenvolvimento de um mecanismo de software OWF, e eles incluem:Portabilidade: “Os usuários podem mover livremente ativos, credenciais, documentos e quaisquer outros dados entre quaisquer carteiras baseadas no mecanismo OWF”;
Segurança: “Ativos, credenciais e todos os outros dados do usuário devem estar protegidos contra malwares e hackers e atualizados rapidamente à medida que os criminosos apresentam novas táticas”;
Privacidade: “As identidades digitais dos usuários deveriam ser divulgadas apenas seletivamente conforme necessário”;
Baseada em padrões: “OWF suporta todos os padrões relevantes para todas as camadas do padrão de carteiras”;
Interoperabilidade: “Qualquer carteira baseada no mecanismo OWF pode trocar dados de forma rápida e segura”; e
Multifuncional: “Os desenvolvedores criam plug-ins e interfaces proprietários no topo do mecanismo OWF.”

“O código aberto – impulsionado pela colaboração entre empresas, organizações sem fins lucrativos e líderes de governos – é um excelente modelo para a infraestrutura que é vital para sociedades digitais e beneficia a todos”, disse o fundador da OWF, Daniel Goldscheider. “Com o código aberto no núcleo das carteiras, assim como no núcleo dos navegadores da web, qualquer pessoa pode construir uma carteira digital que funcione com outras pessoas e dê aos consumidores a liberdade de manter sua identidade e credenciais verificáveis e compartilhar dados relevantes quando, onde, e com quem eles escolherem.”

23/08/2023

A crescente diferença entre faculdade e ensino médio

“Em uma das nações mais ricas do mundo, o caminho para a prosperidade se estreitou significativamente nas últimas décadas – especialmente para aqueles sem um curso universitário”, escreveu o NY Times em seu editorial, “Trate os trabalhadores como trabalhadores, não como universitários”. “Mais de 62% dos americanos com 25 anos ou mais não possuem diploma universitário, e a diferença de ganhos entre aqueles com educação universitária e aqueles sem educação universitária nunca foi tão grande; e com o aumento do custo dos cursos universitários, isso tem colocado muitos fora das universidades. Isso alimenta a ansiedade e um sentimento de alienação entre os milhões que se veem excluídos de uma economia que não os valoriza”.

O editorial cita dados do Federal Reserve Bank de NY mostrando que a diferença salarial entre os recém-formados em faculdades e do ensino médio atingiu um recorde em 2021. Em 1990, a média de ganhos anuais dos recém-formados com idades entre 22 e 27 anos com um emprego em período integral foi de $ 48.900 para aqueles com diploma universitário e $ 35.300 para aqueles com diploma de ensino médio, uma diferença de $ 13.600. Mas em 2021, a média de ganhos anuais para recém-formados foi de $ 52.000 e $ 30.000 para aqueles com diploma do ensino médio, uma diferença de $ 22.000. Não apenas a diferença de rendimentos foi 60% maior em 2021 do que em 1990, mas os rendimentos médios para aqueles com diploma do ensino médio diminuíram 15% nas três décadas seguintes.

Este é um exemplo claro da chamada grande divergência das últimas quatro décadas. Nos 30 anos entre 1948 e 1978, a produtividade dos EUA, medida pela produção por hora, aumentou 108%, uma taxa de crescimento anual de 2,4%, enquanto a remuneração média dos trabalhadores de produção, aumentou 95%. Mas, entre 1978 e 2016, a produtividade aumentou 66%, uma taxa de crescimento anual de 1,3%, enquanto a remuneração média dos trabalhadores aumentou apenas 9%. Em outras palavras, enquanto os EUA testemunharam grandes inovações tecnológicas e ganhos de produtividade nas últimas quatro décadas, os salários dos trabalhadores pouco evoluíram, com a maior parte dos benefícios salariais de maior produtividade indo para os que ganham mais. Outras economias avançadas experimentaram forças econômicas, tecnológicas e globais semelhantes, mas seus trabalhadores se saíram um pouco melhor.

O economista do MIT David Autor escreveu sobre a evolução das oportunidades de emprego nos Estados Unidos nas últimas décadas e o que levou a essa crescente diferença salarial, no artigo “A polarização das oportunidades de emprego no mercado de trabalho dos EUA”, ele examinou a dinâmica em mudança do mercado de trabalho, observando três grandes grupos de ocupação:Empregos de alta qualificação e altos salários, – profissionais, técnicos, gerentes: as oportunidades se expandiram significativamente, com os ganhos dos trabalhadores com formação universitária necessários para preenchê-los aumentando constantemente;
Empregos de qualificação média, salários médios, – produção, escritório, administração, vendas: esses empregos diminuíram drasticamente, enquanto o crescimento de seus salários também diminuiu nas últimas quatro décadas; e
Empregos de baixa qualificação e baixos salários, – limpeza, segurança, jardineiros, auxiliares de saúde, restaurantes de fast-food: esses empregos tiveram aumento no emprego, enquanto o crescimento de seus salários foi estável a negativo.

Autor identificou dois desafios principais enfrentados pelos trabalhadores: (1) Nas últimas décadas, o mercado de trabalho dos Estados Unidos experimentou um aumento na demanda por trabalhadores altamente qualificados e com nível superior. (2) Ao mesmo tempo, as oportunidades de emprego diminuíram, para as ocupações de produção, artesanato e manufatura de nível médio, bem como para cargos de nível médio para administrativos e de vendas. “O declínio nos empregos de qualificação média tem prejudicado os ganhos e as taxas de participação na força de trabalho dos trabalhadores sem educação superior … O resultado foi um aumento acentuado na desigualdade de salários.”

Em um artigo mais recente, Autor observou que, entre 1970 e 2019, o emprego altamente qualificação aumentou de 30,2% do total de horas trabalhadas para 46,2%; o emprego de qualificação média caiu de 38,4% para 23,3%; e ocupações de baixa qualificação ficaram relativamente estáveis, de 31,4% para 30,6%. Entre os trabalhadores de qualificação intermediária que perderam seus empregos, aqueles com diploma universitário ou alguma faculdade geralmente conseguiram mudar para empregos qualificados, e aqueles sem formação superior, acabaram em empregos de baixa qualificação e baixa remuneração.

Essas mudanças na dinâmica do trabalho geralmente são impulsionadas por dois fatores relacionados: (1) Trabalhos intermediários, que geralmente seguem um conjunto de regras bem definidas e têm sido os principais candidatos à automação baseada em tecnologia. E, (2) Essas tarefas de habilidades intermediárias também têm sido as principais candidatas ao deslocamento de pessoas para países de custo mais baixo.

De acordo com o editorial do NY Times, um terceiro fator surgiu na última década, que tem prejudicado ainda mais as perspectivas de emprego de trabalhadores sem diploma universitário. A Grande Recessão dos EUA no final dos anos 2000, levou vários anos para a economia se recuperar aos níveis de emprego pré-crise. “O desemprego era alto e muitos empregadores responderam com exigências de pessoas diplomadas para qualquer vaga – requisitos de educação universitária, então passaram a ser exigidos em empregos que antes não tinham tal exigência – embora o trabalho envolvido permanecesse o mesmo”, observou o editorial.

O editorial referenciou o “The Emerging Degree Reset”, um relatório de 2022 do The Burning Class Institute em colaboração com a empresa de análise do mercado de trabalho Emsi Burning Glass e a Harvard Business School (HBS) Managing the Future of Work.

“Os empregos não exigem diplomas universitários”, disse o relatório. “Os empregadores sim. A última década foi caracterizada por um fenômeno de inundação de diplomas. Os empregadores que não exigiam um diploma universitário, historicamente, passaram a exigir diplomas universitários como requisitos mínimos, mesmo para empregos que não exigiam essas características. O aumento generalizado da demanda por diplomas se concentrou nos 15,7 milhões de empregos que representam 25% dos empregos, como médicos, engenheiros civis e gerentes de marketing, que têm requisitos de diplomas universitários e os 39% dos empregos como cozinheiros, trabalhadores de varejo e motoristas de caminhão que operam fora do escopo do ensino superior.”

A inflação na solicitação de diplomas tem sido bastante prejudicial para empregadores e trabalhadores. “No momento em que os empregadores lutam para encontrar talentos, solicitar um diploma universitário, imediatamente elimina 64% de adultos em idade ativa que não possuem um diploma universitário. Ao mesmo tempo, os empregos tradicionais de qualificação média, definidos como cargos que exigem alguma educação ou treinamento além do ensino médio, mas sem um diploma universitário, há muito servem como um importante salto para a classe média. À medida que mais e mais empregos fecham as portas para trabalhadores sem um diploma universitário, isso impactou a vida de cerca de 80 milhões de americanos em idade ativa em um momento em que a desigualdade de renda já estava aumentando“.
Por que as empresas estão focadas em diplomas em vez de habilidades?

Um estudo recente conduzido por pesquisadores da HBS, “Dismissed by Degrees”, realizou uma pesquisa com 600 líderes empresariais e de RH, e mostrou que “a inflação de requisição de diplomas é impulsionada por dois fatores principais: (1) a natureza em rápida mudança de muitos empregos de habilidades intermediárias e (2) a percepções errôneas dos empregadores de não investir em talentos, no nível não graduado”.

“Com o tempo, os empregadores adotaram o padrão de usar diplomas universitários como substitutos para a variedade e profundidade de habilidades de um candidato. Isso fez com que a inflação de diplomas se espalhasse para mais e mais empregos de qualificação média. Isso teve repercussões negativas em trabalhadores aspirantes, bem como em trabalhadores experientes que buscam uma nova posição, mas que não possuem um diploma. Mais importante, nossa pesquisa indica que a maioria dos empregadores incorre em custos substanciais, muitas vezes ocultos, ao aumentar os requisitos de diploma, enquanto desfrutam de poucos dos benefícios que buscavam.”

O editorial do NYT observou que a inflação de diplomas começou a diminuir nos últimos anos. O setor privado vem gradualmente eliminando os requisitos de graduação, para atrair trabalhadores. “Os principais players que adotam a contratação baseada em habilidades incluem a General Motors, Bank of America, Google, Apple e Accenture. A IBM é reconhecida como um líder nesse quesito; cerca de metade de suas vagas de emprego nos EUA não exigem mais um diploma universitário.” Órgãos governamentais também têm se movido nessa direção. “Com uma ordem executiva emitida em janeiro, Josh Shapiro, da Pensilvânia eliminou a exigência de um diploma universitário para a maioria dos empregos no governo. Mudanças semelhantes estão sendo adotadas em Maryland e Utah”.

“Se essa redefinição continuar, 1,4 milhão de empregos adicionais serão abertos para trabalhadores sem diploma universitário nos próximos cinco anos. Isso também pode ajudar a tornar a força de trabalho americana mais diversificada e inclusiva de várias maneiras. Os candidatos negros e hispânicos têm menos probabilidade de ter diploma de bacharel do que brancos não hispânicos e asiáticos americanos. Os americanos rurais também se beneficiariam; apenas 25% deles possuem um diploma de bacharel ou superior.”

“Expandir os termos para quem pode ser contratado é uma mudança que iria reverberar muito além de empregos individuais e candidatos a emprego”, concluiu o editorial do NYT. “Isso traria um maior grau de abertura ao mercado de trabalho e enviaria uma mensagem sobre a capacidade do governo de se adaptar e responder às preocupações de seus cidadãos. Em um país onde a maioria das pessoas não possui diploma universitário, as políticas que fecham vagas de empregos para tantas pessoas contribuem para a percepção de que o sistema é manipulado contra elas”.

30/07/2023

O valor do Open Source

A oferta de software de código aberto ou Open Source Software (OSS), — e as razões para ingressar e contribuir com as comunidades Open Source — tem sido extensivamente estudado. A Linux Foundation (LF), por exemplo, tem mais de 1.500 empresas membros e quase 1.000 projetos Open Source, com mais de 15.000 outras organizações contribuintes. A LF estima que mais de 50 milhões de linhas de código são adicionadas semanalmente aos seus projetos, que compreendem uma porcentagem significativa das infraestruturas de missão crítica do mundo, e ainda há um número significativamente maior se incluirmos as contribuições de outras comunidades Open Source como a Apache Software Foundation.

No entanto, sabemos muito pouco sobre a demanda do OSS. Apesar da ampla adoção por empresas e indústrias em todo o mundo, realmente não entendemos, nem somos capazes de quantificar seu valor econômico para as organizações que dependem do Open Source. Quais benefícios essas organizações obtêm? Quais custos estão envolvidos ao se usar ou contribuir com o OSS? E, se não for possível usar o OSS em um projeto, quais seriam as melhores alternativas e quanto custariam?

Para obter respostas para essas e outras questões sobre OSS, a LF patrocinou um estudo conduzido pelo professor da UC Berkeley, Henry Chesbrough, — autor do livro Open Innovation Results, publicado em 2020. As principais descobertas e conclusões do estudo são discutidos no White Paper, “Measuring the Economic Value of Open Source”.

“Parte da pesquisa sobre OSS aproveita o fato de que os repositórios de OSS estão disponíveis ao público, incluindo estudos acadêmicos”, escreveu Chesbrough no White Paper. “No entanto, para medir o valor econômico do OSS, é necessário observar o crescente número de projetos e também como o indivíduo ou organização que empregou o OSS usou o software. Essas ações não são observáveis ao público. Em vez disso, deve-se construir maneiras de sondar esses atores para descobrir as maneiras pelas quais eles usam o OSS.”

O White Paper cita um relatório de 2021 da Comissão Europeia sobre o impacto do Open Source na economia da UE, baseado em uma análise de custo-benefício do impacto econômico dos investimentos em Open Source e em uma pesquisa com mais de 900 partes interessadas. A maioria dos entrevistados (75%) veio de pequenas e médias empresas, enquanto as grandes empresas, que são os principais usuários e contribuintes do OSS, foram sub-representadas nos resultados da pesquisa. “No geral, os benefícios do Open Source superam em muito os custos associados a ele”, disse o relatório da UE. As contribuições do OSS para o PIB da UE “produzem uma relação custo-benefício ligeiramente superior a 1:10. Depois de levar em consideração o hardware e outros custos de capital dos 260.000 contribuintes da UE para OSS, a relação custo-benefício ainda está ligeiramente acima de 1:4.”

Para entender os motivos e o valor econômico estimado que levaram as empresas a adotar o OSS, Chesbrough e seus colaboradores elaboraram e conduziram uma pesquisa. Todas as perguntas e respostas da pesquisa podem ser encontradas no Apêndice do White Paper. “Nossa amostra se inclina para empresas da Fortune 500”, observou Chesbrough. 43% dos entrevistados tiveram receitas superiores a US$ 1 bilhão em 2021, dos quais 29% tiveram receitas superiores a US$ 10 bilhões; e 57% vieram de organizações com receita inferior a US$ 1 bilhão. Várias das organizações trabalham com OSS há mais de 20 anos, mas cerca de metade só começou em 2015.

A maioria dos entrevistados, 29%, eram CEOs, 18% eram membros de P&D, 18% trabalhavam em negócios e marketing, 9% eram CIOs/CDOs, 6% estavam no grupo de TI e software e o restante veio de uma série de grupos menores. Vou resumir as principais descobertas do estudo.

O primeiro conjunto de perguntas teve como objetivo avaliar o valor econômico geral do OSS, perguntando sobre os custos e benefícios gerais do OSS para a organização.

Com base em sua experiência, avalie o grau de benefícios derivados do uso ou da contribuição de OSS para sua organização.

O benefício com a classificação mais alta foi a economia de custos, que 67% dos entrevistados classificaram como alta ou muito alta e apenas 10% classificaram como baixa ou nenhuma. Foi seguido por velocidades de desenvolvimento mais rápidas, classificadas como altas ou muito altas em 66% e baixas ou nenhuma em 9%; e padrões abertos e interoperabilidade, classificados como alto ou muito alto em 63% e baixo ou nenhum em 13%. Outros benefícios bem avaliados foram comunidade ativa para troca de conhecimento — 59%; independência de fornecedores proprietários, — 54%; e atraente ambiente de trabalho de TI, – 49%.

Com base em sua experiência, avalie os principais custos associados ao uso ou à contribuição de OSS para sua organização. A principal fonte de custos altos ou muito altos associados ao OSS foram as falhas de segurança, mencionadas por 25% dos entrevistados. Seguiram-se os custos de suporte ocultos, com um aumento de 23%; custos relacionados com incertezas jurídicas com licenciamento — 17%; e custos de mudança de proprietário para OSS — 17%.

Qual é a sua avaliação da relação custo-benefício geral de usar ou contribuir com OSS?

Cerca de 2/3 dos entrevistados afirmaram que os benefícios excediam os custos, dos quais 23% afirmaram que os benefícios excediam largamente os custos; 21% responderam que os custos superam os benefícios, dos quais apenas 3% disseram que os custos superam em muito os benefícios; e 11% disseram que os custos e benefícios eram quase iguais.

Qual é a tendência geral da relação custo-benefício de usar ou contribuir com o OSS em sua organização nos últimos 5 anos?

Quase 50% dos entrevistados disseram que os benefícios estão crescendo mais rápido que os custos, dos quais 7% disseram que estão crescendo muito mais rápido; 17% disseram que os custos estavam subindo mais rápido que os benefícios, dos quais apenas cerca de 1,5% disseram que os custos estavam subindo muito mais rápido; e 35% disseram que os benefícios e custos permaneceram estáveis nos últimos 5 anos.

O próximo conjunto de perguntas pediu aos entrevistados que considerassem um grande projeto concluído recentemente que incluía OSS. “Esta pergunta exigiu muito conhecimento de nossos entrevistados e, como resultado, recebemos muito menos respostas a esta e às perguntas subsequentes”, observou Chesbrough.

Aproximadamente quantas linhas de código de software foram incluídas nesta nova oferta?

O tamanho do projeto, refletido pelo número de linhas de código variou muito. 18% disseram que o projeto incluía mais de 160.000 linhas de código (LOC); 8% disseram 80.000 a 160.000 LOC; 13% disseram 20.000 a 80.000 LOC; 30% —5.000 a 20.000 LOC; 16% — 1.000 a 5.000 LOC; e 15% disseram menos de 1.000 linhas de código.

Qual porcentagem dessas linhas de código foram criadas a partir do OSS?

22% responderam que o OSS representava mais de 80% do código; 10% responderam que era de 60% a 80% do código; 18% — 40% a 60%; 26% — 20% a 40%; e 24% responderam que o OSS representava menos de 20% do código.

Para essas linhas de código OSS: quanto custaria para você escrever as linhas de código necessárias para obter essa funcionalidade com seu próprio software, em vez de software OSS, incluindo suporte contínuo e manutenção do código?

67% estimaram que o software teria custado significativamente mais sem OSS, dos quais 46% acreditavam que teria custado o dobro; 21% acreditam que o software teria custado menos sem o OSS.

Se você não conseguiu usar o OSS neste projeto: Qual foi sua próxima melhor alternativa para atingir um nível semelhante de funcionalidade em sua versão?

50% dos entrevistados teriam usado uma solução proprietária comercial em vez de OSS; e 36% disseram que teriam feito o projeto internamente. Além disso, 75% estimaram que teria sido mais caro comprar o software de um fornecedor comercial, dos quais 31% acharam que teria sido quatro vezes mais caro do que o OSS; e 13% acreditavam que o produto comercial teria sido mais barato.

“Considerando as várias perguntas e suas respostas, fica claro que os entrevistados percebem que o OSS tem um valor econômico considerável”, escreveu Chesbrough em conclusão. “Os benefícios percebidos excedem os custos pela grande maioria dos entrevistados — 60% a 75%, dependendo da questão específica analisada. E a proporção de benefícios em relação aos custos parece estar aumentando para quase metade dos entrevistados, enquanto apenas 16% acham que a proporção está diminuindo. Isso sugere fortemente que o valor do OSS aumentará ainda mais no futuro para a maioria das organizações participantes.”

Chesbrough explicou ainda que a pesquisa subestima o valor do OSS para as organizações participantes porque os resultados não levam em consideração os benefícios sociais mais amplos do OSS. “A sociedade se beneficia da capacidade de outras empresas acessarem os mesmos repositórios OSS, algo que uma empresa individual pode não valorizar e que nossa pesquisa não mediu. E a disponibilidade desses repositórios abertos pode até permitir a entrada de novas empresas que, de outra forma, não teriam outro benefício social não capturado nesta pesquisa. Portanto, do ponto de vista social, o valor da adoção do OSS é ainda maior do que os resultados relatados aqui.”

“Um pensamento final para as organizações que ainda não adotaram o OSS é lembrar um dos insights dos primeiros dias do OSS: vale a pena ser mais aberto”, acrescentou. “Software é uma tecnologia cuja importância está aumentando constantemente ao longo do tempo. … Adotar o OSS pode permitir que você abrace um futuro mais vibrante, surpreendente e empolgante.”

28/07/2023

Empresas e o Metaverso

Um aplicativo matador é um app cujo o valor para indivíduos e empresas é relativamente simples de explicar, seu uso é bastante intuitivo e o aplicativo acaba sendo tão útil que pode, sozinho, impulsionar o sucesso de novos produtos ou serviços. Processamento de texto e planilhas, por exemplo, foram fatores importantes na adoção generalizada de computadores pessoais na década de 1980.

Fiquei interessado com os ambientes imersivos 3D nos anos 2000, quando algumas empresas lançaram iniciativas sobre o assunto. Como parte desses esforços, experimentos como o Second Life, deram origem à vários aplicativos de reuniões virtuais, eventos online, e até a construção de uma réplica virtual da Cidade Proibida de Pequim em parceria com o Museu do Palácio que foi aberto ao público. Mas, muitos desses projetos não conseguiram se tornar um aplicativo matador e, após algum tempo, foram dissolvidos. Nos anos seguintes, as tecnologias e aplicativos imersivos 3D continuaram avançando, principalmente focados em videogames e indústrias relacionadas.

Nos últimos anos, houve uma onda de interesse no metaverso e na realidade estendida. “Depois da computação de desktop, da internet para o consumidor e do boom dos smartphones, a indústria de computação para o consumidor já deixou de ser a grande novidade”, escreveu The Economist em “Uma verificação da realidade para o metaverso está chegando”, um artigo de seu anuário de 2022. “A Internet que ainda é puramente plana – baseada em texto, imagens e vídeo bidimensionais – está pronta para ser substituída por uma tridimensional e imersiva.”

O último grande avanço nas interfaces de usuário ocorreu na década de 1980, quando as interfaces baseadas em texto deram lugar às interfaces gráficas de usuário (GUIs). As GUIs foram desenvolvidas no Xerox PARC no final dos anos 1970 e popularizadas pelo Apple Macintosh nos anos 1980. Na década de 1990, as GUIs foram adotadas por quase todos os PCs e dispositivos de usuário, e os navegadores da Web baseados em GUI desempenharam um papel importante no crescimento explosivo da Internet e da World Wide Web.

Em outubro de 2021, Mark Zuckerberg anunciou seu compromisso com uma estratégia de metaverso ao renomear o Facebook como Meta Platforms. Mais ou menos uma semana depois, Satya Nadella compartilhou os planos de metaverso da Microsoft, começando por permitir que os usuários do Mesh for Microsoft Teams interagissem e colaborassem em espaços de trabalho imersivos em 3D. “Empresas rivais com ambições semelhantes”… “Mas a indústria que está mais adiantada é a de videogames, que vende mundos virtuais há décadas.” disse o The Economist.

Dado o ritmo contínuo dos avanços tecnológicos, bem como nosso uso crescente de aplicativos online desde o advento da pandemia, talvez tenha finalmente chegado a hora de desenvolver aplicativos imersivos 3D corporativos além da indústria do entretenimento.

Em junho de 2022, organizações e empresas anunciaram a formação do The Metaverse Standards Forum, destinado à cooperação do setor sobre os padrões de interoperabilidade necessários para construir um metaverso aberto. E em janeiro de 2023, a Linux Foundation lançou a Open Metaverse Foundation “para fornecer um espaço de colaboração para diversas indústrias trabalharem no desenvolvimento de software de código aberto e padrões para um Metaverso inclusivo, global, neutro e escalável, em termos de fornecedores”. Essas são etapas importantes para o desenvolvimento de aplicativos corporativos no metaverso.

“O metaverso corporativo é agora uma oportunidade — um momento para construir a base para um futuro que abrange a divisão digital-física criando resultados de negócios tangíveis, mensuráveis e sustentáveis”, disse “Além do hype: cinco maneiras de gerar valor no metaverso corporativo”, um relatório recente do Institute for Business Value (IBV). “À medida que o metaverso do consumidor avança no ciclo de hype, varejistas e marcas devem aproveitar as oportunidades para alavancar os principais temas do metaverso – imersão, descentralização, economia virtual e comunidade – para gerar valor para a sua empresa”.

O relatório define o metaverso “como uma abreviação para a rede de experiências 3D compartilhadas que obscurecem a divisão entre o mundo digital e o mundo físico. … o metaverso não existe apenas em um fone de ouvido. Está essencialmente em todo lugar – em um telefone, laptop, tablet e em espaços físicos ao nosso redor, geralmente por meio de uma sobreposição digital no mundo físico.”

Chris Hay, um dos autores do relatório do IBV, disse neste podcast que uma das razões pelas quais ele está entusiasmado com o metaverso é que ele nos liberta da web, do celular e de outros canais tradicionais com os quais convivemos há muito tempo. A Realidade virtual (VR), A Realidade Aumentada (AR) e, especialmente, Realidade Mista (MR) trarão novas possibilidades de inovação em aplicativos corporativos.

O relatório discutiu cinco áreas principais de oportunidade para alavancar o metaverso nas empresas para alcançar um valor tangível além do que poderia ser alcançado com as interfaces 2D existentes. Vou resumi-las.

Desenvolvimento de novos produtos: “simplifique, aprimore e acelere o processo de desenvolvimento de produtos digitais por meio de colaboração aprimorada em P&D, inovação, design de produtos e produção”.

Os métodos imersivos em 3D podem ajudar a melhorar a produtividade do desenvolvimento de produtos, como eliminar a necessidade de prototipagem física, o que resultaria em tempos mais rápidos de lançamento no mercado e custos de desenvolvimento reduzidos. As ferramentas de visualização habilitadas para 3D permitiriam aos membros da equipe de desenvolvimento criar, revisar e testar novos produtos em mundos virtuais, além de garantir que os consumidores entendessem e tivessem informações precisas sobre os recursos do produto para ajudá-los a tomar melhores decisões de compra e uso. “A capacidade de colaborar mais facilmente com colegas, parceiros e até mesmo consumidores abre caminho para repensar o design e a inovação do produto.”

Manufatura e engenharia: tecnologias AR/VR, simulações de gêmeos digitais e serviços habilitados para IA “permitem que as organizações representem virtualmente as funções de negócios existentes (como uma linha de produção) e sobreponham novos recursos aos processos físicos”. De acordo com o relatório, as operações habilitadas para metaverso podem ajudar a criar valor comercial de três maneiras principais:Projetar, testar e atualizar ativos do mundo real como fábricas e centros de distribuição usando gêmeos digitais, ou seja, modelos virtuais que refletem suas contrapartes no mundo físico;
Use a visão computacional habilitada para AR/MR e IA para melhorar a velocidade, a precisão e a eficiência geral dos muitos processos de várias etapas nos centros de distribuição; e
Manter instalações funcionando monitorando as operações de fabricação com tecnologias AR/MR e AI para encontrar problemas antes que eles ocorram e corrigi-los rapidamente quando surgirem.

Design de loja e espaço: planejamento, criação e construção de lojas, vitrines de merchandising e outros espaços físicos consomem tempo e recursos consideráveis. “No metaverso, as empresas têm oportunidades de criar, visualizar e atualizar lojas rapidamente, trabalhando entre equipes, locais e iterações.”

Por exemplo, a criação de showrooms de uma loja pode se beneficiar muito com o uso de processos de design 3D/espacial, análises virtuais imersivas e a capacidade de explorar novas ideias rapidamente. “Ferramentas de visualização 3D e espaços virtuais podem ajudar as equipes a interagir rapidamente, permanecendo dentro dos limites do que é possível em um edifício ou espaço existente.”

Treinamento, serviço e suporte: o metaverso pode ajudar a reduzir os prazos de treinamento dos funcionários para oferecer melhores experiências aos clientes. “O treinamento prático imersivo ajuda os usuários a absorver rapidamente informações difíceis de aprender e obter uma base de conhecimento e habilidades, aumentando a retenção de conhecimento e elevando habilidades e capacidades.”

“A capacidade de estar imerso em uma história centrada no ser humano que parece real ajuda as pessoas a entender e se preparar para situações mais complexas, onde os valores da marca, cultura e empatia desempenham um papel importante em lidar com eles com sucesso.”

Experiência aprimorada do cliente: ambientes aumentados e virtuais têm o potencial de redefinir como os consumidores navegam, compram e recebem bens e serviços. Ambientes virtuais imersivos possibilitam o envolvimento com os consumidores de maneiras impossíveis no mundo físico. “Experiências aumentadas são projetadas para oferecer um ponto de acesso natural e mais fácil para uma ampla gama de clientes, proporcionando um envolvimento mais rico e mais formas de conversão.”

O relatório conclui com cinco recomendações principais para executivos que desejam começar a experimentar o metaverso:Identifique os benefícios que você pode oferecer hoje – “Tenha um propósito sobre onde deseja concentrar o esforço”;
Reúna os mundos 2D e 3D – “Considere onde o conteúdo 2D e 3D pode coexistir alegremente, como gêmeos digitais, treinamento associado ou suporte ao cliente”;
Crie pontos de transição – “Identifique quando e onde a transição potencial dos mundos 2D para 3D pode acontecer em sua experiência de consumo e operações internas”;
Seja cuidadoso antes de fazer algo, e aproveite a chance. “Aproveite seus recursos analíticos e de inteligência existentes para selecionar os projetos de experimentação certos para que você possa testar, aprender e dimensionar de maneira rápida e ágil”; e
Escolha parceiros que possam escalar – “Trabalhe com seu ecossistema de parceiros existente para identificar objetivos compartilhados e recursos complementares”.

25/07/2023

Mudanças na economia global

“Dizer que os últimos anos foram economicamente turbulentos seria uma descrição branda para tudo o que realmente aconteceueu”, escreveu o economista e empresário Mohamed El-Erian em “Not Just Another Recession: Why the Global Economy May Never Be the Same”, artigo publicado na revista Foreign Affairs. El-Erian é um dos pensadores econômicos mais influentes do mundo — é presidente do Queens College na Universidade de Cambridge, principal consultor econômico da Allianz e ex-CEO da PIMCO.

“A inflação atingiu seu nível mais alto em décadas, e uma combinação de tensões geopolíticas, interrupções na cadeia de suprimentos e aumento das taxas de juros ameaça mergulhar a economia global em recessão… Economistas e analistas financeiros trataram esses eventos como consequências do ciclo de transformações na economia. Mas, na realidade, em vez de ser só mais uma volta do ciclo econômico, o mundo pode estar passando por grandes mudanças estruturais que durarão mais do que o esperado”.

Como evidência dessas mudanças, o artigo cita uma série de fatos econômicos e financeiros ocorridos nos últimos anos. Isso inclui o fortalecimento das autocracias em todo o mundo, a polarização política em várias democracias liberais, a crescente mudança dos EUA do livre comércio para o protecionismo e as crescentes tensões entre a China e os EUA.

De acordo com El-Erian, três grandes mudanças estruturais ajudam a explicar esses movimentos que provavelmente gerarão ainda mais incertezas e tensões nos próximos anos: (i) A mudança de demanda insuficiente para oferta insuficiente. Uma série de mudanças importantes – como menor força de trabalho, sanções comerciais à Rússia e agravamento das tensões com a China – estão abalando as cadeias de suprimentos globais; (ii) O fim da liquidez ilimitada dos bancos centrais. As intervenções dos bancos centrais para estimular a atividade econômica e manter as taxas de juros artificialmente baixas, deveriam ser limitadas no decorrer do tempo; isso não ocorreu e agora causam sérios danos colaterais e volatilidade no mercado financeiro; e (iii) A crescente fragilidade dos mercados financeiros. A expectativa de dinheiro fácil estimula indivíduos e profissionais a se envolverem em atividades financeiras mais arriscadas e em investimentos menos compreendidos e menos regulamentados.

Algumas semanas após a publicação do artigo, El-Erian foi o convidado do jornalista do NY Times Ezra Klein em seu podcastTrês sinais de que entramos em uma nova era econômica”, onde discutiram as três mudanças estruturais sobre as quais El-Erian escreveu em seu artigo.

Klein apresentou o podcast observando que “Nos últimos anos, os mercados foram afetados por choques significativos. … Mas El-Erian acredita que também estamos testemunhando uma mudança estrutural mais profunda na própria natureza da economia global. Os formuladores de políticas econômicas estão tentando trazer a economia de volta à de 2019, mas, ainda não há sinais desta recuperação.”
O abalo das cadeias de suprimentos globais

Por que você diz que a primeira grande mudança com a qual estamos lidando é a mudança da crença de que o grande problema da economia global era demanda insuficiente para agora acreditar que é a oferta insuficiente?, perguntou Klein.

“Em primeiro lugar, o mercado de trabalho está mudando”, respondeu El-Erian. Parte da população têm deixado a força de trabalho, tornando mais difícil ainda para as empresas, encontrar trabalhadores. Isso tem a ver não apenas com o impacto contínuo da pandemia, mas também “com a mudança de preferências sobre o equilíbrio entre vida e trabalho e com a falta de incentivo e apoio para que certos segmentos da população se envolvam na força de trabalho”. Além disso, um problema crescente e difícil de administrar é a questão das habilidades dos desempregados versus os empregos que as empresas desejam contratar, relacionado à evolução de uma economia baseada na produção de bens físicos para uma economia baseada em tecnologia e indústrias de serviços.

Klein observou que a fragilidade da cadeia de suprimentos foi exposta na pandemia, então estamos agora, tentando criar mais cadeias de suprimentos ou pelo menos tê-las mais perto de casa.

“Quais são as mudanças duradouras? O que voltou e o que você acha que simplesmente não voltará?” Perguntou Klein.

A maioria dos efeitos da pandemia voltou, respondeu El-Erian. Quando a economia parou, os custos de frete e contêineres dispararam, mas agora caíram e estão voltando ao normal.

“Mas há duas forças em jogo. Uma delas é a fragmentação geopolítica, que tem a ver com as tensões entre China/EUA, que estão basicamente dizendo que, por razões de segurança nacional, vamos aumentar a resiliência de nossas cadeias de suprimentos”.

A segunda força, é o que as empresas estão fazendo. “Por muito tempo o just-in-time governou as cadeias de suprimentos, e por um bom motivo: estocar é muito caro. Se você consegue administrar cadeias de suprimentos muito eficientes, você pode ganhar muito dinheiro. Mas esse foco na eficiência custou a resiliência.”

As consequências negativas de um foco excessivo na eficiência foram bem explicadas pelo professor Roger Martin, da Universidade de Toronto, em “The High Price of Efficiency”, um artigo publicado em janeiro de 2019 na Harvard Business Review. A crença de que a eficiência é fundamental para a vantagem competitiva transformou a gestão em uma ciência, cujo objetivo é a eliminação do desperdício, seja de tempo, materiais ou capital. Mas um foco excessivo na eficiência pode produzir efeitos negativos surpreendentes. Para contrabalançar esses potenciais efeitos negativos, as empresas devem prestar a mesma atenção a uma fonte menos apreciada de vantagem competitiva: a resiliência, “que é a capacidade de se recuperar de dificuldades – de voltar à forma após um choque”, comentário feito um ano antes do advento do Covid19.
O fim da liquidez ilimitada

A segunda grande mudança estrutural está determinando o fim da era de dinheiro fácil e ilimitado dos bancos centrais.

Os bancos centrais desempenharam um papel absolutamente crítico em evitar uma depressão, após a crise financeira global de 2007-2008, disse El-Erian. Em 2010, os bancos centrais haviam reparado os mercados com problemas e deviam começar a recuar em suas linhas de liquidez e empréstimos. Mas, em vez disso, continuaram a injetar liquidez na economia por meio de uma série de flexibilizações quantitativas (QE), mantendo taxas de juros muito baixas. Isso encorajou muitos a assumir ainda mais alavancagem e dívidas.

“E quanto mais persistia, mais coisas aconteciam. Primeiro, condicionou-se os mercados a pensar nos bancos centrais como seu melhor amigo para sempre. E sempre que houvesse qualquer turbulência nos mercados, eles entrariam disponíveis para ajudar.”

Segundo, “começamos a ver uma má alocação de recursos e todos os tipos de consequências e danos colaterais. Isso nos levou a todo esse cenário durante a pandemia, quando governos e bancos centrais intervieram, mas continuaram fornecendo suporte à alta liquidez. Combine isso com problemas de abastecimento – e você acabará com uma alta da inflação.”

“E no instante em que se tem inflação alta, não se pode mais continuar com a mesma política monetária. É preciso mudar. E é aí que estamos. Estamos mudando a política econômica. Mas estamos fazendo isso com um sistema financeiro condicionado a um regime, que se pensou que duraria para sempre.”
A crescente fragilidade dos mercados financeiros

A discussão então voltou-se para a terceira grande mudança: estamos entrando em uma era de mercados financeiros cada vez mais frágeis.

Klein observou que os mercados financeiros passaram por grande turbulências, apenas ha 15 anos atrás, durante a crise financeira global, bem como, recentemente, durante a pandemia. Durante este período, os bancos continuaram a financiar e arrolar dividas, mas passaram a mostrar fragilidade; quase em crise.

“Então me diga de que tipo de fragilidade você está falando aqui. O que há de diferente nesta era de ameaça de crise financeira iminente?”

El-Erian explicou que a crise financeira global foi, em última análise, sobre os sistemas bancários, pagamentos e liquidação de dívidas.

“Nós entendemos o problema. Aplicamos e injetamos capital. Limitamos as atividades dos bancos. E basicamente reduzimos e neutralizamos o risco do sistema bancário.”

Mas o risco não desapareceu. Ele migrou de bancos para não bancos, — passou para sistemas de pensão, fundos imobiliários, cripto ativos. “E esses, que são menos compreendidos, menos regulamentados e menos supervisionados. … passaram de pequenos focos de fogo, e se tornam grandes incendios.”

Klein disse: “Eu me pergunto se os cripto ativos não são quase que um herói anônimo, porque trouxeram muito desse comportamento financeiro de risco e de alta recompensa, empurrando tudo de forma caótica, de qualquer maneira – para esse mercado estranhamente autocontido”.

El-Erian concordou que seria bom se o comportamento financeiro de risco fosse contido, porque foi canalizado para os cripto ativos. “Mas e se os riscos, quase que irresponsáveis que vemos nas criptos também estivesse ocorrendo em outros lugares – encorajados por baixas taxas de juros, haveria uma melhor percepção de que os mercados só sobem os juros porque os bancos centrais fazem pressão, e que um cripto ativo simplesmente passou a ser estruturalmente a parte mais frágil desses casos.”

Por fim, El-Erian discutiu como os formuladores de políticas devem responder a essas grandes mudanças na economia.

“O que repito para as pessoas é que não vivemos mais em um mundo ordenado. Estamos vivemos em um mundo onde existem muitos resultados potenciais, nenhum domina em termos absolutos e, portanto, temos que fazer três coisas: (I) ter a mente aberta e planejar vários resultados possíveis e não ficar refém de apenas um; (II) ter planos de ação para diferentes resultados, então não somos pegos de surpresa; e (III) reconhecer que a diversidade cognitiva é absolutamente crítica (conhecimento é tudo) se você vai navegar neste mundo, … tem que saber atuar na diversidade de gênero, educação, cultura e de experiências muito mais sérias.”

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